Literatura · Lunna Guedes

A Independência da Solidão e as Telas de Hopper

A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem, já dizia Ralph Waldo Emerson… Fiquei imaginando aqui que observar quem folheia a vida sem o cuidado de deter o olhar nas entrelinhas é um exercício que exige uma paciência sem tamanho, e a gente sabe que, muitas vezes, isso nos falta. Há uma pressa nos tempos de agora que avança rápido demais pelas páginas dos dias, transformando o silêncio e as sombras em espaços de desconforto. Ouço o relato sobre esse falso leitor que recusa Modigliani e passa por Hopper sem notar o frio, as ruas vazias ou o homem alienado na janela, e imediatamente compreendo que a verdadeira leitura é um ato de permanência, um território sagrado que a maioria das pessoas tem medo de habitar.

Passo por lugares e pessoas que parecem ter saído das telas de Hopper: elas nos devolvem as nossas próprias perguntas, escancarando aquela solidão urbana que nos obriga a olhar para dentro, para o verso da nossa própria pele. Enquanto o mundo lá fora prefere o barulho das conversas inúteis e os diálogos servidos em bandejas imaginárias, a escrita me ensina a buscar a doçura da quietude. Para mim, o zunido das abelhas nas flores do quintal sempre terá mais importância e ritmo do que as opiniões sinceras de bocas nada santas que se espremem nas tardes aquecidas. É preciso manter a independência da própria órbita, mesmo quando estamos emparedadas num canto do ambiente. Já falamos sobre isso algumas vezes.

A xícara vazia só nos cabe na pergunta que você me faz sempre: vai um café? E rimos da pessoa que pergunta se, mesmo com o calor do meu lugar, eu ainda bebo café quente. É quase como comentar que quem mora no frio não pode beber nada gelado. A gente só ri porque sabemos que o tempo de pouso da palavra tem o seu próprio compasso. E algumas perguntas infundadas devem ficar vazias de respostas. No meu quadrante de terra, a solidão acontece no canto da vidraça onde a borboleta pousa esperando a hora certa de voar. Isso sim é o impacto do espetáculo invisível das coisas simples: a luz mansa que muda de tom na parede na hora em que se encerra o dia ou a caligrafia sutil das estações que afetam o corpo.

Ao final da manhã, quando recolho meus cadernos e deixo que o imaginário repouse na margem, celebro os mestres que nos ensinaram a suportar os nossos próprios abismos. Se a vã criatura prefere o horizonte alienado das grandes multidões, eu escolho o silêncio que rompe o papel com a força de uma verdade que não precisa de palco. A escrita, afinal, é a nossa única soma permitida.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

O atravessar das páginas e a solitude.

Aprofundei-me na escrita de Austen pelas tuas mãos e não tem como não ligar ela a você. A sua indignação matinal me fez sorrir entre um gole de chá e outro. Entendo perfeitamente o seu desejo de atravessar as páginas para dar um chacoalhão em Marianne; a juventude tem essa urgência cega que insiste em contar pétalas erradas enquanto a verdadeira promessa do mundo aguarda, paciente, bem ao lado, com a maturidade do Coronel Brandon. Mas confesso que os meus olhos, nesta quinta-feira, pousam com uma ternura diferente sobre a quietude de Elinor. Há uma dignidade imensa nas criaturas que escolhem o silêncio para resguardar o que sentem. Amar sem dizer palavra não é ausência de afeto; é saber criar um território sagrado onde o ruído da vizinhança aborrecida não consegue alcançar.

Sua costura com Maria José Dupré foi cirúrgica. Lembrar de Éramos Seis e do modo como o público moderno exigiu um novo final para a personagem de Glória Pires nos mostra como o tempo aprendeu a ter pressa em consertar as solitudes. Queremos dar um par a quem ficou só, queremos preencher as mesas vazias a qualquer custo, esquecendo-nos, às vezes, de que a solidão também pode ser um manto de escolha e proteção. Mrs. Dashwood, sem nome próprio nas páginas de Austen, representa todas as mulheres que a história insistiu em empacotar no esquecimento após a partida dos seus maridos. O destino delas era o avesso do espetáculo: a renúncia mansa em uma pequena porção de terra. Falamos sobre isso dias desses.

Se Barton Cottage guardava o perfume das flores para abrigar essas mulheres em separado, o meu canto aqui também se pacifica quando as páginas de um clássico se abrem. Não há leitura ruim quando escolhemos bons interlocutores para as nossas manhãs. Enquanto você mergulha na Inglaterra do século dezenove, daqui eu sigo acompanhando a caligrafia sutil das minhas próprias estações, entendendo que cada mulher carrega o seu próprio modo de atravessar os seus abismos — seja transbordando em paixões dramáticas ou guardando o fogo nas frestas do peito.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

Casas-Personagens e os Alicerces do Afeto

As paredes que agasalham uma vida inteira costumam aprender os sussurros de quem as habita. Quando ouço relatos sobre as acrópoles urbanas de casas-túmulos, onde fachadas imponentes viram museus vazios e pequenas construções charmosas desaparecem do mapa em uma manhã de demolição, volto os olhos para os alicerces do meu próprio território. Para mim, uma casa nunca é feita apenas de alvenaria, venezianas de madeira ou degraus de cimento; ela é um organismo vivo que acumula as tramas mambembes dos dias e guarda o eco das existências que ali fincaram pé. A minha rua tem a alma das pessoas que nela vivem. A maioria das casas não conheço por dentro, mas conheço os personagens que moram ali.

As casinhas coloridas da rua de cima trazem a sensação de interior e lembram a cidade pequena que ficava perto da fazenda onde nasci. Ali, a cumplicidade dos espaços povoados de presença tinha os nomes dos pais. Mesmo com o sobrenome sendo conhecido por todos, eu era a filha do Louro Eugênio — apelido do meu pai, que se chamava Laurindo Eugênio — e assim acontecia com cada um dos meus irmãos. Os primos, cada um era chamado como filho do João Eugênio, do Luís, do Francisco ou do Antônio Eugênio. Aqui, para além das esquinas, morou dona Iolanda. Era a cuidadora da rua; com sua vassoura feita de vassourinha, levava horas limpando de uma esquina a outra, enquanto contava as fofocas para quem demorasse um pouco mais no banquinho de cimento feito por ela mesma.

Hoje, quando observo as residências antigas que resistem ao ruído do progresso nas esquinas da cidade, sinto uma pressa mansa de decifrar os moradores invisíveis que lavaram suas roupas sob o sol e plantaram os pés de fruta que dão sombra nos fundos do quintal. A história que fica gravada na madeira e na cal é o que nos protege do esquecimento.

É um aborrecimento ver as paredes do afeto irem ao chão para virar tapume verde e placa de empreendimento moderno. O mercado imobiliário tem pressa, mas a literatura exige uma maturação lenta, um tempo de pouso onde as ruínas ganham dignidade através das palavras. Se as calçadas do concreto paulistano perdem os seus cenários para as máquinas, daqui eu sigo tecendo o meu microcosmo como uma resistência poética. Minha escrita recolhe os rascunhos dessas estruturas esquecidas e os acomoda nas páginas dos meus cadernos, onde nenhuma demolição é capaz de alcançar a alma do que foi inventado ou vivido.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Aroma da Terra e o Voo das Consoantes

Interpretar o mundo através do olfato é o modo mais antigo que a alma encontrou de fazer alquimia. Antes mesmo que os olhos decifrem a luz que muda de tom além do muro, as narinas já sabem exatamente qual história a tarde pretende nos contar. Os aromas que chegam das casas vizinhas me fazem adivinhar o que terão para o jantar. Alguém come pipoca na vizinhança. Dá para sentir o cheiro atravessando o muro. Ontem, senti o cheiro de leite fervido, e isso me trouxe memórias lá da infância: minha mãe fervia o leite até ele se transformar em doce no tacho de cobre. O cheiro da flor do girassol lembra o mel, e as fragrâncias que as flores de ora-pro-nóbis exalam fazem parecer que o meu quintal é uma perfumaria.

Aqui no meu lugar, a literatura se escreve com aromas de chão e de tempo. Há dias que cheiram ao café fresco que ferve, anunciando a pulsação do cursor na tela branca; outros trazem a urgência do vento morno que carrega a poeira fina das prateleiras, lembrando-nos de que o inverno finalmente vai recolher suas malas. Mas o meu aroma favorito — aquele que rasga a pele e me devolve à dignidade da infância descalça na fazenda — é o petricor. O perfume da terra sendo tocada pela primeira chuva como se fosse uma carícia é um abalo sensorial que nenhuma enciclopédia consegue traduzir. É o cheiro do próprio recomeço.

Acho bonita a sabedoria de quem folheia um livro antigo apenas para aspirar o cheiro da cola e do papel guardado, resgatando receitas de bolo e tardes de sábado que adormeceram nas páginas. Quando cato ervas frescas no quintal para o chá das horas ímpares, o perfume que fica impregnado nos meus dedos é o mesmo que me conectava à floresta da Bá. A natureza opera nesse sutil banquete: entrega-nos a fragrância exata de que precisamos para que a palavra rompa o papel com a força de uma semente que acordou.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros organizam seus chilreios no telhado vizinho e os grilos começam o seu compasso, deixo que os perfumes do dia se acomodem na madeira da mesa. Escrever, afinal, é o nosso jeito de colocar frascos invisíveis de memória nas missivas que enviamos ao tempo. Não precisamos decifrar a química dos encontros; o aroma do perfume Rhea — que infelizmente não é mais fabricado — atiça minhas memórias afetivas. Explicar os cheiros que invadem o meu microcosmo é uma viagem que a lembrança trata de acompanhar. O cheiro do seu pão e do bolo de fubá me leva para o bairro da Liberdade e o aconchego de sua cozinha. Se eu fechar os olhos, me vejo ali, ouvindo Carly Simon enquanto você lida com as letras da página impressa e as fitas de cetim. Acho que é nesse momento que meu quintal atravessa o seu na essência do afeto.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

O Berço Invisível das Nossas Palavras

Caro Manoel e bambina mia,

Ao cair da tarde nesta segunda-feira, quando o vento frio toma o quadrante do muro, o sol não aparece há dois dias. O inverno resolveu dar o ar de sua graça já nos dias finais da estação. Os pássaros que dormiram aqui começam a acordar o dia com seus chilreios. É nessa hora máxima do dia que reacende em mim a sua poesia. Os grilos calaram seus cricris e, só ouço o vento batendo na janela. Isso me leva para os paletós de flanela que minha mãe fazia. Pelo jeito, hoje é dia de olhar os passarinhos ciscando e ler seus livros.

É engraçado pensar que você nasceu aqui. Dias desses passei na rua onde dizem que você nasceu. Foi um suspiro imenso saber que ali, naquela ruazinha quase morta, foi o palco de um mestre que mudou minha maneira de ver a escrita. Nossos livros favoritos são, no fundo, espelhos dessas tramas que escolhemos desbravar. Ao mesmo tempo, é lindo saber que a mesma natureza que me revela também faz parte do que você tanto escreveu.

Há também uma autora que arranca arrepios na minha pele. Mas dessa vez, ao invés do manejo com o olho da lagartixa, com o canto dos passarinhos e as ignoranças do desassossego, ela me traz o sensorial. Então, ao te escrever, meu caro Manoel, trago pelas mãos a Lunna — como parte inclusa dessa missiva —, palavra que ela adora e na qual se acha intrusa, às vezes, quando lê missivas destinadas a outras pessoas. Talvez, meu caro, você gostasse também de Vermelho por Dentro. Confesso que a escrita dela me rasga.

Se eu contar sobre os autores que mudaram a minha forma de ver o mundo e me deram a dignidade da palavra, devo afirmar categoricamente que eles não habitavam os salões acadêmicos. Alguns dos seus livros estavam guardados na estante de madeira da fazenda em Goiás, esperando o momento em que a menina de pés descalços subiria no telhado ou na colina da cruz para conversar com o invisível. Ler os clássicos sob a cobertura de palha de babaçu foi o meu primeiro Café de Flore — onde a Lunna, anos mais tarde, captou a personagem ideal para o seu romance, que é um dos meus favoritos também. Foi ali que compreendi que a literatura é esse território frágil e perigoso onde saltamos sem paraquedas, aceitando os nossos próprios abismos. Ou onde o olho desvia para o sapo que coaxa a palavra descabida de rimas.

Acho bonita essa demora de anos para que o rascunho-promessa finalmente encontre o seu rumo e rompa o chão do papel. A escrita exige essa maturação lenta, esse tempo de pouso onde as migalhas de pão deixadas pelo caminho vão se transformando em alimento para a alma. Não importa se a inspiração vem de uma artista de cabelos revoltados em Paris ou do canto do sabiá laranjeira que desafia o frio do meu lugar e mergulha na bacia cheia de água como se fosse um rio: o que nos funda é a capacidade de reter o impacto do outro em nós, transformando o movimento do universo em narrativa viva. Foi assim com você e assim o é com Lunna. Autores distintos, apaixonados pela arte da escrita, com a palavra rompante saindo da lapiseira.

Com meu carinho,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Caligrafia das Coisas e as Palavras de Chão

As palavras possuem uma espécie de anatomia secreta; algumas pesam como pedras na memória, enquanto outras possuem asas e sabem exatamente onde pousar para acalmar a nossa falta de paz. Certos termos estrangeiros chegam como ruídos, enquanto vocábulos antigos desaceleram o corpo, provocando arrepios por dentro da pele. Imediatamente me pego listando as expressões que governam o meu próprio microcosmo. Há palavras que herdamos dos nossos antigos que não estão nos dicionários elegantes, mas que carregam o cheiro exato da terra molhada. Você, por exemplo, não gosta de petricor… já eu, adoro! Acho que nela já vem o aroma da terra sendo beijada pela chuva.

Crescer conversando com as coisas do mato me ensinou que nomear o mundo é um ato de pura feitiçaria afetiva. No meu dicionário de infância, aprendido nos tempos da fazenda e cultivado hoje aqui no meu lugar, as palavras mais bonitas são aquelas que guardam a doçura e a beleza dos ciclos naturais. Gosto do compasso de “espera”, da firmeza de “raiz” e do sotaque manso que transforma caju em “cadju“, aproximando a pronúncia da própria textura do fruto colhido no pé. São palavras de chão, sem o verniz ou os aborrecimentos da comunicação moderna, escritas com a caligrafia simples de quem sabe ler os desenhos das nuvens e o tempo da semente.

Acho bonita a rejeição ou o apego que desenvolvemos por certos nomes, heranças de portões de cemitério ou do modo delicioso como as nossas mães pronunciavam as letras na cozinha. Nossas escolhas linguísticas revelam os nossos esconderijos mais secretos. Para mim, a palavra que muda o rumo de um dia inteiro e me devolve a dignidade do silêncio é “quintal”. Quando a pronuncio, as paredes da casa parecem se afastar, o cursor na tela branca ganha a pulsação de um carrilhão antigo e o mundo lá fora perde a sua poluição barulhenta. É um termo-abrigo, que cabe dentro de qualquer tarde morna.

Ao final do dia, quando fecho os cadernos e observo o Yoshi encolhido no travesseiro da sua cadeira, percebo que escrever é apenas o nosso jeito de colocar envelopes reais ou imaginários nas esquinas do tempo. Não precisamos das fórmulas prontas do mundo para nos fazermos entender; basta que a nossa escrita guarde o eco daquilo que fomos e a certeza do chão que pisamos. O seu idioma, por exemplo, me veste na palavra encantamento. O bambina mia — como eu te chamo — evoca em mim uma imensa ternura, tal qual o seu mi manchi… e é com esse sentimento que meu quintal atravessa o seu. Que aí você cultive sons e silêncios e eu, cá no meu canto, cultive as palavras que têm raízes ou asas.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Altar de Ouro e as Árvores que nos Guardam

Há árvores que funcionam como verdadeiras sentinelas do nosso destino. Ouço relatos de vidas costuradas pela sombra perfumada das jabuticabeiras, acompanhando mudanças e florescendo em quintais antes esquecidos, e imediatamente olho para os guardiões do meu próprio chão. Aqui no meu lugar, as boas-vindas da nova estação não chegam com o negrume dos pequenos frutos colados ao tronco — o pé que tenho aqui ainda está em fase de bebê, com folhas tenras, coloridas e miúdas que crescem tão devagar que já ameacei arrancá-lo várias vezes —; chegam com a explosão silenciosa e urgente do ipê amarelo. É ele quem me avisa que, apesar da bruteza do inverno e da poeira que insiste em cobrir a madeira, a terra nunca esquece o seu compromisso com a beleza.

O ipê ensaia o seu espetáculo na fresta dos dias secos. Olhar para os galhos que pareciam sem vida e, de repente, flagrar os primeiros salpicos de ouro rasgando o azul do céu é um abalo agradável que repercute por dentro do peito. Assim como as estações afetam o corpo e mudam o rumo da escrita, a floração do ipê altera a minha própria geografia interna. Ele exige atenção. Obriga-me a esticar os braços, a erguer os olhos além do quadrante do muro e a agradecer pela permanência das coisas que fincam raízes. Enquanto o vento morno balança suas copas, sinto um arrepio na pele que é, no fundo, a caligrafia da própria primavera se anunciando.

Acho bonita a fidelidade de quem acompanha o crescimento de uma árvore ao longo de uma vida, tratando-a como cúmplice de romances escritos e cafés tomados na proximidade de suas folhas. Minhas cumplicidades com o mato são feitas desses reencontros anuais, onde o amarelo cai com aquela leveza de quem tem medo de tocar o chão, cobrindo a terra úmida com um tapete sagrado. Não precisamos mudar de cenário para entender o milagre da renovação; basta sabermos cuidar do pedaço de chão que nos foi confiado, seja limpando as folhas secas ou observando os seres alados que fazem dali o seu porto seguro.

Ao final da manhã, quando a luz solar doura a copa do meu guardião e o Yoshi se ajeita na sua cadeira, percebo que cada quintal tem a árvore que merece. Eu sou feita de sol e terra, abençoada pelo ouro que brota do galho seco. Olho para o alto, respiro o ar lavado e deixo que o amarelo me guie pelos próximos começos.

Mariana Gouveia

Delírios Comunistas · Literatura · Lunna Guedes

O Delírio dos Homens e a Poesia que nos Salva

Eu sempre tive preferência pela geografia dos cantos. Talvez por ter sido criada em uma casa cheia de gente, sem um lugar próprio para estar — com exceção do telhado ou do morro da cruz —, tudo ao redor era povoado demais. Confesso que, lá na infância, eu ainda não sabia o quanto o silêncio era bom. Depois de ver minha própria família formada com apenas três pessoas, e quando meu filho cresceu e mudou-se, passei a gostar da solitude. A casa vazia, a mesa com lugares vagos e o silêncio que se instala nas horas ímpares são o meu território sagrado de permanência. É na quietude desse isolamento escolhido que os livros deixam de ser meros objetos nas prateleiras e se convertem em interlocutores reais, capazes de traçar diálogos mudos com as nossas próprias frestas.

Compreendo o peso de carregar heróis literários que, muitas vezes, tropeçam na bruteza da realidade dos homens. Separar a herança da escrita territorial dos desacertos políticos e conservadores de quem a pariu é uma tarefa árdua, quase um exercício de paciência. Nem sempre é fácil lidar com os limites e as cegueiras daqueles que admiramos no papel. Eu também já “abandonei” autores e pessoas que admirava; por suas posturas conservadoras, tornaram-se personas non grata em minha vida. No entanto, entendo que descartar a beleza de uma narrativa que nos toca e nos localiza no mundo, apenas pelas falhas do ser humano, seria uma desonestidade com a escritora que me tornei. Faz-se as pazes com a obra, não com o homem; deixa-se que a contradição repouse na margem enquanto colhemos a poesia que nos salva.

Esses encontros e reencontros com os clássicos — que outrora preencheram as páginas dos meus cadernos com caligrafias antigas — são como banquetes que revisitamos quando a juventude ganha outras dobras. Eles guardam os mistérios do infinito e da finitude, exatamente como um labirinto onde nos perdemos para, no fim, nos encontrarmos mais inteiras. Não precisamos concordar com os passos de quem escreveu para nos movermos com o ritmo das suas frases-rastro.

Ao cair da tarde, quando mudo a xícara de lugar e observo a luz mansa diminuir no quadrante do muro, percebo que a minha solidão é generosa. Ela acolhe as vozes de todas as eras, os poetas de ontem e as histórias inventadas que se colam à madeira do meu lugar. No meu canto do sofá, com as frestas abertas para o vento que limpa a poeira, celebro os livros que continuam a me decifrar. O homem passa e falha; a escrita permanece, rompendo o chão do tempo.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Arqueologia dos Afetos e a Rua Antiga

Há um magnetismo silencioso nos lugares que guardam o rastro do tempo. Caminhar entre as bancas de uma feira de rua ou deslizar os dedos pelas lombadas gastas nos livros de um sebo é um exercício de pura arqueologia afetiva. Não busco ali o rigor das novidades ou o brilho intocado das vitrines; busco o assombro do que já foi vivido por outros. Um livro usado nunca carrega apenas a história que o autor escreveu; ele guarda o peso das mãos que o folhearam, a fresta de sol da janela onde foi lido e, às vezes, pequenos segredos esquecidos entre suas páginas — uma anotação na margem, uma pétala seca ou uma marca antiga de café.

Descobri dias atrás o Raro Ruído e foi como achar um tesouro. Adentrar aquela porta é como caminhar pela poesia pura. Os livros, gibis e vinis trazem a palavra afeto para dentro do peito. A literatura sempre encontra um jeito de ser o território do encontro. Por acaso, me deparei com uma porta que parecia a entrada para outro mundo, e na realidade foi mesmo. Um pequeno santuários de papel antigo, com mesas enfileiras entre as prateleiras, o cheiro de café de frutas trazendo memórias, pessoas a ganhar encantos folheando páginas e principalmente, jovens, ávidos pelo antigo, pela leitura. O olhar escapa do livro e esbarra nas figuras que povoam o cenário. O imaginário, esse tecelão obstinado, imediatamente começa a tecer suas teias sobre as criaturas que cruzam o nosso quadrante: o vendedor que oferece café, sorvete artesanal, vinho ou água com sua voz de herança; a mulher que segura um volume antigo contra o peito como se protegesse um tesouro; o tempo que parece fazer uma pausa exata entre uma esquina e outra.

Essas personagens que cruzam os nossos olhos nas feiras e sebos são como figuras de um romance que ainda não escrevemos. Há uma beleza peculiar em degustá-las assim, em pequenos goles, sem a pressa de desvendá-las por inteiro. Afinal, a proximidade real muitas vezes desfaz a magia do mistério; preferível é deixar que permaneçam suspensas na nossa ficção de fim de tarde. Ficamos livres para rir dos nossos próprios encantamentos quando a luz muda de tom e a realidade transforma as nossas certezas em fumaça.

Não comprei muita coisa, mas ao recolher meus achados a criança que fui renasce com brilho nos olhos. E como achei a barca do tesouro, devo voltar mais vezes para minerar os diamantes escondidos. Fiquei pensando em como os sebos e as feiras são extensões da própria terra. Ambos guardam sementes de histórias que esperam o momento certo para brotar. Abro o livro novo que trouxe da rua, sinto o perfume do papel antigo misturado ao vento morno que entra pela janela e deixo que o imaginário continue a tecer, em silêncio, os contornos do dia de amanhã.

Mariana Gouveia

Nota de Rodapé: Para quem tiver interesse, Raro Ruído tem uma loja online e o espaço físico oferece a gentileza no atendimento nesse endereço: Avenida Edgar Vieira, 278 – Boa esperança (abra com o maps), Cuiabá, Brazil 78045-390


Além de Livros, há café, música, vinho, LPs, sorvete artesanal e muito mais!
Seg. a Sex. das 13h às 19hs. Sáb. 10h às 18h. Dom. FECHADO

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Geometria da Espera

Olho para o cursor piscando no canto esquerdo da tela branca e não vejo ali uma ameaça ou um vazio intransponível. Ao contrário do que dita a pressa dos dias, esse pequeno traço de luz que insiste em pulsar ritmadamente é um convite ao descanso. Aprendi com a terra que o silêncio que precede a palavra não é escassez; é tempo de pouso. Para que as ideias possam brotar com força na nova estação, a matéria de que somos feitas precisa, vez ou outra, recolher suas asas e aceitar a xícara vazia. O chá acabou, e esse momento serve para uma caminhada no quintal; enquanto espero a água ferver, cato as ervas e aspiro o ar.

Compreendo bem a sensação desse cansaço que não alcança os músculos, mas que desacelera o sentido da alma após um grande transbordamento. Escrever é um ato que consome as nossas sentimentalidades mais secretas — aquelas que, muitas vezes, nascem e morrem no papel como cartas-não-enviadas, escritas apenas para aliviar o peso do peito. Quando a última página de um ciclo vira, é preciso ter a coragem de não fazer nada. É preciso sair ao quintal sem a obrigação da metáfora, apenas para presenciar o inédito de um dia comum: o Yoshi mudando de posição na cadeira, o Chiquinho voando baixo e o sabiá laranjeira na bacia, em seu banho diário aqui.

Não há bloqueio no fluxo da vida, há apenas a necessidade física de buscar novos goles de mundo além do muro. Ninguém colhe frutos o ano inteiro sem permitir que a árvore enfrente o seu próprio inverno. Minha pulsação criativa se alimenta desse compasso de espera, da água que ferve para o café ficar pronto e do vento morno que entra pelas frestas limpando os resquícios da poeira de agosto.

Quando me sento novamente diante da folha em branco, não busco o espetacular das grandes multidões. Busco as pequenas partículas de ontem que ficaram presas na memória da madeira. O cursor continua a piscar, paciente, imitando o bater de um coração que sabe exatamente quando é hora de silenciar e quando é hora de transbordar. Quase em 3D, a foto que chega por mensagem mostra o bolo de paçoquinha. Escrevo meu desejo de estar em outro quintal e apago. A escrita, afinal, sempre encontra o seu próprio tempo de romper o chão.

Mariana Gouveia