Scenarium Livros Artesanais

Quinta das Especiarias.

Aproveitei uma tarde chuvosa para me deliciar com Quinta das Especiarias, de Roseli Pedroso. fiz donuts, café e me deixei levar pela leitura deliciosa. A Scenarium Livros Artesanais mais uma vez se superou nesse livro cheio de histórias e sabores. Deixo para vocês, como um petisco, um dos textos que mais gostei e se você desejar adquirir o livro, clica no link.

Flor rara

Ela foi um tsunami de emoções. Passava da gargalhada escancarada a demonstrações de ira que assustavam qualquer um. Principalmente seus filhos.

Passional, atravessou um casamento conturbado por cenas de ciúmes e traições. Mas, não é sobre isso que desejo falar. Não julgo.

Dela, sempre recebi demonstrações de afeto. Além de irmã, foi uma das melhores amigas de mamãe. Nutriram uma amizade profunda e dividiram experiências, dores e alegrias.

Como as demais mulheres de sua época, aprendeu a cozinhar o básico. O que veio a seguir, foi através de seus empregos em casa de família abastada.

Foi numa delas, que aprendeu a cozinhar pratos requintados e apurar seu paladar. O tempero da sua comida era incrível, passei muito bem nas vezes em que almocei em sua casa. Recordando pode parecer bobagem, mas o copo de Toddy que ela preparava para o lanche da tarde, era de extasiar o paladar da criança pobre que fui.
Registrei em minha memória degustativa, a primeira vez que experimentei um prato feito por ela que levava alcachofra, ou como os italianos a chamam “Carciofo”

Fiquei encantada por aquela flor grande, de cor esverdeada, com flor violeta. Aquilo era de comer? Tudo era novidade que se apresentava aos meus olhos curiosos.

Proveniente do árabe al-klarshúf (planta espinhuda), recebeu o nome em grego de cynara, que, segundo uma lenda antiga, foi uma jovem que rejeitou Zeus e por isso, foi transformada em planta.

Com uma história tão bonita, só pode ser gostos, não é mesmo? Foi a primeira de muitas vezes que saboreei. Até uma pizza encarei!

Ao lado dess família italiana, ela aprendeu a preparar alcachofra de diversas formas. Desde o tradicional “alla Romana”, passando pela “alla giuda”, fundo de alcachofra recheado, petisco de coração de alcchofra… Mamma mia!!

Outro dia, revirando o baú de fotos antigos, encontrei diversos álbuns com fotos dela, presente nos encontros familiares. sempre com a boca escancarada numa risada franca. Sempre na cozinha.

Ah… Tem momentos que recordar chega a apertar a caixa torácica… Às vezes, a saudade, perde mão e tempera nossas memórias com excessos de sal.

Roseli Pedroso
Quinta das Especiarias
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Consumista

Comprava vestidos de outras cores e incrivelmente não os usava.
Adorava os vermelhos.
Tinha um quê com a cor.
Precisava descobrir porque.

Mariana Gouveia
ph: Pinterest

Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Mas é Carnaval!

Confesso que nunca gostei do carnaval e nos dias em que ocorre a tal folia de Momo eu sigo a rota dos rios, cachoeiras, montanhas. Como moro em Cuiabá, sou rodeada pela Chapada dos Guimarães e o Pantanal. Meu estado é conhecido pelos rios e cachoeiras. Então, é para esses lugares que o meu samba me leva.

Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor ô ô ô ô ô ô

Como rota de fuga sigo o caminho das cachoeiras, no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, precisamente Cachoeira da Martinha e meu samba preferido vem do barulho das águas…

Você pensa que cachaça é água?
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão

O contato com a natureza e minha proximidade com os bichos, seja os que voa ou os que rastejam me faz voltar leve para casa. Nesses dias, até esqueço da folia e de como a cidade fica envolvida com seus blocos de nomes exóticos… e mesmo a cidade de Chapada dos Guimarães – um centro conhecido por seus blocos de rua – em seus arredores parece que nem é Carnaval.

Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar

Mudo a rota e sigo a rota da Transpantaneira e a natureza sempre me recebe com maestria… e o fim da avenida é meu Pantanal…

Ê, ê, ê, ê…
Coitado do jacaré, como é que é ?

As aves com suas exuberâncias dentro do seu habitat e na leveza das asas eu viro poesia. O canto lembra que o samba enredo daqui funciona bem os ouvidos e ao coração.

Eu quero é botar meu bloco na rua

E como tudo que é bom dura pouco, a fantasia se veste de cores e a vida segue o ritmo natural… e é assim que meu Carnaval acontece com alegorias nota 10… Junto com a natureza e com a leveza na alma.

Ai, ai, ai ai, ai ai ai
Está chegando a hora
O dia já vem raiando, meu bem
Eu tenho que ir embora

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes Roseli PedrosoIsabelle BrumDarlene Regina

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Colheita

Descobriu que a terra devia sentir o gozo com o toque das mãos
Feito a pele… em noite de lua.
Tem lua que é ideal
para semear… e gemer!
Em noite de lua cheia,
toda loba uiva ao semear
desejos no corpo.

Ao semear, cantava e seguia o rito das águas
A terra – em alguns períodos era árida.

Molhava os dedos com a língua e
… e ia jardim afora florir
a flor absurda do prazer.

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Pinterest

Scenarium Livros Artesanais

Das coisas mais lindas que fiz parte!

Estrada para domingo é mais um projeto da @scenariumlivros como parte de Scenarium 8.
Daquelas lindezas que encantam minha alma, desde a capa, os autores, os textos e as ilustrações!!! Surpreendente e encantador!

Conto outra vez…
Como é tão bonita a rua de cima
enfeitada de flores….

Espiei mil vezes pelo vão do muro…
Alguém me disse – que é assim que a saudade se chama:
Devaneios…
E eu repito a palavra mil vezes em voz alta para ver se faz sentido…

Mariana Gouveia
Estrada para domingo
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto52

Eu me lembrei de você, em mim

Ana,

Abri as gavetas hoje e fazia tempo que eu não tocava em suas coisas…  A cômoda ficava sempre ali, no canto, muda e eu ignorava o chamamento dela…

Confesso que, vez ou outra alguma fragrância escapava dali e me trazia a memória lembranças suas… mas, hoje, talvez por causa de fotos que recebi do meu livro passeando pelas ruas de Paris achei que devia vasculhar alguns momentos e tocar nas coisas que você tocou e eu me lembrei de você em mim.

Já faz tanto tempo e as coisas continuam tão iguais… nem os envelopes amarelaram e a camiseta com dizeres em inglês e que eu esqueci a tradução ainda tem o cheiro do amaciante como se tivesse sido lavada ontem.

Os papéis de bala – por que a gente guardou isso? – e os palitos de picolé estão intactos e pensando em uma faxina joguei no saco de lixo para pegar logo depois e devolvê-los para o saquinho de pano que bordei.

Em alguns dias, durante esses anos todos houve dias em que cheguei a te esquecer e a cômoda nem era incômodo no canto do quarto… O quadrinho com o poema de Ana Hatherly que você gostava: “há uma benção divina no esquecimento” me tocou como se fosse sua mão… e tem dias que lembrar é um sopro na alma, como hoje. Eu poderia escrever mil cartas só hoje contando coisas do dia a dia, mas imagino você subversiva mudando esse infinito todo com os pés na lua e a cabeça em Marte e é assim que me lembro de você…

Por fim, guardo tudo no lugar e devolvo o saco de lixo vazio no porta-saco e canto baixinho a canção que você gostava e vou ali, viver a vida.

Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal

Beijo meu

Mariana Gouveia
Projeto 52 Missivas
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Em 2021 eu…

…vi o jardim florescer e brotar de uma forma única dentro dos dias. Como atravessar 365 dias tão distintos e descrevê-los em apenas 6 fotos? Como falar das dores – que nos fazem mais fortes – e das alegrias em momentos que se disparam através do click da câmera – seja ela do celular ou DSL – e não ficar faltando coisas para dizer? Vou tentar transformar em imagens os sentimentos que divido sempre aqui, com vocês.

… vivi os voos e pousos de Chiquinho – meu beija-flor – que se tornou mais possessivo ainda do seu quintal… como foi um ano de ficar em casa, pude desfrutar mais da companhia dele que continua com seu chilreio por aqui.

… pude cuidar e aproveitar também das companhias de Lolla e Yoshi, que viraram grude onde quer que eu fosse… foram alentos para os dias difíceis e alegria nos dias bons.

… fui arte, artesanato, fui choro e sorrisos… fui fé e fui vacinada levando comigo a emoção dos que não puderam ser…

… fui escrita, fui Casa Cheia, Casa de Marimbondo, Mulher Proibida, Delírios Comunistas, Roteiros imaginários e tantos outros… Fui poema, palavra e poesia… Fui Colheita… Fui Scenarium…

… e fui emoção construída em Colcha de Retalhos… Onde me encantei com a saudade e continuo sendo esperança no amor em todas as suas formas e nuances…

E nesse novo ano que já se forma dentro dos dias, com seis folhinhas arrancadas do calendário desejo que você seja fonte de inspiração para seguir adiante. Sei que não teremos dias fáceis pela frente… Mas, sei que conseguiremos transformar 2022 em um ano melhor… Que em 2022 sejamos mais feliz!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Roseli PedrosoDarlene Regina Obdúlio Nunes Ortega Lunna Guedes

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

É, Maria…

“Maria é sua tia…” você respondia…

Minha Maria Eudes

,
Ainda consigo rir de algumas frases suas… é como se eu tivesse ouvido a pouco e embora esse ano sem você tenha sido vazio eu te percebi nas coisas que fiz. Devo confessar que em certos dias busco seu número no meu celular à espera de que me diga: coragem, faça, pinte de vermelho, corta, raspe a cabeça, use saia curta… essas coisas que você dizia e me encorajava e só daí me lembro que já não está mais aqui.
A minha casa está cheia de lembranças suas… desde tecidos de artesanatos que ficaram parados dos projetos que fazíamos juntas até as revistas dos bordados.

O último vidro de perfume que ganhei de você ainda tem as últimas gotas que não usei, o brinco de pérola, a blusa de bolinhas, livros que a gente dividiu juntas as páginas…

Devo dizer que nunca mais atravessei a ponte para sua cidade, porque eu só ia aí para te ver e meus sábados ficaram insignificantes sem você… é o dia da semana vazio, onde meu compromisso por tantos anos era ir almoçar/viver o dia com você…

E assim, os dias se transformaram em semanas, meses e já é um ano… como a gente conta isso? Como se traduz tanta vivência em uma partida insana?

Mas, talvez, eu tenha sido abençoada mais uma vez… lembra-se que eu dizia sobre Marcelo e o poder da voz em uma mensagem que me resgatou de uma depressão terrível? Agora, tenho a amizade dos seus meninos todos. Às vezes, nos consolamos nas mensagens, nos abraçamos no seu amor ou simplesmente estão ali, ao meu alcance quando sua saudade me abraça.

Sei que sua danadeza deve estar fazendo arte aí e claro que você daria um jeito de enfeitar as nuvens com laços igual fazia aqui com as caixinhas vazias de margarina.

A gente ainda vai se abraçar de novo…

Com saudades,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Arco-Íris

Luci,

Eu também vi um arco-íris hoje… ainda era manhã chegando e ele engoliu a casa da vizinha num gesto de abraço. Sorri quando vi a cena e quis registrar. Depois, caiu uma garoa miúda e a chuva se foi. Ficou nas trepadeiras as gotas como se fosse um colar de contas.

Eu vi o dia passar leve dentro do segundo dia do ano. Brinquei com o estuque do muro e lembrei-me do seu pai na época em que ele não queria comer. Depois, procurei por nuvens que talvez te servissem de estimação e no fim do dia eu queria te contar uma história bonita…

Vi as aves retornando aos seus umbrais, os cães se estranhando por causa de uma bolinha e a magia do casulo se fechando…

Tinha ainda tanta coisa que eu queria te falar, mas o que ficou em mim nesse domingo é o arco-íris abraçando a casa da vizinha.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

2022…

Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo e que pareça querer fazer-me chorar.
Eu quero um calor no inverno, um extravio morno da minha consciência.
E depois, sem som, um sonho calmo, 

um espaço enorme como a lua rodando entre as estrelas

Caio Fernando Abreu

Olá, Ano!

Não sabia se te chamava de meu caro, de querido – ainda não somos íntimos o suficiente para ser tão informal. Confesso que, daqui do meu quintal nada mudou ainda. Com exceção do calendário que troquei – o qual ganhei do pet shop, com uma foto engraçada de um cão – que ficou vazio depois de arrancar a última folhinha ontem… apenas com o cão a saltar, estático em papel… foi ali, que ao longo do ano que terminou que anotei o dia da troca do gás, a data da consulta e o dia em que os casulos se fizeram asas…

Curiosamente, hoje, havia borboletas por todo canto… fiquei a respirar a brisa que oscilava todas as folhas do pé de ipê enquanto a água fervia para o café. Molhei as plantas, arranquei algumas folhas velhas… dei afago aos cães e virei colo da rolinha por aqui.

Devo dizer que você já chega chegando por aqui… a ave que vagueia no quintal todos os dias veio parar na minha mão em busca de aconchego. A princípio, pensei que estivesse machucada, mas, dentro dos meus carinhos e toques em busca de alguma asa quebrada ela sobrevoou e se alojou novamente em minha mão… dormiu, enquanto eu respirava amor olhando pra ela e tentando fotografar o momento…

Sabe aquele momento em que a esperança ganha força dentro da gente? Pois é… tive esse momento hoje, enquanto todos dormiam e apenas eu, a xícara de café, o quintal, os cães, a ave e você iniciando sua jornada de 365 dias presenciaram esse momento mágico.

Você ainda é um menino, Ano… e daqui a alguns dias estaremos mais próximos, quem sabe ainda não te escreverei mais cartas ao longo dos dias… por enquanto, te envolvo na minha mão com a mesma confiança que a ave teve em mim.
Vou ali te viver!

Feliz Ano Novo!
Mariana Gouveia