Cresci no meio de seis irmãos e eles já faziam barulho o suficiente para dez irmãos e então, eu ficava apenas no murmúrio de alguma palavra ou outra, quando perguntada. Para minha mãe e a maioria das pessoas eu era apenas a menina tímida, o que mudava quando eu pegava uma escova e com seu cabo imitava um microfone e um programa de rádio.
Debaixo do pé de sete copas eu criava minha emissora, minha programação musical e até as mensagens dos ouvintes, que em muitos casos, usava de cobaias meus irmãos mais novos. Muitas vezes, a programação mudava e eu falava sobre futebol e minha paixão pelo Fluminense ou pela poesia. Tirando isso, meu silêncio nem era observado pelos demais. Só pela árvore que se emoldurava na neblina das manhãs de junho.
Em dias de visitas, meu pai me colocava para ler o que eu escrevia. Fosse para um tio ou vizinho. Alguém de fora que viesse comprar o milho, as hortaliças e o leite. O carteiro já conhecia meus poemas e as cartas e sempre batia palmas depois da leitura e os tios, na minha opinião achava tudo aquilo enfadonho, mas davam os parabéns me chamando de artista.
Eu gostava dos sons do campo, da colina que abrigava uns pássaros minúsculos que trinavam sem parar, para desespero do Manuel, meu irmão mais velho, que reclamava de tudo, inclusive do silêncio quando eu me aquietava. Às vezes, eu conversava sozinha e ele ficava com um olho quase fechando e me olhando com uma irritação aparente de quem estava ali obrigado pelo meu pai ou minha mãe, me protegendo da minha própria traquinagem. O capim no canto da boca… e algumas perguntas de vez em quando, sobre a natureza, sobre folhas, sobre um outro autor do último livro lido. Manoel era meu guardião e aonde quer que eu fosse, ele seguia atrás, em passos lentos, como se eu pudesse fugir a qualquer momento.
Na mesa de jantar, muitas vezes fui referência quando minha mãe dizia: porque não come quieto igual sua irmã? – no caso, eu – e todos riam usando o garfo para imitar meu microfone falso, do tal cabo de escova. Eu gostava do barulho das coisas e achava que por isso, eu apenas falaria quando pudesse reproduzir qualquer coisa com um microfone em mãos. Eles achavam que eu era faladeira demais por isso.
O chiado da água fervendo na chaleira, a crepitação da lenha no fogão, a cantiga da bá, o estalo da pipoca juntamente com a risada dos meninos esfregando as mãos. De tudo isso e muito mais eu me lembraria tempos depois, em noites de saudades daquele tempo em que o maior silêncio que eu sentia era o interno.
Mariana Gouveia

Agora vou precisar de uma xícara de chá para reler-te… volto já! Se bem que acho que vou fazer arroz doce para depois do chá. rs
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agora fiquei com vontade de arroz doce… mas fiz bolo de banana. E o chá de canela ganhou ares de saudade aqui.
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Delícioso!
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Grata, Dulce! Abraço carinhoso.
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