Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Do dia em que ela eclipsou

Os cheiros do céu cuidam da semente na terra. A racionalidade do sol e a emoção da lua influi na paciência da espera. Era ali, a estação da alma. Dentro dela o cheiro dos cravos chineses e a borboleta encantando o mar enquanto o rio se desenha além dos muros. Dentro dela, eclipse. 

Mariana Gouveia
Ser de flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Plural Editora

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Dos dias em que amou.

Morria de medo de amar. Amou.
Cantava a sorte de um amor tranquilo na vitrola vintage que ganhou do pai e os discos de vinis trazia o fado – sempre via dentro do olhar que ela nunca viu – que em noite de lua embalava o sonho de eclipsar a vontade do beijo dela. Não era a dança sob a lua no quintal, nem a maresia que invadia o quintal dela… Não era nada disso que alimentava as noites de luar prateado. Não era o mar e sua rota torta, inquilino dentro do peito que fazia ela viver…  era a vida feita e refeita dentro do amor que o nome dela trazia poeira estelar quando cantado. Era essa espera no cais. Outra vez.

Mariana Gouveia
Ser de Flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

– Ocupar o silêncio da casa

Bambina mia,

Eu nunca consegui ocupar o silêncio de uma casa… pelo menos, não me lembro. Desde pequena, com seis irmãos, a algazarra era imensa e mesmo eu sendo a mais quieta entre eles, o silêncio não existia e fui deixando o barulho gritar em mim.

Dos barulhos que eu mais gostava era o dos trovões e mesmo com todos os espelhos tapados com lençóis e o medo de minha mãe dos raios que sempre acompanhava a fala do céu quando acontecia uma tempestade, para mim, o trovão era a voz do céu… rompia o silêncio ou abafava os gritos dos irmãos em correria pela casa e eu ficava em pé, na porta ou janela, maravilhada com o eco a estrondar enquanto meus irmãos se escondiam. Buscavam abrigo no colo ou ao lado da mãe.

Com o passar do tempo e a distância entre os meus irmãos, eu rompo o silêncio que em alguns momentos me ronda com música, o canto dos pássaros e o vento.

Hoje, meu dia foi quase igual ao seu e enquanto sua missiva ganhava minha emoção, trovejava aqui… e como se fosse sintonia, o toc toc da mensagem ecoou com seu nome sendo gritado no quintal.

Esteve quente o dia inteiro e antes que o aroma que nós duas amamos – o petricor – exalasse por aqui, trazendo a docilidade de suas letras, trovejou… e ao gritar seu nome lembrei-me que descobri sobre o nome petricor dias desses – que é nada mais que o cheiro do pingo da chuva na terra seca. Fluído etéreo. Sangue dos deuses – é quase poesia… já, imaginou, bambina, a poesia no nome das coisas? O aroma que a chuva provoca ao tocar o solo… é como se perfumar para encontrar alguém e juro que me lembrei de sua rinite e sorri quando descobri que esse cheiro é quase como o cheiro do seu abraço…

E veio o vento, trovões e chuva e meu quintal vibrou com o petricor a aromatizar o jardim enquanto chorei… Essa semana, foi de partidas e de nascimento. Alguém se foi, porque era o tempo de ir e um menino nasceu sob meus olhos. E sob seus olhos, um ninho se fez colo… Fico me perguntando onde as coincidências nos alcançam sempre?

Enquanto os relâmpagos cortam o céu eu encontro a resposta: é no silêncio que se ocupa de nós. O da sua casa e o da minha… nesse piar que ocupam sua varanda e o meu quintal. O silêncio que grita em nós.

Amo tu imenso!

Bacio,
Mariana Gouveia
Ph: Imagem: Pinterest
#projeto52
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Mãe,

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida. Apertos de mãos quentes.

Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes

… (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos…)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono

ainda tocada por um vento de lábios azuis…
José Gomes Ferreira

rasgando os dias no calendário já conto 39 anos que você se foi… seria estranho dizer que parece que foi ontem e que sua falta é esse abandono na alma. Queria que fosse igual ao poema e pudesse te alcançar em uma nuvem… mas, as nuvens são feitas para chuvas – você diria – ou para desenhos engraçados no céu.

Confesso que gostei mais da alusão das nuvens, do que da fumaça, que ronda meu lugar, o cerrado transformando em um cenário desolador. Não sei se você gostaria desse tempo…

Além dos aniversários, eu te escrevo sempre nessa data, como forma de te manter aqui, ainda na memória viva do tempo em que fui sua filha. Não temos muitas fotos suas e as que tínhamos se perderam em álbuns guardados em fundos de baús. Essa, acima, recebi a pouco tempo e lembro-me bem desse riso, dessa pose e de tudo que retrata a fotografia. Lembro-me até da cor do vestido, que foi feito por você quando saiu do luto pela partida do meu avô.

Hoje, falando com uma amiga, em outro contexto, falei sobre a canção que fala do sol quarando as roupas no varal e essa é uma memória que nunca vai se apagar de mim… os lençóis sendo quarados, o cheiro de roupa limpa, o anil sendo preparado para as roupas… nossa, mãe! Parece que é agora e já foi há tanto tempo.

Essa carta é só para dizer que ainda tenho tantas perguntas sem respostas, mas que também tenho recordações de tantos momentos que dizem muito mais do que posso escrever. As perguntas ficarão para outro momento, dentro de um tempo em que poderá responder.

Um abraço cheio de saudades,

Mariana Gouveia
25 de Setembro de 2021.

Corredores, Codinome Locura

O perfume esquecido das rosas

Nas gavetas reviradas, procuro o perfume esquecido das rosas que minha mãe plantava. Era hoje, há anos atrás – as flores e seus insetos feito pingente – a fragrância exalava pela rua de calçadas altas. Ela contava histórias de jardins, quintais e de que a felicidade pode ser colhida diariamente, em pequenos momentos – ninguém é feliz o tempo todo – e lembro-me da borboleta que passou e ela falou de viagem.
Guardei aquele momento, onde a realidade era completa. Nunca mais se repetiria as frases ditas naquela rua de calçadas altas…
No outro dia ela se foi e ficou apenas o perfume esquecido das rosas que ela plantava.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

minha memória não era lembrança de nada…

Somente no impulso de ultrapassar os dias para vencer o espaço da minha vida dentro da primavera, eu achava o céu vazio, mas a memória era minha – eu sabia – e por mais que eu buscasse o fulgor da estação, voltava em mim esses avisos surdos que abalam as raízes do meu ser… a sensação de plenitude ou nada…
Ouvia as promessas de antes quando certas horas me visitam e quando uma música me fazia recordar momentos… Chopin, Noturno nº 20.
Falei aos moços de Proust, no tempo que apenas leituras moravam nas minhas lembranças.

Do halo que se ergue nas flores que nascem no quintal. Do doce feito da fruta colhida fresca, e um sabor que se conheceu na infância.

Dos maracujás reencontrados mais tarde com memória de outrora… Ali, no cerrado que já não existe mais…

Mas, a minha memória não era bem essa. Minha memória não tinha apenas fato vividos… não exigia sua recuperação para que o halo se abrisse…

minha memória não era lembrança de nada…
uma música que se ouve pela primeira vez,
um raio de sol que atravessa a vidraça,
uma vesga da luar de cada noite que podia se abrir lá longe, na dimensão absoluta, de um céu cheio de estrelas.

O eco dessa memória ia para além da vida e soava pelos espaços desertos, desde antes de eu nascer e se espalhava para além das flores que nasceram dentro da estação.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Dos diários que não escrevi

A vista me lembrava o terraço da casa de minha avó. Os bordados sempre engomados dependurados e os hibiscos derramavam suas flores em seus diversos tons. A estação muda as cores da manhã e lembro – me de que a vida cabia minúscula nos lenços bordados com monogramas e as lembranças daquelas manhãs regadas de doçura e das roupas espalhadas no chão, e sem esforço, ainda sentir o sabor doce do melhor beijo.
A casa tinha rotinas logo pela madrugada. O café era servido na casa grande e os pássaros invadiam os jardins em seus galhos e os beijos eram furtivos – ou roubados – sob as janelas pesadas entreabertas depois do terceiro toque.
O relógio do pai sempre desobedecia a temporada das flores. O cafezal seguia o ritmo primeiro do afago na terra que a mãe em sua sabedoria fazia…

Mariana Gouveia
Ser de flor
Dos diários que não escrevi

Corredores, Codinome Locura

Eu conheci o fogo e já não havia esperas…

As aves, perdidas, morreram no ninho. Os animais, perdidos, sem jeito de fuga, sem rumo.
A sede devastou a vida conjugando o verbo diário do rio, que secou…
E como encontrando uma maneira de acalmar meu coração fiz mudas de esperança e estou guardando as sementes, algumas memórias, um pouco do vento, o som que trago no peito, grifado como tatuagem, gravado como se fosse agora para seguir em frente, depois que tudo isso passar.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Preciso te contar…

como é dolorido o processo da morte. O fogo acontecendo em todo lugar.
Das flores, que vi no Pantanal já não resta mais nada.
A solidão da primavera de luto diante da semente que não germinou.
E nos jardins, a alma clama chuva.
E a vida que ainda busca esperança para quando tudo isso passar.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Minhas coleções.

Eu tenho uma caixinha. (Que boba! Antes, deixe-me explicar.)
Ela não é grande, nem pequena…

é bordada por amor, trancada por causa do medo, feita com o tempo…
O que há dentro? Pessoas; mas somente as que souberam trapacear minha proteção.
Lembranças; algumas nem tão felizes, porém bonitas, resistentes. Necessárias.
Juliana Lohmann

Bambina mia,

Eu também tenho uma caixa, que antes era um baú e foi perdido por descuido de alguém que não vale a pena falar – acho até que já falei sobre isso – e nessa caixa tenho as minhas coleções… Desde pequena que me tornei colecionadora. De papéis de cartas, de canetas e lápis e diários.

Com o tempo passando, e já dona de casa, passei a colecionar imãs de geladeira. Eu tinha vários, de tantas lugares diferentes enviados por amigos que sabiam que eu gostava. Minha geladeira, teve uma época parecia um desses quadros de brinquedinhos de criança. Depois, com a troca da geladeira, vieram parar na caixa, aguardando outro lugar para ficarem.

Sabe, bambina, posso enumerar várias coleções que tive e que depois de um tempo perderam o significado inicial ou algum outro motivo especial como minha pequena coleção de pedras… isso mesmo, pedras de formatos diferentes que eu encontrava nos caminhos onde andava. Tinha uma que parecia um disco voador, caveira, osso, coração, bombons e por aí vai… essa, doei para uma menina que precisava mais dela do que eu… Hoje, uma que ganha minha atenção são as desses bonequinhos – não estão todos aqui e ainda me falta o Charlie Brown – que amo.

Não poderia faltar também a coleção de xícaras e adoro! Elas tem um lugar reservado na estante e ali, fazem a cada dia meu café mais delicioso…

A de carrinhos antigos, começou por causa de meu filho e aqui ficaram quando ele se mudou. São 50 carrinhos, de vários modelos e ainda faltam aqui o fusca e uma Kombi, que ainda não consegui comprar.

Mas, além de algumas outras como das revistas manequim ponto cruz completa – haja armários para caberem – e outras de receitas de crochê, a minha favorita é a coleção de conchas. De vários tamanhos e cores e não cabem na mesa para a foto. Não me canso de admirar e sempre ganho alguma nova, enviadas por amigos.

E para além das fotos e por fim, atualmente, coleciono suculentas. Talvez seja a coleção que mais cuido. Sou aquela menina que colecionava cartas, envelopes e sonhos e hoje, as flores dominaram meu quintal.

Bacio,

Mariana Gouveia
Blogagem Coletiva Interative-se
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse Projeto:
Isabelle BrumLunna GuedesObdúlio Ortega