Afetos · infinitamente · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto.

13, junho,

Desde que iniciamos esses diálogos aleatórios você me trouxe lembranças, reativou memórias lá da infância e agora me traz os sabores que ainda trago comigo. O cheiro de bolo de mandioca assado ainda exala por aqui. Fiz para a irmã mais nova matar a saudade ou vontade. E o chá de erva doce fez ela se emocionar. Nunca mais havia experimentado.

É engraçado como alguns cheiros nos levam para um outro tempo. Mas não é só os aromas que nos carregam para determinado tempo, alguns utensílios fazem parte também das lembranças. Eu ainda tenho a compoteira onde minha colocava o doce de mamão ralado ou de figo – e às vezes, durante alguma limpeza, o barulho do cristal me puxa pela mão em devaneios – e também a colher de pau. A panela preta de ferro com três pés hoje é apenas um enfeite na mesa da cozinha.

Uma bacia esmaltada onde o bolo era sovado até dar o ponto se perdeu em alguma das mudanças. E o bule de ágata verde clarinho faz o café ficar mais saboroso. Teve alguns cheiros e sabores que se perderam para mim também, mas outros, mesmo com tantos anos nesse entremeio ainda arranca lágrimas em mim. A pamonha de sal com queijo e linguiça apimentada, o curau com a canela em cima, o arroz doce caramelizado e os biscoitos de polvilho.

Dias desses em uma conversa com eu filho, falávamos sobre comida e ele disse que tinha muita saudade da farofa de cenoura que eu fazia e do arroz “sujo” do pai. Percebi que as marcas que a gente deixa nos nossos vai muito além de momentos perfeitos registrados em fotografias… o que fica é o amor misturados nos gestos e sabores. Vou ali, colocar no forno o bolo de mandioca e fazer um café.

Aceita uma xícara?
Mariana Gouveia

2 comentários em “E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto.

Deixe um comentário