Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Eu preciso vigiar a aurora

Junho, 1

Bambina mia,

junho é uma imensidão de lembranças em mim e sei que para você também… e o calendário me traz datas que acendem as memórias. Para mim, as manhãs não aconteciam em azuis e sim em verde e amarelo dos milhos e tinha a fragrância doce dos quitutes feitos para as festas de santo que meu pai tanto amava.

Foi em um 1° de junho que te descobri e também descobri o tuo menino. Saber-te através das missivas que você fez para ele para comemorar o dia dele me uniu à mesma data de meu pai. Depois disso, acredito que o próprio destino foi cruzando nossas linhas, quintais e histórias.

A pamonha que meu pai falava sempre acontecia nos junhos de minha vida. Curau, polenta, canjiquinha e um tanto de infinidades de pratos deram sabor à minha infância. Algumas datas ficam dentro da gente e mesmo tendo marcado um x em dias outros especiais para a gente no calendário o dia fica ativo na memória.

Posso dizer que poucas pessoas tiveram o privilégio que a gente teve. Eu conheci dois homens maravilhosos e um deles foi meu pai nessa vida e o outro foi o homem mais gentil que atravessou meu caminho. Quis o universo de os dois terem nascidos em um primeiro de junho.

Poderia dizer que o privilégio se estendeu porque essa data me trouxe você, então, o dia tem a ternura de abraços e agradecer ao universo por tanto.

Grazie,

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – um cantinho e um livro

Bambina mia,

Dia desses eu vi em um recorte do Instagram onde aonde o moço influencer reclamava dos filhos que largava os livros soltos, segundo ele, por aí e lá ia ele pegando um livro no sofá, outro na mesa da cozinha e em poucos segundos seis livros estavam em suas mãos. Não cheguei até o fim do vídeo porque me incomodou um pai reclamando do filho, aparentemente, por deixar “largado” os livros nos diversos cantos da casa. Ela não iria gostar do meu lugar.

Costumo carregá-los por onde ando e se algo de maior interesse interrompe minha leitura, deixo-o ali, entre as sementes a panelas.. à minha espera.

E quando folgo retomo a leitura ali mesmo, naquele cantinho onde ele ficou me esperando. Em cada cantinho há um livro, ou em cada livro, um cantinho o acolhendo como se também quisesse fazer parte da leitura.

Claro que a maioria se deita na mesa da cozinha e entre os afazeres e outros, um recomeço ao folhear o livro a fome atravessa a vontade de guloseimas…

e me atrevo a saborear os textos e as doçuras.

Mas, no dia da faxina, recolho todos para o cantinho principal deles. Porém, isso não dura muito, porque no mesmo dia, ao alcance das mãos, um livro ganha contornos de leitura pela casa.

Sei que você também esparrama os seus livros pelos cantos de seu lugar… me diz: há algum preferido?


Bacio,

Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das fragilidades secretas

Quando choveu revirou cada canto da casa. As gotas na chuva lembraram as goteiras
da infância. O cansaço abre a porta, faz o chá… verte líquidos. Na mesa da sala, os discos…
Os vinis antigos esparramados entre os poemas antigos, as cartas de tarô. Tudo antecede
a sorte e a vontade da escolha.
O caminho é logo ali, quando escurece, no canto do muro. O café frio na xícara e as cartas
que nunca enviei.
O aroma de bolo vem da casa vizinha — o vento atravessa as cortinas lilases — e traz de
novo as lembranças da infância.
O riso das histórias contadas. As frases dos livros lidos e o pai dizendo que tudo é poema
em uma noite em que as gotas molham as flores e os azuis que enganam os olhos de amor.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves

dos desvios para atravessar os quintais.

Uso a lunação de câncer para traçar as rotas dos desvios para atravessar os quintais.
O baile imaginário no voo do pássaro enquanto um jazz toca na solidão da lua.
Haverá eclipse na madrugada e já antecipo a penumbra da noite. Fecho as janelas e as cortinas balançam com a suavidade do vento.
Leio poesias que alguém desenhou na pele e quase me perco dentro da dimensão dos arrepios.
Havia flores ao longo da rua quando a lua chegou em seu estado real de cheia e nem varal, ao invés das roupas brancas, o amor brinca de beijar a lua.

Mariana Gouveia

Divã

As coisas acontecem nas manhãs de espera

Um vento lá fora, ao redor da árvore, grita. As folhas ruidosamente, gritam. Dentro de mim, o silêncio grita. Esse mesmo seu silêncio insistente que me bate todo dia. Abro a porta e seu vulto que é só um vulto criado por mim, na imensidão de coisas que crio sobre você, brinca de fazer sombra nas memórias todas.
Chegou as lembranças, embrulhadas em papel crepom.
O carteiro ri da minha insensatez – ninguém confessa loucura crônica, moça – no envelope não tem uma só palavra sua. Apenas as sardinhas feitas de louça e a coruja que enfeito com seu nome. Levaram noventa e três dias entre suas mãos e as minhas.
Ficam ali, depois de dias guardadas longe dos olhos, em local estratégico para quando você voltar.
Porque eu sei que você vai voltar. Só assim tem sentido essas manhãs de esperas.
Alguns dias doem mais. É quando tenho recaídas – nome simbólico que minha analista usa em decorrência do desespero de saber de você – acontece em alguma mudança de lua? Ela pergunta.
Não sei – ela anota –
O que sei é que alguns dias doem mais. Principalmente, quando no jardim, principiam flores novas. Sementes que nem plantei e que pela singularidade do dia, eu queria te mostrar. O céu tem borrões de nuvens iguais as que gostava e o vento, avisa que a dor hoje veio para ficar.
A janela é meu refúgio em dias assim.
Na extremidade do silêncio respiro saudades. Revisito histórias que te contei. Vejo fotografias onde ri em um carro que parece de brinquedo. Ali, na fotografia, você ri pra mim. Quase pulo dentro da foto e até pularia se pudesse. A moça de azul não veio hoje, e nem veste mais azul. Reparei na última vez que a vi.
A moça do tempo fala em chuvas, repete os dias que não choveu.
Eu também nunca mais chovi. Nada mais é tão líquido em mim, a não ser a espera.

Mariana Gouveia
*Imagem: Deviantart

Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Enchia a boca para falar a verdade.

A idade, os defeitos.
Tinha a palavra na ponta da língua. Era comum em seu alfabeto.
– Eu não minto – dizia, conservadora entre seu ritual de acreditar na verdade, quando tocou a pele dela, entre os olhos fechados e a boca.
Calou-se diante da verdade. Nunca havia sentido esse toque.
Mas mentiu quando disse que não tinha medo de se perder dentro dessa textura.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações
Cadeados Abertos – Scenarium Plural Editora
*imagem: Pinterest

Divã · O lado de dentro

Exato

Exato
De fato,
o corpo briga,
a vontade chega.

Retrato,
de 3×4
na semana inteira.

Me cato,
restos de pratos na minha cabeceira.

Passei a noite deliciando sonhos…
Exato.

Meu pensamento te trouxe até aqui,
barato,
amor e vinho, uma música em mim.

Extrato
de essência pura,
de uma flor madura,
diria, se não fosse indizível,
eu diria sim…

Saberia
o gosto doce que provoca em mim.

Recato,
olhos pra mãos e penso em tato.
Chego a sentir o amor no ato
e fim

Mariana Gouveia –
Poema do livro O Lado de Dentro – Scenarium Plural Editora
*fotografia: Manel García

das coisas breves

grafite

já não sei começar ansiosa
o voo inacabado do sonho
já não sei escrever o teu nome
nas esquinas impacientes da espera
já não sei afirmar o desejo
em frases pelos muros
(pichei os meus, os da vizinhança toda, do bairro, da cidade)
fui pega com a lata de tinta da mão.
grafitei
grafitei sonhos de esperas e momentos em que minha timidez
me deixa sem palavras
passou o tempo
do tempo parado
num poema cansado de te esperar
eu queria qualquer reação,
o menor movimento
que me desse o leve toque de que o teu nome escrito simplesmente
passa a ser poema.
a ser o que era. Meu
e assim, seguir em frente
escrevendo nos muros
a mesma canção
Grafitei a palavra saudade
e ela se chama você.


Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

das coisas breves

como se o voo do pássaro pousasse

 

Como se eu fosse uma ave presa em tuas mãos
e tu abre os pulsos para me livrar da gaiola

que é tua pele, teu cheiro e eu em tua carne sonhasse
como se achasse a ilha, meu ninho

seu corpo

como se o voo do pássaro pousasse
sobre os sonhos de tua cabeça
e suas asas delirantes
fossem o mapa do caminho que tenho de trilhar

como se eu  fosse o jardim
na tua mão, eu, semente florindo desejos

como se hoje apenas eu fosse a dançarina que povoa vontades  e voasse plena de sentidos

no céu
da tua boca. 

 

Mariana Gouveia

* imagem: Cheong-ah Hwang

das coisas breves

Contradições


e se dizia chão
a ave voava
ganhava céu
.

e se dizia nuvens
o sol surgia
despontava queimante pros lados do leste
.

e se dizia sol
ah, atrevimento da chuva
caia em gotas e escorria peito abaixo
descobria onde desaguar
.

Tão cheia de contradições
já não é mais
.

quando devia ser

Mariana Gouveia
*imagem: Zhana Topchieva