Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta ao Tempo que Cabe nos Quintais

Cuiabá, na quietude que sucede o sol…
Bambina mia,

A sua carta atravessou as distâncias e me fez, também, olhar para o avesso do espelho. Enquanto a primavera em seu lugar estica o dia e te obriga a ver a luz que você prefere esquivada, por aqui o calor da terra exige uma calmaria quase mística. Sorri ao ler sobre o seu Capitão Kirk — confesso que fui uma das que não acompanhou a série. Havia outras urgências — e o seu caderno vermelho. Toda menina que espia o horizonte inventa uma bússola de mentira para navegar em mundos de verdade.

Você mencionou Kairós, o tempo que não se mede pelas batidas duras e exatas do carrilhão da sala do nonno, mas pela intensidade com que as coisas nos afetam. Esse “bichano” de engrenagens de que você fala também habita o lado de cá do mapa. Mas se o seu Kairós se resolveu nas manhãs de sábado somando vogais e consoantes, o meu sempre foi um tempo analógico, costurado com o algodão que a minha bá passava entre os dedos e com o barulho da água fervendo antes do primeiro café.

Acho bonita a sua confissão de que modifica as memórias ao escrevê-las. Borges decerto aplaudiria esse seu rito; afinal, no banco de praça de “O Outro”, o velho e o jovem não compartilham a mesma exatidão dos fatos, mas sim a mesma névoa. Já se sentiu assim em alguns momentos? A verdade da literatura, assim como o pão da sua nonna, precisa desse tempo de descanso e fermentação para ganhar sabor. Inventar o que fomos é a única maneira honesta de compreender quem nos tornamos.

Se a sua infância tinha o cheiro dos navios chegando de outros mundos, a minha tinha os trotes dos cavalos no trabalho com o gado. Era quando o chão de terra batida se misturava aos homens que tratavam da lida. Hoje, as nossas meninas se encontram nesse “não-lugar” onde espalhamos palavras para que conheçam nossas histórias. O caderno vermelho da sua juventude e as linhas marcadas no meu tecido de tecedeira são o mesmo instrumento: a nossa tentativa de dar um rumo à agulha imantada do coração. Ora o cetim, ora a corda do laço, ora a linha de bordar. As voltas da agulha costuram momentos aqui, aí, lá…

Confesso que vi o mesmo vídeo a respeito da origem do moleskine. Fiquei pensando em como algumas coisas se entrelaçam para além das fitas de cetim e linhas. E, às vezes, o destino trança essas linhas e elas acabam se encontrando em alguma esquina. A gente sabe que, muitas vezes, não é a origem que faz a história bonita, mas o que acontece dentro da própria história. O que se desenha no caminho, os desvios, as rotas que nos levam aos quintais. Isso me faz lembrar que, não importa a distância e os fusos que vivemos, a gente sempre encontra o caminho de volta para casa.

Bacio,
Mariana Gouveia

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