Afetos · Das palavras das cartas

A Matemática das Pétalas e o Desenho do Dia

Ana Regina,

Há uma precisão silenciosa na forma como a natureza distribui suas cores. Olhar para o desenho de uma flor não é apenas contemplar a sua beleza efêmera; é decifrar uma geometria sagrada, onde cada pétala sabe exatamente o ângulo que deve ocupar para alcançar a luz. Ouço os ensaios sobre as formas e as linhas que estruturam o desabrochar do mundo, e imediatamente compreendo que a escrita também possui a sua própria engenharia de afetos — uma matemática sutil que organiza os nossos silêncios e transborda nas horas certas. Ainda me lembro de quando você me apresentou a lanterna-chinesa. Eu, que sou apaixonada por flores, me encantei. Ganhei a muda e a perdi tempos depois.

Aqui no meu lugar, os acontecimentos dos dias não se prendem aos ângulos do muro. Minha métrica é circular, desenhada pelo movimento dos pássaros que riscam o céu e pelo tapete dourado que se refaz na terra. As cores não pedem licença; chegam com o peso de uma verdade que rompe o galho seco e altera toda a nossa geografia interna. No avesso das certezas humanas, a delicadeza de uma coroa de flores nos ensina que a força mais genuína reside naquilo que é simétrico e, ao mesmo tempo, frágil. Foi assim que consegui outra muda da Abutilon e a plantei com todo o cuidado.

Acho bonita a sabedoria de quem consegue enxergar um banquete inteiro na curva de uma folha tenra ou na disposição exata das consoantes e vogais sobre o papel branco. Escrever é, afinal, o nosso jeito de traçar mapas invisíveis para que os pensamentos se cruzem na mesma esquina. Não precisamos desvendar o mistério das formas; basta que a nossa escrita guarde a exatidão daquilo que sentimos e a coragem de nos mantermos inteiras em meio aos desacertos lá fora. Vi essa semana que sua família ganhou um amor a mais. Fiquei horas sentindo a alegria de quem vê uma flor desabrochar. Talvez você possa, a partir de agora, experimentar o maior amor do mundo. O fruto de uma filha é uma bênção e a prova de que sua árvore ganhou mais um galho.

Bendigo o Santiago e bendigo esse amor maior que uma mãe e avó pode sentir. Ao cair da tarde deste domingo, quando o ritmo desacelera e o silêncio reivindica o seu espaço na mesa, deixo que as cores do dia encontrem o seu repouso. A terra cumpre o seu compromisso com a harmonia e, diante da folha branca, sigo costurando as minhas próprias linhas. A literatura e uma nova vida, afinal, são as geometrias mais bonitas que o tempo encontrou de nos manter presentes.

Um abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

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