Das rotinas · Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Tempo Medido em Flores de Ipê

Há cidades que exigem de nós a urgência da calçada, o ruído dos motores e o café tomado em pé, na pressa de um balcão de esquina. Cidades que se desenham em mapas de experimentos urbanos, onde cada ponto de ônibus é um laboratório de gentes e esperas. Também fico no ponto de ônibus observando as pessoas, talvez à cata de personagens para ocupar o tempo enquanto ele não vira a esquina. Sempre encontro uma caçadora de assunto que me faz tirar os fones de ouvido, colocados exatamente para evitar assuntos.

No meu lugar, o tempo tem outro compasso que é medido pelas folhas, sementes e flores do ipê. Depende da estação ou da vontade dele. Percebo que em alguns momentos do dia ele derrama suas sombras sobre o muro, e parece um balé a tentativa desse leve desfolhar. Em outros, ele se transforma em um tapete dourado que me dá medo de pisar e desmanchar esse rito da pétala caindo como se dançasse. Há uma engrenagem diferente dentro do quadrante do meu muro que sabe a hora de florescer ou silenciar.

Aqui, depois que fiquei sem pegar ônibus todos os dias, percebo as pessoas da minha rua. Logo após a casa da direita, há um terreno baldio onde abandonaram uma gata — e passei a alimentá-la — e, enquanto levo água e comida nas vasilhas que preparei para ela, vejo através de janelas olhos curiosos que ficam me vigiando. A mulher da casa da frente e sua filha — que parecem ser a mesma pessoa, de tão parecidas — fingem catar alguma coisa fora do portão à espera de que eu fale qualquer coisa. E daí vêm as perguntas aleatórias, como se fosse um interrogatório.

Por isso, prefiro o quintal portão adentro. A minha geografia já está gravada no peito, no cheiro do alecrim que trago nos dedos e na certeza de que os mapas e as bússolas sempre me levam ao que o universo se propõe. Por aqui, as pétalas — talvez as últimas — do ipê se deitam sob meus pés e se deixam ser leveza apenas. E o verdadeiro experimento continua sendo o de simplesmente pertencer ao silêncio.

Mariana Gouveia

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