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Distantes os hemisférios e as relíquias da memória.

Quando você fala sobre um dia frio, lembro-me da música do Djavan que seria um bom lugar para ler um livro em um dia frio – não necessariamente nessa ordem, claro! – e o pensamento lá em você depois da receita do caldo que você falou.

Fiquei a imaginar quais seriam as minhas comidas de frio, o que é raro morando em Cuiabá – se bem que já está quase se tornando comum os 16º que acontece agora, com uma garoa insistente – eu sempre penso em sopa, que talvez, seja diferente da sua. A minha sopa é a moda goiana… frango ou carne, depende do que se tem no dia, batata, cenoura, pimentão, berinjela, – eu nunca mais consegui perceber o sabor de berinjela da sopa que a minha mãe fazia – cebola, alho, e as especiarias como pimenta do reino, orégano, cominho – que eu não abro mão – e o macarrão tubinho.

Algumas vezes, ela fazia com espaguete, porque era o que tinha. Colocava-se para ferver e aos poucos o sabor ganhava a casa inteira… o cheiro da cebola, dos legumes e a gente ao redor da mesa aguardando o prato fundo cheio daquela iguaria. Eu tinha 12 anos quando comi pela última vez a sopa da minha mãe e depois, eu mesmo tive que fazer para os irmãos. Nos anos seguintes a doença da minha mãe não permitiu que ela ficasse com a gente por muito tempo e aquela sopa cheio de sabores e intensidade que unia nossa família aos poucos foi diminuindo na panela. era um ou dois dos irmãos nos dias frios e os outros ganharam o mundo e as irmãs mais velhas foram cuidar da sopa da própria família.

Aqui em casa sou só eu e meu marido, mas mesmo assim com todos os ingredientes eu não consigo resgatar aquele sabor do qual sinto tanta falta, assim como do paletó de flanela, porque acho que falta o principal: a atenção da minha mãe ao redor do fogão nos contando sobre a vida. Quanto à sua pergunta, confesso que não sei a resposta. O que sei é que temos de viver os dias como se fosse o último, porque não sabemos de como será o amanhã.

Mariana Gouveia

3 comentários em “Distantes os hemisférios e as relíquias da memória.

  1. Uma reflexão poética em português que evoca a sensação de um dia frio associado à música de Djavan, sugerindo um clima de introspecção e aconchego ideal para leitura e contemplação. 🎶📖❄️

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