Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre.

bambina mia,

Foi breve como você disse ao me escrever… nem deu tempo de secar as hortênsias que deixei florindo e já voltei. Voltei e li sua carta como se fosse um abraço.

Você falava sobre os envelopes que envelhecem e recorri ao meu baú para encontrar uma carta antiga sua… era abril de 2017 e ainda não amarelou, mas senti a poesia ganhar vida em suas letras.

Dentro de seu cenário descrito na carta digital e a carta de papel na mão descobri que as estações permeiam nossas histórias. Me deixei levar por suas mãos e olha só… trovejou! Isso já está se tornando rotina por aqui e mais uma vez grito seu nome – uma vizinha perguntou quem seria Lunna, se só tenho Lolla e Yoshi – brinquei que você era meu amor de estimação…

Coloquei Paul para tocar Something enquanto um arco-íris cruza o céu… a tarde ainda está úmida depois do temporal e a casa da vizinha, sem reboco é abraçada por ele. Suspiro como se estivesse aí… suspiro por não estar. Confesso que a sensação é a mesma de quando vejo suas fotos de pães e eu não estou aí para comer.

Sinto a mesma emoção que te toca aí… Espero que tenha sido breve a espera pela resposta e cumpro a promessa nessa sexta-feira chuvosa e cheia de sol nessas nuances que só a previsão do tempo pode explicar… seria esse o mistério das estações por aqui?

Bacio em tuo cuore,

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Suposição

Quando mergulhei e não sabia
Eu já era louca de mar
Marítima – e mesmo sendo fonte de rio –
salguei com meus lábios o corpo que desenhava na mente

Tracei o rosto dela em delicados toques enquanto
olhava o retrato

Quando mergulhei e não sabia nadar
eu já era parte do oceano dela e já não podia fazer mais nada a não ser
amá-la

Mariana Gouveia
Ph: Erikmadigan Heck

Corredores, Codinome Locura

A solidão de ontem

Rasgando a pele
Tudo no minúsculo tempo
O relógio cabia na indecisão do relicário
Lembrou – se do que era
antes de ser.
A vida tem a preciosidade nas coisas.

Mariana Gouveia
*Imagem: Pinterest 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao instante de amor(a)

Luci,

Retomando um ritual desde que a conheci te escrevo hoje. Logo cedo, mentalmente, fui criando as palavras que eu queria te contar. É tanta coisa que as palavras foram criando carreirinhas em minha mente e sentei-me aqui para te escrever.

Sabe, Luci, eu fui ver meu pai… Fiquei por lá alguns dias abastecendo minha alma de poesia. Já fazia alguns anos que eu não ia por causa da pandemia. Lembrei-me de você enquanto via ele recusando o prato da comida que ele mais gosta quando descobriu que eu iria embora no dia seguinte e eu tive de contar para ele todas as complicações que seu pai teve quando se recusou a comer. Contei até do estuque verde da parede antiga e criei algumas coisas a mais para animá-lo.

Também contei a ele sobre minha resposta a você e sobre o pajé que me disse na época que não comer era um desacato a quem passa fome de fato… Falei de nossas ligações com borboletas e bichos, de como somos abraçadas por humanos especiais e da chuva de flor que cai em sua rua… Ele riu disso. Me disse que a folha do mamoeiro é o guarda-chuva para esses dias de brincar.

Fiquei mais de uma hora falando de você, Luci, dos cães e de seu pé de laranja lima que para mim nada mais é do que uma personagem de livro. Sua Anna é uma poesia que quero inventar e não consigo porque olhando o olho dela ultrapassa o senso comum das poesias e ele disse que você é uma pessoa de sorte…
Depois de tudo isso ele comeu e fui colher amoras… respirei quando achei uma com o formato de coração. Foi ali, tocando os galhos da amoreira que senti saudades de casa, Luci… Foi ali que descobri que aquele lugar é apenas meu abastecedor de energia e que cultivar esses momentos até um novo reencontro é verbalizar ternura.

E é assim que desejo a você nesse novo ciclo… que o verbo ternurar seja sempre renovado dentro dos seus dias e abastecedor de energia sempre.

Abraço carinhoso,
Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Em longas frases, digo coisas particulares, de nós dois…

R,

Dizem que não existe futuro para quem não sabe o próprio passado… e eu sei bem do meu passado e está escrito nas páginas antigas de meus cadernos de poesia que você era meu primeiro amor. Digo era, porque essa é uma lembrança viva e não quer dizer que não te amo mais, mas que eu te amei da forma mais doce que alguém ama na primeira vez.

Te escrevo hoje, porque é seu dia e em todos os anos, nesse dia, sempre me lembrei de você e seu nome ecoava em meu coração como o bater das asas das aves e em longas frases, digo coisas particulares de nós dois e que ninguém mais sabe. Lembra-se de que foi você quem me explicou a mudança das estações?

Da primavera ao verão
Do verão ao outono
E do outono ao inverno
Você sabe quando a estação muda?
sabe exatamente quando o inverno acaba e a primavera começa?

Sua frase ecoa sempre quando alguma palavra me lembra você… ou quando o dente de leão espalha por aqui suas folhinhas como se deixasse uma mensagem dentro da estação em que me perdi de você. A gente era igual e a magia que nos rodeava foi a mesma que nos separou.

Não sei se fui eu ou você quem partiu primeiro… Porque quem parte em silêncio, não grita aos sete ventos que vai embora… de um dia para o outro eu estava em outro lugar e você já não vinha a algum tempo… De repente seu nome foi virando uma doce lembrança e apenas a data de hoje era dedicada a pensar em você.

Eu me lembrava de seu riso, do seu jeito de cavalgar, a maneira de espantar as aves na árvore da frente de casa e do modo que assoviava… Fevereiro era o mês que essa data me trazia você e o mais estranho é que eu nem sabia porquê.

Te reencontrei dias atrás e a leveza do momento me fez sentir gratidão de tudo que vivemos juntos. Você foi a magia que transformou minha adolescência em emoções e você foi o primeiro amor que fez meu coração bater… Mas, a gente se perdeu no caminho e faz parte se perder ou desviar da rota e sempre que  isso acontece a vida nos leva a caminhos interessantes e foi assim que te vi de novo.

Que teus dias sejam feitos de voos intensos e felizes e que a cada curva dessa estrada que você cruza você encontre motivos para sorrir.

Beijo,


Mariana Gouveia
Projeto 52 Missivas
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura

Décimo quinto na verdade das coisas.

O dia passou na intensidade das horas.
Não houve tempo para administrar sorrisos.
Conto os dias e repito.
Décimo quinto na verdade das coisas.
Revivo o que foi dito.
Surreal as palavras que dançam
e mesmo que eu apague elas estão ali.
Confiro mil vezes a sua presença.
Não há.
Repito na constante loucura: não é para ser, não é para ser.
A umidade me faz lembrar histórias
e a flor não conhece a rotina do dia em que só fiz pensar em você.

Mariana Gouveia 
Ph: Lukrecja Czerwonajcio

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao amor dentro dos dias

 

Como a gente dimensiona os dias? Qual a intensidade que a vida nos atinge? Se eu fizer essa pergunta, você teria a resposta ou a gente buscaria ela nas memórias de antes?

Eu ainda trago em mim coisas do tempo em que eu era apenas a irmã do meio que ficava admirada com a irmã mais velha normalista… aquela que me inspirava a escrever poesias, me animava a criar as coisas de encantar e aquela que eu espiava de longe e admirava a força e a coragem, mesmo sabendo-a medrosa…

Os anos vão nos moldando e nos confronta todos os dias e a rotina cumpre seu papel diário… cada um segue seu caminho e o destino nos levou uma para longe da outra e não me lembro buscando na memória qual aniversário seu a gente passou juntas…

Eu sempre vivia o 18 de fevereiro em pensamentos para você e enviando mensagens de todos os desejos de bem viver para que você nunca se sentisse só, mesmo estando com mil e quinhentos problemas na cabeça… era seu dia e eu amanhecia plena de você… a minha mia que cruzava a estradinha e ia estudar for para ser alguém na vida… a minha irmã mais velha que era o exemplo de mulher e coragem e ainda é… mesmo que você não acredite nisso.

Hoje, estou aqui… escrevo enquanto a cozinha não te cabe e vive cheia de presença sua… enquanto sua arte predomina na casa toda e extravasa na soberania de sua presença… hoje, meu abraço é de perto e meu amor tão grande que ultrapassa o sentido de admiração.

Te amo muito!
Feliz Aniversário!

Mariana Gouveia


Corredores, Codinome Locura

O idioma da tua língua

uso o dialeto das digitais

aquele em que a mão vagueia para tirar tua roupa

e descobrir teus nortes

teus rumos

teus desvios

tua rota

onde trafego insana

e busco o idioma da tua língua

Mariana Gouveia
Ph: Pinterest

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Colheita

Desde pequena, o pai a armou de sementes
A parteira que a viu nascer rezou e desejou-lhe o dom
de semear.

Era assim com os irmãos, com as meninas dos vizinhos… com toda a gente que via nas vielas, trieiros e caminhos.
Ria e oferecia sempre potinhos prontos com terra, adubados… e as sementes – germinadas.
Com ramificações a criar vidas.
Ajudava a molhar a terra
A vida, era feita de lágrimas e nem toda semeadura era boa.

Depois que plantava
contava os dias no calendário
Sabia a data exata que o broto surgiria na terra

A folha crescendo…
o olho acompanhando o rito do amor
Acontecia de várias formas no quintal

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Xing Jianjian

Divã

Há uma mulher…

[Há uma mulher que caminha sobre a areia da praia e voa com as aves marinhas entre risos]
Que desenha em minha pele histórias nunca vividas e que sonha atravessar o oceano a nado.

É feita de vento e alada. Ocupa os espaços todos. Quebra as regras.
É essa roupa feita de matizes e quase um fado dentro da melodia da canção.

No avesso, é essa explosão de sentimentos. O riso entalhado na arte que a seduz.

Dentro de mim, acontece. Detalhada no poema que fabrico – as mãos a tocar as asas aladas do amor – feito metamorfose do efeito leveza que as borboletas fazem.

[Há uma mulher que sonha horizontes, que sonha cidades]
Quisesse saber dela bastava abrir os braços e tocar o vento.

A pele, puro arrepio e em meu silêncio é pura fala.
Quisesse conhecer a emoção, bastava pronunciar o nome e as matas e jardins aconteceriam no instante de agora.

Quisesse saber de pouso e estenderia minhas mãos nas mãos das tuas asas e assim, nasceria de novo e
de novo dentro do mais belo amor.

Mariana Gouveia
Ph: Pinterest