Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Como foi que a palavra te seduziu?

Havia um burburinho em toda fazenda. De boca em boca e com euforia a palavra era Lavorí e que ele havia retornado.
Vi toda gente a preparar a lenha, minha mãe foi cuidar dos frangos para a comida e apenas meus irmãos mais velhos e os meninos da região continham a expressão do medo no olhar.
– É o homem do saco – meu irmão dizia – se eu fosse você, tinha medo e desenhou-me em gestos e palavras um homem sujo, todo roto, com roupas escuras, barba por fazer, olhar estranho e o pior: levava consigo um saco de linhagem, onde dizem – e com efeito na voz – levava as criancinhas que teimavam com suas mães. Enfim, era um desses peregrinos que andavam sem rumo e na palavra do meu irmão medroso – um mendigo. Não tinha casa, nem família e isso segundo ele só acontecia a um homem que fosse tão ruim, mas tão ruim que ninguém mais gostava.

Ele chegou no fim da tarde, com o sol a beijar o horizonte e em contra luz a imagem dele descendo a estradinha me encheu de encanto. Um saco nas costas, algumas coisas dependuradas no cinto da calça e o riso largo do meu pai a recebê-lo tirou o medo que me rondava o dia inteiro.
Depois do banho tomado e o jantar, todos se puseram em volta dele e foi ali que a palavra encanto ganhou minha vida.
Do saco saíram os livros que ele dizia – amanhã vou ler todos para quem quiser – e da boca dele as histórias mais incríveis. Tinha o dom da palavra e explicava tudo com a magia de quem vivenciara tudo aquilo que dizia.
Foi ali que desejei ser palavra para que alguém, um dia, pudesse ler.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Possuo a doença dos espaços incomensuráveis.

Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar numa música,
porque além de bonita ela desaparece.
Sumir por um tempo deve ser o máximo.

Luciane Recieri

Bambina mia,

Recebi sua missiva numa manhã seca, já com nuances de queimada em meu lugar. Diferente de você, eu aconteço nas manhãs e sigo rituais que meu corpo já acostumou viver. Coar o café, aguar as plantas, falar com os cães e pássaros, olhar o céu e sua infinidade de cores matinais e ouvir músicas… e daí me componho diante das horas…

Lendo sua missiva me vi durante horas no seu questionamento – quanta espera realizamos durante um dia inteiro? – e pensei nos caminhos invisíveis que cruzamos. No meu último encontro com meu pai falamos sobre o sentido das horas… ele disse que chega um tempo em que as horas não fazem mais sentido e que o sentido do tempo fica registrado no olho. Pensei em você e contei para ele como você “fazia” meus livros. O olho dele lacrimejou e um riso se desenhou dentro dele. Algumas pessoas são destinadas para nossas vidas – ele falou – e fiquei pensando nisso. E de como algumas coisas são comuns entre nós. Como os chás.

O chá ocupa minhas tardes, você sabe… Nas manhãs, eu sou cafeína e nas tardes sigo o ritual dos chás… Aprendi lá na infância com meu pai e tenho minhas ervas plantadas aqui, no quintal. Colho ora o alecrim, ora o hortelã, e outras ervas que tenho aqui… e também escolho a xícara. Sou apaixonada por xícaras e tenho uma preferida… Por falar em xícaras, queria te contar que meu pai ainda tem as xícaras esmaltadas em uma caixa de chapéu e fazendo a limpeza de algumas coisas, encontrei a minha – essa da foto que ilustra a carta – já gasta pelos anos e as mudanças.

Você sabe quantas coisas cabem dentro de uma simples xícara de chá?  Sua pergunta fez meu cuore saltar… eu poderia te responder essa pergunta com todas as memórias que o olho do meu pai desenhou. Nessa xícara com florzinhas amarelas, eu bebi leite tirado na hora, dentro do curral, café com bolo de queijo, na beira do fogão de lenha e chás de erva-doce para aliviar a febre. Ela foi companheira de uma vida toda e estava guardada com ele, como se fosse um tesouro.

Embora meu pai ame café, ele foi feito de rituais de chás. Daria um livro as histórias que ele conta sobre chás. Já te contei que na casa dele tem um pé de canela? Dessa vez, não tive sorte. As folhas ainda estavam verdes e não havia nenhum pau pronto para colher. Ai de mim se arranco qualquer folha sem o consentimento dele! Esse pé de canela é um santuário para ele e foi ali, na sombra dele que nossos abraços aconteceram na despedida. Parece que foi ontem e já fazem 7 dias.

O tempo e sua velocidade além de nós… O tempo e essa ligeireza das horas. Lembro-me que você me perguntou se eu já havia chegado de viagem… eu ainda tenho o olho do meu pai na alma. Acho que possuo a doença dos espaços imensuráveis, bambina. Cada vez que volto, fica um pouco de mim no choro de minha irmã, na benção do meu pai e em cada imagem que registro ao longo dos dias.

A tarde avança… é quase noite… uma canção ecoa aqui e o chá esfria na xícara. Aceitei seu convite brindando o ano 10 de Catarina.

Bacio,
Mariana Gouveia
*Último post do projeto 52 – 52 cartas escritas no último domingo de cada mês, durante um ano –
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega

das coisas breves

Neste começo d’hoje

tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu


Matilde Campilho
Ph: Heather Marie

Das rotinas

Cavou a sonoridade dos dias…

O vento tem essa mania de tocar impossibilidades
Você já viu essa dança das folhas no quintal quando o lugar vira flor?
O trevo de quatro folhas brotou as quatro folhas e a sorte desenhou rotinas para além dos muros.
A moça do tempo falou da falta de chuvas. Não percebi o que era para além das viagens.
Palavras do dia: esperança.

Mariana Gouveia
*imagem: Omerika

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Revirei o baú das lembranças doces.

As cartas descrevendo as coisas do dia – a – dia. Os rumores dos insetos no jardim, o vento a balançar as folhas e a rotina a escancarar verdades.

O ritual da noite capta o silêncio e as horas se fazem de ciclos e o dia amanhece dourado de sol.

As luzes refletem nas letras que guardo no baú – mais uma vez não consigo eliminar os vestígios de sua presença na minha vida – junto da letra da canção que mais gostava.

A voz ainda a ecoar o nome e o tempo – quase nada – a passar diante da vida.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
*imagem: Varya

Das palavras das cartas

Em que asa, em que sol?

“Queria ter o sol só pra mim, tê-lo de forma a dele poder de vez em quando ceder parte apenas a um dos meus amigos mais íntimos” 

Luís Miguel Nava

Edi,

Posso eu te desejar mais do que o sol? Posso eu te desejar mais além do que asas? Devo te confessar que entre tantas conversas com sua mãe, em muitos momentos, nós duas te desejamos sol – nem sei se ela falou sobre isso com você – nos dias em que a notícia ou um telefonema dizia a ela sobre o frio do seu lugar. E em muitos momentos, eu te desejei asas… para que você fosse além das dificuldades que se apresentavam.

Sabe, dias desses, fiquei a lembrar-me da vez que te vi e te conheci… seu olho foi mais rápido do que a porta e alcançou sua mãe na cama. Eu, que já te conhecia de antes, de palavras, de fotos, fiquei ali, inerte, olhando seu olhar de amor para minha menina. Naquele dia, eu quis te tocar e dizer o quanto eu te admirava pelos olhos de sua mãe.

Lembro-me de quando nossos olhos se encontraram, eu já era reverência e logo quando você saiu, o brilho no olho dela foi de importância… Foi ali, que entre uma ligação de Marcelo e sua presença que senti a sensação de pertencimento em sua família. A minha – marido e filho – estavam no estacionamento aguardando o resultado da cirurgia, porque quando ela era frágil – e foi tantas vezes – ela era “nossa”. A gente a fazia forte para guiar você e seus irmãos.

Eu estive muitas vezes presente nas meias-noites em que ela esperava para te abraçar nesse 25 de julho – ihhh, e quanto ela demorava para abraçar vocês em datas especiais – e eu morando quase 15 Km de distância e brigando com o fuso – e sendo amparo ali. Ou parte do desejo dela. Ela era tanto amor quando desligava o telefone que eu movia céus e mundo para estar presente nas datas de 29 de maio, 16 de julho e 25 de julho.

Posso te confessar que você é um presente. Sua amizade é um amparo que me fortalece. Não saberia descrever a importância de sua mãe em minha vida e eu que ganhei ela através de Marcelo – ainda vou escrever sobre isso – tive a presença dela através de você.

Você é o extraordinário da poesia e tão menino dentro desse homem que abraço e te ofereço o sol para os dias frios e asas para alcançar o infinito, porque de alguma maneira ele te pertence… eu e ela já te demos ele de presente em anos anteriores. É seu! Basta pegar!
Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Ph: Cristina Coral

Das palavras das cartas

A vida por um instante parecia laranja.

Havia um céu dourado quando amanheceu. A vida por um instante parecia laranja.

Parece até que o céu está em festa. E devia estar… Descobriram sete exoplanetas no espaço. Eu descobri uma flor nova que se abriu e a manhã era desenhada a lápis.

Escrevi palavras no ar… coube no horizonte suspiros de encantamento quando acordei.

Falei sobre o tempo com as meninas que sempre me acompanham na rota do trabalho. Falaram da chuva que cairia segundo a previsão do tempo.

O mapa visto colorido fica tão bonito.

Pensei em quantas palavras você diria.

Senti fome dessas palavras e das coisas que a manhã trazia em outros tempos. Desejei viajar nas histórias que você me contou e caminhar pelas calçadas segurando suas mãos. Tem dias que o sonho beira a realidade.

Tive de viver o caos dentro das horas e cantei para o vento, você.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
©️Aleah Michele 

Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta ao meu amor da vida toda.

“Eu disse que ele viria, nasceu!
E eu nem sabia como seria
Alguém prevenia: filho é pro mundo
Não, o meu é meu
Sentia a necessidade de ter algo na vida
Buscava o amor das coisas desejadas
Então pensei que amaria muito mais
Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada
Me sentia como a terra: sagrada
E que barulho, que lambança
Saltou do meu ventre, contente, e parecia dizer: É sábado, gente!
A freira que o amparou tentava reter
Seus dois pezinhos sem conseguir
E ela dizia: Mas que menino danado!
Como vai chamar ele, mãe?
“
Emicida

Filho, eu te chamei de Lauro Rodrigo, porém, mas do que seu nome composto, logo quando nasceu você era meu bebê… Depois, vieram os diminutivos – que aos olhos de quem ama é a expressão do amor. Você foi duas sílabas – rg – , foi Laurinho, zé das couves, John Play e é filho sempre. O tio, para os primos pequenos, o amigo que acolhe, o torcedor que sofre e empurra o time preferido, a voz em defesa dos animais, o homem que sonha e o nosso menino sempre.

Eu sempre achei que tinha essa doce carga de ser mãe. Antes de você, eu tentei duas vezes. Então, posso dizer que você foi o milagre das preces atendidas. E eu, que fico presa nas datas especiais, nem escolhi o dia 22 de julho. E como na ansiedade das esperas, você antecipou um mês a sua vinda. Um leonino que chega chegando. Era para ser agosto, o mês. Mas, com sua vontade de nascer, rompeu barreiras como se dissesse que pode fazer isso o tempo todo: Se eu nasci um mês antes do prazo, posso ser o que quiser. E pode!

Como se conta 34 anos em uma carta? Como se diz eu te amo nessa lonjura que nos afasta? Há uma semana e meia atrás, eu ouvi a palavra mãe sendo chamada de novo. Um barulho de chave no portão e sua voz ecoando na brincadeira com os cães.

E justificando esses momentos, guardei tudo em um potinho para abrir nos momentos de saudades. Parece que mãe sente saudades o tempo todo. Mãe sente medo o tempo todo e mãe tem coragem o tempo todo. E traz nas mãos sempre o rosário da fé, as orações na ponta da língua e o agradecer imensurável de quem foi atendida.

Se como artesã eu pudesse te bordar, te faria igual, porque a tenacidade e força que você carrega – mesmo duvidando dela, às vezes – é tão forte que ultrapassa a ciência. Isso, quando você era apenas o menino que saiu de dentro de mim e me fez a mais feliz das mães.

Te abraço dentro de minhas palavras nesse dia que não marquei, mas que ficou tão marcado em mim. O seu dia. Dá uma olhada na agenda que te enviei no seu dia. Antecipei um ano dentro de nossas vidas e se adivinhei o tempo de agora lá atrás, devo confirmar a teoria de que mãe sabe das coisas.

E sabe o que mãe é, filho? Mãe é asa o tempo todo, é colo o tempo todo e é casa o tempo todo… Então, como um filho nasce de Mãe, e sabe que se precisar, ele sabe sempre o caminho de volta e funciona como se nunca tivesse ido.

Feliz Aniversário em todos os seus dias sempre!

Te amo muito <3

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta direcionada para a esperança.

Mana,

minha caçulinha, eu ainda era menina e me lembro do dia que você nasceu. O céu era tão azul que eu cheguei a pensar que ele só tinha essa cor porque você tinha nascido. Todo mundo comemorava a Copa de 70 e eu e nossos irmãos comemorávamos teu nascimento.
Você não sabe o quanto te amo e o quanto te desejo o bem. Nas tuas escolhas, na tua vida, na vida de teus filhos.
Queria poder com palavras traduzir e talvez até consiga, mas ainda assim, acho que serão pequenas as dimensões que elas conseguirão passar.

Hoje, minha carta é escrita com toda esperança que existe em mim na sua cura e do nosso irmão Messias. Sei que essa máquina de hemodiálise será apenas um atalho e logo o transplante virá.

A vida é tão leve – assim como a água – e que ela seja vivida ao máximo. A umidade que precisamos ter seja em um copo com água ou na atmosfera do ar é apenas um agravante para que possamos dar valor ao que temos.

Que esse dia, minha irmã, seja de alegria em seu coração, mesmo que seja simplesmente por ter acesso a uma máquina de hemodiálise – há tantos e muitos que ainda nem tem – e que você valorize o instante. O agora.

Te amo muito. Você é minha caçula preferida… ops, é a única!

Feliz Aniversário!
Te amo muito.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Caso perca uma pena de sua asa…

Querido Jean,

Eu devia dizer que guardo uma aqui? Dia desses quando estava a caminho da fisioterapia, me deparei com um olhar atento a mim… Confesso que meu riso se abriu para logo em seguida a saudade me abraçar. Vi um rapaz que parecia demais com você e ele riu, me acenou e meu coração acelerou.

O cabelo, o olho e a voz… foi como se um sopro de esperança me tocasse, para logo depois, a sensação da realidade me atingir mais forte. Não sei se meu olho captou apenas a saudade, mas o moço, parado, no ponto de ônibus acenou enquanto o veículo seguia seu rumo. Lembrei-me de que você é apenas essa saudade que faz meu coração doer.

Enquanto eu tentava segurar as lágrimas – porque será que a gente tem vergonha de chorar em público? – fiquei lembrando das últimas palavras que trocamos, do momento em que nos aproximamos tanto e de como a canção do Charlie Brown Jr nos uniu em algum momento…

Mas pra quem tem pensamento forte
O impossível é só questão de opinião
E disso os loucos sabem
Só os loucos sabem
Disso os loucos sabem
Só os loucos sabem

Confesso que muitas vezes, a data de hoje me chateia… queria riscar do calendário e apenas dizer que te amo infinito, além desse tempo e espaço que os humanos sabem… porque os anjos só entendem de amor e esse amor meu por você, é incondicional. Guardo sempre uma pena aqui, caso perca uma da sua asa.

Te amo,

Mariana Gouveia