Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Quando a ausência de mim é presença em você…

Edi,

Eu queria te contar que hoje, apesar de um frio atípico, aqui teve um momento de sol e eis que uma nuvem surgiu e vi a letra E como se o céu tivesse sido pintado. Durou pouco esse momento, mas lembrei-me de sua mãe.

Desde que ela se foi, os meus sábados ficaram vazios – acho até que eu já disse isso para você – da presença dela e cheio de lembranças. Não há um sábado que eu não me pego fazendo planos de atravessar a ponte para logo lembrar que já não faço isso há um bom tempo.

Converso muito com ela, sabe… e falo que de tão especial ela deixou me deixou mais um amigo e eu sou grata por isso. Com ela, eu conversava coisas que nunca falei para ninguém e sei que com ela também era assim. Tenho na memórias alguns momentos tão nossos e já me peguei várias vezes discando o número para ligar e saber a opinião sobre determinada coisa que somente ela me diria o que fazer.

Ela me deixou muito solitária nos dias normais, mas o vazio imenso dos sábados me deixa sensação de que há alguma coisa que não fiz. Para amenizar isso, recorro às receitas que ela criava para mim, principalmente com quiabo – que eu adoro – e que ela tão bem inventava pratos diferentes para me agradar. Era a maneira dela dizer que me amava.

Ainda ecoa no meu coração a risada dela, ainda tenho a sensação do abraço e a voz me dando bronca por alguma coisa… E já me peguei buscando o rosto dela em outras pessoas na rua…

Peço desculpas se te trago lembranças que doem, mas eu queria compartilhar com você essa foto e te escrever foi a maneira de fazer com que nossas saudades se misturem. Cuida bem de você e viva feliz em memória dela e por ela.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes OrtegaAle HelgaMãe LiteraturaDarlene Regina

só porque hoje é sábado

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

beda – As mentiras que esquecemos de contar.

Minha querida,

Se não posso
dar-te mais,
me ofereço hoje
– em traje de gala –
coberta apenas
de luminosas
notas musicais

Maria Borges

Escrevo-te ouvindo minha música de momento que já pode ser outra quando você estiver lendo essa carta, porque você sabe bem que sou esse rompante musical… Misturo-me as letras e assim, apaixono-me pela canção. Talvez, você dirá que sou volúvel, mas sou assim com as músicas. Gosto de tantas e amo muitas.

Sabe, parece que esse ano o inverno resolveu ser intruso dentro dos dias de outono e a temperatura caiu. Você sabe que não gosto de frio e me refugio na quietude do meu quarto enquanto limpo mais uma vez as gavetas e eis que encontro as cartas todas. As suas se misturaram as que recebi de amigas de outros cantos. As palavras ali, no papel já amarelando pelo tempo, parecem escritas em outro tempo… esse mesmo que recorro e digo que parece que foi ontem.

Não está escrito nelas as mentiras que esquecemos de contar… acho que nem passou isso por nossas cabeças quando minha curva esbarrou em seu mar. Parecia que tudo já havia sido vivido em séculos e séculos atrás… e hoje, entre os vãos das conversas há a estranha sensação de que tudo foi só uma estação fora das estações. Mentimos que era para sempre, mentimos que a emoção seria sempre a mesma e mentimos que não sofreríamos. Tudo mentira para quem não mente. Nomes sobrepostos entre um lugar tão longe que parece não existir. Tudo em códigos simplificados para além do que poderíamos entender.

Mas, como a canção que eu ouço repete mas eu vou sentir sua falta e assim vou somando as palavras, guardando os envelopes, ouvindo as canções que já cantamos juntas e lendo os mesmos poemas até que os séculos se tornem dias comuns e a gente possa enfim dar as mãos.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega

só porque hoje é o dia da mentira

Das palavras das cartas · Projeto52

São dias de olhar pelo buraco da fechadura.

o meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura

Jorge Palma

Amor,

Esse ano, escrevo para você na véspera porque as datas vão se posicionando no calendário, na previsão e nos baús e amanhã o dia já pede urgência por aqui… Hoje, como em outros anos, relembro o dia marcado como nosso – o 28 de março – em já são 35 anos assim.

É uma vida inteira – alguém diria – e realmente, somando todas as expectativas os 35 anos contam a história de nossas vidas. O nosso quintal antecipa também a data e os voos e pousos de borboletas que tanto me encantam chega até você. Como se a natureza e o universo nos oferecesse de presente o instante.

Os dias que vivemos, olhados pelo buraco da fechadura teve como principio o amor, uma pitada de cumplicidade e amizade. Sempre nos perguntam sobre o segredo de tanto tempo juntos em uma época tão difícil e a gente sempre diz: gostamos de estar juntos um com o outro. De rir, de falar de futebol, de ver filmes, de olhar o céu, de caminhar pela natureza… gostamos muito da companhia um do outro e isso nos fez/faz mais forte em momentos difíceis.

A gente sabe que nem tudo foi flores nessa jornada mas sabemos que se somarmos os dias dentro desses 35 anos o nosso jardim foi criado, as sementes semeadas e colhemos muitos frutos e flores. Eu te amo além da medida… você me aceita com toda a liberdade que sinto e sei que sou amada nos gestos que trocamos… Permite os meus voos, apoia os meus sonhos e me faz feliz.

E assim quero viver até o fim dos meus dias com você!

Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto: Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura

A boneca de pano

A boneca de pano

A boneca eu havia ganhado de minha mãe. Feita a mão mesmo. De tecido preto.
Minha mãe era sábia. Desde cedo já nos queria colocar a par da beleza das diferenças. Era Maricota.
E eu odiava quando meus irmãos a chamavam-na de boneca preta… para mim ela era a minha Maricota. Que me acompanhava quase sempre em todo lugar que eu ia. Eu ficava num canto, tentando arrumar os cabelos dela, que até hoje nem sei como minha mãe conseguiu fazer. Minha mãe era uma artista. Conseguia fazer arte dos mais variados objetos. Restos de retalhos onde ninguém dava nada por eles, ela transformava em colchas maravilhosas…e criar sete filhos numa fazenda era uma arte também. Teria de dar ocupação para que a cabeça deles não fosse além do riozinho que descia manso e devagar… Mas a Maricota me acompanhou pela vida afora e eu querendo uma filha para repassar. É verdade que depois de um tempo ela ficou esquecida numa caixa de papel, junto com as lembranças e fotos de um amor distante. Um dia, a encontrei por acaso, vasculhando as caixas de lembranças e como eu senti saudades! Porém, o telefone toca, as coisas se espalham e o compromisso veio…Deixei ela ali, na cama, junto com bilhetes e recordações e na volta o que encontro é uma Maricota despedaçada. Fora estraçalhada pela minha cachorrinha. Degolada. Não tinha como consertar… E o que mais doeu foi ver que dentro ela tinha um pequeno coração, que minha mãe pegara de um brinco velho que tinha quebrado o trinco. Isso doeu na alma. Procurei fazer um enterro decente pra ela…Meu filho, já moleque achou engraçado na hora. Tirou sarro, virei piada na hora do jantar…Mas a minha surpresa foi quando, na reunião de mães da escola, minha estória foi lembrada com poesia pelos professores de literatura e português. Meu filho havia feito uma redação sobre o que aconteceu e tinha magia nas palavras dele…a mesma magia que eu sentira ao ver o coração morto de Maricota ali…com meu abandono.

Mariana Gouveia

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Catarina voltou a escrever…

– Abre aspas –

Preciso de uma maçã para estalar na boca e
ouvir o delicioso som-calmante de seu clec

–  Fecha aspas – 

Lunna Guedes
Catarina… voltou a escrever
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · O Mapa de Vênus · Scenarium Livros Artesanais

Coletivo o Mapa de Vênus

Chove e as hortênsias — em seus buquês —
parecem a tempestade alagadiça que pediu…

Os trovões ecoaram como se fossem derrubar o céu
— ouvi alguém dizer: “parece que o céu vai cair”
E eu pensei em nuvens vindo ao chão.

Mariana Gouveia

O Mapa de Vênus é um projeto coletivo, produzido pela Scenarium Livros Artesanais, sendo poemas em resposta a missiva enviada pela coordenadora do projeto Lunna Guedes… Cada autora criou uma narrativa em forma de versos, sendo elas: Anna Clara de Vitto, Katia Casteñeda, Mariana Gouveia – euzinha-, Nirlei Oliveira e Suzana Martins.

E para comemorar o lançamento, estaremos em uma live na próxima sexta-feira, dia 18/03/2022, às 18hs – horário de Brasília – no ig da @scenariumlivros.

E se você quiser adquirir um para chamar de seu, clica aqui

Mariana Gouveia
O Mapa de Vênus,
Scenarium Livros Artesanais
Fotografias e Arte de Lunna Guedes

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Os sutis movimentos do cuore que nos salvam.

Bambina mia,

Li algumas de suas missivas para meu pai nos dias em que o visitei… e ali, tão perto do fogão a lenha e das coisas banais da casa expliquei a ele sobre Rubem. Ele disse que por sua narrativa eu seria um Rubem de saia e a gente riu.

Confesso que a comparação me lisonjeia e nego ela, claro… Rubem está além dos meus textos e lembro-me de que já falamos sobre isso. Mas vim aqui para a gente falar sobre o outro tempo – o seu – ou seria o meu, nesse diálogo onde nossas histórias se misturam?

É como se eu te oferecesse meu quintal, minhas histórias e recebesse de volta suas janelas, o cheiro de pão de sua cozinha e assim, nos conectamos. Hoje é o dia da mulher e estou indo de volta para o meu quintal, e ansiosa pelas lambidas dos cães e os cantos dos pássaros. Já reparou que até isso nos liga de alguma maneira?

Você chegou até mim pela poesia. Lembro-me do cuidado que teve com ela em O Lado de Dentro – meu primeiro livro – e ela também nos aproxima entre fitas de cetim e páginas… e olha só, isso é coisa sua e não minha…

Aas árvores aqui já pressentem o outono chegando e já começam a deixar sus folhas morarem no chão. Fecho os olhos enquanto vou ouvindo a melodia delas quando piso…nesse momento apenas te abraço e essa é a melhor poesia que posso te dedicar.

Grazie por tanto!

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

O tapete amarelo no chão…

já tinha se tornado húmus e o vento arrastava as folhas secas, fora da estação.
O rádio antecipava as notícias de amanhã e a certeza de que tudo é breve veio com a flor no chão.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Plural Editora
Encomende o seu exemplar
É só chamar (11)99241-5985
Ph: Anja Bührer 

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – As minas e as manas

*Triste, louca ou má
Será qualificada ela
Quem recusar
Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina

Eu era ainda uma menina quando tive que escrever sobre o que pensava sobre ser mulher. Naquela época, o tema não era tão evidente como hoje – ou até era, para as mulheres que me rodeavam e eu, em minha criancice não percebesse. Até então, as mulheres da minha vida eram minha mãe e três irmãs, dona Fulô e a professora Judite – uma pessoa além do tempo que dava aulas em uma escola rural.

*Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem, não sem dores
Aceita que tudo deve mudar

Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar

O texto que escrevi deve ainda estar em alguns dos muitos cadernos guardados em baús ou caixas e que um dia vou tentar encontrar… mas, lembro-me que para além das heroínas dos livros que li eu falava muito sobre a parteira que me trouxe ao mundo, depois de um parto difícil. Uma mulher que não sabia nem ler e escrever, que havia vivido um pós guerra e tinha o ofício de trazer crianças ao mundo e fazia disso uma coisa divina. Entendia de tudo sobre o mundo e me convencia de eu poderia ser o que quisesse. Ali, entre a infância e adolescência descobri as barreiras e as correntes que poderiam impedir quem ousasse mudar o “tradicional”.

*Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Bem antes mesmo da tão falada frase: lugar de mulher é onde ela quiser, eu já vivia esse sentimento nas mulheres que me rodeavam. Nasci em uma fazenda rodeada de mulheres que lutavam todos os dias para além das enxadas e foices, que brigavam por seu lugar de fala nas decisões da comunidade ou mesmo dentro de suas famílias feitas de homens machistas e autoritários.

Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima

Daquele tempo até hoje percebo que a luta ainda continua a mesma e que aquele aprendizado me fez ser o que sou hoje. O que aquela menina de 10/11 anos diria para a mulher de agora, nos meus 56, quase 57 anos? Já escrevi várias cartas onde busquei essas respostas e continuo escrevendo elas até hoje. Minha bá me ensinou sobre as palavras e de como escritas ganham voos para além de nós mesmas. E que escrevendo posso representar aquelas que me rodeiam-habitam.

*Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar

Não sou adepta das datas, embora perceba o significado delas e reconheço que a coragem da minha primeira professora em uma escolinha rural, no interior de Goiás ganhou raízes em mim, nas minhas irmãs e nas mulheres que entraram em minha vida em todos esses anos. Ainda estamos gritando para que nos ouçam, ainda brigamos por espaços com lugares de fala e ainda, ainda, ainda…
A mulher que me tornei reverencia a menina que sonhava em contar histórias para o mundo.

*E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar

A menina daquele tempo sente orgulho das histórias que contei? A minha voz consegue abraçar outras mulheres muito além da data? Ainda busco essas respostas, mas sei que tudo que vivi teve influência de mulheres valentes e conhecedoras de seus poderes. Sou rodeadas de mulheres especiais e vibro com cada conquista delas. Elas são as minas e as manas por quem luto, por quem torço e vibro.

Talvez, eu represente muitas delas em meu espaço… talvez sejam elas que me representam em seus lugares. O que eu, a mulher de quase 57 anos dirá para a de 60/70? Acho que posso dizer uma frase antecipando o que virá: não desista, fique firme e não se cale. Você consegue apesar de tudo! O resto, vou dizer lá, no tempo certo. Vem junto comigo?

Feliz Dia da Mulher Todos os dias!

Mariana Gouveia
participam desse projeto: Lunna GuedesRoseli Pedroso Obdúlio OrtegaIsabelle Brum
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
* Trechos da música Triste, louca ou má, de Franscisco El Hombre.