Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Na rua cheia de sol, há casas paradas e gente que anda…

Sempre digo que nossas histórias se cruzam entre esquinas aleatórias, além de tempo e espaço. Adoro nossos diálogos dentro desse ritmo de que eu também passei por um instante assim e mesmo sabendo que foi em outro lugar, outro mundo, outro momento, a ligação existe e acaba por nos ligar ainda mais.

Sou apaixonada por fotografia – você sabe disso – e sempre levo comigo a câmera na bolsa e amo as janelas que se abrem ao desconhecido e me instiga a pensar em quem abriria as cortinas ao sol e o que estaria fazendo naquele momento.

Minha cidade tem janelas históricas, com datas de um século passado e a maioria traz em seus umbrais o ano ainda em algarismo romano e os azulejos a combinar com as cores da casa, da fachada e até mesmo da rua. Sempre que eu ia para a emissora de rádio onde eu trabalhava via o senhor na travessa da rua do meio que tem o nome de Voluntários da Pátria. Acompanhei em tantos momentos diálogos dele com um transeunte qualquer, com o moço que vendia picolé ou com algum vizinho.

A casa tinha um assoalho muito alto, e fica muito acima da rua, mas consegui fotografá-lo várias vezes, em outras, encontrei a janela apenas aberta com a cortina a balançar e mesmo quando passava de carro, acenava para ele saber que passei ali. Alguém me disse um dia que ele era de uma família tradicional da região e que seus pais haviam sido escravos. Dos acenos passamos para os sorrisos, e logo depois os bons dias dele chamava meu riso. E os cinco minutos preciosos diários para falar do tempo, da primavera que floresceu na esquina, do céu azul, ou do chuvisco em dias de junho.

Nunca perguntamos os nomes um do outro. Ele era meu amigo e eu a mocinha da rádio. E mesmo quando troquei de emissora e não passava mais ali, eu ainda o via de vez em quando minha rota atravessava a rua em que ele morava. Algum tempo atrás, ao passar em frente a casa encontrei a janela fechada. Ninguém soube explicar o que acontecera e eu fiquei apenas com as lembranças do linguajar cuiabano dele com seus bons dias, o tchá por Deus e uma leve saudade.

Mariana Gouveia

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