Try tocava no repeat enquanto ela pensava no chá. O convite trouxe lembranças das ervas colhidas no quintal e eu teci comentários a respeito da colheita, como era feita… Enquanto ela costurava livros e a água fervia falávamos de sonhos e flores. De fitas de cetim e papel. De cores e aromas. Dos lembretes para o dia seguinte. Do grafite que ela amava e de como aconteceu algumas histórias antigas.
E como se a vida fosse feita de rituais, as xícaras foram colocadas na mesa onde ela fotografava os livros. Jane dog deitou-se sobre meus pés e o aroma de frutas vermelhas rescendeu na casa inteira. Alguns minutos parecem que são feitos para sempre. Com trilha sonora e o bolo de fubá.
Havia um céu de fim de agosto através da janela e guardei para mim o sabor, e o instante para memórias futuras. Pensei em relicários enquanto Pink trazia o refrão: Gotta get up and try, try, try.
Tem canções que são feitas para emoldurar momentos. Contei coisas minhas. Rimos da banalidade das coisas e as xícaras pousadas, quietas… Apenas observadoras daquele dia feito de memórias. Quantas vezes, antes de tudo isso acontecer, aquilo foi desenhado em conversas sobres chás? Vai uma xícara? — ela perguntou um dia e falou sobre as frutas vermelhas e meu sim cabia nas ervas frescas do meu lugar.
A gente faz isso um dia quando eu for aí — e ela respondeu que ia aguardar o momento —– e falei sobre as falas de tempos atrás. Coisas que minha mãe fazia. Rimos de algumas dualidades nossas. Nem lembramos de registrar o momento porque trovejou e fomos até a varanda ver a tempestade que se formava no céu. A nuvem praticamente me beijou. Coube nas minhas mãos abertas o gosto da chuva. Cabia nos olhos dela a intensidade da palavra tempestade e eu assisti sua empolgação de menina…
Falei a respeito dos baldes nas goteiras de tempos passados. Do eco dos trovões que provocavam medo em minha mãe. Ela silenciou para ouvir de novo o céu rugir. Mais uma xícara? — e antes que eu respondesse, serviu — do outro lado da rua alguém gritou e na minha mão ainda cabia a chuva que a nuvem trazia.
Falei sobre a tempestade particular que ela possui em sua varanda. Foram duas ou três nos dias em que eu fui visita ali. Além da chuva, do cheiro de pão, do som da bolinha amarela da Jane dog, da gentileza sem tamanho do menino dela a lavar as xícaras… Havia o sabor do chá… Contei da fumaça que ocupava o meu lugar, do alecrim e da erva cidreira que plantei. Da flor que é comestível e ela falou da chegada da Jane e de como os dias foram preenchidos com lambidas e amor.
E quando a luz difusa atravessou a cortina depois que as nuvens se dissolveram em chuva, deixamos na pia, as xícaras… Foi ali, que guardei o instante… Tive certeza de que um dia escreveria a respeito daquele momento. O dia em que tomei uma xícara de chá com ela.
Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Nem sempre a lápis no blog Scenarium Livros Artesanais

Há textos que silenciam a realidade e iluminam o lado de dentro, esse lado que tu tomou para si e onde reina com todas as coisas, que são um pouco minhas, ou seja, nossa…
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Nossas, porque é assim que somos. Amo tu!
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