Scenarium Livros Artesanais

Tentação ou tentador – Conto Erótico

Um passo depois do outro… apressados como os ponteiros das horas e cheguei à esquina. Enquanto esperava o sinal abrir, acusei cansaço e quase me arrependi de ter aproveitado cada segundo para fazer compras. Tentei trocar as sacolas de mãos, mas não resolveu.

— Deixe-me ajudá-la.

Reconheci a voz que chegou acompanhada de mãos, recolhendo as minhas sacolas… fazendo trepidar o coração dentro do peito. Era o homem em quem eu esbarrava nos corredores da Faculdade. O lendário filho da Santa, que não se importou com a minha falsa recusa.

— Não é necessário…

Quando dei por mim, seu passo avançava por cima da faixa de segurança, como se adivinhasse o meu destino. Precisei apressar o passo para juntar a ele e a cada nova tentativa de pegar de volta as minhas sacolas, ele reagia, erguendo-as numa altura impossível para mim. Percebi que ele se divertia e reagi magoada, feito menina que perde um balão.

Não sei quem seguia quem pelas calçadas, mas sempre que possível, espiava o corpo dele e sentia vontade de me benzer, ao me lembrar da história que corria de boca em boca. A mãe, com dificuldades na hora do parto, entregou a criança nas mãos da Santa. Pensei em milhões de possibilidades. Uma imagem num altar improvisado no quarto ou a Padroeira na cidade, sendo carregada em procissão. E não pude deixar de pensar na infância do menino, na condição de filho da Santa. E agora, feito homem e tão bonito e com um sorriso tão largo, que me fazia passar mal.

Ao chegar no portão de casa, me atrapalhei com a bolsa e não conseguia encontrar as chaves. E quanto mais revirava, mais nervosa ficava e olhava para aquela calma inabalável e me sentia a pior das devotas. Fechei os olhos e pedi ajuda para a minha Santa protetora. E pronto: a chave apareceu, como por milagre. E a mão dele — tão forte e firme — esbarrou nas minhas ao tocarmos juntos a maçaneta.

Agradeci, esperando que ele me devolvesse as sacolas e fosse embora. Mas ele ficou lá parado à espera de um convite que eu não pude deixar de fazer. E quando dei por mim, lá estava o homem colocando as sacolas de compras feitas no supermercado, ficando com as minhas calcinhas em suas mãos. Quase desfaleci — minha nossa senhora das crises. Claro que ele não tinha como saber que eu havia passado na loja de lingeries e comprado algumas peças. Mas por que razão ficou justamente com aquela pequena sacola de papel em mãos?

Respirei fundo e agi… fui e voltei do quarto, onde deixei minhas calcinhas novas e ao voltar, achei melhor oferecer um café. Era o que me restava a fazer, depois de tudo. Liguei a cafeteira sob o olhar atento e matreiro do Filho da Santa. E confesso que não sei se foi ele quem disse “sem açúcar” ou se fui eu quem fez a pergunta enquanto decidia entre o ristretto e o rome.

Xícaras em mãos e eu a fugir do olho dele. Havia alguma coisa no ar — podia sentir e era forte. Eu nunca fui tímida, mas estava insegura, trêmula e toda errática. Dizia as coisas mais impróprias, absurdas e ele se divertia com os meus desacertos. Um verdadeiro desastre e eu quase recorri à minha Santa. Desisti da ideia ao pensar que talvez fosse a mãe dele. O pensamento me fez arregalar os olhos… e ele sorriu, como se adivinhasse o meu pensamento.

— Que tal você cozinhar para mim, hoje à noite? Eu chego às sete, está bom para você?

Eu não me lembro de ter concordado… A única lembrança que permaneceu em mim pelo resto do dia foi do seu último gesto: fechando o portão e deixando um aceno no ar… E pelas horas seguintes, o meu coração acelerou descompassadamente. E piorava quando eu pensava nele…e vinha a bendita imagem da minha Santa — que talvez fosse a mãe dele —, em mente. Como eu queria me libertar daquela história. Esquecê-la. Não sabê-la.

Sentia uma espécie de taquicardia que começava no meio do peito e se espalhava por todos os cantos do corpo. E eu ainda tinha que preparar um jantar. Fui para a cozinha e depois de tentar pensar um cardápio — sem sucesso — me lembrei do que dizia a minha avó enquanto picava as ervas para a massa que ela mesmo havia feito e deixado descansar sobre a toalha enfarinhada: “Cozinha primeiro no coração porque cozinhar é como fazer amor… É preciso sentir prazer”.

Decidi repetir a receita da minha avó. Eu já tinha feito aquele prato milhões de vezes e o molho pesto era uma das minhas especialidades. Colher o manjericão a poucos minutos do preparo era o segredo e quando ele suspirou depois da primeira garfada… percebi que havia acertado.

O Sauvignon Blanc que ele trouxe combinou perfeitamente e me fez mais leve depois da segunda taça. Fomos para o sofá da sala e quando ele se aproximou de mim, não recuei…

As mãos dele alcançaram o meu pescoço, ele se inclinou e o beijo que tanto imaginei… aconteceu. Pareceu interminável e eu quase perdi a consciência. A boca caiu sobre o meu pescoço, na fenda da blusa, alcançando os seios, provocando uma espécie de devaneio…  

Ele revirava a minha pele, descobria lugares inexistentes até então… e antes que eu me perdesse de vez, ele me conduziu pela mão até o quarto e caímos juntos na cama. Lembro de ouvir o riso dele tocando a minha tatuagem de dente de leão como se fosse um sopro e depois disso, ouvi o meu próprio riso ou grito, não sei.

Acordei e lá estava ele… ao lado e fiquei a admirar seu corpo escultural e me lembrei da lenda que o envolvia. Vasculhei seu corpo em busca de respostas, tentando imaginar qual santa o havia criado. Enumerei muitos nomes em minha mente e só consegui pensar: bendito seja o teu fruto. Mas tinha dito em voz alta e ele, recém despertado e fui obrigada a falar a respeito da história que corria de boca em boca havia anos e mencionei Shakespeare — “o tentador ou o tentado, quem peca mais? ”  E a gargalhada dele ecoou pela casa inteira e até hoje mora nas esquinas do meu corpo por onde andou o filho da Santa.

Mariana Gouveia
Conto erótico publicado no livro:
Na esquina com o filho da Santa
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves

A garota de scarpin vermelho

“na outra margem da noite
o amor é possível
leva-me
leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia em tua memória”
Alejandra Pizarnik

Trazia a delicadeza na pele. Cheirava a algum perfume novo que não consegui desvendar.
Os olhos me acompanhavam por onde eu ia. Entre as prateleiras dos livros, entre um exemplar e outro, estávamos frente a frente. Passou de leve por mim e senti a curiosidade de olhar as mãos. O anel acentuava ainda mais o esmalte vermelho. Paramos no caixa, ela em minha frente e eu ali, a espiar a nuca, onde os cabelos caiam discretos em ondas.
Enquanto pagava sua compra olhou para mim e sorriu:
– Não, as palavras não fazem amor. Fazem ausência. Se digo água, beberei? Se digo pão, comerei? Busquei pela memória onde já tinha ouvido essas mesmas palavras e sorri de volta:
– Alejandra Pizarnik?
Concordou com os olhos e perguntou se eu gostava dela.
– Ah, muito! Adoro o estilo!
-Tenho sede quando leio. – riu de suas próprias palavras.
Na minha vez de pagar, meus olhos a acompanhava e ela rapidamente saiu porta afora.

Não vi nenhum sinal dela na rua. Pensei nos olhos, no perfume e senti uma leve saudade bater o peito. Não sei nada sobre ela. Apenas que sente sede quando lê Pizarnik.

Sentei em um banco da praça e folheei o livro recém comprado. Os olhos enxergavam sonhos nas letras quando senti um movimento leve nas minhas costas e duas mãos tapavam meus olhos. Na memória, no toque das mãos que acariciavam meus olhos, não consegui reconhecer a dona delas.
– Adivinha quem é? – nem a voz me parecia conhecida – Tenho sede quando leio.
Acho que te segui, tive curiosidade em conhecer quem lê Alejandra, como eu.

Sentou ao meu lado, com uma intimidade que não tínhamos. Falou-me sobre sua vida, seus desejos e seu riso encheu minha tarde de improviso.
Falei pouco. O que não é normal, no meu caso, e a hora começou a me cobrar urgência no dia. Era para o riso dela ter o nome de alguém e ter a mesma alegria que os olhos dela tem. Falei de ir, já me levantando.

-Ah, não! Mas, já? Nem falou sobre você e nem respondeu sobre o pic-nic de amanhã…
-Pic nic? Que pic nic?
– O que faremos amanhã, ali, naquele canto da praça e pode deixar que venho com meu scarpin vermelho! Me faz sentir mais chic.
Saiu em disparada sem deixar eu dizer nada. Mas deixou comigo a certeza de que adorarei ver ela amanhã de scarpin vermelho.

Mariana Gouveia

Afetos

 As palavras escritas em um futuro impossível…

Acordei ainda na madrugada para ver algum resquício da “lua negra” que ocorreu ontem, no início da noite. Queria ver também Júpiter e Vênus alinhados, quase se tocando. É impressionante como Júpiter “desaparece” calmamente a medida que o sol vai surgindo com seus raios. O silêncio da madrugada foi quebrado pela cantoria do moço da reciclagem, que com sua carrocinha percorre as ruas do bairro recolhendo tudo que se pode reciclar.

Ele mora na rua de cima e a gente sente um afeto especial um pelo outro. De tudo que se pode reciclar e que eu não aproveito, separo para ele e quando ouço sua cantoria abro o portão e aguardo ele parar na minha porta. Geralmente, saio com as xícaras de café e falamos sobre coisas. Já ficamos em silêncio também, em alguns dias, cada um com sua dor, como se não pudéssemos falar sobre. Cada um entendendo cada palavra não dita.

Hoje, ele falou da lua e de como as estrelas estavam bonitas – fazia tempo que não via um céu tão lindo – e a lua era um risco, quase meio sorriso, quase vírgula em seu caminhar lento. Falou também do ontem, do abril que acabou e de como os dias tem passado ligeiros…

– Ela foi embora em uma noite assim, não sei se para guerra ou se para paz. E depois daquela noite eu não olhei mais o céu. Hoje, foi a primeira vez – e já não havia mais tanta amargura em sua fala.

Ela era Maria, a mulher que seria o futuro dele, dentro de tantas palavras que falamos. Não houve o porquê. Ela apenas se foi e ele ficou tantos dias a esperar por ela. Depois, desistiu de esperar e passou a andar pelas ruas a catar o que os outros jogam fora com sua carrocinha de rodas barulhentas atraindo os latidos dos cães e acordando as pessoas com sua cantoria triste.

– Já não há mais tristeza em mim – falou como se adivinhasse meu pensamento, enquanto me entregava a xícara vazia, depois do pesado gole de café – já virou costume e a falta se transformou em presença, sabe? – Achei lindo aquela frase. Apenas simulei um sorriso e o transformei no meu personagem de hoje. Já amanhecia quando nos despedimos. O domingo já ganhava a cor do sol nascendo. Ainda acenei para ele antes que virasse a esquina. O homem da reciclagem carregando o fardo do amor não reciclável.

Mariana Gouveia

das coisas breves

As memórias são portas sem casa dentro…

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.

T.S.Elliot

Era para eu escrever outra carta, com endereço certo, mas no rompante das palavras eu não quis misturar minhas memórias com as de outra pessoa. Então, resolvi escrever essa carta para ninguém. Abril foi muito pesado aqui. Foi triste, até, eu diria.

Abril sempre me leva para o filme Abril Despedaçado e confesso que fora do contexto do filme eu só penso mesmo no mês que foi cruel comigo. Algumas das coisas mais tristes que me aconteceu trazia abril na folhinha do calendário pendurado ao lado do relicário antigo, que era de minha avó.

Lembro-me que depois daquele dia demorou cerca de dez dias para que eu arrancasse a folhinha que trazia o nome do santo, a lua, a sorte … como se fosse um presságio, não tinha a cor… Nos outros dias anteriores havia lá a cor de cada dia. e foi assim que abril foi se perdendo no sentido do mês e como o poema de Elliot transformou para mim no mais cruel dos meses. Depois daquele dia abril tem sido difícil todos os anos. Como se fosse determinado pelo destino que assim fosse.

Antes, Abril era radiante, diferente do poema que citei acima, a primavera só existia no quintal dela, onde os gerânios enfeitavam a janela azul da casa que ela morava. Antes, abril cheirava as folhas úmidas e acontecia o outono que pintava de dourado os quintais. Hoje, abril é só a contagem dos dias e eu vibro quando mudo o calendário para o mês que chega e abril desenha o seu último dia.

De vez em quando, eu visito minhas memórias para além do mês… é uma maneira de reagir para dentro. Mas, as memórias são portas sem casa dentro, ou apenas casas abandonadas sem flores na calçada… Aprendi a ultrapassar esse tempo nas palavras e assim sigo, dentro dos dias imperfeitos sendo apenas parte de um momento lindo que se transformou em lembranças.

Mariana Gouveia

É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque é o último dia de abril

Das palavras das cartas

Quebramos algumas promessas feitas…

deixar o corpo posto
em algum lugar


porto onde voltar

Eunice Arruda

Janes,

Um dia, eu te disse que o mundo pertence aos omissos, lembra-se? Eles não fazem nada e isso muda o mundo. Acho que foi nesse dia que você passou a me chamar de sua consciência – tipo o Grilo Falante da história do Pinóquio – e foi ali que nossa história começou.

Eu te vi tão menina, com uma criança ao peito, briguenta em um posto de saúde. Te odiei naquele dia e te amei. Não sabia nada de sua vida, mas percebi logo de cara que você era dessas mulheres valentes, que mesmo em desvantagem enfrenta o que tiver de enfrentar e usa o escudo da palavra solta de qualquer jeito, bravia e certa do lado que defende.

Depois disso, eu só te amei e você se tornou minha Jane e eu sua Tarzan – ooooooooooooooooo – e mais uma vez, essas histórias cruzam nossos rumos. Era improvável que a gente se desse bem, em mundo controverso da política… mas como você é tanto e muito entrou em meu coração e foi assim que me tornei realmente sua consciência – embora, em muitos momentos você não me ouvia – tapava os ouvidos e enfrentava o mundo e sua posição. Custasse o que custasse, mesmo levando broncas.

Em minhas memórias, eu vejo tanta coisa linda que a gente viveu. Tantas caminhadas, tantos colos, tantos abraços e choros juntas. E daí, eu fiquei sem você. Foi quando quebrou a promessa de ficar sempre perto de mim. Foi quando eu quebrei a promessa de que nunca iria embora.

Quebramos tantas promessas que fizemos uma à outra. Os seus caminhos foram para um lado onde eu me perdi. Fiquei como expectadora de suas conquistas, de suas lutas, de seus medos e fiquei aqui como porto seguro – um lugar onde pudesse voltar, se quisesse – e mais uma vez, a promessa de que voltaria não aconteceu.

Prometemos fazer seus tapetes preferidos nos sábados, o artesanato… de tomar café algum dia, repetir o cinema da série preferida, ir na cachoeira de novo e de novo mais uma vez as prioridades criaram novos rumos.

Mas quando você grita meu nome com tanto a no final, meu sorriso te alcança. Meu nome fica bonito quando você chama, ou escreve. O Marianaaaaaaaaaaaaaaa é respondido como o grito do Tarzan – oooooooooooooooooooo – e nesse momento parece que você nunca ficou longe, que sempre estava ali ao alcance das mãos e meus gestos te acolhe dentro do que precisa.

Essa carta é para reiterar o meu amor, relembrar as promessas feitas e dizer que meu coração continua sendo o porto para onde você sempre pode voltar, se precisar e que vou estar aqui ao menor sinal de mensagem para fazer valer a voz da sua consciência e para fazermos novas promessas, mesmo que não as cumpramos.

Te amo tanto!
Mariana Gouveia

É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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só porque ela precisa saber que estou aqui

Das palavras das cartas

quase perfeito alinhamento no céu…

O amor foi a lâmpada, mas no rompante de quem não era
O amor não existiu
…

Ana,

Na terra de um, no mundo dos cem eu vivi para abrir o seu baú… eu já conhecia metade das coisas que habitavam ali, entre o vácuo de um tempo – o papel de bala, o pauzinho do picolé da Kibon que te dava direito a mais um e você não quis – e juro que esse tempo é quase meio século entre as idades todas e o pedaço de história costurada em letras japonesas.

Foi na madrugada de hoje quando o céu em seu perfeito estado de imperfeição quase alinhou Vênus, Júpiter e a Lua. Eu fiquei vagando em cantos de muros para fugir da árvore que tentava roubar os ângulos e eu me perguntava: cadê Marte? Li que querem saber como é Marte por dentro… Eu que vivi com suas variantes e instabilidade dou risadas por aqui…

Hoje, na conjunção de quase alinhamento de Vênus, Júpiter e Lua eu estranhei o céu em sua parte que eu não via. Mas quando o brilho do fenômeno me atraiu eu já imaginei que você mudou de planeta… tão ansiosa nesse modo de espera das coisas, você desbrava o caminho e se vai. Doze anos é muito tempo para um lugar só… Aposto que aquela estrela mais brilhante ali, nessa conjunção astral é você, quebrando barreiras e se misturando em um plano astral maior do que as lembranças que seu baú me traz.

Quando leio em alguma matéria: o que vimos em Marte é que temos um núcleo maior e mais leve do que era esperado – eu já imagino você e seus rompantes dominantes. Só que quando vejo essas coisas de céu daqui da Terra eu fico te buscando nas memórias ainda vivas, em mim.

Aspiro a brisa no quintal… o cheiro de folhas úmidas. Eu vim de um tempo que não sou e vivo pra um tempo que não sei ainda qual será… mas eu fico encantada – ainda – com a magia que seu nome me causa. De alguma forma, mesmo com algum termo desconhecido você habita o céu do meu lugar. Logo eu, que fui sempre de presença… de toque. Como se toca um planeta, Ana? Como uma estrelinha – aquela da Cartilha Caminho Suave – pode alcançar essa dimensão de luz quando nem se sabe ao certo o nome da estrela brilhante? Marte pode ter fugido de algum quadrante e ido parar anos luz na saudade?

Eu vivi em todos os séculos Eu fui o sentido, o fim e o meio… esse meio em um campo celeste que você está e por isso, o fim nunca é fim… Sempre o meio para que eu chegue até você. Eu fui autora e você a poesia. Te embrulhei em uma Colcha de Retalhos e hoje você é livro contado em fotos e emoções. Hoje, alguém já conta a história de amor entre um planeta e eu… Hoje, seu nome já é sabido na terra de um, no mundo dos cem.

Me disseram que amor assim não existe e eu acato… deve ser sonho essa conjunção no céu que rege o horóscopo do dia… afinal, esse alinhamento é quase perfeito nesse sentimento de estar com você, pelo menos até o sol amanhecer em um planeta mais brilhante nesse período, no céu.

Eu sempre soube que você saberia dar um jeito de chegar até a mim, mesmo que passasse doze anos… ou mais… mesmo que os séculos nos roubasse o riso entre um quase triângulo nesse pequeno quadrilátero entre os muros onde eu vivi você.

Mariana Gouveia
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só porque hoje fazem doze anos que ela virou estrela

Das palavras das cartas

 Gosto de ficar nas sombras das coisas e no segredo delas.

A noite pousa na pele à espera de estrelas.
Maria Sousa

“y nos iremos en um corazón que espera amarrado al borde de un precipicio”
Alejandra Pizarnik

Querida M.

… poderia dizer que a vida faz brincadeiras com a gente – digo isso pela forma inusitada que os fatos aconteceram em nossas vidas e tudo foi se encaixando como se fossem peças que estavam apenas esperando o local do pra sempre…

O pra sempre seu é em Paris, ma cherie… enquanto o meu é espalhar amor além mar.

Costumo dizer que o pra sempre não existe – e mais uma vez me pego repetindo clichês e fins e começos e recomeços – é tudo muito emocional dentro de nós… é tudo esse efeito borboleta dentro das asas…

Ontem a noite eu contei as estrelas enquanto lia sua resposta à primeira carta.
– aqui onde estou, as estrelas têm a dimensão do encanto – você disse – ao que eu respondo que o encanto é sempre onde estiver estrelas… Mesmo sendo dentro das meninas de seus olhos… Eu não sabia se ria e te chamava de boba como fazia antes e nas fotografias você continua igualzinha quando era menina…boba… Ou se chorava diante da palavra saudade…

Ver você perto da Torre Eiffel soa aos meus pensamentos a realização dos seus sonhos de menina.
Rio diante da frase inconstante que você repetia: melhor sofrer em Paris do que no calor daí…

Hoje choveu o dia inteiro…passei por acaso perto de onde morávamos…sua casa de frente com a minha e a janela ainda é azul e na cerquinha branca que pintamos um dia – hoje desbotada, quase sem cor – e dela pende aquela trepadeira que plantamos. Ali, foi plantado nosso segredo – que nada mais era que esse gostar de alma – e fiquei ali até a noite cair, aspirando o ecoar do seu riso diante do coração/folha que a vida borda diante de tanto gostar.

Teremos tempo de costurar as palavras uma dentro da outra? Teremos hora certa de contar os segredos que nos permeiam e nos envolvem? Poderemos colher asas dentro de nossas histórias?
Só a vida nos responderá até onde será para sempre…
Quem sabe te conto o segredo na próxima história…

Beijos,
Mariana Gouveia
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só porque hoje me lembrei dela…

Das palavras das cartas

Será que sua coragem sabe que você tem medo?

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei…
Adriana Calcanhoto

Rold,

É engraçado te escrever assim usando seu novo nome… ou você já se chamava assim desde sempre e se escondia? Te vi essa semana que passou e durante o trajeto que o ônibus fazia eu fui pensando em você, desde o dia do seu nascimento, até hoje, quando seu riso alcançou o meu olhar e o alívio que vi nele quando sentiu meu carinho ali, nas palavras que trocamos.

Eu acompanhei seu nascimento e seus primeiros dias. Colhi seu choro em muitas manhãs e me apaixonei por você imensamente. Depois, acompanhei você em médicos, salões de beleza, e você me acompanhou em tantas tardes mornas. Sabia que era você quem trazia alegria ao meu lugar? Quantas vezes, ao fim do dia, quando tinha de te levar de volta para sua mãe havia choros. Eu amava ficar com você e vice e versa.

Também acompanhei sua adolescência, aquela fase de descobertas, das estranhezas que acontecem com a gente e que não precisamos falar. Depois disso, o destino nos afastou… seja por causa do tempo corrido ou nós que falhamos em algum momento. Mas, eu entendo… sua vida estava passando por tantas mudanças que o sossego de minha varanda já não te cabia. Você queria salvar seus ideais e foi assim que um dia te vi, num riso doido, de dentro para fora, na sala de uma reunião.

Naquele dia, eu quis dizer tanta coisa, mas pude te dar apenas meu abraço e te senti arredio. Mas, era você, o meu amor pequeninho que transbordava em me dar corações, ali, com tanto medo no olhar… mas com uma coragem bruta para viver. A camiseta vermelha no peito como se dissesse: você me trouxe aqui… A sua ideologia se misturando com a minha e fiquei acompanhando seus movimentos entre uma sala e outra… Ali, te vi tão igual em meu coração que quase gritei seu nome.

Muitas vezes quis perguntar qual música você mais gosta? Qual é seu perfume favorito? Qual livro te alcança mais? Você já se apaixonou? – essas coisas bobas que a gente sempre quer saber de quem a gente gosta – foi difícil para você toda essa transição? Não deixe que nada te abale e eu estou aqui para o que precisar… eu pensava em você e tudo isso me passava pela cabeça. Queria estar perto, te dar coragem, cuidar dos seus medos e arrancar o sorriso lindo que só você tem.

Nessa última vez que te vi, eu tentei passar para você todo o meu amor, que continua aqui guardadinho em corações estampados nos presentes que me deu. Queria te perguntar tanta coisa nesse tempo de distância que aconteceu. Só consegui falar das coisas banais: como vai sua mãe? e a faculdade? e sua irmã? seu irmão? – não consegui falar da sua coragem, nem do seu medo… não consegui falar da admiração que meu coração sente quando te vê, mas sei que você sentiu.

E como disse ao despedir-me: te espero aqui, na mesma varanda onde tantas vezes te acolhi entre o choro de ir embora e alegria de chegar.

Te amo infinitamente,

Mariana Gouveia
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só porque ele é o mais corajoso que existe mesmo com medo

Das palavras das cartas

Era um ano longo como um século ou um século curto como um dia? 

Por cima dos móveis pela casa só despojos quebrados: copos retratos livros desfeitos
Éramos sobreviventes duma derrocada dum vulcão de correntes enfurecidas e despedimo-nos com a vaga sensação de termos sobrevivido mas não sabíamos para quê.

Cristina Peri Rossi

Olga,

Alguns dias são ocos e feitos para esquecer. Era dia da terapia e vi o recado na porta azul – luto em família e o endereço da capela – onde todo mês busco refugio em um divã ocre. Já fazem alguns anos que você é minha rotina mensal. Passei a ser aquela que você anota, escuta e faz perguntas que quase sempre me recuso a responder. Dali, saio inspirada para as palavras – quase sempre – e volto para casa com notas mentais ou escritas em rascunhos no celular. O seu divã me acolhe, mesmo quando saio de lá sem dizer nada.

Mas, hoje não… hoje segui rumo a capela e isso me fez retroceder em alguns passos… eu a vi de longe, os olhos perdidos no pequeno lago em frente as salas. Seu olho vigiava a dança que os peixes dali faziam como se estivessem em rota de fuga. Na última vez que estivemos juntas aqui, a dor era minha e sua mão me alcançou e depois disso, nunca mais me largou. A gente sempre falou sobre esse lago e se seriam os mesmos peixes ali, já não tão ariscos, acostumados com os olhares de dores de quem anda por esse lugar.

O nosso olhar se cruzou e seu riso opaco fez com que eu sentisse a sua dor – a mesma minha, talvez – já acalmada a muitos anos – e a sua tão latente, sangrando e você falou tudo que estava preso no coração. De repente, mudamos de lugar. Era eu a sua ouvinte, mãos dadas, olho perdido, colo abraço e passos curtos em uma solidão que já conheci bem.

Você falou de um vazio que ainda vai sentir e de como às vezes, a vida é esse sopro que rouba de nós as presenças. Era ontem ainda e ela estava ali, na sua sala, com o vinho e a massa a esperar – como a gente faz para voltar o relógio nos minutos antes de tudo? – e o atraso que acaba com tudo? – como somos incompetentes em tantas coisas e nos achamos o máximo em outras?

De repente, eu não sabia como te responder. De repente, fui ombro para sua cabeça e só. Essa carta, foi um pedido seu… embora, tantas vezes, eu tenha saído de seu lugar comum, fico a cata do que te escrever para que não doa tanto, para que não seja em vão minhas palavras e para que elas te abracem.

Estou aqui sempre!
beijo meu


Mariana Gouveia
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só porque hoje me pediu para trocar de lugar com você

Das palavras das cartas · Projeto52

Um tempo para anoitecer à luz de lâmpadas…

“A vida, ela mesma, nos empurra para que continue sendo.“
Luciane Ricieri

Luci,

Eu queria nesse fim de tarde – quase noite – sair com você, pelas suas ruas, de mãos dadas e te oferecer meu silêncio. Confesso que antes da carta iniciar andei pelo meu quintal… arranquei algumas ervas para um chá, tirei as folhas secas que caíram. Também brinquei com Chiquinho que voava atrás de mim. Só depois, me sentei aqui vendo o sol se esconder e a noite começa a pedir para acender as lâmpadas.

Falei baixinho com você pensando em sua frase acima sobre a vida e é isso mesmo, Luci… A vida, ela mesma, nos empurra para continuar sendo. É sempre um dia atrás do outro. Lembra-se de quando seu pai se recusava a comer? Nunca esqueci disso. Naquele tempo doía e parecia que ia doer para sempre e hoje, ele te acolhe em sua dor de falta. Nesse meio tempo, já aconteceu tanta coisa ruim e tanta coisa boa que a gente sente apenas o alívio de que tudo passa. Até as dores.

Lembro-me que pouco dias antes de minha mãe morrer ela me disse que “a gente se apega muito a presença física e esquece que algumas presenças invisíveis são mais fortes. Nós é que não escutamos os sinais.” Na época, eu nem pensei muito nessa frase. Só fui deparar-me com ela em um caderno antigo tempos depois dela ter partido. E comecei a sentir a presença dela mais forte em coisas que eu fazia. em coisas que em tantas solidões era como se o travesseiro fosse o colo dela.

Hoje, sei que algum canto de sua casa está vazia da presença física de Teté Binoit… mas, se reparar bem, haverá sempre resquícios dele por aí… e assim a vida segue para além do que somos. Sabe, Luci, eu só quero agradecer por me permitir dividir com você e os seus esses instantes de singeleza da sua vida e até mesmo os momentos de perdas.

Aprendo muito com você a ver a beleza das coisas. Aprendo com sua coragem, com a delicadeza com que trata esses momentos, mesmo nos apontamentos dos dias mais tristes. Sei que foram poucas coisas que você se acostumou na vida. Sei também que não se acostumará com a tristeza e que logo tudo será apenas lembrança, afinal, as cores te rodeiam e por enquanto te abraço. Estou também aprendendo a rezar seus silêncios. O ontem será sempre figurativo, Luci… A vida é hoje – minha mãe diria, se estivesse aqui – porque a gente só pode medir 15 anos de amor e doação contando os dias como a vida toda mesmo.

Te amo!
Abraço carinhoso,


Mariana Gouveia
Carta parte do Projeto 52 Missivas
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só porque quero te dar um abraço