Das palavras das cartas

Arco-Íris

Luci,

Eu também vi um arco-íris hoje… ainda era manhã chegando e ele engoliu a casa da vizinha num gesto de abraço. Sorri quando vi a cena e quis registrar. Depois, caiu uma garoa miúda e a chuva se foi. Ficou nas trepadeiras as gotas como se fosse um colar de contas.

Eu vi o dia passar leve dentro do segundo dia do ano. Brinquei com o estuque do muro e lembrei-me do seu pai na época em que ele não queria comer. Depois, procurei por nuvens que talvez te servissem de estimação e no fim do dia eu queria te contar uma história bonita…

Vi as aves retornando aos seus umbrais, os cães se estranhando por causa de uma bolinha e a magia do casulo se fechando…

Tinha ainda tanta coisa que eu queria te falar, mas o que ficou em mim nesse domingo é o arco-íris abraçando a casa da vizinha.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto52

A morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao pulsar dos segundos.

Querida Sandra,

” (…) estar ao abrigo do fim do amor,
é a isso que eu chamo felicidade.”

Marguerite Duras

Hoje, eu quero falar com você… nem sei se sobre mim, se sobre dor, perdas e morte… mas, quero falar com você, com minhas palavras que te abraçam para além das imagens.

Devo dizer que senti uma certa inveja de sua dor… você perdeu uma referência feminina muito grande – nem sei bem se o termo é perder , porque a referência que ela te deixou está aí, latente e viva em você. Tão forte e tão sensível.

Eu sempre fui rodeada de mulheres fortes, valorosas… mulheres que de alguma forma foram faróis no meu caminhar, mas não tenho referências de minha avó materna. Para mim, ela era aquele desejo mais profundo, de busca de colo e aconchego… mas, não vivi isso. Cheguei mais perto disso com minha Bá – dona Fulô – a parteira que me trouxe ao mundo. Só que a avó – mãe de minha mãe – que conheci através das palavras dela surgiu diferente diante de meus olhos, já nos meus dezessete anos.

Ela era perfumada… coque bem feito com seus cabelos compridos e indiferente ao meu olhar de neta. Quando minha mãe se foi, dias depois, o que era indiferença se transformou em ignorância. Ela nos ignorava. Talvez, essa seja a pergunta que mais me acompanhou durante tantos anos – hoje, não mais: porquê? A casa dela ficava a três quadras da nossa, na mesma rua… E entendo que por termos morado longe dela boa parte dos anos, a intimidade não foi construída e juro que tentei… depois de um ano e pouco, desisti. Não pedi mais a mão para meu luto, nem colo, nem abraço. Passei a ignorar e foi assim que me libertei da vontade de viver ela.

Ela também já se foi há alguns anos e lembro-me que o sentimento que senti ao despedir-me dela foi a indiferença. Nunca tive um abraço, mesmo pedindo e nossa despedida foi uma leve oração. Eu não sinto falta de afeto das mulheres infinitas da minha vida… mas, juro, que por muito tempo, eu quis o afeto dela para ter a lembrança dele quando ela partisse. Não chorei, nem senti a previsão de falta… Por isso, a inveja desse seu sentimento de dor…

Não vou dizer para você superar… porque sei que a falta é muito além da presença física. O que vou te dizer é para que você teça suas lembranças dentro de todo afeto que você recebeu dela e ainda recebe da filha dela – sua mãe – em ritos de coragem para poder viver. A morte é essa faca que corta da gente pessoas que são nossas bases. A morte pulsa nas veias da existência e isso é inevitável e o que fica é a leveza do afeto, do abraço, das imagens que a gente vê todos os dias.

Quero encher seus olhos de imagens lindas todas as manhãs para que seu sorriso vibre pelas ruas da França, pelos campos de Portugal e pela vida afora junto com as lembranças de sua avó sob a benção atenta de sua mãe.

Quero que minha poesia te alcance na tonalidade dos dias e das manhãs em fusos diferentes e quando o buraco em seu coração doer de saudades que todas as lembranças do afeto dela sejam como o pousar da borboleta na flor, como se fosse o abraço dela.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Projeto 52 – Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Ortega – Lunna Guedes

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – ho ho ho

Caro Dezembro,

Devo confessar que você acontece em mim bem antes que seus dias cheguem no meu calendário. Minha programação começa lá em setembro, quando a primavera atinge seu ápice no meu quintal e as flores exibem suas floradas por aqui…

É quando começo a produzir as encomendas para quem gosta de enfeitar seus dias com cores vibrantes, papais noéis em suas roupas vermelhas, anjinhos e imagine só, até bonecos de neves. A maioria das encomendas já seguiram viagem, ou foram entregues para além da rua de cima. Dia desses, quando fui ao mercado, vi uma das guirlandas feita por mim enfeitando a porta da casa amarela.

Acho que, como eu me visto de você em setembro, quando seus dias chegam eu já me desembrulhei do ho ho ho, das canções que se repetem desde a minha infância e até da música de fim de ano na TV… Devo confessar que houve um tempo em que o Natal era a minha data preferida… eu conseguia bordar todas as encomendas e ainda assim, vibrar com a mensagem do bom velhinho…

Mas, isso, foi lá na infância, quando todo mundo da família estava junto e a data era apenas a desculpa para se comemorar o que já fazíamos quase todos os dias. Em uma família grande, quase todo mês era aniversário de alguém e só por isso, tudo era uma festa. E minha mãe repetia sempre que devíamos ter atenção para a mensagem verdadeira do Natal… isso foi há tempo que parece outro século e cada um, em seus lugares, com suas famílias construídas para além dos anos, comemora de outro jeito, outra forma.

Hoje, a festa já vale por eles e enquanto finalizo as encomendas, a vida se veste de Natal em alguns momentos, mas fora de seus dias… Yoshi, por exemplo, quando escuta eu falar o ho ho ho… já se apronta para a brincadeira onde eu corro e ele me alcança…

E Lolla fica simplesmente nos espreitando como se já estivesse cansada demais e com calor para fazer isso… Não é por ser você, o último dos meses que me sinto assim… na verdade, a rotina com o canto dos pássaros e mais ainda nesses tempos onde quase não há nada para comemorar, depois de tantas perdas, te aviso que já estou na Páscoa… Coelhinhos ganham contornos com linhas brancas e douradas, cenouras e suas folhas verdes já aparecem por aqui… Que tal um chocolate?

Feliz Natal, Feliz Ano Novo e Feliz Páscoa!

Mariana Gouveia

Esse texto faz parte da blogagem coletiva 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Obdúlio Nuñes Ortega

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto52

Caminho… e atrás de mim caminham lugares…

Bambina mia,

Já te aviso de antemão que essa carta é extra-sensorial… Em alguns momentos você pode fechar os olhos e sentir o vento… o caminho por onde te levo tem vento e tem o cheiro de sua cozinha, da xícara de café, do pão no forno sendo assado… e tem tato, porque posso sentir você ao mais leve toque na tela do computador… o abraço quentinho, a risada moleca e o som da bolinha de tênis ecoando pela casa enquanto Jane dog tenta roubá-la…

Acabei de descrever a saudade – você sabe disso – e vendo sua foto sorrindo, é como se você estivesse em minha frente, abrindo caminhos calçadas afora para eu não tropeçar, indicando esquinas enquanto caminho…
Caminho… e atrás de mim caminham lugares… e posso detalhar cada centímetro das ruas que caminhei contigo.
O vento gelado de um fim de agosto, garoa fina, mala arrastada…
Ônibus lotado e seus olhos marejados enquanto te contava minha história e senti ali, a cumplicidade de quem entende o outro sob o olhar atento do amor. Tantas coisas que já vivemos juntas.

Poderia enumerar datas e assim, marcar o tempo que existo em sua vida… mas, acho, que eu me enganaria porque acredito que o Universo só nos reaproximou de novo, de algum tempo em que não lembro, só que desde o primeiro abraço houve o reconhecimento de que eu já estive dentro dele em outro tempo.

Essa missiva está adiantada algumas horas, porque seu dia é amanhã e seria para amanhã minhas palavras. A gente anda se emocionando juntas em conversas em aplicativo de mensagens, e posso dizer em segurança que sua mão segura a minha sempre… em filas de espera, enquanto faço almoço, jantar, café da manhã… quando trovoa, quando tem sol e então, nesse meu caminho, sei de sua presença ali, mesmo não estando e a cada caso novo, história, memória e até fofocas, você está ali, atenta ao meu chamado. Sou grata por você na minha vida… se eu sou um afago do universo para você… ah, bambina mia… Você é a porta segura que sei que ao bater, ela se abrirá para mim. Com todos os aromas que uma casa possui, inclusive da pizza que acaba de me oferecer e seu abraço tão reconfortante.

Sou mesmo uma abençoada!

Auguri!

Mariana Gouveia
Projeto 52
Lunna Guedes – Anna Clara de Vitto

Afetos · Geral

A Tempestade que eu sou

ilustração de Puf capitão caverna

Chegar à margem e ter medo da quietude da água.
Antonio Gamoneda 

Muitas vezes já perguntei a mim mesma que tipo de tempestade seria. A palavra tempestade me absorve inteira. Fico embevecida quando vejo ela se iniciando no horizonte e seus sons chegam primeiro avisando que está chegando. Mas, qual seria […]

A Tempestade que eu sou — Adriana Aneli
Scenarium Livros Artesanais

De que eu me lembro?

Lembro-me do vento a agitar os tsurus nas árvores e era uma manhã clara de um sábado qualquer de novembro. Logo depois chegou o envelope lilás de Paris e a carta falava da volta e havia ideogramas com nossos nomes coloridos… Parece mentira, mas lembro-me dos cheiros desse dia… e durante muitos dias depois me lembraria do cheiro do pão fresquinho da padaria da esquina, do orvalho se desprendendo dos capins na beira da calçada e do hortelã recém colhido por alguém na redondeza… Uma moça havia passado por mim e deixado um rastro do perfume anais anais rua afora – atemporal na memória, pensei nas últimas gotas que você havia deixado em cima da cômoda do quarto quando você se foi – enquanto eu fechava o portão, com o envelope nas mãos.

Depois disso, lembro-me que todas as tardes, eu ficava na janela, ouvindo os barulhos da rua de cima para ver se surgia algum sinal de você havia voltado. Perdi a conta dos dias em que preparei o chá e as broinhas que você gostava, só porque eu vivia em estado de espera…

Com o passar dos dias, eu já não usava mais a blusa de laise e tirei os tsurus da árvore no quintal… Logo seria o tempo das chuvas e pendurei eles na janela da cozinha. Alguém limpou a calçada e não havia mais o capim onde o orvalho rescendia nas manhãs de espera e a moça com o perfume anais anais deve ter mudado da vizinhança ou mudou a rua de passar… e foi aí que você chegou…

Era uma manhã quente verão… os trovões ecoavam no céu e eu nem notei o aviso dele… na pressa, antes da chuva, corri para recolher as roupas no varal… e foi aí que senti sua presença, logo além do muro, parada, antes de bater no portão… não senti mais a solidão de antes. Você ocupava cada milímetro da minha rua e quando adentrou casa afora pareceu que você nunca havia partido. É disso que eu me lembro.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Blogagem Coletiva
Participam desse projeto:
Roseli Pedroso – Lunna Guedes – Obdúlio Ortega

Colcha de Retalhos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Ao ler o meu livro você vai encontrar:

Fotografia: Lunna Guedes

Primeiro, o cheiro… que talvez seus sentidos te levem a pensar em flores de cerejeiras – ou sakuras, como dizia Kaori – e claro que é apenas uma sugestão minha, para que você pense nas cerejeiras, na certeza de que você encontrará sonoridade, gratidão e amor nas páginas de Colcha de Retalhos.

Colcha de Retalhos se trata de uma história de amor. Na edição de Lunna Guedes – maravilhosa! – o amor se transformou na costura, em forma de quadros e os capítulos uma colcha, onde a emoção predomina.

As ilustrações de Carly Ca traz ainda mais sensibilidade para um livro já tão sensível e delicado. Os números, em homenagem a Seiko e Kaori trazem acima da página a tradução em japonês.

Então, para você que adquirir Colcha de Retalhos, digo que você vai se emocionar, se deliciar e andar de mãos dadas comigo nessa história linda de amor.

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais


Colcha de Retalhos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalho – Os personagens.

Qual planeta habita hoje? — pergunto com o olhar
a vigiar o teu céu.
Qual emoção move nesse plano além dos olhos?

A fita de cetim dá contornos à Colcha de Retalhos e usando a simbologia do amor os personagens trazem a delicadeza dentro da história:
Mariana/Maryann – é a narradora da história onde conhece a cultura japonesa com a vizinha Kaori e Seiko, um casal de japoneses que migraram para o Brasil e posteriormente para Mato Grosso, aonde se passa a história.

Ana de Marte é a protagonista. A história se passa em volta dela. Uma menina/mulher que após sofrer um incêndio em sua casa, e perder os pais, vem se recuperar das queimaduras na casa de Kaori e ali passa a viver o amor com a vizinha Maryann.

Basicamente, são 4 os personagens, mas há também o inquilino (que compra a casa de Ana) que tem uma participação linda na história e se torna amigo de Maryann.

Esses personagens se intercalam na delicadeza da narrativa da autora. Com edição de primorosa de Lunna Guedes e ilustrações maravilhosas de Carly Ca, Colcha de Retalhos passeia com suavidade no amor entre duas mulheres e a saudade após uma partida prematura.

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais


Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos – A história

Fotografia Lunna Guedes

A vida não escolhe os premiados em amar.
Simplesmente ama-se e ponto. Sem questionar os
porquês, ne? Porque isso é único e intransferível
.

Querida Anielle,

Essa carta chegará em sua mãos daqui alguns dias e ela te levará meu último livro Colcha de Retalhos… Escrevi essa história em 2015 e confesso que relendo tudo de novo, parece que tudo aconteceu ontem. As dores da saudada retornam, as lembranças são quase tocáveis e sei que sentirá o tanto de amor que Ana recebeu, porque a história é ela.

Eu tinha 16 anos quando conheci sua irmã e a vontade dela de viver me puxou pela mão e me virou de ponta cabeça fazendo meu riso ecoar na rua em que eu morava e em todo canto que estivemos Tudo era tão bonito nos olhos dela e sob o silêncio, que muitas vezes tive de quebrar.

Retratar as dores, as lutas e os caminhos que ela percorreu mundo afora, de uma forma singela como ela era foi a parte mais fácil. Falar da volta, da tranquilidade que ela buscou e da partida tão repentina para nós foi como rasgar de novo a ferida… Mas, olha, a delicadeza com que Lunna Guedes tratou e costurou cada quadro, dando vida, cor e voz para essa história foi como um bálsamo de cura.

Quis te escrever para que saiba que Ana permanece intacta no meu coração com a mesma magia e alegria de sempre e cada vez que vejo Marte no céu, em forma de estrela, sinto que ela se apresenta com o riso nos olhos de avelã que a gente nunca vai esquecer.

Os quadros foram costurados, e mesmo a história sendo um caso de dor, no fim, a colcha de retalhos se tornou aconchegante… e eu diria que ela te aquecerá a alma e também de todos aqueles que lerem e você por fim conhecerá a história de amor que moveu a vida de sua irmã dentro dos dias da maneira mais linda que se pode amar alguém e ser amada.

Abraço carinhoso,

Maryann

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais

Afetos

Ar, terra, fogo e água

Para Carolina Cassia.

Ela gosta do mundo das algas
chora quando vê a fome de perto
e no mangue é mulher principal…
é inseto, é bicho, é gente

Busca na origem, a água e os quatro elementos regem dentro dela
É uma só e ao mesmo tempo uma multidão
É pedra na sombra
é sombra no vento
é a força que vem do nome e na voz que grita contra a escravidão.

No ar, estende a mão como se quisesse comer a poesia da vida
ama a arte na rua e em qualquer lugar
é ar, é broto em formação.

Fogosa, domina o mundo
Margem fértil, resistente tal qual o mandacaru
e suave, como sua própria flor

Raiz mestra de quem a cerca
e sem palavras diante da poesia que o manguezal recita

É contra luz, porta, janela
é gravura, captura
solidão…

e na rua é todo mundo junto
é abraço, acolhida
é musgo, cacto, casca e flor
é espinho e perfume

é caule, é elemento
para mim, além de tudo
ela é vida e amor.

Mariana Gouveia
Fotografia: Carolina Cassia