Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para Antônio.

Antônio, meu amor,

Muitas vezes, eu quis chamar você assim e mentalmente já fiz inúmeras vezes. Queria que soubesse que quando descobri que você crescia dentro de mim, a minha vida mudou completamente. Descobri que eu não seria mais sozinha e mais tarde descobri que eu estava enganada. A solidão de ser mãe é muito mais doída do qualquer outra.
Os meses foram passando e você antecipou sua vinda… Tudo foi tão rápido e ao mesmo tempo, tudo tão lento. Eu ouvi seu choro ecoar na sala de operação e logo depois, o silêncio.

Hoje seria seu aniversário e também é registrado em um documento como o dia de sua partida. Você viveu poucas horas fora de mim e deixou meu coração faltando uma parte. Como eu conto esses 38 anos de ausência? Como eu falo desses anos que não te vivi?

Sai do hospital sem você, com meus braços vazios e apenas com a lembrança de seu rosto na memória. Conheci outras mães que viveram a mesma situação que a minha e isso me trouxe consolo em alguns momentos. Eu era mãe de um filho que não veio para casa

Sabe, meu filho, de vez em quando me pego pensando com que você pareceria e o que estaria fazendo. Olho na rua para algumas pessoas e penso que poderia ser você. Que time você torceria, qual música te tocaria no coração e como seria você apaixonado… Essas coisas me fazem sentir você perto e assim sigo meu sentimento de mãe.

Queria que soubesse que você foi muito amado e aguardado e mesmo não tendo podido viver muito, as poucas horas que tive você em meus braços me fez especial, no sentido de ser mãe.

Hoje, eu quis falar com você e dizer que de uma maneira ou de outra fizemos diferença na vida um do outro. Não sei quanto tempo é possível essa espera, mas sei que um dia irei te abraçar e completar essa parte do meu coração que está com você.

Te amo infinitamente,

Mariana Gouveia

8 comentários em “Carta para Antônio.

    1. Muito Obrigada, Ana! Já fazem 38 anos e parece que foi ontem. O tempo cura tudo, como dizem os poetas. A vida repetiu o mesmo gesto comigo duas vezes. Mas, me deu um filho que é meu orgulho também. Abraço carinhoso.

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  1. Essa carta me arrancou lágrimas. Impossível imaginar o tamanho de uma dor como essa. Como todo verdadeiro artista, você transformou cicatrizes em poesia. Obrigada por compartilhar esse texto tão tocante conosco, Mari ❤️ Desejo muita força para todos os seus dias!

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