Às vezes, dizemos tanto sobre nós e, ainda assim, o essencial permanece submerso. Andei pelo quintal pensando no tempo que levou para nos acolhermos. No primeiro abraço eu já entendi que havia um traço de confiança e respeito. Depois, a gente se reconheceu uma na outra e as conversas no meio das manhãs surgiram como um oásis.
A frase que surgiu aí — esse “quando eu tiver intimidade” dito num sopro — ecoou em mim como um sapato que já não serve mais. O corpo, às vezes, cansa das roupas velhas e das molduras rígidas que nos impõem. Ele pede um novo formato. Um formato que não precise se escancarar para ser visto.
Há quem confunda intimidade com desabamento, como se para tocar o outro fosse preciso demolir todas as paredes. Eu prefiro a arquitetura dos segredos bem guardados. O corpo que pede um novo formato é aquele que aprendeu a dizer “não” às invasões consentidas. É o corpo que escolhe a nudez do silêncio em vez do ruído das confissões desnecessárias.
Vestir-se de mistério não é esconder-se por medo; é proteger o que temos de mais sagrado. Quando as pessoas julgam que a proximidade lhes dá o direito de disparar palavras sem peso, meu corpo recua — sei que com você é igual — e muda de forma, contrai-se, vira bicho que busca a toca. Prefiro a comunhão das entrelinhas, porque tem coisas que não precisam ser ditas e nem compartilhadas. Ultrapassam o senso comum, ou pelo menos o meu senso.
A verdadeira intimidade, talvez, seja a liberdade de permanecermos um mistério um para o outro, sem que isso nos afaste. A ideia de alguém andando nu pelas ruas me arrancou um riso interno no meio do quintal, mas a verdade é que as pessoas fazem isso o tempo todo com as palavras. Desnudam-se de filtros, de delicadeza, achando que o crachá da “intimidade” zera a necessidade do respeitar o que o outro quer e pode ouvir. Saber tudo do outro não nos torna mais próximos; muitas vezes, só nos deixam entediados diante do que é previsível.
A ética do mistério é, no fundo, uma ética de preservação. Em alguns momentos a gente cansa de ser receptor do excesso alheio. Já nos bastam os nossos excessos, esses, guardados em respeito ao outro, porque há histórias que não precisam ser gritadas. Gosto do direito ao inacessível. Que o outro permaneça um território a ser descoberto aos poucos, com o respeito de quem tira os sapatos antes de entrar. Ou de quem espera que a porta se abra para que você seja convidada a entrar.
Mariana Gouveia



















