O voo cego. O pouso em qualquer canto.
A gaiola dentro das entranhas, prendendo a liberdade de respirar.
A falta não respeitando lembranças.
Objetos que são marcas que ela deixou.
O sentido da vida na posição morta.
O mapa sem rotas certas.
Apenas a falta.
Havia um jeito de ave no meu peito.
O voo cego. Sem ninho para pousar.
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das quatro estações.
Scenarium Plural Editora
Projeto Fotográfico 6 on 6 | calendário particular.
Nossa, você reparou que já estamos em Julho e que os seis primeiros meses viraram folhinhas arrancadas do calendário? Talvez você diria: Ainda bem! Mas, os dias voaram e em meu calendário particular os meses se desenharam em instantes que vou tentar mostrar aqui em fotos.
1 – Janeiro e o iluminar das lanternas chinesas.
Meu pé de lanternas chinesas brotou com as chuvas de janeiro e floresceu trazendo ao meu quintal o colorido das flores.

2- Fevereiro e a viagem ao mundo do circo.
Com alguns dias de folga viajei para uma cidade próxima – Tangará da Serra – para rever meu irmão, sobrinhos e cunhada que trabalham em um circo. A alegria de estar junto deles, a arte circense apresentada por eles e a viagem deliciosa tornou o mês bem especial.

3 – Março – os encontros que não couberam em uma foto só.
Como se adivinhasse o tempo que viria a ficar sem abraços, Março foi o mês dos encontros e reencontros, onde o amor foi firmado entre risos, colos e amizade.
4 – Abril – susto, vírus e pandemia.
Abril foi um devorador de paz. O mundo estava parado, o tempo era outro e por motivos pessoais, fui obrigada a viajar para meu estado de origem. Os dias em hospital, máscaras, noites sem dormir e a sensação de que estava vivendo em um livro de terror.

5 – Maio e suas nuances da quarentena.
Maio não coube em uma só fotos e teriam outras tantas diante dos momentos difíceis e o isolamento me fez mais dentro dos muros, a vasculhar o quintal e aspirar o vento, embora com o coração cheio de dor pelas vidas – já de quem amava, gostava e de pessoas próximas – fui lua, aves e flores, como uma forma de acreditar que tudo isso passará e novos dias virão.

6 – Junho e perdas e ganhos.
A vida brotou em toques, nascimentos e também de partidas duras. Junho foi presságio de comemoração, de lamento, de faltas e de aproximação. Ainda é tudo tão duvidoso e as palavras que ganham espaço aqui é lock down, isolamento social, números, voos, pousos, onde o aconchego do coração é o instante leve pela manhã. De meu lugar, vejo que aqui em minha cidade o medo impera, mas em alguns, a impressão é de que não existe pandemia.
Se puder, fique em casa e se tiver que sair, use máscara, lave bem as mãos e aspire o ar. A vida é tão fugaz que nem percebemos os dias que passam.
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora
Participam desse projeto:
Alê Helga— Darlene Regina — Obdulio Nunes Ortega
Isabelle Brum — Lunna Guedes
Costuras
Costuro as pontas dos dias nos olhos do pássaro de todo dia, que depois de uma – mais uma – briga pelo espaço chega sem penas no rabo. Mas voa com pose, de quem sabe costurar com o bico, o ninho.
Costuro o bordado no tecido enquanto ele me espia do varal e meu olho viaja para dentro das lembranças do tempo em que minha mãe costurava a colcha com o que sobrava dos tecidos das costuras que fazia e dos retalhos pequenos aproveitados no giramundo para segurar os filhos na arte.
Observo a costura do livro Lua de Papel III, que releio pela terceira vez e aspiro a destreza da artesã que transforma sonhos com papel, palavras e cetim e as memórias ecoam em poemas, poesias e arte dentro do que se pode costurar.
A vida é esse instante tão pequeno que passa feito voo de beija-flor ou linha entre um tecido e outro, uma agulha e o papel, um ponto arrematando o dia que aconteceu.
Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor.
No bico do beija-flor beija a flor…
Ele chegou até a mim em um dia frio, quase igual a hoje, há 10 anos atrás.
Caiu do ninho feito no meu xaxim de orquídeas e nem percebi que ali tinha um ninho. Era meu aniversário e embora ele não tenha nascido nesse dia, é nele que comemoro os nossos aniversários.
São 10 anos ele aqui, entre os quintais vizinhos e o meu.
Ele conhece os desvios para atravessar os quintais e vir pousar em minha mão. Dei-lhe o nome de Chiquinho e ele atende quando o chamo… Vem, voa, e mora no pé de algodão, com rasantes nos pés de ipês e nas flores que plantei para ele.
Dorminhoco, não pode ouvir @mariagadu cantar Dona Cila que vem pousar na minha mão. É um dos meus amores e possuidor da liberdade que encontrou aqui.
Nos seus milhares de voos, pouso e beijo.
Feliz aniversário para nós dois!
Mariana Gouveia
No bico do beija flor beija a flor.
Eu era a estranha perdida
Parada na manhã, no meio do nada.
Caótico trânsito dentro de mim.
Eu era a estranha perdida e ninguém conhecia.
Vozes me indicavam a direção.
Rumo a lugar nenhum.
Não sabia o endereço, nem conhecia nada além do corpo dela.
A mão, pedia toque.
Sobrava solidão nas estrelas.
E a vontade exagerada no olhar.
Foi assim que amanheci em tua roupa.
Cheiro de pele molhada.
Cheiro da chuva que vi escorrer na calma
de uma manhã onde desejei ser vidraça.
Mariana Gouveia
*Fotografia: Facebook
Sabe o que é saudade?
Recaí.
Entrei sala adentro repetindo várias vezes a frase que evitei tanto nos últimos dias. Recaí.
De novo não resisti ao vício que ela causa em mim.
Ela anota. Me olha como se precisasse de explicações e explicações eu não tenho.
Respiro para a sonolência das horas e repito. Recaí. Fui em busca de seiva da flor, como se disso dependesse para eu viver.
Primeiro busquei o objetivo lógico da saudade.
Sabe o que é saudade? – pergunto – e não obtenho resposta.
Despejo palavras como se fosse uma ampulheta do tempo e se eu não falar logo, morro.
A falta dela é cronológica em mim. É como se eu sempre vivesse com ela e para ela.
Sem ela as palavras são vazias e se perdem. Onde ir buscar alívio para esse vazio?
Falo sozinha sobre o tempo. Sobre as coisas do meu quintal. Sento perdida no meio do nada.
E por um momento, eu só queria ouvir o silêncio dela, do outro lado, de algum lugar qualquer, do oceano, do outro canto, da outra parede.
Eu só queria contar sobre esse ópio que me provoca quando olho no jardim e a papoula segue seu destino de planta e ganha vida no meu inverno. Logo terei a flor para registrar.
Comecei conversando com a semente. Ajeitei o vaso, fiz poemas com elas e as plantei.
Durou sete dias e germinaram em prosa, dentro de mim.
Todos os dias o aguar o fio verdinho que desponta e que com o passar dos dias, ganha jeito de flor. E com isso, conto os dias na sensação plena de que ela não está ali. A sensação da falta é alucinante. Tal qual o vício do meu amor. Porque é isso que sinto por ela. Essa abstinência que ela me causa e provoca alucinações no peito. Reviro todo o jardim. Reconto os dias e o calendário acusa o tempo sem ela.
Era isso que eu queria falar e por isso, recaí na loucura de não segurar o meu amor.
Saio sem rumo em direção ao abismo que essa saudade me causa.
Sabe o que é saudade?
Ela anota e diz:
Sei. Todos os dias eu morro disso.
Mariana Gouveia
Fotografia: Anna O. Photography
Ela era todo sabor

A porta entreaberta denunciava o que estaria por vir. Tocou lentamente nos sonhos. Era um costume antigo. Desnuda diante de si mesma, ela sentia-se bem. Enquanto tocava-se imaginando não imaginar nada, absorvia uma cumplicidade divina emanada pelo silêncio.
O vento estragara a possibilidade de um deleite ainda mais profundo na frente do espelho. Os pelos arrepiados pelo auto prazer reverenciavam, aos poucos, a pele sedosa que protegiam.
A calcinha estava bem confortável. Os detalhes em miçangas e um bordado especial nas extremidades do tecido davam um toque de requinte ao que se bastava.
Havia fogo escapando pela pele. Abaixou-se vagarosamente, Respirar.
Numa parte do sonho ela chegava. Havia ocupado a porta e o vulto era apenas reflexo sentido. Não apagou nenhuma luz, tampouco as chamas de si. Ao mesmo tempo em que experimentava o tato do prazer materializado em líquidos claros e consistentes, puxava o próprio cabelo, de maneira suave, punindo-se pelo desejo do orgasmo solitário mas junto com ela.
As cortinas iam de um lado para o outro. O vento que soprara rangendo a porta dança, ao passo que ela faz-se de violão: dedilha e escorrega, onde as notas musicais são expressas pelos gemidos tímidos em lá menor. Todo o corpo reage ao testemunhar seu momento sublime. Os suores percorriam as curvas suculentos e rebolavam sobre as curvas dela. Contração total dos músculos: cruzou as pernas tentando prender para dentro todo o gozo do qual fugia há anos. Não conseguiu. Fora de si, ela continuava lá. Mas a inocência não estava mais nela.
Entorpecida por todo o ocorrido. Logo depois tomou o banho mais leve de sua vida, colocou a mesma calcinha que usara, repôs o vestido de bolinhas verdes que ela adorava. Ela era todo sabor… E ainda é.
Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Projeto Fotográfico 6 on 6 — Através da minha janela, eu vejo!
Da minha janela, os dias se escrevem com asas.

Tão logo amanhece – muitas vezes antes dele amanhecer – eu recebo a visita de Chiquinho – meu beija-flor – e minhas janelas se enfeitam com seus pousos e voos rasantes. O dia começa determinado em asas e cantos.
Das minhas janelas tenho a visão do quintal todo que é composto de dois pés de ipês – um rosa e outro amarelo onde os pássaros fazem festas, um pé de algodão, a caixa com ervas, a escada que leva ao telhado, a moita de maria-sem-vergonha para as borboletas e um céu imenso, colorido de cada dia com suas nuvens parecendo potes de algodão.

Também vejo os varais onde estendo as roupas e disputam atenção com os cambacicas – os quais chamo de intrusinhos, pois roubam a água de Chiquinho – e transforma o quintal em uma luta por espaço.

Com o olhar estendido, além dos muros, a mangueira soberana do quintal da casa de frente tem me proporcionado visões que eu não imaginaria, nesses tempos de quarentena e que se tornaram rotinas: tucanos que colorem a minha visão através da janela.

Para além das laterais, meus olhos vigia o céu, com suas nuvens e quisera eu não ter os telhados vizinhos que me podam algumas visões depois do sol nascer e também dele se por. Seis fotos são poucas para que eu traduza o que meus olhos veem através de quatro janelas pequenas, com grades entrelaçadas. Ficaram de fora as libélulas, os hibiscos, as lanternas chinesas e o trevo de quatro folhas de três espécies diferentes. Além dos bem-te-vis que roubam a comida dos cães.

Mas eu não poderia deixar de colocar a lua, que lindamente em suas diversas fases atravessa o céu do meu lugar e se acomoda entre os hibiscus mutabilis como se buscasse moldura para enquadrar sua beleza.
Foram seis meses, onde sob o olhar e direção de Lunna Guedes, da Scenarium Plural Editora compartilhei fotos que retrata parte de minha vida, do meu lugar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora
Participam desse projeto:
Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega
As borboletas nascem pela manhã.

Eclipse lunar e o quintal se prepara para o nascimento. A mudança acontece de dentro para fora e as sombras refletem as asas que logo voarão e alcançarão a liberdade.
A flor da pele, o brilho e a dor da metamorfose, porque as transformações são necessárias.
O que é frágil se fortifica no inesperado.
As borboletas nascem pela manhã.
Mariana Gouveia
Projeto: Na rota das borboletas – do voo ao pouso.
Pai,
Pai, mais uma vez venho aqui, nessa data dizer do meu amor e consagrar seu dia. O abraço eu queria dar pessoalmente, mas a distância é sempre esses 730 km de estrada entre a gente. O céu amanheceu bonito aqui e no seu mês, me permito falar das borboletas – lembra como desde cedo eu corria atrás delas? – e aqui no meu quintal, parece desvios delas rumo aos quintais. Aparecem tantas aqui, que algumas já fizeram morada no pé de mentrasto.
Pois é, pai… Eu consegui plantar mentrasto, que descobri ser a erva de São João e as borboletas amam as florzinhas que, na minha infância faziam parte dos chás curativos. Ali também tem as flores do campo e a erva cidreira… Devo te lembrar que tudo isso me leva ao senhor. Muitas vezes, eu planto algo só por me remeter ao tempo em que vivia sob seus cuidados. Hoje os tempos são outros e embora sua lucidez esteja preservada, você não entenderia os tempos de agora. Por isso, é bom te ver nas chamadas de vídeo apenas rindo ao me reconhecer ou simplesmente me emocionar com teu silêncio.

A vida te faz forte e assim, vamos seguindo dentro dos dias.
Feliz aniversário, pai!
Te amo!
Mariana Gouveia







