Das palavras das cartas

Que a estrada te leve ao melhor caminho…

nesta via, de imprevistas geografias
curva fechada, pista escorregadia
só espero que os faróis iluminem este chão
– agora e na hora da mais árdua cerração
Albano Martins

Júnior,

“Roubei” uma fotografia que você tirou para falar um pouco com você e ilustrar o que meu coração te deseja. lembro-me de tantos momentos que te vi e hoje, confesso que lamento não ter conversado mais com você sobre as coisas.

Confesso que fiquei imaginando se te escreveria e como essa carta chegaria até você. Sempre te vi discreto e fiquei pensando se meu carinho chegaria até você da forma que eu gostaria que fosse. Espero que sim.

Meses atrás estive bem perto de você, e quis muito te ver, mas, infelizmente, não deu certo. Só que hoje é seu dia e como em dias especiais escrevo para alguém que toca meu coração de alguma maneira e veio em minha memórias alguns almoços juntos, nos sábados em que eu ia me encontrar com sua mãe. Resolvi te escrever aqui, no meu blog, que funciona às vezes, como uma caixa de correios, onde coloco minhas correspondências.

De alguma forma, me vi dentro de sua família há mais de duas décadas e a casa de sua mãe era meu ponto favorito nos sábados. Esse dia da semana era dela dentro do meu calendário e junto com ela eu vibrava nos aniversários de vocês. Eu vivia com ela uma extensão de minha família e isso não posso mudar, mesmo com a ausência dela. Quero estar perto de vocês, saber-compartilhar as vitórias e conquistas.

A minha memória revive ela diariamente. Todos os dias. Em pequenas coisas que nos ligava. Numa música que toca, no perfume que acabou, mas o vidro – mesmo que vazio – ainda permanece na cômoda, ao lado da caixa que ela fez para mim e nos dias especiais para ela, como hoje.

É o seu dia e te desejo muita coisa boa. Todas as coisas boas. Que teus olhos enxerguem além das lentes que mostram uma visão melhor e que você representa tão bem. Eu acho que ela está muito orgulhosa do pai que você é, do marido e do homem que ela deu a vida.

Que a estrada te leve ao melhor caminho e que você seja feliz. Temos em comum, além do amor por sua família, o amor pela fotografia e é baseado nisso que desejo que seus olhos só vejam imagens lindas, para além dos dias e de aniversários.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Das rotinas

Mudou a rotina dos dias… 

abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água.

A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático.

Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos.

Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho.

Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal

Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Mariana Gouveia
dos dias diferentes dos outros dias
*Imagem: Gennady Tarakanov

Das palavras das cartas

Carta para Luís Eduardo.

que abraço seria o nosso
se fosse possível podar um coração
como se fosse uma árvore
Raquel Serejo
Martins

Sabe, filho, depois que escrevi uma carta para seu irmão, que assim como você, só viveu algumas horas, venho aqui falar com você. Queria te contar tantas coisas e me vejo muda, sem palavras nesse dia que amanheceu estranho.

Acho que minha alma segue a tenacidade dos dias e como sempre faço cuidei primeiro das flores. Arranco as ervas daninhas que insistem em brotar aqui, uso o regador que improvisei para aguar elas e recebo o pouso das borboletas. Depois, sigo na rotina da casa e assim, a manhã passa ligeira.

Não me recordo desde quando os bichos vem para minhas mãos. Meu pai diz que desde sempre, porém, hoje, pensei no dia que em que você nasceu há 35 anos atrás. Molhei as plantas como sempre, recebi pousos na mãos… Alguém gritou no prédio vizinho, uma ambulância passou pela rua e a bolsa estourou. Minha vizinha protetora – dona Nega – me pegou pela mão e seguimos duas ruas acima rumo ao hospital, enquanto alguém avisava ao seu pai o tempo de você nascer.

As minhas mãos já antevia a vontade de te ter nelas e você foi leveza por alguns minutos. Nos dias seguintes, elas ficaram vazias. Repetiu-se o mesmo gesto que senti quando seu irmão também se foi. Repeti várias perguntas no coração, revoltei-me com a singularidade das coisas e chorei e mais uma vez, voltei para casa de mãos vazias.

Mas, descobri que o tempo é essa coisa inexplicável… e que você, filho, ainda é meu filho mesmo vivendo tão pouco comigo e que as mães sempre serão mães, mesmo quando os filhos vão embora… não importa de que maneira.

Ainda assim, eu folheio os calendários e conto os dias dentro dos anos. Minha memória ainda guarda coisas nossas e ainda tenho perguntas que nunca foram respondidas. Mas, cada vez que uma borboleta pousa em minha mão te embalo no coração.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia

Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Natureza na urbe.

Quando ando pelas ruas da minha cidade, ou até mesmo dentro dos muros do meu quintal, percebo a diferença que já é tão notória por aqui. Cada vez mais percebo a natureza “invadindo” os espaços da cidade, já que nós roubamos o espaço dela.

O que aos meus olhos parecia tão rural, hoje atravessa as avenidas, invade os canteiros e se tornou tão presente nas ruas que é como se estivessem sempre ali.

Os ipês, de variadas cores, que antes eu só via no cerrado, hoje compete com edifícios e a urbanidade toda. E embora grande parte deles tenham sido retirados em nome de uma “revitalização” em nome da Copa de 2014 – Sim, AINDA temos obras paradas em nome da Copa que aconteceu aqui – alguns ainda encantam com suas floradas.

O jacarandá do cerrado enfeita a paisagem de uma grande avenida e além dele, várias outras espécies do cerrado e do Pantanal transforma a cidade. É a natureza buscando abrigo na cidade como forma de proteção? Ou é apenas o reflexo da mão do homem trazendo a natureza para mais perto dele? Não é a função desse post discutir o meio ambiente e suas relações com a ação do homem. Posso até fazer isso como um grito de alerta, já que hoje seria votada, pela Assembleia Estadual de Mato Grosso – foi adiada para a semana que vem – o Projeto de Lei 561, que abre brechas para obras de infraestrutura que podem impactar o bioma, sua biodiversidade e as comunidades que nele habitam. A tramitação acelerada do Projeto de Lei não respeitou as regras do regimento, havendo pouca transparência no processo, por exemplo, reuniões a portas fechadas e apenas, com o setor produtivo. Se aprovado, o impacto será devastador para o Pantanal.

Mas, confesso que já me assusto ao andar nas imediações de um parque público, dentro de um bairro de condomínios de luxo. Os animais que antes eu só observava na natureza, como capivaras, pássaros silvestres, jacarés e outros animais estão cada vez mais perto de nós… de nossas casas e longe da natureza, além de estarem correndo risco de vida. Ou de morte. Nunca me dei bem com essa frase.

Na semana passada me deparei com um barulho no poste de energia elétrica, bem em frente minha casa com esse pica-pau que tentava furar sem sucesso o ferro que segura a caixa do relógio. Lembrei-me do pica pau do desenho e o que foi mais estranho, é que para ele, parecia normal a humana aqui, com sua câmera a incomodá-lo, procurando uma pose melhor.

E hoje, descobri que tenho novos vizinhos, no mesmo poste em que o pica-pau estava dias atrás. Um casal de joão de barro construiu sua casinha, não lá no galho da paineira, como diz a canção antiga que meu pai ama e sim, logo ali, ao alcance dos olhos. Prefiro acreditar que vieram para perto de mim, ou que sou eu quem atraio essas coisas da natureza. Me assusta o domínio do homem sobre ela. Me assusta a utilização e a transformação dessa natureza. Enquanto o homem vive uma busca incessante de domínio sobre todos os espaços, a natureza luta diariamente para continuar tendo aquilo que lhe sobrou. Mesmo que seja dentro da urbanidade que lhe cabe.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Participam desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins

Divã

Na minha sala tem um canto de mar…


Hoje, acordei com ele invadindo a sala toda… já não era só o lado poente, dele.
Tomou conta do jardim. As pétalas salgadas cheirando a pele, sorriram.
E o mar cantou suas ondas bravias no interno de mim… e de maresia cobriu meu nome.
De improviso o oceano me cobriu inteira.
Às vezes, com as mãos em conchas o mar me banha…
Em alguns momentos – ele recua.
Mansamente recua e me deixa cheia de saudades, mas plena de viver.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações
Cadeados Abertos – Scenarium Livros Artesanais
*Imagem: Mira Nedyalkova

Das palavras das cartas

Meus tantos… eu…

Mariana, Mariana…

Te escrever é como abrir um mapa e encontrar suas rotas… já se deu conta de quantos caminhos você andou? E os atalhos? Já pensou nas escolhas feitas a partir de um ponto?

Você se fez menina e suas memórias se alimentam das coisas vividas entre o campo e a cidadezinha, da lavoura para a cidade grande, de ouvinte para dentro do rádio. A menina franzina que teve de crescer… a mulher transgressora, que teve de virar menina.

Já te contei que você cura, foi bênção e foi milagre? Já te falei que aquele sonho de escrever para as pessoas virou realidade aos olhos do mundo e que suas palavras são lidas mundo afora?

Sabe, Mariana… já vivemos um pouco de tudo. Já enfrentamos algumas batalhas e foi aí que descobri que as escolhas tem sempre dois lados – no mínimo – e que nem sempre fazemos as escolhas certas. Quebramos a cara algumas vezes – e vamos continuar quebrando – porque a vida não vem com um manual onde você segue as regras e pronto.

Mas, sabe o que descobri? Que ser feliz só depende de mim, mesmo quando algumas coisas não vão bem. Que eu não posso colocar sobre o outro o poder de decidir quando e como eu possa sentir e isso, só mesmo o tempo que ensina.

Outra coisa que aprendi é que o tempo é realmente um dos deuses mais lindos, como diz Caetano em uma canção. E que ele passa em um galope. Daqui a um ano estarei escrevendo para a mulher em mim ou a menina sonhadora do meu coração?

Sempre digo que sou protegida e abençoada pelo universo pelas pessoas que ele coloca em meu caminho. As minhas raízes são profundas e feitas com muito amor e a minha entrega pela vida tenho certeza de que aprendi com você.

Seremos sempre pouso para os bichos – sem dúvida nenhuma – e seremos sempre abraços e mãos estendidas para quem precisar. Isso é o que faz com que no fim do dia o coração entre em acalanto e sossego.

Sabemos que mesmo que o dia não esteja tão bom, o riso será nosso escudo, mesmo que entre lágrimas… e que a vida é mesmo bonita de se viver.

Viva os 57 anos que a ternura nos moldou. Continuo contado com você.

Abraço,

Mariana Gouveia
Para a Mariana tantas que existem em mim.

Das palavras das cartas · Projeto52

Um elogio à sombra.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo


Jorge Luís Borges

Luci,

ontem senti tanta vontade de te escrever que acho que senti no meu coração o seu, todo doído. O tempo não é nosso, Luci… A gente olha a hora só de teimosia. Porque quando for o tempo de acontecer, seja voo, seja pouso a gente só vira essa miudez. Mas o tempo também é remédio e eu queria te dar um abraço nessa hora, sem tempo de largar.

Foi meu pai que me ensinou que o tempo cura e que a gente não deve temer as coisas que acontecem, pois de alguma forma, elas já estão destinadas a acontecer. Isso do destino, Luci, não tem como fugir, você sabe. Caetano já dizia que o tempo é um dos deuses mais lindos. Nana Caymmi, que ele é uma eterna criança que não soube amadurecer…

Sabe, Luci, a gente gasta tempo – que nem é nosso – demais com pensamentos ruins e às vezes, se esquece que a mente atrai as coisas. Então, que tal deixar essa sombra escura e começar a ver as coisas do seu lado da janela, com a visão que tem, de lugar bom e por isso, coisas boas te acontecem. Existe o lado bom, mesmo que a gente não veja, não perceba.

Eu espero que seu pai te receba com um riso hoje e que ele esteja forte par seguir vida afora. Ainda me lembro do tempo em que ele não queria comer. Você sabia, Luci, que os pais depois de um tempo viram crianças de novo? Meu pai está desse jeito. Mesmo com o olho lúcido e uma vontade grande de viver, ele, às vezes, parece que fica um tempo determinado em uma história que ele mesmo criou, como se fosse um personagem de um livro. O pai que vira menino e que conta causos que me faz ter medo das sombras.

Eu ouvi que somos o reflexo de nossa própria sombra, Luci e considerando todos os ensinamentos do meu pai a sombra não existe e eu fiquei olhando a borboleta pousada no chão do quintal e seu reflexo ali, grudado no cimento. Seria ela reflexo da asa da borboleta? Você entende de borboletas, Luci. Até cuidou de uma doente em sua casa.

Eu elogiei a sombra da borboleta e quando ela voou a sombra foi atrás, bailando como se dançasse, mas eu não consegui fotografar isso, porque parei no tempo, Luci, pensando no seu céu, no meu céu e no céu dos passarinhos… seria o mesmo céu das borboletas? Vamos tentar descobrir isso juntas?

Olha, Luci, essa minha carta é para te abraçar e dizer que às vezes, a beleza está no modo que vemos as coisas… mesmo em momentos tristes. A sombra pode vir até minha mão mesmo que a dona dela esteja de asas machucadas. A vida é assim. A única coisa que não podemos mudar é o tempo… mesmo que a gente possa pensar que pode.

Te amo, Luci.

beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Geral

Das cartas que recebi.

Mari,


Dessa vez não te contei para não te preocupar e também porque o pajé voou para o céu dos passarinhos… Quem iria rezar meu retrato para me pôr o buchinho no lugar e igualar minhas pernas? Meu pai adoeceu e eu também, tanto que ando precisando de terapia e achei a Clara Marina para cuidar de mim, ela vive na serra no Rio e eu no Vale em São Paulo. Clara me perguntou como era meu medo e eu disse que meu medo andava no sentido horário: meu medo era o tempo, porque eu não queria que chegasse quarta-feira para eu colocar a reciclagem no portão e nem a sexta-feira para eu voltar pra casa e nem o domingo… Nem o domingo! Tinha medo que o tempo passasse e chegasse o dia da cirurgia do meu pai que é bem velhinho e quanto mais velhinho, mais eu vou gostando dele e da minha mãe. Tenho medo de ficar sem eles, por isso não te contei. Faltei pra ficar com ele, foi uma alegria tão genuína… Voltei de cabeça baixa sem olhar janela em fora o céu lindo que fazia, então, para não desperdiçar céu, passei acordada vendo todas as variações que faz a rotação. Ontem, pareceu que tinha gastado tudo que restava de vida, por isso de cabeça baixa.
Mari, meu pai tem alta amanhã e domingo vou amanhecer no portão deles. Isso se chama sorte. Tenho sorte de poder falar tudo sem ordem nem sentido e você me entender.
Bom é ter amigo que conversa com beija-flor.


Te amo, Mari.

Luciane Recieri

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Ignoramos ser no horror, que forjamos nossa mortalha.

Bambina mia,

Quando me fez o convite para a próxima viagem, não pensei duas vezes… sabe aquele instante em que a pessoa te pega pela mão e te puxa levando por histórias, caminhos, ruas e praças? Foi assim que me senti. Adoro quando você me leva pelos seus caminhos, pelas suas ruas, pelas suas praças e feiras.

Adoro quando me mostra as folhas que você encontra por aí. Adoro ainda mais quando sua história se mistura com a minha. E cá estou eu, no quintal enquanto a lua cheia surge imensa logo depois do muro. Você sabe que sou fascinada pela lua e ontem aconteceu a lua de “morango”. Uma super lua que caminhou lentamente no céu. Fiquei horas com a câmera em punho registrando – e ainda estou – o movimento dela. Ora entre nuvens, ora em um céu forrado de estrelas. Ouvi Bethania e vi a lua se banhando em um balde aqui.

Me vi embalada pelas lembranças. Já te contei tantos causos do meu pai e de como ele nos envolvia em poesia, talvez até sem saber. Meu pai banhava a lua cheia… – te contei isso hoje – e guardava a água em potes de barro ou moringas. Servia para curar males da alma e do corpo. Descobri que sua nonna também e quando descobri isso meu cuore acelerou. Nossas falas foram se entrelaçando e como sempre, você está sempre na minha frente. Quando eu vivo as horas, você já viveu. Mesmo você sendo minha bambina, é como se estivesse um tempo a frente do meu… o meu espelho reflete em tantas coisas que você já viveu.

Você precisa do elemento urbano para existir… já eu, preciso do lúdico, dessas coisas que as memórias me trazem. Já tenho tantas suas guardadas aqui. Ainda me lembro de alguns edifícios com seus nomes enquanto um ônibus nos levava pelas ruas do seu lugar. Mas também tenho nas memórias coisas de sua vida em que eu nunca estive e senti-me lá. Eu seria capaz de atravessar o oceano agora e ver a lua sobre tua cidade… e mesmo sem poder fazer isso, parece que já fiz… entende isso?

A lua segue seu curso, bambina e consigo ver as estrelas sendo apenas acompanhantes desse movimento lunar. Parece que vi um pássaro noturno voar aqui e lembrei-me de um poema de Matilde Campilho, que gosto:

“Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros: a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles. Ainda assim me perguntei muitas noites sobre a qual seria a medida de uma asa”

O poema me lembrou coisas que conversamos… será que a asa é essa sintonia que nos liga? Ou seria a medida dela seria esse convite aceito para continuar a viagem com você? Para responder a sua pergunta digo: vou sempre, bambina mia… com você, vou até a lua.

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Carta para Antônio.

Antônio, meu amor,

Muitas vezes, eu quis chamar você assim e mentalmente já fiz inúmeras vezes. Queria que soubesse que quando descobri que você crescia dentro de mim, a minha vida mudou completamente. Descobri que eu não seria mais sozinha e mais tarde descobri que eu estava enganada. A solidão de ser mãe é muito mais doída do qualquer outra.
Os meses foram passando e você antecipou sua vinda… Tudo foi tão rápido e ao mesmo tempo, tudo tão lento. Eu ouvi seu choro ecoar na sala de operação e logo depois, o silêncio.

Hoje seria seu aniversário e também é registrado em um documento como o dia de sua partida. Você viveu poucas horas fora de mim e deixou meu coração faltando uma parte. Como eu conto esses 38 anos de ausência? Como eu falo desses anos que não te vivi?

Sai do hospital sem você, com meus braços vazios e apenas com a lembrança de seu rosto na memória. Conheci outras mães que viveram a mesma situação que a minha e isso me trouxe consolo em alguns momentos. Eu era mãe de um filho que não veio para casa

Sabe, meu filho, de vez em quando me pego pensando com que você pareceria e o que estaria fazendo. Olho na rua para algumas pessoas e penso que poderia ser você. Que time você torceria, qual música te tocaria no coração e como seria você apaixonado… Essas coisas me fazem sentir você perto e assim sigo meu sentimento de mãe.

Queria que soubesse que você foi muito amado e aguardado e mesmo não tendo podido viver muito, as poucas horas que tive você em meus braços me fez especial, no sentido de ser mãe.

Hoje, eu quis falar com você e dizer que de uma maneira ou de outra fizemos diferença na vida um do outro. Não sei quanto tempo é possível essa espera, mas sei que um dia irei te abraçar e completar essa parte do meu coração que está com você.

Te amo infinitamente,

Mariana Gouveia