Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tudo é da cor do silêncio.

Já eu, nas horas de esperar as ervas crescerem no quintal, penso que ele é o meu portal secreto – agora já não é mais – para meus afetos. É por onde ando descalça, sentindo o chão e o cheiro de terra molhada. Há três árvores… um pé de ipê amarelo, um pé de jurubeba e um pé de jabuticaba.

Ainda tenho uma trepadeira que é o orai pro nóbis que se enrolou no pé de ipê e solta seus cachos cheirosos no ar. As outras plantas são de pequeno porte e cabem em vasos. O alecrim, que perfuma a tarde, a erva cidreira e o capim santo, a caninha do brejo e o hortelã pimenta, além de vários pés de pimentas.

Durante minhas manhãs, vagueio por ele e é onde as sombras me dão alívio no calor, durante meu trabalho. Tenho como companhia diversos pássaros e insetos, que amam algumas plantas nativas que cresceram aqui e ali, talvez trazidas pelos pássaros ou vento.

Há uma palmeira também, que produz a guariroba – um palmito amargo, mas delicioso – que expande suas folhas nas tardes mornas dançando com o vento. O meu quintal tem a docilidade de se doar para mim e cabe dentro da minha liberdade.

É onde os desvios acontecem e me leva para qualquer lugar lúdico – o seu quintal, por exemplo – e é a noite que ele me veste… e durante as madrugadas insones conhece a cor do silêncio que me atinge e me abraça.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tua tinta aprendeu a dureza do muro.

Já não leio as notícias há tempo. Acho que deixei esse hábito desde a pandemia. O medo dos números de vidas perdidas me assustava. Hoje, no máximo leio uma ou outra manchete que traz as notícias de agora.

Os sites do meu lugar passaram cada vez mais a noticiar os feminicídios e pasme… meu estado é onde mais acontece os casos no Brasil. No projeto que ajudo vejo a realidade bruta, nua e crua… e diante de tanta luta e dor a poesia me salva. É o que tento levar até elas. Você falou sobre a redescoberta de Sophia de Mello Breyner Andresen no Brasil. Suspirei. Lembrei-me da carta que escrevi para ela em 2018, em um projeto da Scenarium.

Como não tenho nenhum livro dela aqui, igual a você, fui aos arquivos buscar a missiva escrita e deixo aqui enquanto sorvo um chá de menta fresca:

Sophia,
Aqui, em uma mesa de canto, nesse café da rua do Meio, te escrevo.

Lembro-me da maneira que chegou até a mim e isso me leva para o cheiro da manga madura que fazia com que a biblioteca da escola fizesse quase parte da merenda. A fruta parecia quase tocável da janela, visto que o pé da mangueira anã resolveu dar o ar da graça ao toque de mão.

E por falar em mãos, foi pelas mãos da irmã Matilda que te descobri – ou ganhei – nunca sei ao certo.

Irmã Matilda era a freira boazinha que todo mundo amava e além de nos dar aula de ensino religioso era a responsável pela aula de leitura na biblioteca da escola.

Entre o exemplar de José de Alencar e parte da Bíblia Sagrada lá estava sua poesia camuflada de disfarce. Devo confessar que foi mais amor provocado pelo olho da freira do que propriamente amor de cara pela sua arte poética e lírica.

A maneira como ela me olhava enquanto eu te descobria nas leituras – parecia que havia cometido um pecado –  era como se partilhasse de um segredo tão dela e agora também meu.

Falou do quanto você a encantava e de onde era. Desenhou em palavras seu lugar, seu país e me levou em pensamentos para além do oceano até seu Portugal.

Depois disso, você se tornou companhia e eu te lia como oração.

Quantos poemas de amor foram lidos em voz alta nos corredores da escola, ou mesmo em apresentações para a família em dia de festa. Ou só, sob a luz de lamparina com sua cor azulada…

Hoje, te busco nos livros que ainda não li. Te encontro nas prateleiras do sebo ou na casa de uma amiga querida que a ama e cultiva tanto de coisas tuas e tudo traz à tona a poesia tua estampada no olho da irmã Matilda que voltou ao seu país de origem e nunca mais se soube dela.

É hora de ir, o café está esfriando enquanto as lembranças me fazem suspirar. O horizonte tem essas cores mistas entre o laranja e o lilás… Meu silêncio interno confronta – se com a correria de fim de dia, passos apressados em direção ao ponto de ônibus… Quase ouço a maresia quando te leio…

“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”

eu, sorvo a delicadeza da poesia no sabor do café. Aceita?

Beijos

Mariana

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tudo cabe dentro das palavras.

Minha mãe dizia que a imagem mais bonita que ela tinha na memória foi quando eu aprendi a escrever as palavras. Lembro-me bem da cartilha Caminho Suave – usada para alfabetizar nos idos anos 70 e lá vai pedrada – onde o a e i o u ecoava em minha mente como mágica.

Bastava misturar as cinco letrinhas com as outras tantas consoantes e lá surgia a frase feita. Talvez, para minha mãe, o fato de estarmos em uma fazenda, com todas as dificuldades para uma escola, a memória de saber que a partir dali, o mundo me caberia deve ter despertado nela a beleza da leitura – já que ela era uma apaixonada por ler.

Ela sempre reafirmava que a gente havia aberto um portal… e lá ia eu me sentir tal qual Alice e seu País das Maravilhas. Gostava da palavra voo, ovo, rumo, viagem e lua. As outras, depois, vieram por consequência… mas lua enchia minha imaginação de imagens que iam muito além do satélite no céu.

E com isso, eu escrevia em tudo que pudesse caber palavras e descobria em cada leitura e em cada palavra que eu podia criar mais de mil. O que se mostrava no céu em noite estrelada, além de uma lua em suas fases, era meu olho de menina escrevendo à luz de lamparina, depois, lampião de que o som dos grilos podia ser descrito em palavras e todo aquele sentimento que fazia o coração acelerar também podia caber em um poema.

Depois, bem depois, eu descobri que haviam outras palavras, que podia significar as mesmas coisas que eu escrevia, mas que eram escritas diferentemente do alfabeto que eu conhecia. E que o eu te amo da minha poesia cabia no I Love You em outro idioma em muitos outros que eu só fui descobrir bem mais tarde.

Descobri também que o encanto de minha mãe era muito mais do que saber que a gente saberia se virar em qualquer situação. Era saber que conhecendo as palavras qualquer lugar nos caberia e as palavras nos levaria ao mesmo encantamento que ela sentira lá, quando a gente descobriu o a e i o u.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

São mil e umas as noites em que não bato à tua porta e vens abrir-me

eu sempre acordo de madrugada… depois que o moço daqui sai para o trabalho às 3:30 da manhã muito raramente deito novamente. Mas percebo que não sou só eu quem espero essa hora estranha, parada no tempo entre o crepúsculo e o desabrochar do sol por traz do muro. Sinto cheiro de café na vizinhança.

Preparo o café, enquanto ando pelo quintal em um ritual de falar com Chiquinho – meu beija-flor – enquanto ele pousa no varal de roupas. Yoshi sempre vai aos meus pés. Quase pisando no meu calcanhar e cheira as coisas que aparecem cheirar ao faro de cachorro.

Já sei os ritos do lugar. O morcego que se envereda na árvore frondosa da casa abandonada da frente, o moço do clube que passa com sua bicicleta amarela assoviando, o gato que rompe o muro e o atravessa como se estivesse desfilando – para a bravura de Yoshi que odeia gatos – e o portão da vizinha que se abre as 5:15 pontualmente todos os dias, e ela rompe rua afora rumo ao ponto de ônibus.

Apago a lâmpada da cozinha e abro as janelas. Se chove, espio a chuva com uma xícara de café na mão e um livro. Se não há chuvas eu pego o regador e molho as plantas retirando as folhas mortas. A manhã se antecipa aos meus afazeres depois de um diálogo com você e em suspenso, o sopro que faz com que meu pensamento vai de encontro ao vento. Fuuuuuuu!

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Voar é humano… é transitório, momentâneo…

Mariana,

Ontem, depois de muito tempo, visitou-me uma sairinha de máscara.
Estava para sair, o tempo contadinho e a coisica veio procurar comida, colo, pouso, sei lá.
Queria ter ficado mais e a despedida foi meio como quem se despede do grande amor sem saber se era grande o suficiente para voltar.
Ninguém entende porque olho tanto para fora, para cima, para dentro: estou sempre esperando esse momento em que algo bonito pouse em mim mesmo que fique só um pouquinho.

NB: ainda preciso falar da cama auxiliar.
Luciane Recieri

Luci,

eu já estava com saudades de você… embora sempre esteja te vendo andando por aí, sendo pouso, conhecendo as ruas de Cuba e fazendo meus olhos se maravilharem com suas fotos.

Gosto muito dessa parte de ser pouso, Luci e de ver voos também e sei que é esse o motivo da gente olhar para dentro, para fora, para cima. Faz todo sentido para nós que somos seres alados.

Hoje, pela manhã, depois de vender os recicláveis para o projeto dos cães, eu lembrei-me de você quando Chiquinho chegou pousando no galho do pé de ipê e suas flores temporãs. Fui podar as plantas do quintal, mudar algumas de lugar, fazer mudas para quem pediu e o voo rasante dele em mim me fez chamar seu nome e repeti várias vezes: saudades de tu, Luci… lembrei-me de Lunna também que não entende a palavra saudade como nós.

Para ela, mi manchi soa melhor e achei lindo o contexto e o significado. Sinto sua falta… e foi daí que comecei a te escrever. Pensei na sua cama de não dormir e de como os embaixos de coisas não acontecem aí. Aqui é cheio de embaixos de coisas. Um dia te conto como são.

Janeiro está voando, Luci e parece que ainda há ontens perdidos em tempos que trazem saudade – olha a palavra aí, de novo – e de repente, o calendário nos mostra que já é metade do primeiro mês do ano e você já viu as ruas e os cães de Cuba e sorriu para seus sobrinhos. Tenho certeza de que, e a partir daqui, eu te copio em ser feliz. Não que já não seja. Mas não é desta felicidade amiúde que eu falo. É bem outra. Ando até a conferir a sinastria, porque acredito que entre as doze constelações, uma combina com a minha. Júpiter teria a ver com sinastria, Luci? Ontem ele estava esplendoroso na madrugada. Sabe lá, o que Júpiter nos reserva?

Recebi hoje algumas esperanças. Me deram sonhos antigos por ordem de importância, não data. Logo eu, que sou tão ligada em datas. Essa carta eu não vou usar os carteiros, Luci. Não haverá selos para ela. Por que amor, segundo minha mãe me disse um dia, antes de morrer, não tem selo. E hoje, eu só queria dizer que mi manchi

Beijo meu,
Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

O decanato da pele – a sua –

Ph: Omerika

Há coisas que as previsões

não conseguem prever

Outros toques, outras cartas
Atrás das sílabas o monólogo

era um meio de solidão.

Os retratos e suas datas

dando contornos para a numerologia

A toalha de mês, de cetim,

volatiza a memória que guardei…

As estrelas, todas de carreirinha

— três marias —

De repente, na previsão, a minha pele
Tatuagem de minhas mãos nas suas.

Mariana Gouveia
Coletivo O signo da pele
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Com o tempo a gente se despede das coisas conhecidas.

Ultimamente, me tornei mais uma pessoa de caminhos… uma desculpa para espiar o bairro que moro e parece mudar cada dia e levar Yoshi para sua caminhada rotineira. Vou sempre pela manhã, quando o sol ainda não está tão forte.

Sempre levo como companhia minha câmera para registrar momentos que encontro em cada esquina-calçada-rua-postes… Não é raro me deparar com tucanos – vide foto – com araras e até pica paus. As flores, das mais variadas sempre me rendem mudas e novas amizades.

No sábado, caminhada é mais rápida e sem enrolação. Sábado é o dia das infinitudes do meu quintal e de lavar roupas, fazer faxinas… essas coisas comuns de dona de casa. Os afazeres tomam conta do meu dia e só no fim do dia é que me atrevo a escrever qualquer coisa ou vagar pelo quintal, enquanto a gente conversa.

Do meu cantinho vejo a lua, as nuvens se derretendo para o sol e hoje, se der certo, Júpiter estará brilhando mais perto da terra. Vamos ver?

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Os teus olhos de repente, viram-me, pela primeira vez

Quando vi você falar sobre Susan Sontag, uma imagem se passou como um filme em minha cabeça. A nossa primeira vez. Pera lá! Para não confundir ninguém, falo sobre a primeira vez que trocamos olhares, abraços e cuore.

A gente já se falava via mensagens e de repente, lá estava você, no saguão do aeroporto, com sua boina inconfundível a me procurar entre os passageiros que chegavam, ou seria o contrário? O abraço primeiro parecia continuação de algo que havia sido pausado em outros tempos. Ou parecia que tudo era como se já tivéssemos vivido antes aquele instante.

A gente dá muita importância para a primeira vez. Para mim também ficou marcado aquele momento como o primeiro, mas eu poderia enumerar cada outros primeiros momentos e adivinha? A gente vivenciou tanto aquele abraço, as primeiras falas interpelando uma na outra que não houve registro e só percebemos isso quando eu já havia ido embora. Tanto que a foto do post já foi na segunda vez, que para nós foi a primeira de novo. Coisa nossa.

Inventamos um desvios entre os quintais e um voo entre pássaros. Eu andei pelo seu bairro e te mostrei o meu e a garçonete do bar fez meu café com seu nome e o roteiro das ruas com nomes indígenas possuía ligação com meu lugar. Era dessa primeira vez que a gente falou? E quando em tantos momentos últimos a gente estendeu as mãos no maior sentimento que a vida pode dar. A amizade.

Por que rente aos primeiros momentos de cada manhã, andar pelo quintal e falar com você é sempre como a primeira vez.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar.

Hoje a tarde o pássaro gigante veio de novo e lembrei-me de você. Lendo seu texto e seu vagar pelo quintal, veio a memória o alma de gato – esse pássaro – que se pousar não cabe na minha mão.

Tempos atrás ele pousou ai no seu quintal e cantou. Ainda lembro-me dos nossos diálogos em torno dele. O cão daqui estranhou esse menino grande no galho da árvore e latiu. Não fosse pelo tamanho, mas pelo canto dele que lembra um miado de gato. Por aqui, voam sempre em dois… mas consegui fotografar um só.

Você sabe que minhas mãos sempre se transformam em pousos para os que voam… às vezes, até eu fico encantada e não me acostumo. Mas, não imagino de maneira nenhuma um pássaro desse tamanho pousando nelas. Por enquanto, já fiquei feliz com a volta deles nessa tarde intensa de calor.

De Susan Sontag conheço o que você me apresentou e me aliei a liberdade dessa mulher incrível que desvendei através de seus olhos e de suas palavras. É engraçado como voar e pousar tem tantas dimensões entre as esquinas que nos encontramos.

Grazie por isso!
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Nos meus olhos, acumulam-se esquinas…

As minhas esquinas somam poucas e as maiores são as que ficam ao lado da floresta ou do curral. Nasci nessa casinha da foto, lá em 1965, no friorento dia 1º de julho. Até meus 12 anos, eu conheci como a palma da minha mão cada cantinho desse lugar.

Depois, mudamos para a cidade que era tão pequena, de poucas ruas transversais e uma praça onde ficava a igreja matriz. Minha casa ficava no meio da quadra, com alpendre e calçada alta e grandes janelas de madeira. Logo o destino nos fez mudar de estado e minha casa passou a ter varanda ao redor da casa toda e um rio que serpenteava a estrada. A natureza batia na minha janela todos os dias.

Cuiabá me conheceu aos 15 para 16 anos. A casa que eu não conseguia chamar de minha tinha a rua acima da porta e foi onde perdi minha mãe. Logo após a morte dela, conheci a casa onde aprendi a entender o novo mundo que me fora apresentado. A porta de madeira tinha chaves pesadas e janelas com trancas. A cidade grande me engolia e engolia meus sonhos. No quintal, plantei uma horta e criei meus irmãos menores. Meu filho nasceu no hospital que ficava a poucas esquinas da casa.

Foram dez anos ali, entre as esquinas de um bairro que eu sentia que era meu, das esquinas que eu sabia de cor pelos nomes e elas me levavam para o programa de rádio onde eu conseguia voar através das ondas. Até que cheguei aqui… onde a esquina fica a duas casas da minha e o quadrante do muro me traz visões de voos deslumbrantes e de luas em todas as fases.

O que sou aqui tem toda uma trajetória de todas as esquinas percorridas e vividas. É a rua que me acolheu e o lugar onde meus desvios sempre me trazem para a rota certa.

Mariana Gouveia