Na minha lista de mulheres que me fizeram o que sou, ela não é a primeira. Mas, é o meu modelo e teve grande influência em tudo que sou. Talvez ela nem saiba que dentro da mulher que sou existe o espelho da mulher que ela é.
Da primeira lembrança, tenho um registro para mostrar: uma foto em preto e branco. Ela vestida de caçadora para uma apresentação da escola. Eu tinha cinco anos e ela… quinze. Eu via a minha irmã mais velha como uma rainha.
Anos mais tarde, a imagem da normalista transformava-se em deusa. O uniforme azul claro – com saia plissada, sapato de verniz, meia três quarto, camisa branca e a gravata – me encantava.
Eu reconhecia o barulho do ônibus que a trazia para casa, todo fim de tarde. Ficava com olho comprido, aguardando que surgisse na estradinha de chão batido para correr até ela e saber tudo que ela havia aprendido durante o dia. Ela não sabe, talvez desconfie… que foi inspiração para a minha poesia, a minha arte e o meu coração porque eu queria ser igual a ela ao crescer.
Vi minha irmã acompanhar a nossa mãe na luta pela vida. Acompanhei a descoberta do amor por um homem e o nascimento dos filhos. Eu sabia que ela era forte, corajosa e precisou ser valente para superar as perdas sofridas. Tempos difíceis que foram se acumulando. A vida exigiu muito dela e ela nem sabia de onde tirava as forças.
Mas eu sabia, era do seu coração. Aprendi com ela o que era cuidado ao vê-la lidar com o nosso pai como se fosse um filho.
Bordadeira e desbravadora. Consciente e sonhadora. Senhora dos rituais da nossa família. Da bá a avó Mariana que não conheci. Mulher da lida com a terra e com os ciclos: do plantio à colheita.
Em nossa linhagem ancestral… é a Matriarca que se vê refletir nos risos das netas. Que aprendeu a cerzir os erros, alinhavar os sonhos e costurar as lembranças em abraços.
E quando pega a tesoura, tecidos e linhas parece consciente de seu papel no mundo… Inspirar!
Quando nos encontramos, ela ainda é a minha “Mia” e quando canta para Manu, Maria e Bianca eu me misturo a elas e completo esse nosso ciclo, de mãos dadas, repetindo cantigas que aprendemos juntas.
Mariana Gouveia Texto publicado no Coletivo Clube do livro Artesanal Ciranda – De quantas mulheres somos feitas. Scenarium Livros Artesanais
Em minha defesa, à mesa, com meus verbos expostos, desde a fome aos cacos das xícaras que quebrei… desde o olho do cão faminto querendo migalhas… ao sonho do livro costurado sobre a mesa.
Bambina mia,
na minha mesa espalho suas cartas e os envelopes laranjas… falar sobre o tema me traz à memória a minha mesa da infância – e já falei sobre isso – sob o pé de sete copas, mas não tenho nenhuma foto para registrar. Mas, se eu fechar os olhos ainda ouço as risadas de todos os irmãos e com alguns passando debaixo da mesa. Em dias quentes, o barulho da faca cortando as ervas em um tec tec antes do almoço. O olho de minha mãe atenta ao ritmo da faca… O controle sobre as cartas, bambina, que escrevíamos ali, na mesa de madeira, que na mudança para cá eu trouxe uma tábua, que se transformou na mesa pequena que me segue desde sempre.
Hoje, minha mesa vira simbolismo nos artesanatos que crio, na mistura do papel sobre as linhas que teço em crochê, nas entregas das encomendas restantes. A mesa cabe a bagunça que a arte abraça.
E como a docilidade atinge meus dias, degusto da fome, da vontade, da leitura e de tudo que afaga a alma.. tudo ali, na mesa que tem coisas da minha infância e coisas atuais. É o que preciso depois de dias difíceis, sem rosas murchando sobre a mesa por falta de água. É o sopro distante da serenidade dos dias onde me cabe. A autora que tão bem sabe de mim e me cede especiarias em palavras.
Sabe, bambina, é a mesa que a família se reúne para as comemorações. Se eu fosse colocar a mesa dos aniversários, dos almoços de domingos, de reuniões de batismos, etc… eu seria crucificada. O olho vermelho da irmã, o bico do sobrinho, o borrão da luz da janela apagando metade da família. Meu olho volta para a mesa do canto, onde os bibelôs – companhias das noites de insônia silenciam – ou não? Fui somente eu que ouvi piados??
O reflexo da luz da rua bate na janela da sala. sou eu quem vejo ilusão na mesa de centro? As borboletas voam na parede da sala. A minha memória guarda as imagens para os dias que não vou poder ver nem na claridade dos dias. O tempo hoje é entre aspas para além dos óculos escuros. Era de mesa que falávamos? Conto sete passos de olhos fechados da sala até a mesa da cozinha… e nove, até a mesa de canto onde os livros para ler esperam… Conto os passos até a mesa de canto do quarto e finalizo a noite, mesmo sabendo que AINDA estou aqui.. no rompante das horas, para os dias que virão.
Bambina, mas em se tratando de mesa… ah, a sua povoa meu imaginário real. Pode isso? Pode sim! Ainda tenho a memória ativa do bolo de fubá no prato, do primeiro livro meu sendo costurado – e nem era cetim ainda.. Lembro-me que mais do que a mesa sob a árvore de sete copas – que serviu de lugar para minha infância e as brincadeiras mil em volta dela – a sua mesa serviu de colo para o meu sonho… o de escrever sentimentos.
Mordia o lábio para não revelar o segredo. Infringiu as regras do bom senso: roubou o perfume dela e viajou na essência cítrica… Com o nome a ecoar histórias e o coração a acelerar quando pensava… na pele! Pensou que fosse mentira o idioma e a cidade das poesias estampadas na camiseta sobre o amor.
O tempo muda por aqui e se eu te contasse quantas vezes a moça do tempo erra em sua previsão você ia dizer que é brincadeira. Está certo, que de vez em quando ela diz: pode chover a qualquer momento – e isso dito dessa forma me dá várias possibilidades. Mas, o fato é que, o tempo muda e um vento frio surge para os lados do Sul e eu te escrevo nesse fim de tarde, quase noite para te dizer que nada mudou. O medo ainda bate na porta, o meu pássaro de todo dia ainda vem para pousar na mão e os girassóis que plantei, devem dar flores em alguns dias.
O céu está estrelado e eu li no poema de uma moça que adoro que: ” numa noite cheia de galáxias distantes, amarraram na sua porteira – sempre entreaberta – uns óculos estranhos, bem mais escuros que o breu dos seus cabelos. Ela sabe que ninguém pode fugir do que está tão perto, do que é sem nome”.
E eu não tenho nome para esse tempo de agora. Porque, às vezes, a vida mistura morte e vida, tristeza e encanto e cabe-nos gerir tudo dentro de nós… nem sempre a gente consegue, assim como a moça do tempo não consegue dizer com certeza sobre a mudança do tempo. Em caso de dúvida, leve um guarda-chuva.
Contei a história para menina de agora. O bordado desenhou uma noite de estrelas. O céu tinha uma nuvem laranja. Alguém falou do fogo a invadir o cerrado. A meteorologia não teve previsão de chuvas… falou de meteoros. Um avião quase atravessou a lua. O céu, em infinitas vezes faz seu show de imagens… uma ave, o voo e a nuvem formando desenhos que me lembram a infância… A mulher de coragem enfrentou a dor. Inventou risos entre palavras e escolheu o substantivo feminino: força quando bebeu água com os comprimidos. Esperou a noite cair mansamente. Tem noite que parece criada dentro de um livro de história. Mas não é para qualquer um… apenas para quem é guerreira e tatua na pele o desejo de despertar.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar os quintais Scenarium Livros Artesanais
Vi as ranhuras na pele e o vento a debruçar nas janelas vizinhas fazendo as cortinas dançarem. Era o tempo das intenções tolas quando percebi seu sumiço. Você era tão presença que mesmo na distância eu não sentia falta, porque no íntimo de mim vivia pleno.
Foi numa manhã de luto que busquei tua mão e não te senti. Ainda gritei seu nome pelo quintal. Havia apenas a leveza dos insetos sendo consolo em uma tarde que se perdia no tempo, fugindo da previsão que a moça na TV anunciava no jornal do meio dia.
E quando não te achei mais, ali, onde te guardava feito joia, decidi deixar você ir. Era melhor mantê-lo vivo na memória com as alegrias disfarçadas dentro do amor.
E com a vida embaçada de sol recuso o pedido, mesmo porque nada mudou para além das histórias e tudo continua igual ao que o destino preparou.
Era um sol de agosto desenfeiando tudo e dando um ar de era possível (ainda). Luciane Recieri
Luci,
hoje lembrei-me de você. Já era para ter te escrito antes, mas os dias se perderam uns dentro dos outros e quando dei por mim, já era agosto. Queria ter te contado sobre minha ida ao lugar do meu pai – ou seria meu? – e dizer que tudo parece tão igual, Luci… Parece que ele ainda está no salão de tijolos expostos, sentado em sua cadeira de rodas a esperar o sol se por.
Daquele canto, Luci, bem rente à porta, o sol se escondendo fica visível, por que o muro é baixo e o beiral, um pouco maior do que os outros muros da rua. Fiquei horas ali, Luci, compondo memórias para dias iguais. Lembrei-me do seu pai também… tinha um estuque verde na parede da casa vizinha à de minha irmã, que não teve como não me lembrar de que foi assim que começou nosso diálogo.
Sabe, Luci, em muitos momentos dessa viagem lembrei-me de você. Teve tantos momentos que apontei para você, como se estivesse ali, comigo. Um deles foi quando descobri um tatu e ele se transformou em um amigo… Você precisava ver a cena dele dando uns pulinhos quando eu tocava ele no casco.
Acho que essa viagem, Luci, serviu para a saudade explodir na pele. O lugar do meu pai, a casa do meu irmão e o sítio onde os vagalumes bailam a noite toda e dá para vê-los mesmo em noite de lua cheia. Acho que senti ali, a mesma solidão sua de criança… e isso, nos liga mesmo tão longe fisicamente.
Agosto chega ardente, Luci! E logo já será setembro… mas ainda é o primeiro dia desse agosto que já arde tanto. Acho que era isso que eu queria te falar.
As lembranças sempre me chegam nos dias vazios. Era eu em tuas fotografias. O vento uivava no morro e ali, a vida parecia cor de rosa.
Te mostrei a florzinha azul. Falei da delicadeza do lugar. A aliança tinha ar majestoso na mão. Você tremia.
Não era chuva, mas tinha gotas a cair do céu em uma garoa que não era do lugar – ou pelo menos, eu nunca tinha visto – e você se deslumbra com a visão do céu ali. Quase tocamos as nuvens com as mãos. O dia era para ser feito de magia.
A timidez dominava seus olhos. Eu te via como a rainha do lugar. Era eu, indivisível olhos de amor.
Falei do mar que você me trazia e que ali, já havia sido um oceano. Era história contada nos livros. Onde as flores azuis nasciam – sua cor – foram encontrados fósseis marinhos. Um, que parecia estrela – eu vi – e quase pulei de alegria quando te contei.
Você falou da estação que sobrevivia os dias e de como era intenso o lugar.
Tenho todas as estações na mão. Em mim, tudo era primavera quando você estava.
Seus olhos se perdiam na imensidão do tempo. Passou-se tanto depois disso.
Lembro que no fim do dia o sol apareceu. Eu te cantei uma canção e fomos embora achando que a vida era isso.
Hoje, num dia vazio a saudade abre a tampa das lembranças e eu deliro – deve ser a febre – o dia parece igual àquele.
Já não é mais primavera em mim, mesmo dentro da estação das flores e a florzinha azul, ficou extinta e nunca mais nasceu.
Inaugurava em mim o outono e a voracidade dos dias. Mora dentro de mim as tuas digitais e os caminhos que percorro em tua pele a folha que cai enquanto o corpo treme é preciso sobre(viver) dentro das estações.