Interpretar o mundo através do olfato é o modo mais antigo que a alma encontrou de fazer alquimia. Antes mesmo que os olhos decifrem a luz que muda de tom além do muro, as narinas já sabem exatamente qual história a tarde pretende nos contar. Os aromas que chegam das casas vizinhas me fazem adivinhar o que terão para o jantar. Alguém come pipoca na vizinhança. Dá para sentir o cheiro atravessando o muro. Ontem, senti o cheiro de leite fervido, e isso me trouxe memórias lá da infância: minha mãe fervia o leite até ele se transformar em doce no tacho de cobre. O cheiro da flor do girassol lembra o mel, e as fragrâncias que as flores de ora-pro-nóbis exalam fazem parecer que o meu quintal é uma perfumaria.
Aqui no meu lugar, a literatura se escreve com aromas de chão e de tempo. Há dias que cheiram ao café fresco que ferve, anunciando a pulsação do cursor na tela branca; outros trazem a urgência do vento morno que carrega a poeira fina das prateleiras, lembrando-nos de que o inverno finalmente vai recolher suas malas. Mas o meu aroma favorito — aquele que rasga a pele e me devolve à dignidade da infância descalça na fazenda — é o petricor. O perfume da terra sendo tocada pela primeira chuva como se fosse uma carícia é um abalo sensorial que nenhuma enciclopédia consegue traduzir. É o cheiro do próprio recomeço.
Acho bonita a sabedoria de quem folheia um livro antigo apenas para aspirar o cheiro da cola e do papel guardado, resgatando receitas de bolo e tardes de sábado que adormeceram nas páginas. Quando cato ervas frescas no quintal para o chá das horas ímpares, o perfume que fica impregnado nos meus dedos é o mesmo que me conectava à floresta da Bá. A natureza opera nesse sutil banquete: entrega-nos a fragrância exata de que precisamos para que a palavra rompa o papel com a força de uma semente que acordou.
Ao cair da tarde, enquanto os pássaros organizam seus chilreios no telhado vizinho e os grilos começam o seu compasso, deixo que os perfumes do dia se acomodem na madeira da mesa. Escrever, afinal, é o nosso jeito de colocar frascos invisíveis de memória nas missivas que enviamos ao tempo. Não precisamos decifrar a química dos encontros; o aroma do perfume Rhea — que infelizmente não é mais fabricado — atiça minhas memórias afetivas. Explicar os cheiros que invadem o meu microcosmo é uma viagem que a lembrança trata de acompanhar. O cheiro do seu pão e do bolo de fubá me leva para o bairro da Liberdade e o aconchego de sua cozinha. Se eu fechar os olhos, me vejo ali, ouvindo Carly Simon enquanto você lida com as letras da página impressa e as fitas de cetim. Acho que é nesse momento que meu quintal atravessa o seu na essência do afeto.
Mariana Gouveia
