Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sou eu — esta mulher que anda comigo

Bambina mia,

o dia de hoje antecede o dia frio que se aproxima. Aqui, já não predomina o céu azul e as nuvens de chuva – disse a moça do tempo – cobrem o céu todo. Já é possível sentir o vento mais frio do que o normal. É o inverno vindo contar suas histórias e me fazer reclusa mais uma vez. O alerta se repete há dias a mesma frase: alerta de frio intenso. Abaixamento de temperatura… só isso já me assusta. Sou da cidade do sol, você sabe.

O outono me enganou lá em fevereiro… o meu quintal tem inventado estações sobre outras. O ipê desfolhou-se inteirinho em fevereiro e o cheiro das folhas secas pela manhã me carrega para dentro de sua estação favorita. Culpada! E onde foram parar os dias de outono mesmo? Se perderam no calendário da folhinha da cozinha.

Não te falei que as estações se fazem aqui? As flores da lanterna chinesa se abriram e vários botões estão a nascer. A flor é ensolarada. Me encanta a maneira que as cores se misturam e se oferecem em luzes aos olhos de quem passa por aqui. E a palavra flor nos embala sempre nas manhãs, bambina.

Mas agora chove… uma chuva sem muito alarde, apenas acompanhada de um vento frio, assim como a moça do tempo falou. Uma ternura imensa me abraça enquanto leio sua missiva. Há dias em que o clima lá fora nos obriga a abrir os baús de dentro. É onde um respiro de afeto para aquecer os dias pulsa no cuore… Ontem mesmo me dediquei um tempo ao baú, onde guardo os envelopes coloridos e me perdi nas datas e estações que atravessamos. Pelo calendário dos homens, como você costuma falar, já são tantos anos. Pelo nosso calendário, a poesia se desmancha em dias, risos, afetos, meu passado e seu futuro e não ouso ultrapassar isso.

Amo tu imenso!
Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Lua de Papel · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Aflição de ser eu — e não ser outra…

Quando li Lua de Papel me encantei pela Alexandra. Talvez seja porque a reconheci em outra pessoa não tão simples como ela, nem nascida em Teodoro ou algo similar, mas com outro nome e outro sotaque que não o do interior. Porém, com as mesmas inseguranças e medos.

A conheci em um século passado, em um site de fotografia. Me encantei com as nuances arquitetônicas dela e ela se encantou pela natureza peculiar em minhas fotos. Depois foram as leituras que nos fez aproximarmos. Ela amava Pessoas e suas tantas pessoas e eu Cesariny e assim, a rua de cima se transformou em além mar. O oceano era logo ali. Com outro nome que não Alexandra, se desenhou em palavras que nunca seria porque temia o que o outro fosse pensar.

Dizia-se dona de seu destino, mas atrevia a ceder a decisão para a mãe e irmãs. Quando atravessou o oceano, quase a contragosto dos seus se apaixonou pelo meu lugar, mas estranhou a riqueza do simples. Era tudo tão exótico e natural. Saiu a fotografar meu mundo e se espantou com os dias felizes. Queria ditar regras, normas que ela mesma não seguia… se perdeu em um coração cheio de cicatrizes e exigiu um lugar que acabou perdendo. Queria café e sol. Chuva e o frio que nunca havia existido aqui.

Quando lia Alexandra me espantei com as escolhas que eu já sabia quais seriam antes mesmo de terminar o livro e já sabia que o final seria o mesmo que a insegurança a fazia normal, diferentemente das certezas que declamava de própria boca. Cobrou um amor que nunca deu, mesmo o achando o mais bonito do mundo e a culpa de nunca se encontrar foi colocada em mim, como uma vestimenta que incomoda e machuca.

Assim como surgiu, desapareceu, igual a uma personagem de livro que some quando fechamos o livro. Ficaram só as fotografias de um tempo que parece que nem aconteceu. Parece história de livro, contada depois apenas como memória e que só de vez em quando é lembrada quando limpamos a estante onde os livros dormem.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Em tudo… a cor e a vontade de ver além das distâncias…

Quando li seu texto as cenas de sua cozinha movimentaram minha mente e mais uma vez misturei minha história na sua. Minha bá deixava o caldeirão preto na trempe do fogão de lenha e ia pescar, catar ervas, colher folhas e frutos. Minha mãe ia para a horta buscar os legumes, temperos e na despensa pegava alguns dos defumados que ela mesma fazia, enquanto as panelas iam aquecendo. Já meu pai ia para além da porteira e voltava com os tubérculos… batatas, mandiocas, abóboras e cinco espigas de milho. Enquanto isso, alguém fazia o queijo ou o doce. Os tachos de cobre ferviam no fogão do barracão e nós lavávamos o que ia ficando sujo. Ouvia-se os risos das mulheres por causa da piada de algum engraçadinho e os aromas antecipavam os sabores.

Eu estive algumas vezes na sua cozinha e pude caminhar em sua rotina dos preparos e da leveza que isso acontecia na casa. Era o desenho, dentro de cômodos pequenos de uma dimensão do que se viveu. Aconteci com você na sua feira e pude comparar as escolhas de ingredientes… claro que é diferente das colheitas de minha mãe, mas é um esbarra de esquinas onde em tempos diferentes se escolhe algo com amor. Mas, também, seu texto me levou para a herança de quem ficaria com esses rituais, como se cada família vivesse esse tempo, esse rito.

Eu escolhi ser mãe e fui… de três. Mas, somente um sobreviveu e confesso que não terá essa herança de temperos, comidas feitas porque ele resolveu voar pelo mundo logo que cresceu e com exceção da farofa de cenoura feita por mim e do “arroz sujo” feito pelo pai a sua história com alimentação foi nesses voos feitos mundo afora. Aprendeu a comer coisas que nem imaginaria se estivesse aqui e a criar pratos que, seríamos nós que teríamos essa herança dele.

Mas você já deixou rastro aqui, mesmo sem ter conhecido de perto o moço fantasma daqui ele busca algo que te lembra sempre por sua nacionalidade. Seja na almôndega feita do modo dele, do hino do tuo país que toca em alguma cerimônia oficial, do voo do tucano – que você ia gostar – da faixa com um poema que alguém pregou na rua de cima em dedicação ao amor… A sua presença aqui cabe nos risos que trocamos, na gargalhada que ele ouve quando falamos por mensagens e até nos trovões que lembra você… Então, bambina, independentemente de onde seja ou que venha a semente que você plantou em mim gerou frutos para além de minha ternura e afetos. Por pura e simplesmente escolha de gostar de você.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Cresci, elegi palavras – qualifiquei afetos.

Gosto quando nossas palavras se esbarram umas nas outras e decifram códigos entre os afetos de nossos quintais. Saio mais cedo para o passeio com o cão, antes do seu acordar. Depois, as palavras nos alcançam em diálogos aleatórios, juntamente com os castanhos das folhas que encontramos em nossas andanças.

É engraçado a minha palavra casar com a sua no pássaro que mia, no gato andarilho da rua que vem pedir comida ao meio dia e de como suas suculentas adoram a água ignorando todos os contrários. Da gata daí que rouba instantes no escadote que tuo menino fez… é esse instante que me calo e quando eu coloco as palavras cantadas para se fazerem vozes na canção que você escolheu. Seria isso um desvio para atravessar canções?

Quando a farfalla se metamorfoseia aí, a borboleta daqui alaranja para enumerar travessias nesses dias de junho. E quando o céu se fez voz em um trovão, mesmo tendo saltado os dias de maio, a tempestade também coube nas palavras dos deuses da natureza. Foi bem ali, no quadrante do meu lugar que gritei seu nome e gravei o instante enquanto você espiava o manacá com suas nuances de cores.

Alguém já te disse que as palavras atravessam espaços e ganham contornos de poesia? Do passeio com o cão ao som da tábua nos cortes de legumes. Da canção no repeat ao comentários bobos dos memes… a palavra nos atinge assim como as sementes que plantamos. Do espanto da germinação ao fato de uma planta que não resistiu. Assim somos esse linguajar em diferentes idiomas, mas que se entendem dentro do mesmo afeto.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Distantes os hemisférios e as relíquias da memória.

Quando você fala sobre um dia frio, lembro-me da música do Djavan que seria um bom lugar para ler um livro em um dia frio – não necessariamente nessa ordem, claro! – e o pensamento lá em você depois da receita do caldo que você falou.

Fiquei a imaginar quais seriam as minhas comidas de frio, o que é raro morando em Cuiabá – se bem que já está quase se tornando comum os 16º que acontece agora, com uma garoa insistente – eu sempre penso em sopa, que talvez, seja diferente da sua. A minha sopa é a moda goiana… frango ou carne, depende do que se tem no dia, batata, cenoura, pimentão, berinjela, – eu nunca mais consegui perceber o sabor de berinjela da sopa que a minha mãe fazia – cebola, alho, e as especiarias como pimenta do reino, orégano, cominho – que eu não abro mão – e o macarrão tubinho.

Algumas vezes, ela fazia com espaguete, porque era o que tinha. Colocava-se para ferver e aos poucos o sabor ganhava a casa inteira… o cheiro da cebola, dos legumes e a gente ao redor da mesa aguardando o prato fundo cheio daquela iguaria. Eu tinha 12 anos quando comi pela última vez a sopa da minha mãe e depois, eu mesmo tive que fazer para os irmãos. Nos anos seguintes a doença da minha mãe não permitiu que ela ficasse com a gente por muito tempo e aquela sopa cheio de sabores e intensidade que unia nossa família aos poucos foi diminuindo na panela. era um ou dois dos irmãos nos dias frios e os outros ganharam o mundo e as irmãs mais velhas foram cuidar da sopa da própria família.

Aqui em casa sou só eu e meu marido, mas mesmo assim com todos os ingredientes eu não consigo resgatar aquele sabor do qual sinto tanta falta, assim como do paletó de flanela, porque acho que falta o principal: a atenção da minha mãe ao redor do fogão nos contando sobre a vida. Quanto à sua pergunta, confesso que não sei a resposta. O que sei é que temos de viver os dias como se fosse o último, porque não sabemos de como será o amanhã.

Mariana Gouveia

Afetos · infinitamente · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Não há silêncio bastante para o meu silêncio

Cresci no meio de seis irmãos e eles já faziam barulho o suficiente para dez irmãos e então, eu ficava apenas no murmúrio de alguma palavra ou outra, quando perguntada. Para minha mãe e a maioria das pessoas eu era apenas a menina tímida, o que mudava quando eu pegava uma escova e com seu cabo imitava um microfone e um programa de rádio.

Debaixo do pé de sete copas eu criava minha emissora, minha programação musical e até as mensagens dos ouvintes, que em muitos casos, usava de cobaias meus irmãos mais novos. Muitas vezes, a programação mudava e eu falava sobre futebol e minha paixão pelo Fluminense ou pela poesia. Tirando isso, meu silêncio nem era observado pelos demais. Só pela árvore que se emoldurava na neblina das manhãs de junho.

Em dias de visitas, meu pai me colocava para ler o que eu escrevia. Fosse para um tio ou vizinho. Alguém de fora que viesse comprar o milho, as hortaliças e o leite. O carteiro já conhecia meus poemas e as cartas e sempre batia palmas depois da leitura e os tios, na minha opinião achava tudo aquilo enfadonho, mas davam os parabéns me chamando de artista.

Eu gostava dos sons do campo, da colina que abrigava uns pássaros minúsculos que trinavam sem parar, para desespero do Manuel, meu irmão mais velho, que reclamava de tudo, inclusive do silêncio quando eu me aquietava. Às vezes, eu conversava sozinha e ele ficava com um olho quase fechando e me olhando com uma irritação aparente de quem estava ali obrigado pelo meu pai ou minha mãe, me protegendo da minha própria traquinagem. O capim no canto da boca… e algumas perguntas de vez em quando, sobre a natureza, sobre folhas, sobre um outro autor do último livro lido. Manoel era meu guardião e aonde quer que eu fosse, ele seguia atrás, em passos lentos, como se eu pudesse fugir a qualquer momento.

Na mesa de jantar, muitas vezes fui referência quando minha mãe dizia: porque não come quieto igual sua irmã? – no caso, eu – e todos riam usando o garfo para imitar meu microfone falso, do tal cabo de escova. Eu gostava do barulho das coisas e achava que por isso, eu apenas falaria quando pudesse reproduzir qualquer coisa com um microfone em mãos. Eles achavam que eu era faladeira demais por isso.

O chiado da água fervendo na chaleira, a crepitação da lenha no fogão, a cantiga da bá, o estalo da pipoca juntamente com a risada dos meninos esfregando as mãos. De tudo isso e muito mais eu me lembraria tempos depois, em noites de saudades daquele tempo em que o maior silêncio que eu sentia era o interno.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Estou só no mundo, como um peão a cair…

15, junho,

Bambina mia,

Quando criança nunca fui dada aos rodopios… ficava tonta atoa. Eu era bem magrinha e meu eixo não comportava a “violência” de um giro, imagine dois ou mais. Até na brincadeira da ciranda eu era barrada depois de umas voltas. Mas lembro-me bem de mãe nos prevenindo sobre os redemoinhos que eram frequentes em nosso lugar. O mais perigoso era o redemoinho de fogo, que surgia após alguém fazer uso de queimada para a roça de tocos.

Isso acontecia mais perto dos ventos de agosto onde o calor e a secura ocupava os campos e a roça… a pressa da colheita movimentava toda gente dos arredores em um mutirão de durava dias e volta e meia alguém relatava o redemoinho para os lados do sul. Meu pai dizia que o repicar do vento miúdo nas folhas trazia o recado antes do redemoinho acontecer. Doía em algum lugar nele e de chapéu na mão pedia para todos se prepararem…

Sabe, algumas histórias seriam lendas – imagino eu – e outras traziam relatos de pessoas que foram levadas pelo tal torvelinho que varreu a roça, acabando com grande parte das plantações. O vento começava de leve e ia ganhando força, principalmente depois da colheita onde o campo ficava em aberto sem nenhuma proteção de mato. Isso era assustador para a maioria dos meninos enquanto eu ficava encantada ouvindo as histórias e imaginando mil outras. Mas, quando acontecia tínhamos de seguir as regras da minha mãe ou nunca mais sairia de um castigo inimaginável.

Quando no meio da lavoura isso acontecia, deitávamos no chão, de barriga para baixo até a fúria do vento passar. De vento, eu não tinha medo. Mas minha mãe tinha e evocava Santa Bárbara e isso me lembrava a árvore de florzinhas miúdas perto da porteira que tinha o nome da santa… depois, pedia aos ancestrais em um ritual perto do oratório. Minha mãe tinha frente aberta com todos os deuses, santos e mistérios… eu pensava que ela sabia o quão mal um vento forte pode fazer, mas ainda assim, eu abria os braços e não girava – porque ficava tonta – mas dançava com o vento que rugia, até ouvir o grito dela chamando meu nome completo, o que era um terror, prenúncio de uma ladainha dos perigos que durava o resto do dia.

Dias desses, quando fui de férias ao meu lugar assisti de novo um redemoinho se formar para além da cerca e ir correndo sob a terra. As memórias todas voltaram e suspirei pensando se ela já havia superado esse medo de vento e se ela ainda assoviava para chamar o vento brando que ela mesma dizia ser o espírito santo. Algumas memórias ficam para sempre dentro da gente, e mesmo quando as revivemos, em alguns momentos parecem histórias que foram apenas contadas e só.

Bacio,
Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O chá de frutas vermelhas.

Try tocava no repeat enquanto ela pensava no chá. O convite trouxe lembranças das ervas colhidas no quintal e eu teci comentários a respeito da colheita, como era feita… Enquanto ela costurava livros e a água fervia falávamos de sonhos e flores. De fitas de cetim e papel. De cores e aromas. Dos lembretes para o dia seguinte. Do grafite que ela amava e de como aconteceu algumas histórias antigas.

E como se a vida fosse feita de rituais, as xícaras foram colocadas na mesa onde ela fotografava os livros. Jane dog deitou-se sobre meus pés e o aroma de frutas vermelhas rescendeu na casa inteira. Alguns minutos parecem que são feitos para sempre. Com trilha sonora e o bolo de fubá.

Havia um céu de fim de agosto através da janela e guardei para mim o sabor, e o instante para memórias futuras. Pensei em relicários enquanto Pink trazia o refrão: Gotta get up and try, try, try.

Tem canções que são feitas para emoldurar momentos. Contei coisas minhas. Rimos da banalidade das coisas e as xícaras pousadas, quietas… Apenas observadoras daquele dia feito de memórias. Quantas vezes, antes de tudo isso acontecer, aquilo foi desenhado em conversas sobres chás? Vai uma xícara? — ela perguntou um dia e falou sobre as frutas vermelhas e meu sim cabia nas ervas frescas do meu lugar.

A gente faz isso um dia quando eu for aí — e ela respondeu que ia aguardar o momento —– e falei sobre as falas de tempos atrás. Coisas que minha mãe fazia. Rimos de algumas dualidades nossas. Nem lembramos de registrar o momento porque trovejou e fomos até a varanda ver a tempestade que se formava no céu. A nuvem praticamente me beijou. Coube nas minhas mãos abertas o gosto da chuva. Cabia nos olhos dela a intensidade da palavra tempestade e eu assisti sua empolgação de menina…

Falei a respeito dos baldes nas goteiras de tempos passados. Do eco dos trovões que provocavam medo em minha mãe. Ela silenciou para ouvir de novo o céu rugir. Mais uma xícara? — e antes que eu respondesse, serviu — do outro lado da rua alguém gritou e na minha mão ainda cabia a chuva que a nuvem trazia.

Falei sobre a tempestade particular que ela possui em sua varanda. Foram duas ou três nos dias em que eu fui visita ali. Além da chuva, do cheiro de pão, do som da bolinha amarela da Jane dog, da gentileza sem tamanho do menino dela a lavar as xícaras… Havia o sabor do chá… Contei da fumaça que ocupava o meu lugar, do alecrim e da erva cidreira que plantei. Da flor que é comestível e ela falou da chegada da Jane e de como os dias foram preenchidos com lambidas e amor.

E quando a luz difusa atravessou a cortina depois que as nuvens se dissolveram em chuva, deixamos na pia, as xícaras… Foi ali, que guardei o instante… Tive certeza de que um dia escreveria a respeito daquele momento. O dia em que tomei uma xícara de chá com ela.

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Nem sempre a lápis no blog Scenarium Livros Artesanais


Afetos · infinitamente · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto.

13, junho,

Desde que iniciamos esses diálogos aleatórios você me trouxe lembranças, reativou memórias lá da infância e agora me traz os sabores que ainda trago comigo. O cheiro de bolo de mandioca assado ainda exala por aqui. Fiz para a irmã mais nova matar a saudade ou vontade. E o chá de erva doce fez ela se emocionar. Nunca mais havia experimentado.

É engraçado como alguns cheiros nos levam para um outro tempo. Mas não é só os aromas que nos carregam para determinado tempo, alguns utensílios fazem parte também das lembranças. Eu ainda tenho a compoteira onde minha colocava o doce de mamão ralado ou de figo – e às vezes, durante alguma limpeza, o barulho do cristal me puxa pela mão em devaneios – e também a colher de pau. A panela preta de ferro com três pés hoje é apenas um enfeite na mesa da cozinha.

Uma bacia esmaltada onde o bolo era sovado até dar o ponto se perdeu em alguma das mudanças. E o bule de ágata verde clarinho faz o café ficar mais saboroso. Teve alguns cheiros e sabores que se perderam para mim também, mas outros, mesmo com tantos anos nesse entremeio ainda arranca lágrimas em mim. A pamonha de sal com queijo e linguiça apimentada, o curau com a canela em cima, o arroz doce caramelizado e os biscoitos de polvilho.

Dias desses em uma conversa com eu filho, falávamos sobre comida e ele disse que tinha muita saudade da farofa de cenoura que eu fazia e do arroz “sujo” do pai. Percebi que as marcas que a gente deixa nos nossos vai muito além de momentos perfeitos registrados em fotografias… o que fica é o amor misturados nos gestos e sabores. Vou ali, colocar no forno o bolo de mandioca e fazer um café.

Aceita uma xícara?
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Na rua cheia de sol, há casas paradas e gente que anda…

Sempre digo que nossas histórias se cruzam entre esquinas aleatórias, além de tempo e espaço. Adoro nossos diálogos dentro desse ritmo de que eu também passei por um instante assim e mesmo sabendo que foi em outro lugar, outro mundo, outro momento, a ligação existe e acaba por nos ligar ainda mais.

Sou apaixonada por fotografia – você sabe disso – e sempre levo comigo a câmera na bolsa e amo as janelas que se abrem ao desconhecido e me instiga a pensar em quem abriria as cortinas ao sol e o que estaria fazendo naquele momento.

Minha cidade tem janelas históricas, com datas de um século passado e a maioria traz em seus umbrais o ano ainda em algarismo romano e os azulejos a combinar com as cores da casa, da fachada e até mesmo da rua. Sempre que eu ia para a emissora de rádio onde eu trabalhava via o senhor na travessa da rua do meio que tem o nome de Voluntários da Pátria. Acompanhei em tantos momentos diálogos dele com um transeunte qualquer, com o moço que vendia picolé ou com algum vizinho.

A casa tinha um assoalho muito alto, e fica muito acima da rua, mas consegui fotografá-lo várias vezes, em outras, encontrei a janela apenas aberta com a cortina a balançar e mesmo quando passava de carro, acenava para ele saber que passei ali. Alguém me disse um dia que ele era de uma família tradicional da região e que seus pais haviam sido escravos. Dos acenos passamos para os sorrisos, e logo depois os bons dias dele chamava meu riso. E os cinco minutos preciosos diários para falar do tempo, da primavera que floresceu na esquina, do céu azul, ou do chuvisco em dias de junho.

Nunca perguntamos os nomes um do outro. Ele era meu amigo e eu a mocinha da rádio. E mesmo quando troquei de emissora e não passava mais ali, eu ainda o via de vez em quando minha rota atravessava a rua em que ele morava. Algum tempo atrás, ao passar em frente a casa encontrei a janela fechada. Ninguém soube explicar o que acontecera e eu fiquei apenas com as lembranças do linguajar cuiabano dele com seus bons dias, o tchá por Deus e uma leve saudade.

Mariana Gouveia