Das palavras das cartas

Pai,

Pai, mais uma vez venho aqui, nessa data dizer do meu amor e consagrar seu dia. O abraço eu queria dar pessoalmente, mas a distância é sempre esses 730 km de estrada entre a gente. O céu amanheceu bonito aqui e no seu mês, me permito falar das borboletas – lembra como desde cedo eu corria atrás delas? – e aqui no meu quintal, parece desvios delas rumo aos quintais. Aparecem tantas aqui, que algumas já fizeram morada no pé de mentrasto.
Pois é, pai… Eu consegui plantar mentrasto, que descobri ser a erva de São João e as borboletas amam as florzinhas que, na minha infância faziam parte dos chás curativos. Ali também tem as flores do campo e a erva cidreira… Devo te lembrar que tudo isso me leva ao senhor. Muitas vezes, eu planto algo só por me remeter ao tempo em que vivia sob seus cuidados. Hoje os tempos são outros e embora sua lucidez esteja preservada, você não entenderia os tempos de agora. Por isso, é bom te ver nas chamadas de vídeo apenas rindo ao me reconhecer ou simplesmente me emocionar com teu silêncio.


A vida te faz forte e assim, vamos seguindo dentro dos dias.

Feliz aniversário, pai!
Te amo!
Mariana Gouveia

7 comentários em “Pai,

    1. Obrigada, Obdúlio! As pintas nas asas funcionam como nossas digitais. Cada uma tem sua forma definida. O que percebi aqui, no meu “borboletário” é que elas vem deixar os ovos justamente onde nasceram.
      Meu pai é meu herói da resistência! De uma leveza de alma, mas também de uma força única.
      Todos os anos, desde que eu me lembre, no aniversário dele, escrevo uma carta para ele. Encaminho para a rádio favorita dele e o locutor lê a carta. Somos ligados nessa emoção. abraços

      Curtir

      1. Maravilhoso, Mariana! Fico orgulhoso em termos na Scenarium uma escritora tão fortemente ligada à Natureza. A maioria, me parece, são urbanos. Mas o melhor de tudo é a sua força narrativa. Abração!

        Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário