Afetos · Das palavras das cartas

A Matemática das Pétalas e o Desenho do Dia

Ana Regina,

Há uma precisão silenciosa na forma como a natureza distribui suas cores. Olhar para o desenho de uma flor não é apenas contemplar a sua beleza efêmera; é decifrar uma geometria sagrada, onde cada pétala sabe exatamente o ângulo que deve ocupar para alcançar a luz. Ouço os ensaios sobre as formas e as linhas que estruturam o desabrochar do mundo, e imediatamente compreendo que a escrita também possui a sua própria engenharia de afetos — uma matemática sutil que organiza os nossos silêncios e transborda nas horas certas. Ainda me lembro de quando você me apresentou a lanterna-chinesa. Eu, que sou apaixonada por flores, me encantei. Ganhei a muda e a perdi tempos depois.

Aqui no meu lugar, os acontecimentos dos dias não se prendem aos ângulos do muro. Minha métrica é circular, desenhada pelo movimento dos pássaros que riscam o céu e pelo tapete dourado que se refaz na terra. As cores não pedem licença; chegam com o peso de uma verdade que rompe o galho seco e altera toda a nossa geografia interna. No avesso das certezas humanas, a delicadeza de uma coroa de flores nos ensina que a força mais genuína reside naquilo que é simétrico e, ao mesmo tempo, frágil. Foi assim que consegui outra muda da Abutilon e a plantei com todo o cuidado.

Acho bonita a sabedoria de quem consegue enxergar um banquete inteiro na curva de uma folha tenra ou na disposição exata das consoantes e vogais sobre o papel branco. Escrever é, afinal, o nosso jeito de traçar mapas invisíveis para que os pensamentos se cruzem na mesma esquina. Não precisamos desvendar o mistério das formas; basta que a nossa escrita guarde a exatidão daquilo que sentimos e a coragem de nos mantermos inteiras em meio aos desacertos lá fora. Vi essa semana que sua família ganhou um amor a mais. Fiquei horas sentindo a alegria de quem vê uma flor desabrochar. Talvez você possa, a partir de agora, experimentar o maior amor do mundo. O fruto de uma filha é uma bênção e a prova de que sua árvore ganhou mais um galho.

Bendigo o Santiago e bendigo esse amor maior que uma mãe e avó pode sentir. Ao cair da tarde deste domingo, quando o ritmo desacelera e o silêncio reivindica o seu espaço na mesa, deixo que as cores do dia encontrem o seu repouso. A terra cumpre o seu compromisso com a harmonia e, diante da folha branca, sigo costurando as minhas próprias linhas. A literatura e uma nova vida, afinal, são as geometrias mais bonitas que o tempo encontrou de nos manter presentes.

Um abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

O Tempo do Pouso e as Linhas de Sombra

Quando li seu texto, a palavra intermezzo ficou ecoando em mim quase como um mantra. A madrugada se exibe lá fora como se estivesse se despedindo, e o sabiá canta — no mesmo tom que ouvi aí, em um hostel da Vila Mariana — enquanto outro responde para além da rua de cima. Já te contei do morcego que vive aqui no quintal; é nessa hora que ele se integra ao espaço em voos rasantes e rouba o néctar do bebedouro do Chiquinho. Caminho descalça, como se com isso a energia da terra me coubesse inteira, e repito de novo a frase que se parece com você, acho que mais pela pronúncia do que por outra coisa. Acho lindo o som das letras se intercalando junto ao seu ritual de transbordamento de palavras e silêncios.

Acho que é nesse intervalo de tempo entre o amanhecer e o findar da madrugada que eu inexisto. Entre o canto do sabiá e o chilreio do Chiquinho, me desligo por alguns minutos. Inexistir temporariamente para o ruído do mundo não é abandono; é o recolhimento exato que o corpo pede antes de se sentar novamente diante da folha branca para ver a escrita romper o papel. Acho que de todos os ritos do meu lugar, esse seria o momento que quero te mostrar. Yoshi está em seu décimo quinto sono e a brisa mansa atiça as folhas do ipê; é como se, com isso tudo, o entorno acordasse para o dia. Lembro-me de que hoje é sábado, e aquela hora que você gosta passa por aqui entre tons lilases.

Fiquei pensando em sua meninice, que quase se atropela com as minhas lembranças. Eu era a filha do meio entre seis irmãos: três antes de mim e três depois de mim. Lembro-me de que a gente vivia com roupa de brincar e os filhos da vizinhança se juntavam a nós. Vez ou outra, eu emprestava meus olhos para a roca de fiar, e a maneira como minha mãe tingia os tecidos era alquimia pura. Também fui uma menina afeita às estripulias, com os joelhos marcados pela terra e os olhos atentos ao topo das árvores, muito antes de compreender que a literatura seria a minha verdadeira colina de vigia. O dia já se pronuncia por aqui e o tique-taque do relógio da sala se faz presente. Um cão ladra na rua de cima e Chiquinho vira quase um vulto no ipê.

Acho que o ipê se prepara para sua despedida de flores. Ele se mostra aqui, no meu lugar, como anunciador da primavera e, enquanto ela acontece, ele adormece até o ano que vem. Se bem que o meu aqui, volta e meia, se antecipa em flores temporãs — ainda não descobri o porquê. Mas ler sob sua copa me dá a mesma sensação desse compasso que te toca aí.

O cheiro do café da vizinhança me convida para colocar a água no fogo enquanto o lugar acorda. Acompanho os chilreios dos pássaros que chegam para sobrevoar por aqui e o céu avisa que o dia será quente mais uma vez. Enquanto bebo minha xícara de café, percebo que os nossos intermezzos são como sementes guardadas. Eles não precisam de palcos ou de justificativas acadêmicas para existirem; precisam apenas de silêncio e de pouso. Mergulho na leveza dessa manhã e começo o dia da faxina. Programo a lista musical que vai compor meu dia e permaneço à espera do instante exato em que a palavra decidirá, novamente, florescer.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Independência da Solidão e as Telas de Hopper

A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem, já dizia Ralph Waldo Emerson… Fiquei imaginando aqui que observar quem folheia a vida sem o cuidado de deter o olhar nas entrelinhas é um exercício que exige uma paciência sem tamanho, e a gente sabe que, muitas vezes, isso nos falta. Há uma pressa nos tempos de agora que avança rápido demais pelas páginas dos dias, transformando o silêncio e as sombras em espaços de desconforto. Ouço o relato sobre esse falso leitor que recusa Modigliani e passa por Hopper sem notar o frio, as ruas vazias ou o homem alienado na janela, e imediatamente compreendo que a verdadeira leitura é um ato de permanência, um território sagrado que a maioria das pessoas tem medo de habitar.

Passo por lugares e pessoas que parecem ter saído das telas de Hopper: elas nos devolvem as nossas próprias perguntas, escancarando aquela solidão urbana que nos obriga a olhar para dentro, para o verso da nossa própria pele. Enquanto o mundo lá fora prefere o barulho das conversas inúteis e os diálogos servidos em bandejas imaginárias, a escrita me ensina a buscar a doçura da quietude. Para mim, o zunido das abelhas nas flores do quintal sempre terá mais importância e ritmo do que as opiniões sinceras de bocas nada santas que se espremem nas tardes aquecidas. É preciso manter a independência da própria órbita, mesmo quando estamos emparedadas num canto do ambiente. Já falamos sobre isso algumas vezes.

A xícara vazia só nos cabe na pergunta que você me faz sempre: vai um café? E rimos da pessoa que pergunta se, mesmo com o calor do meu lugar, eu ainda bebo café quente. É quase como comentar que quem mora no frio não pode beber nada gelado. A gente só ri porque sabemos que o tempo de pouso da palavra tem o seu próprio compasso. E algumas perguntas infundadas devem ficar vazias de respostas. No meu quadrante de terra, a solidão acontece no canto da vidraça onde a borboleta pousa esperando a hora certa de voar. Isso sim é o impacto do espetáculo invisível das coisas simples: a luz mansa que muda de tom na parede na hora em que se encerra o dia ou a caligrafia sutil das estações que afetam o corpo.

Ao final da manhã, quando recolho meus cadernos e deixo que o imaginário repouse na margem, celebro os mestres que nos ensinaram a suportar os nossos próprios abismos. Se a vã criatura prefere o horizonte alienado das grandes multidões, eu escolho o silêncio que rompe o papel com a força de uma verdade que não precisa de palco. A escrita, afinal, é a nossa única soma permitida.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

O atravessar das páginas e a solitude.

Aprofundei-me na escrita de Austen pelas tuas mãos e não tem como não ligar ela a você. A sua indignação matinal me fez sorrir entre um gole de chá e outro. Entendo perfeitamente o seu desejo de atravessar as páginas para dar um chacoalhão em Marianne; a juventude tem essa urgência cega que insiste em contar pétalas erradas enquanto a verdadeira promessa do mundo aguarda, paciente, bem ao lado, com a maturidade do Coronel Brandon. Mas confesso que os meus olhos, nesta quinta-feira, pousam com uma ternura diferente sobre a quietude de Elinor. Há uma dignidade imensa nas criaturas que escolhem o silêncio para resguardar o que sentem. Amar sem dizer palavra não é ausência de afeto; é saber criar um território sagrado onde o ruído da vizinhança aborrecida não consegue alcançar.

Sua costura com Maria José Dupré foi cirúrgica. Lembrar de Éramos Seis e do modo como o público moderno exigiu um novo final para a personagem de Glória Pires nos mostra como o tempo aprendeu a ter pressa em consertar as solitudes. Queremos dar um par a quem ficou só, queremos preencher as mesas vazias a qualquer custo, esquecendo-nos, às vezes, de que a solidão também pode ser um manto de escolha e proteção. Mrs. Dashwood, sem nome próprio nas páginas de Austen, representa todas as mulheres que a história insistiu em empacotar no esquecimento após a partida dos seus maridos. O destino delas era o avesso do espetáculo: a renúncia mansa em uma pequena porção de terra. Falamos sobre isso dias desses.

Se Barton Cottage guardava o perfume das flores para abrigar essas mulheres em separado, o meu canto aqui também se pacifica quando as páginas de um clássico se abrem. Não há leitura ruim quando escolhemos bons interlocutores para as nossas manhãs. Enquanto você mergulha na Inglaterra do século dezenove, daqui eu sigo acompanhando a caligrafia sutil das minhas próprias estações, entendendo que cada mulher carrega o seu próprio modo de atravessar os seus abismos — seja transbordando em paixões dramáticas ou guardando o fogo nas frestas do peito.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

Casas-Personagens e os Alicerces do Afeto

As paredes que agasalham uma vida inteira costumam aprender os sussurros de quem as habita. Quando ouço relatos sobre as acrópoles urbanas de casas-túmulos, onde fachadas imponentes viram museus vazios e pequenas construções charmosas desaparecem do mapa em uma manhã de demolição, volto os olhos para os alicerces do meu próprio território. Para mim, uma casa nunca é feita apenas de alvenaria, venezianas de madeira ou degraus de cimento; ela é um organismo vivo que acumula as tramas mambembes dos dias e guarda o eco das existências que ali fincaram pé. A minha rua tem a alma das pessoas que nela vivem. A maioria das casas não conheço por dentro, mas conheço os personagens que moram ali.

As casinhas coloridas da rua de cima trazem a sensação de interior e lembram a cidade pequena que ficava perto da fazenda onde nasci. Ali, a cumplicidade dos espaços povoados de presença tinha os nomes dos pais. Mesmo com o sobrenome sendo conhecido por todos, eu era a filha do Louro Eugênio — apelido do meu pai, que se chamava Laurindo Eugênio — e assim acontecia com cada um dos meus irmãos. Os primos, cada um era chamado como filho do João Eugênio, do Luís, do Francisco ou do Antônio Eugênio. Aqui, para além das esquinas, morou dona Iolanda. Era a cuidadora da rua; com sua vassoura feita de vassourinha, levava horas limpando de uma esquina a outra, enquanto contava as fofocas para quem demorasse um pouco mais no banquinho de cimento feito por ela mesma.

Hoje, quando observo as residências antigas que resistem ao ruído do progresso nas esquinas da cidade, sinto uma pressa mansa de decifrar os moradores invisíveis que lavaram suas roupas sob o sol e plantaram os pés de fruta que dão sombra nos fundos do quintal. A história que fica gravada na madeira e na cal é o que nos protege do esquecimento.

É um aborrecimento ver as paredes do afeto irem ao chão para virar tapume verde e placa de empreendimento moderno. O mercado imobiliário tem pressa, mas a literatura exige uma maturação lenta, um tempo de pouso onde as ruínas ganham dignidade através das palavras. Se as calçadas do concreto paulistano perdem os seus cenários para as máquinas, daqui eu sigo tecendo o meu microcosmo como uma resistência poética. Minha escrita recolhe os rascunhos dessas estruturas esquecidas e os acomoda nas páginas dos meus cadernos, onde nenhuma demolição é capaz de alcançar a alma do que foi inventado ou vivido.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Aroma da Terra e o Voo das Consoantes

Interpretar o mundo através do olfato é o modo mais antigo que a alma encontrou de fazer alquimia. Antes mesmo que os olhos decifrem a luz que muda de tom além do muro, as narinas já sabem exatamente qual história a tarde pretende nos contar. Os aromas que chegam das casas vizinhas me fazem adivinhar o que terão para o jantar. Alguém come pipoca na vizinhança. Dá para sentir o cheiro atravessando o muro. Ontem, senti o cheiro de leite fervido, e isso me trouxe memórias lá da infância: minha mãe fervia o leite até ele se transformar em doce no tacho de cobre. O cheiro da flor do girassol lembra o mel, e as fragrâncias que as flores de ora-pro-nóbis exalam fazem parecer que o meu quintal é uma perfumaria.

Aqui no meu lugar, a literatura se escreve com aromas de chão e de tempo. Há dias que cheiram ao café fresco que ferve, anunciando a pulsação do cursor na tela branca; outros trazem a urgência do vento morno que carrega a poeira fina das prateleiras, lembrando-nos de que o inverno finalmente vai recolher suas malas. Mas o meu aroma favorito — aquele que rasga a pele e me devolve à dignidade da infância descalça na fazenda — é o petricor. O perfume da terra sendo tocada pela primeira chuva como se fosse uma carícia é um abalo sensorial que nenhuma enciclopédia consegue traduzir. É o cheiro do próprio recomeço.

Acho bonita a sabedoria de quem folheia um livro antigo apenas para aspirar o cheiro da cola e do papel guardado, resgatando receitas de bolo e tardes de sábado que adormeceram nas páginas. Quando cato ervas frescas no quintal para o chá das horas ímpares, o perfume que fica impregnado nos meus dedos é o mesmo que me conectava à floresta da Bá. A natureza opera nesse sutil banquete: entrega-nos a fragrância exata de que precisamos para que a palavra rompa o papel com a força de uma semente que acordou.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros organizam seus chilreios no telhado vizinho e os grilos começam o seu compasso, deixo que os perfumes do dia se acomodem na madeira da mesa. Escrever, afinal, é o nosso jeito de colocar frascos invisíveis de memória nas missivas que enviamos ao tempo. Não precisamos decifrar a química dos encontros; o aroma do perfume Rhea — que infelizmente não é mais fabricado — atiça minhas memórias afetivas. Explicar os cheiros que invadem o meu microcosmo é uma viagem que a lembrança trata de acompanhar. O cheiro do seu pão e do bolo de fubá me leva para o bairro da Liberdade e o aconchego de sua cozinha. Se eu fechar os olhos, me vejo ali, ouvindo Carly Simon enquanto você lida com as letras da página impressa e as fitas de cetim. Acho que é nesse momento que meu quintal atravessa o seu na essência do afeto.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

O Berço Invisível das Nossas Palavras

Caro Manoel e bambina mia,

Ao cair da tarde nesta segunda-feira, quando o vento frio toma o quadrante do muro, o sol não aparece há dois dias. O inverno resolveu dar o ar de sua graça já nos dias finais da estação. Os pássaros que dormiram aqui começam a acordar o dia com seus chilreios. É nessa hora máxima do dia que reacende em mim a sua poesia. Os grilos calaram seus cricris e, só ouço o vento batendo na janela. Isso me leva para os paletós de flanela que minha mãe fazia. Pelo jeito, hoje é dia de olhar os passarinhos ciscando e ler seus livros.

É engraçado pensar que você nasceu aqui. Dias desses passei na rua onde dizem que você nasceu. Foi um suspiro imenso saber que ali, naquela ruazinha quase morta, foi o palco de um mestre que mudou minha maneira de ver a escrita. Nossos livros favoritos são, no fundo, espelhos dessas tramas que escolhemos desbravar. Ao mesmo tempo, é lindo saber que a mesma natureza que me revela também faz parte do que você tanto escreveu.

Há também uma autora que arranca arrepios na minha pele. Mas dessa vez, ao invés do manejo com o olho da lagartixa, com o canto dos passarinhos e as ignoranças do desassossego, ela me traz o sensorial. Então, ao te escrever, meu caro Manoel, trago pelas mãos a Lunna — como parte inclusa dessa missiva —, palavra que ela adora e na qual se acha intrusa, às vezes, quando lê missivas destinadas a outras pessoas. Talvez, meu caro, você gostasse também de Vermelho por Dentro. Confesso que a escrita dela me rasga.

Se eu contar sobre os autores que mudaram a minha forma de ver o mundo e me deram a dignidade da palavra, devo afirmar categoricamente que eles não habitavam os salões acadêmicos. Alguns dos seus livros estavam guardados na estante de madeira da fazenda em Goiás, esperando o momento em que a menina de pés descalços subiria no telhado ou na colina da cruz para conversar com o invisível. Ler os clássicos sob a cobertura de palha de babaçu foi o meu primeiro Café de Flore — onde a Lunna, anos mais tarde, captou a personagem ideal para o seu romance, que é um dos meus favoritos também. Foi ali que compreendi que a literatura é esse território frágil e perigoso onde saltamos sem paraquedas, aceitando os nossos próprios abismos. Ou onde o olho desvia para o sapo que coaxa a palavra descabida de rimas.

Acho bonita essa demora de anos para que o rascunho-promessa finalmente encontre o seu rumo e rompa o chão do papel. A escrita exige essa maturação lenta, esse tempo de pouso onde as migalhas de pão deixadas pelo caminho vão se transformando em alimento para a alma. Não importa se a inspiração vem de uma artista de cabelos revoltados em Paris ou do canto do sabiá laranjeira que desafia o frio do meu lugar e mergulha na bacia cheia de água como se fosse um rio: o que nos funda é a capacidade de reter o impacto do outro em nós, transformando o movimento do universo em narrativa viva. Foi assim com você e assim o é com Lunna. Autores distintos, apaixonados pela arte da escrita, com a palavra rompante saindo da lapiseira.

Com meu carinho,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

A delicadeza do primeiro broto verde no galho seco.

Janeeeeeeee,

Há dias em que o ruído do mundo parece teimar em se vestir com a aridez dos galhos secos. O inverno se despede deixando poeira, os homens se espremem em suas certezas duras e a polaridade lá fora tenta sufocar a nuance das coisas simples. É nesses momentos de compasso de espera, quando a falta de paz que a realidade promove aperta o peito, que meu pensamento voa longe e vai buscar abrigo no território de nós duas.

Olho hoje para o meu quintal e flagro um milagre manso que imediatamente me fez lembrar de você e da sua casa. Um periquito rei, com o verde mais vivo que a natureza consegue pintar, pousou exatamente no meio das vagens retorcidas e secas do ipê. Fiquei olhando aquela criatura de olhos alaranjados, tão parecida com o seu papagaio, e compreendi, Janes, que a delicadeza do primeiro broto verde nem sempre é uma folha tenra que cresce devagar. Às vezes, o broto que nos salva da aridez tem asas, chega sem pedir licença e faz barulho no galho que parecia morto. Ele é o anúncio de que a vida continua pulsando, à revelia dos desertos humanos. Eu sei que o seu bica, arranha, mas também sei que ele te dá a melhor manifestação de afeto.

Escrevo-te para te dar coragem diante do cinza que tentam nos impor. Em outros tempos, eu estava aí com a xícara de chá, sendo sua consciência — igual ao Grilo Falante — impedindo confrontos que te fariam infeliz. Sei que o cenário atual exige muito dos nossos dias, mas lembre-se da menina que fomos e dos caminhos que trilhamos. É preciso ter a audácia de continuar conversando com as coisas do mato, limpando as gramas do nosso próprio chão e abrindo espaço para que o inédito aconteça. Que o verde do seu companheiro de penas aí na sua casa seja o seu lembrete diário de resistência. Não se entregue à bruteza do tempo; mude o foco do olhar, equilibre o passo no meio-fio do cotidiano e colha a poesia que nos salva dos desacertos.

Quando o dia findar e a noite reivindicar o seu pouso, saiba que a nossa órbita continua alinhada pela gravidade do afeto. Que você cultive sons bonitos no meio do barulho e encontre no silêncio do seu canto a força necessária para romper o chão de amanhã. Minha escrita atravessa a distância para te lembrar que nunca estamos sós enquanto houver asas para vigiar o horizonte.

Com todo o meu carinho,
Sua Tarzan

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Caligrafia das Coisas e as Palavras de Chão

As palavras possuem uma espécie de anatomia secreta; algumas pesam como pedras na memória, enquanto outras possuem asas e sabem exatamente onde pousar para acalmar a nossa falta de paz. Certos termos estrangeiros chegam como ruídos, enquanto vocábulos antigos desaceleram o corpo, provocando arrepios por dentro da pele. Imediatamente me pego listando as expressões que governam o meu próprio microcosmo. Há palavras que herdamos dos nossos antigos que não estão nos dicionários elegantes, mas que carregam o cheiro exato da terra molhada. Você, por exemplo, não gosta de petricor… já eu, adoro! Acho que nela já vem o aroma da terra sendo beijada pela chuva.

Crescer conversando com as coisas do mato me ensinou que nomear o mundo é um ato de pura feitiçaria afetiva. No meu dicionário de infância, aprendido nos tempos da fazenda e cultivado hoje aqui no meu lugar, as palavras mais bonitas são aquelas que guardam a doçura e a beleza dos ciclos naturais. Gosto do compasso de “espera”, da firmeza de “raiz” e do sotaque manso que transforma caju em “cadju“, aproximando a pronúncia da própria textura do fruto colhido no pé. São palavras de chão, sem o verniz ou os aborrecimentos da comunicação moderna, escritas com a caligrafia simples de quem sabe ler os desenhos das nuvens e o tempo da semente.

Acho bonita a rejeição ou o apego que desenvolvemos por certos nomes, heranças de portões de cemitério ou do modo delicioso como as nossas mães pronunciavam as letras na cozinha. Nossas escolhas linguísticas revelam os nossos esconderijos mais secretos. Para mim, a palavra que muda o rumo de um dia inteiro e me devolve a dignidade do silêncio é “quintal”. Quando a pronuncio, as paredes da casa parecem se afastar, o cursor na tela branca ganha a pulsação de um carrilhão antigo e o mundo lá fora perde a sua poluição barulhenta. É um termo-abrigo, que cabe dentro de qualquer tarde morna.

Ao final do dia, quando fecho os cadernos e observo o Yoshi encolhido no travesseiro da sua cadeira, percebo que escrever é apenas o nosso jeito de colocar envelopes reais ou imaginários nas esquinas do tempo. Não precisamos das fórmulas prontas do mundo para nos fazermos entender; basta que a nossa escrita guarde o eco daquilo que fomos e a certeza do chão que pisamos. O seu idioma, por exemplo, me veste na palavra encantamento. O bambina mia — como eu te chamo — evoca em mim uma imensa ternura, tal qual o seu mi manchi… e é com esse sentimento que meu quintal atravessa o seu. Que aí você cultive sons e silêncios e eu, cá no meu canto, cultive as palavras que têm raízes ou asas.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Altar de Ouro e as Árvores que nos Guardam

Há árvores que funcionam como verdadeiras sentinelas do nosso destino. Ouço relatos de vidas costuradas pela sombra perfumada das jabuticabeiras, acompanhando mudanças e florescendo em quintais antes esquecidos, e imediatamente olho para os guardiões do meu próprio chão. Aqui no meu lugar, as boas-vindas da nova estação não chegam com o negrume dos pequenos frutos colados ao tronco — o pé que tenho aqui ainda está em fase de bebê, com folhas tenras, coloridas e miúdas que crescem tão devagar que já ameacei arrancá-lo várias vezes —; chegam com a explosão silenciosa e urgente do ipê amarelo. É ele quem me avisa que, apesar da bruteza do inverno e da poeira que insiste em cobrir a madeira, a terra nunca esquece o seu compromisso com a beleza.

O ipê ensaia o seu espetáculo na fresta dos dias secos. Olhar para os galhos que pareciam sem vida e, de repente, flagrar os primeiros salpicos de ouro rasgando o azul do céu é um abalo agradável que repercute por dentro do peito. Assim como as estações afetam o corpo e mudam o rumo da escrita, a floração do ipê altera a minha própria geografia interna. Ele exige atenção. Obriga-me a esticar os braços, a erguer os olhos além do quadrante do muro e a agradecer pela permanência das coisas que fincam raízes. Enquanto o vento morno balança suas copas, sinto um arrepio na pele que é, no fundo, a caligrafia da própria primavera se anunciando.

Acho bonita a fidelidade de quem acompanha o crescimento de uma árvore ao longo de uma vida, tratando-a como cúmplice de romances escritos e cafés tomados na proximidade de suas folhas. Minhas cumplicidades com o mato são feitas desses reencontros anuais, onde o amarelo cai com aquela leveza de quem tem medo de tocar o chão, cobrindo a terra úmida com um tapete sagrado. Não precisamos mudar de cenário para entender o milagre da renovação; basta sabermos cuidar do pedaço de chão que nos foi confiado, seja limpando as folhas secas ou observando os seres alados que fazem dali o seu porto seguro.

Ao final da manhã, quando a luz solar doura a copa do meu guardião e o Yoshi se ajeita na sua cadeira, percebo que cada quintal tem a árvore que merece. Eu sou feita de sol e terra, abençoada pelo ouro que brota do galho seco. Olho para o alto, respiro o ar lavado e deixo que o amarelo me guie pelos próximos começos.

Mariana Gouveia