Desvios para atravessar os quintais · Divã · Projeto Diário das quatro estações

Divã

Entrei. Sentei-me na poltrona onde podia ver a janela. Pediu que eu falasse sobre o que eu sentia. Calor – o sol está castigando esses dias – há um sol para cada um nesta cidade… Acaba com meu jardim. Ela se sentou no divã vermelho. Clássico. 
e desabou a falar de flores. Quis descobrir o que eu sabia das lanternas chinesas e comecei a falar de luz. Falei das histórias que li e do poema em mandarim do livro verde e de como a semente veio parar em minha mão. Ela achou tudo poesia pura e me pediu para voltar amanhã.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar os quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Germinei

Desenhei os defeitos dela na prateleira mais alta e gravei em letras garrafais: SÓ USAR EM CASO EXTREMO DE FALTA DE SENTIDO.
Tatuei no jardim a pétala que a mão dela me tocou. Havia tudo que é flor possível no pólen.
Germinei.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Cadeados Abertos, in Diário das Quatro Estações
Scenarium Plural Editora

Corredores, Codinome Locura

João.

Quando o jardim chegou ao ápice virou colo, a flor.
O cheiro exalando fragrância de terra molhada.
Um menino, que enfeita meus dias nasceu há cinco anos atrás. O verbo do dia cheio de desejo de riso e o pólen, saciando fome do inseto que voa.
Tem dia que a festa é dentro do coração.

Mariana Gouveia

Afetos

A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer.

Eu devia ter uns sete anos quando me apaixonei pelas cores grená, verde e branco. Na verdade, eu nem sabia quais eram os tons que o narrador do rádio traduzia nas palavras. Mas, o que eu sabia era que amava o som da torcida que ecoava o hino e fazia acontecer em mim a emoção.

O velho motor rádio do meu pai dava lugar e voz para Valdir Amaral e Jorge Cury nas narrações do tricolor da Laranjeiras e foi ali, pelas ondas do rádio que o Fluminense ganhou meu coração. Eu queria muito saber o tom que tinha as cores que o narrador contava. Mas, minha cartilha só ensinava as cores básicas e conhecidas na tabela de cores.

Eu sabia o nome de Wado, Telê e outros, e até as cores verde e branco, porém, o grená atiçava minha curiosidade até o dia em que em uma revista Placar, que chegou entre os livros que ganhei deu cor e mais amor ainda ao meu time. E eu que já amava aquela camisa tricolor, e só a conhecia pela descrição dos locutores de rádio, mesmo sem saber a cor passei a entoar o hino com mais emoção.

Comemorei muitos títulos, chorei várias derrotas, vibrei com tantos jogadores e mesmo tão longe, mesmo sabendo que ninguém do time sabia sobre mim, eu sentia que minha torcida se juntava à todas aquelas vozes que o rádio trazia até onde eu estava. Domingo era dia de jogo e o rádio, a ponte que me ligava ao Fluminense.

Se a poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer e a poesia acontece em mim de várias maneiras, mas quando o time entra em campo e o hino ecoa meu corpo ganha o poder de torcedora.

Nunca tive uma camisa do meu time. Sempre que havia um plano de comprar surgia algum imprevisto ou alguma urgência e a camisa ficava em segundo plano, embora meu amor pelo clube, não. Esse é ecoado em verso, como se fosse uma oração.

Hoje, resolvi escrever esse texto, porque semana que vem o meu time vai jogar aqui, na minha cidade. Tão perto e a emoção já toma conta de mim. Sou apaixonada pelo Fluminense desde quando nem entendia de futebol. Por que acho que torcer para o clube é algo que vai além de quem ou para quem você deseja torcer. Você já nasce sendo.

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com o verde da esperança
Pois quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias e vitórias mil!

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão

Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com sangue do encarnado
Com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar com a emoção do tricampeão!

Vence o fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol da manhã
Qual luz de um refletor
Salve o tricolor!

Mariana Gouveia
Fotografia: Pinterest

Corredores, Codinome Locura

Clave de sol

O corpo avança seguindo a canção. Clave de sol, lá menor…
A melodia acompanha o vento e a flor, tão cheia de som capta o riso.
A ave de todo dia, o ressonar dos cães… a canção recém descoberta… O dia foi pura sinfonia.
Dança comigo?

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Era para ser um poema

Era para ser um poema
e nas miudezas das coisas, veio a delicadeza. O diário chegou ao fim.
Era para ser vento, mas esse, acanhou-se depois de beijar o pólen.
Os mapas vincados na pétala da flor e o eco das palavras ganhando dimensões além.
As memórias se evaporando em meio ao silêncio do dia.
Hoje, o jardim espera a noite para amenizar o calor do dia.
É como se o deserto fosse aqui.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

O pólen sendo leveza…

Podei as plantas do jardim e molhei as flores enquanto canto a minha ancestralidade de água.
A seiva absorve a singeleza do rio, e a sudoeste o vento aponta para o rumo do sol.
A lua, em sua fase minguante caminha lentamente, enquanto delírios acontece dentro da cor.
O pólen sendo leveza na calma dos gestos.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Corredores, Codinome Locura

Ser de flor

Vasculhei o baú de coisas tuas e achei ali – ausência – minha.
Junto das lembranças, um relicário feito de jardim e a flor silvestre no pingente – você transformou a flor que eu trouxe do campo em joia – e as pinturas ao lado do poema que fala de mar, o anel.
Uma borboleta de prata, que uma amiga enviou e as conchas marinhas feito versos dentro dos séculos. A ausência era minha. Tão vaga em você. Releio as frases das cartas que não enviei e ali, exponho gotas de saudades, que é para molhar a flor do campo, em seu relicário, para que ela não morra de sede.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Os dias no calendário sendo arrancados.

Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios. A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis. O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida, ali, no quintal.
A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao jardim. A flor já é oferenda do tempo. Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Havia um riso estranho no homem da esquina.

…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais