Era um sol de agosto desenfeiando tudo e dando um ar de era possível (ainda).
Luciane Recieri
Luci,
hoje lembrei-me de você. Já era para ter te escrito antes, mas os dias se perderam uns dentro dos outros e quando dei por mim, já era agosto. Queria ter te contado sobre minha ida ao lugar do meu pai – ou seria meu? – e dizer que tudo parece tão igual, Luci… Parece que ele ainda está no salão de tijolos expostos, sentado em sua cadeira de rodas a esperar o sol se por.
Daquele canto, Luci, bem rente à porta, o sol se escondendo fica visível, por que o muro é baixo e o beiral, um pouco maior do que os outros muros da rua. Fiquei horas ali, Luci, compondo memórias para dias iguais. Lembrei-me do seu pai também… tinha um estuque verde na parede da casa vizinha à de minha irmã, que não teve como não me lembrar de que foi assim que começou nosso diálogo.
Sabe, Luci, em muitos momentos dessa viagem lembrei-me de você. Teve tantos momentos que apontei para você, como se estivesse ali, comigo. Um deles foi quando descobri um tatu e ele se transformou em um amigo… Você precisava ver a cena dele dando uns pulinhos quando eu tocava ele no casco.
Acho que essa viagem, Luci, serviu para a saudade explodir na pele. O lugar do meu pai, a casa do meu irmão e o sítio onde os vagalumes bailam a noite toda e dá para vê-los mesmo em noite de lua cheia. Acho que senti ali, a mesma solidão sua de criança… e isso, nos liga mesmo tão longe fisicamente.
Agosto chega ardente, Luci! E logo já será setembro… mas ainda é o primeiro dia desse agosto que já arde tanto. Acho que era isso que eu queria te falar.
beijo meu,
Mariana Gouveia


Sorte daqueles que recebem cartas tão cheias poesias como as suas
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Quem sabe um dia você não receba uma, né? Beijo meu
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