Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #1 | Casulo: O verão que habita no meu inverno.

Bambina mia,

Suas palavras me pegou olhando para o meu quintal, tentando encontrar o calor que você evocou em suas memórias. Por aqui, o inverno também se faz de dias curtos e secos, mas a luz dourada do sol do meio da manhã insiste em rasgar o cinza e rebentar na parede sem rebocos da casa da vizinha da esquerda.

Enquanto você viajava com Eliane pelos verões da sua infância, eu pensava na das listas de C. e no quanto a vida, às vezes, nos exige esses “checks” para cabermos nas horas. Você sabe que sempre fui muito organizada. Lembrei-me de quando dividia as tarefas com meus seis irmãos na fazenda. Cada um com sua função. Mas a sua mesa ao ar livre, colorida e sem lugares marcados, me fez sorrir. No meu caso, tinha que haver lugares marcados e até rodízios porque cada um queria sentar perto da mãe. Havia uma escala. Um dia para cada um dos sete. Há uma liberdade bonita na infância que a gente tenta guardar no bolso para os dias frios. Depois que ela se foi paramos de sentar à mesa.

Hoje, o Yoshi está mais lento, afinal, a idade pesa. Ele ficou comigo, à espreita, enquanto o vento gemia nas folhas do pé de ipê. Olhando o vazio do inverno, que aqui é puro verão, percebo que o casulo não é uma prisão, mas a permanência silenciosa de tudo o que fomos. O seu desassossego delicioso é o milagre da metamorfose acontecendo por dentro, invisível aos olhos apressados. A borboleta laranja do maracujá – segundo dizem – rompeu seu casulo antes que eu me desse conta. Suspirei vendo-a “sangrar” para secar as asas.

Você foi buscar fôlego no quintal e eu fiquei aqui, desejando que o seu chá guarde o calor daquela mesa de frutas e risadas. Se o inverno aperta o corpo, que a nossa sincronia continue aquecendo a alma. Acho que nos dias de agosto será comigo os diálogos.

Beba o seu chá. Eu sigo daqui, cuidando dos ninhos e esperando o próximo casulo eclodir.


Corri lá para o aniversário de Catarina. Julho tem essa mania de trazer datas especiais aos nossos dias. Que venham muito mais!

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Olhares invisíveis.

Quando olhou não viu nada
o instante é tão rápido e invisível com os olhos famintos de ver apenas o que é visível
Mas, o coração enxergou o vento, a asa, o gesto
coisas que são invisíveis apenas para o olho da alma.
Mariana Gouveia

Bambina mia,

Era quase manhã quando vi a névoa no meu quintal. O vento gemia nas folhas do pé de ipê e de tão acostumada com os pássaros no bebedouro de Chiquinho que nem percebi que as asas que ali batiam, e tentavam pousar no néctar açucarado era de uma farfalla – como você diz. O instante invisível durou apenas um segundo entre o voo, o pouso e outro voo telhado acima.

E foi no telhado que as misturas do ocre das telhas e da madeiras que um pequeno piado me chama a atenção. Logo eu que vasculho as coisas do lugar à espreita de instantes não havia percebido o pequeno ninho quase entre a porta da cozinha e a varanda. O lugar quase imperfeito para o nascimento de aves, mas que a mamãe sabiá laranjeira sabe melhor onde se sente segura. Logo teremos bebês sabiazinhos por aqui.

E por falar em pássaros, as coisas invisíveis acontecem a todo instante quando olho foge do que é natural. O trinca-ferro é um pássaro novo aqui no meu lugar. Já havia visto ele de relance, comendo as sementes do ipê. Mas, arisco, não me deixou fotografar… e eis que o pego “roubando” as jurubebas. O riso veio em seguida ao flash. Agora, já posso dizer que ele é mais um dos que moram aqui.

E de repente, a sensação inquietante de assistir o que é belo quando a poesia faz visitas no meu quintal, o olho não vê o casulo ser quebrado… ele apenas enxerga o instante mágico onde a vida é celebrada com o voo. A metamorfose aconteceu ali, mas o olho invisível conseguiu apenas presenciar depois do acontecido. A rotina silenciosa da manhã e a presença invisível (mas profundamente sentida) do milagre que é viver.

Sabe, bambina, às vezes, o olho tão acostumado ao comum não consegue captar o extraordinário, ou até consegue, mas encontrar o extraordinário não é comum e passa basicamente igual ao que vemos todos os dias. O voo de uma borboleta em busca de vento logo depois de nascer me faz ficar em silêncio. Ela segue seu rumo de casa e eu apenas murmuro um agradecimento ao universo. A iminência do desabrochar já aconteceu invisível aos olhos apressados, esperando o momento exato para se oferecer em luz.

Sempre registrei o cotidiano e também me encanto diariamente com instantes fugazes que acontecem neste quadrante do meu muro. Também escrevo cartas que muitas vezes embolo, não envio ou seguem seu destino em envelopes coloridos. Quando recebi o tema do mês pensei em infinitas possibilidades. O invisível aqui acontece a todo momento. Seja em uma fresta de luz dourada rasgando o cinza, num dia frio, seja na a luz do sol batendo na parede da cozinha, refletindo no chão da varanda ou iluminando a silhueta das plantas do quintal. Ou em uma missiva escrita pelo universo pleno de saberes.

Consegue traduzir o cabeçalho? Talvez fale apenas o que só é visível por dentro do tuo cuore.
Grazie por tanto e tudo!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfcio 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Claudia Leonardi – Lunna Guedes Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes



Scenarium Livros Artesanais

Alguns retratos imaginários na estante

Foi com letra garrafais que desenhei julho em meu calendário. Alguém, um dia me disse que foi quando aprendi a voar.
Primeiro, em passos curtos, depois, como se fosse correr e só depois de escrever em diários abri as asas e voei.
Bem depois, quando eu já era liberdade e mãe, fui chão… criei raiz para minha cria se criar cidadão do mundo e do seu lugar.

Fui cartaz de busca, de procurada, fui voz.

Fui lugares estampados em fotografias de estantes, fui casa e quase fui poema de amor.

Julho para mim foi july…
Fui ser julho em dias perdidos…
e fui flor de ipê temporã.
Fui escrita, cardápio…
Fui julho em um nome e sem nome…
Fui apenas um mês.

Se bem que depois, vieram das datasse tornando significância maior e fui muitos dias dentro de julho.
Fui 1º, porque assim era quando eu nasci e nesse dia fui fada. Depois, fui 13, perdida no luto de um filho que não viveu.

Mas para não ser tão vaga nos dias, o universo me fez múltipla no dia 22.

Só daí eu fui muitas e continuo sendo além.

Mariana Gouveia
Agenda 2023 – Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Anéis de Saturno e armaduras escuras

Desde menina eu ouço a Rita. Com suas músicas, ela fez a trilha sonora de tantos momentos importantes que vivi. Através de um velho Motor Rádio, entre o meio-dia e as dezesseis horas, eu acompanhava a programação da Rádio Globo lá pelo final dos anos setenta; ouvia-a fora da zona da música sertaneja de raiz que toda a minha família gostava.

Rita me colocava em um lugar de mundo fora daquela pequena fazenda. O rock vibrava no rádio — prêmio por eu ter sido boa o suficiente nas notas da escola. Eu era a diferente no meio de minhas irmãs: a que se rebelava, a que não aceitava as imposições de uma família conservadora. Cortava os cabelos curtíssimos e grande parte dos meus irmãos me comparava a um menino. Vestia macacão, andava pelo mato e, segundo toda gente, parecia com a Elis Regina — outra diva.

Mais tarde, já na maioridade, pude pintar o cabelo de vermelho, o que durante muito tempo foi minha marca registrada. Na chegada à cidade grande, já trabalhando em uma emissora de rádio, pude explorar na discoteca física da empresa todas as canções dela, já que o rádio antigo só me permitia sintonizar algumas.

Passei a amar ainda mais a artista. Suas letras questionadoras e seu jeito camaleônico me fascinavam. Eu também não fui amiga íntima dela, mas me permiti alguns diálogos desaforados em pensamento, ou me emocionei com as entrevistas que via na TV. Com certeza, ela roubaria os anéis de Saturno e faria uma tremenda bagunça onde quer que estivesse. Seria sempre ela: a Rita.

As canções dela ainda fazem parte de minha trilha sonora por aqui e, quando o meu pensamento combina com o seu, só consigo pensar nesta música aqui.

Junho chegou ao fim… amanhã inicia-se um novo ciclo. Grazie por essa caminhada deliciosa nos dias de junho. Amo tu imenso!

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

O sol ergue-se contra mim.

Bambina mia,

Desde pequena sou eu quem arrumo as camas. Imagine uma manhã em alvoroço no meio de seis irmãos. As tarefas eram divididas entre nós: enquanto sobrava para mim esticar os lençóis e colocar por cima deles as colchas de retalhos, para as minhas irmãs restavam os outros afazeres.

Sempre fui mui organizada. Logo ao me levantar, ajeito os lençóis e a colcha que vem por cima, e aqui também tenho a mesma alegria sua. O Yoshi se enfia embaixo do tecido e fica à espera do carinho. Quando eu tinha a Lolla, era igual, até o dia em que ela não conseguiu mais subir na cama.

De uns tempos para cá, o Yoshi se assusta ao ouvir o mover do móvel para o encaixe da colcha e corre para a porta da cozinha. Assim que a coloco no lugar e digo: “pronto!”, ele vem numa alegria que preenche o quarto com seu pulo na cama. Ali, ele fica à espreita de onde estou nos afazeres da casa, até perceber que terminei tudo e vou para a varanda. Aí, é o quintal que ganha seus pulos e farejar.

E C. tinha razão. Arrumar a cama é nos encaixar dentro do dia, caber nas horas e nos carinhos de nossos cães.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Em busca da manhã que se foi embora.

A manhã se foi faz tempo e, agora, uma tarde barulhenta acontece aqui fora. Trago comigo seu livro Vermelho por Dentro. Senti vontade de folhear e revisitar essa trama mais uma vez; quase a sei de cor, de tanto que a li.

Coloquei a canção para tocar e vivenciar esse momento é como ser levada pelas mãos para dentro das páginas e da cor. É como se Paris estivesse bem ali na esquina. Vou seguindo as personagens com a deliciosa sensação de um voyeur.

Gosto muito da trajetória de Eva e Deborah. Admiro a intensidade de Deborah, mas confesso que sou apaixonada por Anne. Talvez a paixão compartilhada pela fotografia tenha nos unido. Novamente me vi envolvida pelo enredo, com o frescor de quem lê tudo pela primeira vez.

[…]

Ele espera pelo último minuto e, com sua voz de menino-homem,
sussurra em seu ouvido:
— Passa o resto da sua vida comigo?
E nada mais teve importância.
A tarde caiu e o sol adormeceu no poente.

[…]

Depois disso, não é a manhã que eu busco, mas sim a permanência dessa sensação de déjà vu.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Um bando de demônios maliciosos.

Não assisti a esse filme, mas meu coração se enterneceu quando você citou o cãozinho. Lembrei-me de tantas histórias onde um animal salva a vida de alguém. Também sei de casos em que as pessoas adotam animais e os abandonam logo depois, seja porque dão problemas ou por qualquer outro motivo.

Lembrei-me do homem da reciclagem que passava na minha rua catando garrafas PET e latinhas de cerveja. Logo que mudei-me para este bairro, eu o conheci; todos diziam que ele era ranzinza e mal-humorado. Meus cachorros sempre anunciavam quando ouviam o chiado das rodas da carroça que ele empurrava. Nosso primeiro encontro não foi bom. Ele não respondeu ao meu boa-noite e saiu resmungando alguma coisa que não entendi.

Dias depois, vi-o novamente e ofereci algumas latas que eu guardava para reciclagem. Ele esperou que eu as pegasse, fez um muxoxo e seguiu rua afora. Mas, um dia, ele apareceu na minha porta com um pequeno cão enrolado em uma coberta maltrapilha e pediu socorro. Ficou sabendo que eu apoiava um projeto de animais abandonados. O cão havia sido atropelado e ninguém ajudava. Alguém falou de mim e ele veio buscar auxílio. Acionei a equipe das meninas e o cão foi internado. Durante alguns dias ele aparecia para saber do animal, que se recuperava e ficou bom em pouco tempo.

Informei-o de que o cão precisava ser adotado e ele disse que o queria. Fizemos todos os procedimentos e o cãozinho ganhou um lar. Acompanhei de perto o crescimento do Pirata — nome dado pelo seu dono — e era lindo ver a transformação daquele homem rude em um senhor risonho, que agora passava pelas ruas cantando. O amor pelo animal mudou a maneira de ele enxergar o mundo. O cão tornou-se seu fiel companheiro e o seguia em suas rondas pelas ruas do bairro, em busca de materiais recicláveis.

Nos falamos esses dias sobre sua mudança e ele apenas riu. Tirou o chapéu e curvou-se, seguindo seu rumo com seu cão por vezes na sua frente, por vezes, atrás… e ele entoando sua costumeira cantoria rua afora. De certa forma, o mundo dele se tornou o melhor possível diante do animal que ele salvara, fazendo-me sempre perguntar quem salvou quem.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Meu pensamento, ao acaso, vagando.

Minha mãe dizia que há algumas pessoas destinadas a nós. E que o universo sabe-as bem. Então, ele embaralha suas cartas, move as pedras e daí cruza as esquinas e faz com que as histórias se misturem. Dizem até que a probabilidade de duas pessoas se encontrarem e terem algo em comum é uma em duzentos mil... Conhecer alguém é uma em dois  milhões. Ficar próximo dessa pessoa, uma em vinte milhões… Chamá-la de amiga, uma em duzentos milhões

Chamá-la de sua, uma em dois bilhões e por último, encontrar sua alma gêmea é uma em seis bilhões…Nós duas quebramos algumas das probabilidades. Quebramos algumas barreiras e interligamos nossos quintais e lugares. A simbiose de uma ouvir uma música e a outra ouvir a mesma canção em outro ponto do mapa chama-se de sincronia.

Quando eu te encontrei através de uma missiva, vários fatos nos uniram e quando nos unimos num abraço os corpos souberam a magia de ter uma pessoa favorita sua num universo pleno de pessoas aleatórias. Rimos por bobagens e de coisas sérias, choramos em vídeos bobos e memórias trocadas, ficamos embriagadas pelo simples fato de um vagalume bater as asas aqui e muitas vezes, sem nem nos falarmos sabemos uma da outra. O silêncio muitas vezes, fala por nós. E nossos pássaros voam em desvios nos nossos quintais.

Eu a chamo de bambina mia, porque assim você o é. Você me chama de caríssima e isso soa tão caro em mim. É a minha lua em todas as fases e meu cuore batendo em outro corpo de uma maneira que só ternura e afeto podem descrever. E junto com as sementes e os pássaros do meu lugar. Você é meu passarim que vive na palma do meu coração.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

A beleza do corpo é um dom sublime.

Ph: Tumblr

Em alguns momentos,
quando o corpo tem planos,
a mente desenha os instantes automaticamente.
A pele apenas obedece aos instintos.
O detalhe é tão somente o desejo.
As linhas do corpo, traçadas na leveza das mãos,
quase como quem pede o toque.
Suspira.
Sussurra.

O eco da brisa lá fora
faz o silêncio se expandir em farfalhar de mãos e gestos.
O sabor que sacia o querer.
O corpo nu, a carícia,
e a pele que se mistura às delicadezas do sentir.
É como invadir lugares secretos,
nunca antes explorados.
A rota feita nas memórias dos dedos,
onde o prazer arde e suaviza os anseios.

As mãos sendo as guias
entre o cheiro e o tato.
Os olhos buscando lembranças das cerejeiras
que um dia banharam seu corpo de flor,
fazendo dele um itinerário de jardim.
A beleza das coisas,
os pormenores no gesto,
e a vontade se faz.

Os desejos nas pontas dos dedos
evocando o gesto puro do prazer…

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dissolve a inquietação no azul.

Fiquei pensando no título que você me enviou e percebi que de azul mesmo por aqui, hoje, só teve mesmo o azul do vaso de hortênsias. Lembrei-me de você e da carta que escrevi para Baudelaire – desafio feito por você.

Foi em um abril qualquer no qual falei sobre como o poeta foi proibido para mim por algum tempo pela minha mãe que sempre o ligava ao mal.

O que passou depois que expliquei a tal “maldade” que ela recusava a saber-falar-pensar como se isso fosse trespassável pelas agruras que nos atingiam. Ela entendeu que nada do que falávamos tinha o poder de agir sobre nossas vidas, a menos que a gente deixasse, e pude então ler o poeta sem culpa.

Pensar que ele levou 27 anos para finalizar sua obra mais conhecida e respondendo sua pergunta: acho que não. Acho que os autores atuais são do tempo da urgência, do agora, dos likes, dos acessos. Achei incrível a disciplina dele em esperar esse tempo todo para ver o livro pronto. Na carta, eu o convidava para um café e contei a ele sobre amores, partidas e saudades. Talvez, hoje, eu mudaria a temática das linhas.

Aqui chove mansamente, o frio aumenta à medida que a noite avança. Confesso que já penso em cobertor e aconchego, mas antes, vou ali fazer uma sopa de carne com batatas. Aceita?

Mariana Gouveia