Geral

Beda –  Sou peixe, a água é meu lugar.

Ph: Kurt Arrigo

“Um espírito livre não cabe nas gaiolas de um corpo domesticado”.

Às vezes a gente volta pra gaiola. Pra padrões antigos porque parecem seguros e são conhecidos. Às  vezes o medo da vida, de soltar a ilusão do controle fala mais alto. Mas a volta nunca é no mesmo lugar e, talvez por isso, lá no nosso íntimo, se permitirmos a abertura do coração, a gente reconhece e faz o movimento para o novo salto.
Tenho re-conhecido minhas águas e permitido que elas corram livre. E tem sido ali, com as mulheres  de maior idade que eu, que tenho recebido o sábio acolhimento delas pra fluir esse mar de emoções que também sou. E tem sido lá com as mulheres de menos idade do que eu que tenho remado por águas novas. Permitindo e brincando com minha autenticidade, luz e sombra, camadas e mais camadas. E sim, minhas águas compõem esse oceano infinito por onde tenho remado. Tem sido com o cuidado amoroso da Ana que me permito transitar em ser água e barco, onde me lanço e onde me acolho e me dou borda. Onde cultivo o movimento de minhas águas, da mais límpida à mais densa. O barco não navega na terra. A terra é de onde ele sai e onde ele atraca, pelo tempo que decide. É o porto seguro. O mar é a aventura. É lá onde se experimentam tempestades, remansos, ondas diversas, movimento contínuo. E é lindo e potente compor uma tripulação que vai dia a dia aprendendo a remar junto, cada uma a sua maneira e com o objetivo comum de atravessar, seja lá o que for. Não quero temer minhas águas. Quero cada dia mais aprender a fluir com elas. ” Sou peixe, a água é meu lugar”.

Luana Souza
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Seis meses, seis fotos.

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Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
…
Helberto Helder

Bambina mia,

confesso que assustei-me com os seis meses – a pergunta foi: mas, já!! – para logo depois repassar na memória todos os oito meses que já vivemos e morremos. Lembrei-me de que alguns meses foram arrancados de nós, como quem arranca a folhinha diária do calendário. Lembra-se de que em janeiro, dentro dos melhores momentos a gente os seis meses do ano anterior.

Já fevereiro, bambina, em nossas manhãs, o café e o livro de sempre, fazendo com que a rotina fosse marcada pelas conversas, risadas e choros. Os planos e a incerteza de que eles fossem interrompidos e o mês seguinte sendo companheiro da dor .

Sabe aquela frase que alguém sempre diz sobre o tempo? Acho que a gente apenas quis continuar e mesmo abril sendo o mais cruel dos meses – um poeta escreveu sobre isso – a gente riu entre lágrimas e suspiramos no cair da tarde. Acho que viver é isso… um dia e uma tarde de cada vez.

Te contei sobre maio e suas trovoadas por aqui, lembra? E também falei sobre como os caminhos literários me levou até as ruas de França, nas mãos de quem gosta de mim… e a gente aprendendo a aceitar esse vazio, mas também seguindo em frente, porque é o que nos resta fazer.

Junho nos acolheu tanto em saudades como em afagos. Outono passou ligeiro dentro das leituras de outono e quando demos por nós, os meses foram recompostos em escritas e superação. Ou seria apenas o viver um dia de cada vez?

E assim, seguindo um dia de cada vez, degrau por degrau vamos enfrentando essa ausência que nos afeta e nos enche de saudade cada vez que penso no tuo bambino. Confesso que, às vezes, parece que ele está aí e vai entrar de repente na nossa conversa com seu bom dia radiante e sua gargalhada majestosa. Sou muito grata ao universo por ter tido a honra de tê-lo em minha vida. Eu só queria te dizer isto e aproveitei essa carta para tal.
Quero dizer também que estou aqui, sempre… para o colo, mão estendida e todo meu amor.

Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Estrada para domingos.

Ph: Pinterest

Por muitas vezes, eu vi o sangue derramando

nas estradas que cruzei e nos atalhos que tive que tomei para não enlouquecer!
 – era bem mais fácil se fingir de louca nas noites sem Lua!

Por muito tempo, eu quis morar na rua de cima, ao lado da casa laranja e do vô que entendia de sementes.

Mariana Gouveia
Estrada para domingos
Scenarium Livros Artesanais
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das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – As ruas têm a cor das pétalas que douram o chão.

Alguém fez um grafite no muro da rua de cima e a ave sente a mudança da estação. Daqui a pouco será primavera e o tempo ainda insiste em não passar. Amanheceu com vento… e o frio pousou na árvore. Escrevi uma carta mentalmente, um rascunho por dentro que talvez vá para o papel… ,amanhã — se eu me lembrar das palavras.

Às vezes, essas rotinas de escrever são apenas lembranças de um tempo que se foi. Penso no bordado que desenhei no tecido e abandonei sobre o criado mudo. Entre as linhas coloridas que vão criar os matizes do voo do pássaro e as agulhas espetadas à espera de minha vontade — ou tempo — no bastidor.

Sinto uma tristeza amena, curta. Como se a sombra saísse do anonimato e se tornasse personagem principal de uma manhã insólita.

Enquanto isso as Pétalas voam na rua…


Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – quase além da maresia…

ph: vmestresantana

Quando abri a janela, ouvi poemas nos teus olhos… Era quase além da maresia, enquanto o dia trazia rumores estranhos para a alma. Eu também queria… queria essa estrada e logo atrás da curva teu riso de toda manhã desenhando meu banho. Queria essa umidade toda retratada em versos das lembranças que guarda em tua memória. – Enquanto você responde alguém que o caminho é o coração. Sou quase essa inundação de oceano. Sou marítima de ave que você vê e nega pouso. Tem dias que tenho mil perguntas que você não respondeu nas minhas noites. Tenho regras que você cumpriu, enquanto o que me movia era as regras quebradas. Tenho lanternas chinesas a iluminar um quintal que antecipa a estação. Tenho essa vontade estampada na ponta do dedo e fico doida em noite sem lua. Os corredores têm a dimensão de infinito quando você tem o veredito final.  Ditam que em um ano você já não será, enquanto em um dia tudo muda. Você ri, esbraveja, chora e mais uma vez usa o corretor para mudar a palavra no ” eu te amo” e o infinito se perde dentro dos séculos quando você em silêncio, apenas murmura o nome. Do amor.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Dos bilhetes nas horas cheias.

É sempre nessa hora que recorro às minhas trilhas sonoras. Apaixonei-me por algumas canções coreanas e elas se misturam as outras que já me salvaram da solidão em fins de tarde.  Coloco no modo repeat para não ouvir o funk estrondoso que vem da vizinha da frente. Um verdadeiro inferno – deusmelivre – e nem se compara ao de Dante.

Teve de tudo no céu do meu lugar: nuvens grossas, esparsas, velozes – levadas pelo vento. E uma chuva fina que trouxe o cheiro petricor para perfumar o meu quintal. O azul predomina enquanto a noite vai se aproximando e o pássaro de todo dia se mistura nas cores das folhas do pé de ipê.

Daqui a pouco, quando o moço da reciclagem passar com sua cantoria, eu já sei que é hora de ligar as luzes porque a noite chegou.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais
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Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – No silêncio da noite as aves não voam.

Ilustração: Ofra Amit

Ria na sorte do dia. Era o ar líquido que trazia a maresia. Nenhum lugar cabe quando no peito o ar, falta. A casa é pequena e perdida para quem não conhece o espaço. Todo voo é cego quando a vida pousa na sorte. No silêncio da noite as aves não voam. Os sons da casa era minha voz rasgando os estuques. Os rumos das viagens em roteiros marítimos. Permaneço onde bate o vento. A simbologia da vida é o toque… [então, não vivo] às vezes, a solidão é esse latido estranho do cão no portão quando vê a ave que beija a flor no varal de roupas. Às vezes, o destino certo é o pouso…, mas, o que nos prende à terra é o medo de voar.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
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Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Catarina voltou a escrever.

Querida Catarina,

lembrei-me de que nunca te escrevi uma carta… logo eu, tão amante delas e mais ainda amante de seu lugar e claro que tinha que vir aqui hoje e brincar de festa…

11 anos traz muitas histórias contadas e emoções refletidas em textos que se eternizaram em forma de revistas. Se eu fosse colocar em termos técnicos você ainda é uma criança. 11 anos traz uma meninice doce, mas como sinto a maturidade nesses anos contados por aí.

Já te disse que amo seu lugar e que a cada visita me aconchego em suas palavras? E que cada texto em que você voltou a escrever me cabe na emoção das palavras. É quase um refúgio onde minha alma busca calma É onde você me leva pela mãos e nossas histórias e memórias se cruzam.

Auguri, Catarina!
Que venham mais 11, 12, 13, 14, 20…

Bacio,
Mariana Gouveia
Ps: quem quiser conhecer as palavras de Catarina o endereço é aqui.

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Chá de camomila, mel e canela…

Bambina mia,

hoje, pouco depois de falar com você fiz o chá, talvez movida pela sua missiva para Heloísa. O vento que esteve aí ontem, mudou-se para cá e arrastou as folhas todas pelo quintal. Um leve sorriso se formou aqui, por detrás do vidro da porta vendo a rebeldia de dezenas de folhas em redemoinho de vento.

Esfriou demais para o meu lugar e os 14º me deixa presa dentro de casa. O quintal sente o sopro do vento e a garoa. Onde já se viu garoar em Cuiabá? Pois bem! Já se tornou rotinas nesses dias de inverno. Sofro com a secura e a baixa umidade, mesmo com essa garoa que cai…

Sorvo mais um gole do chá que não seguiu a sua receita. Como não tenho chás de caixinhas, colho as ervas ao alcance das mãos aqui… Então, ao invés da baunilha, acrescentei a canela. Adoro esse aroma que se impõe sobre os aposentos. Há poucos biscoitos na lata e divido com os cães que se esparrama nos sofás, cabendo a mim, apenas um canto onde me encolho com a manta sobre os pés.

É tão estranho olhar no calendário e ver os dias empilhando uns nos outros e as estações são varridas uma sobre as outras também. Logo já estaremos ouvindo o “então, é Natal‘ nas propagandas e ruas. Como a gente conta esses dias feitos de faltas, memórias e saudades? Talvez, não precisamos contar… eles passarão como um sopro em um dia; em outros, parecerão anos e com isso a gente vai seguindo a rota que se desenha.

O chá serviu ao intento de aquecer o corpo e a alma e me preparo para a rotineira fisioterapia que se tornou íntima de mim. Preferia continuar te escrevendo, mas o relógio me acorda para a realidade do compromisso e sigo rua acima, enfrentando o frio que acontece por aqui. Na volta, preparo outro chá.
Aceita uma xícara?

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Os restos dos dias depois que você nasceu.

filho,

ontem, eu e seu pai ficamos refazendo o dia em que você nasceu… desde às primeiras dores até o momento em que você chegou no nosso colo. Já repeti várias vezes a mesma história e percebi que já era mãe antes de você nascer, mas não sabia nada e assim, fomos aprendendo juntos.

Você foi a primeira vez de tantas coisas em minha vida e te cantei em tantas poesias e livros só para dizer do meu amor. E hoje, no aniversário de 37 anos te escrevo para reafirmar mais uma vez o quanto é importante em minha história. Mesmo longe, é como se nossa ligação lá do útero ainda funciona em instantes de nossas vidas.

Sabe, filho, a vida passa ligeiro e os dias correm… logo já não estarei mais aqui e quero que ao ler as cartas escritas para você sinta o imenso amor que sinto por você depois dos restos dos dias em que você nasceu. Tento descortinar esses dias dentro de poesias que faço e através delas te levo meu amor.

Feliz aniversário!
Te amo!

Mariana Gouveia