Das palavras das cartas

Carta às Linhas do Idioma Invisível

Meu caro Borges,

Nesse outubro onde vagamos por seu Outro, deparei-me com minha própria confusão, não fosse apenas por me deixar guiar pelos mapas que recebi, que me indicavam caminhos dentro da poesia ou de uma bússola imaginária. Há um norte que os mapas geográficos insistem em ignorar, mas que o peito reconhece no primeiro sopro de vento da manhã. Será que, se algum dia eu me encontrasse comigo mesma, daria sentido para a solidão dos quintais? Será que eu saberia descrever o pôr do sol e falaria dele de forma poética?

Às vezes, em alguns momentos, parece que começo a esquecer de coisas que vivi para além da rua de cima, e o que fica em mim são as memórias da infância. Alguém me disse que o que resta são os momentos felizes, mas o que é estranho é que me lembro também de episódios difíceis e que me afetaram para sempre. Uma linha contínua de momentos que repasso dentro do seu conto, como se fosse um enredo que outra pessoa viveu, e não eu.

O medo elemental do impossível me fez rir… e as linhas do idioma invisível pareceram a pipa que alguma criança da rua teima em empinar. O barulho me incomoda, e o clep clep da pipa rodopiando me faz pensar que é essa linha que me faz travar esse diálogo com você. Já te escrevi algumas cartas e as reli hoje. Em uma, eu falo sobre meu irmão e um momento delicado. Nem sei se devo esperar compaixão sua. Apenas te contei a história e, dias depois, ele se foi. Em outra, falei sobre as tardes no meu quintal e nem pensei se devia compartilhar esses momentos meus com você, como se fosse apenas a leveza de quem aprendeu a admirar o que você escreve, e não o homem que me foi apresentado. Mas, vá lá! Acho que posso fazer essa concessão.

Se todas as coisas deste mundo são palavras de um idioma misterioso que estamos sempre tentando decifrar, a minha escrita tem sido a tentativa de traduzir o silêncio. Talvez eu gostasse mais do seu outro mais novo. Me soou mais aberto ao rompante de entender aquele tempo. Os dois, no mesmo lugar, em tempos diferentes. Me sinto assim, às vezes, com uma certa bambina minha. Ainda assim, espero que o nosso norte permaneça assim: invisível aos olhos apressados, mas inteiramente nítido para quem sabe ler o avesso do tempo. Vamos aguardar os dias de outubro e, dentro de tudo que você viveu, que a gente possa resgatar o que há de melhor em você: sua escrita.

Abraço,
Mariana Gouveia

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