Afetos

A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer.

Eu devia ter uns sete anos quando me apaixonei pelas cores grená, verde e branco. Na verdade, eu nem sabia quais eram os tons que o narrador do rádio traduzia nas palavras. Mas, o que eu sabia era que amava o som da torcida que ecoava o hino e fazia acontecer em mim a emoção.

O velho motor rádio do meu pai dava lugar e voz para Valdir Amaral e Jorge Cury nas narrações do tricolor da Laranjeiras e foi ali, pelas ondas do rádio que o Fluminense ganhou meu coração. Eu queria muito saber o tom que tinha as cores que o narrador contava. Mas, minha cartilha só ensinava as cores básicas e conhecidas na tabela de cores.

Eu sabia o nome de Wado, Telê e outros, e até as cores verde e branco, porém, o grená atiçava minha curiosidade até o dia em que em uma revista Placar, que chegou entre os livros que ganhei deu cor e mais amor ainda ao meu time. E eu que já amava aquela camisa tricolor, e só a conhecia pela descrição dos locutores de rádio, mesmo sem saber a cor passei a entoar o hino com mais emoção.

Comemorei muitos títulos, chorei várias derrotas, vibrei com tantos jogadores e mesmo tão longe, mesmo sabendo que ninguém do time sabia sobre mim, eu sentia que minha torcida se juntava à todas aquelas vozes que o rádio trazia até onde eu estava. Domingo era dia de jogo e o rádio, a ponte que me ligava ao Fluminense.

Se a poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer e a poesia acontece em mim de várias maneiras, mas quando o time entra em campo e o hino ecoa meu corpo ganha o poder de torcedora.

Nunca tive uma camisa do meu time. Sempre que havia um plano de comprar surgia algum imprevisto ou alguma urgência e a camisa ficava em segundo plano, embora meu amor pelo clube, não. Esse é ecoado em verso, como se fosse uma oração.

Hoje, resolvi escrever esse texto, porque semana que vem o meu time vai jogar aqui, na minha cidade. Tão perto e a emoção já toma conta de mim. Sou apaixonada pelo Fluminense desde quando nem entendia de futebol. Por que acho que torcer para o clube é algo que vai além de quem ou para quem você deseja torcer. Você já nasce sendo.

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com o verde da esperança
Pois quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias e vitórias mil!

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão

Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com sangue do encarnado
Com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar com a emoção do tricampeão!

Vence o fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol da manhã
Qual luz de um refletor
Salve o tricolor!

Mariana Gouveia
Fotografia: Pinterest

das coisas breves

Era para ser um poema

Era para ser um poema
e nas miudezas das coisas, veio a delicadeza. O diário chegou ao fim.
Era para ser vento, mas esse, acanhou-se depois de beijar o pólen.
Os mapas vincados na pétala da flor e o eco das palavras ganhando dimensões além.
As memórias se evaporando em meio ao silêncio do dia.
Hoje, o jardim espera a noite para amenizar o calor do dia.
É como se o deserto fosse aqui.

Mariana Gouveia
Ser de flor

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Os dias no calendário sendo arrancados.

Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios. A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis. O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida, ali, no quintal.
A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao jardim. A flor já é oferenda do tempo. Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Havia um riso estranho no homem da esquina.

…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – vistas

O que eu avisto quando o olho alcança o quintal? Para onde meus olhos antecede o encanto até mesmo dentro do meu muro? Ou para além da rua de cima onde aponta minha bússola imaginária? Não vejo a arquitetura de uma cidade que cresce – às vezes, de forma desordenada – com suas invasões e desmatamento nos arredores.
O que vejo, é a densidade de uma natureza que luta para viver… seja no meu quintal, ou nos cantos por onde ando.

O cerrado é logo ali, rente as casas em um lugar onde o sol mora… e o algodãozinho do cerrado brota como se pudesse morar aqui para sempre.

E o cerrado se faz vivo mais do que nunca dentro do meu quintal e na rua de cima… é ele que amarela as tardes por aqui e faz com que os insetos briguem em um constante zuum zuumm…

E nem só de amarelo vive o quintal, e nem de sol… A primavera, ainda com ares de quem acaba de nascer se ostenta para lua enquanto o meu olho enxerga o céu e suas nuances…

É como se as nuvens estivessem vestidas para a festa… e o contorno da casa vizinha fosse o palco.

Mas, há dias em que a lua em suas diferentes fases quer apenas se encostar na folha, espiar os frutos que nasceram por aqui…

ou simplesmente se dar ao luxo de ficar de quina para as flores…
A pandemia me deixou reclusa… e para além de onde enxergo dentro ou fora dos muros tento que minhas vistas sejam de esperança de dias melhores e esse meu desejo chega até você.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto: Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Obdúlio Ortega

das coisas breves

Tem dia que é feito dia de irmão.

O jardim ficou quieto em dia sem vento. O calor, ao amanhecer, seca o orvalho das flores.
O pássaro de todo dia fica preso dentro da sala e o eco do chilreio me acorda em uma manhã feita de acasos.
A borboleta gerou casulos, o girassol sorriu flores, o menino da rua de cima tocou flauta e eu abri a porta para o pássaro voar.
Tem dia que é feito dia de irmão. Cheio de delicadezas.

Mariana Gouveia
Ser de flor

das coisas breves

Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo.

Anoto em uma carta as frases que diria… as sombras na parede espantam a solidão enquanto o sol aquece os corredores vazios. O jardim envernizado com flores de plástico esconde a parede oca para o futuro do nada. Descobri casas abandonadas na minha rua. Cada uma grita um nome quando a noite cai. 

Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo. Os intervalos entre o vento e o muro é o calor. Alguém canta na redondeza. Contam histórias de horóscopos e tarôs. vejo as constelações todas num céu sem nuvem… o rumor da pele desenhando tatuagens. Misturo os assuntos e rasgo a carta.  As frases ficam soltas em uma estrada diferente da outra. o mar afasta a possibilidade de escolha. Em algum lugar, a estrela fica fora do céu. O vermelho ao meu redor é apenas a vontade de estar onde não estou.

Mariana Gouveia
Ser de flor

das coisas breves

O elemento do jardim é a flor.

Começou a escrever a história pelas mãos dele – as mesmas que arrancam as ervas do jardim – é a que cuida do jantar e me levanta quando acontece dias como esse.
Calçou-me os sapatos e riu. Brincou com as bolinhas da roupa.
Perguntou sobre a estação. Colheu as amoras. Quis receita de geleias.
Cantou desajeitado na sorte da palavra. Sempre era o lugar daqui.

Ligou o rádio. Me olhou com olhos de serenata.
A intimidade contemplada. Desafiou-me ao riso.
Falou da geografia das horas.
– O tempo é o sinal de tudo. Tudo passa.
Mostrou-me o jardim. Era ali a direção da cura.

Fui.

Mariana Gouveia
Série Ser de flor

das coisas breves

Praticamos o nosso modo coffee talk…

Era aquela alegria conservada guardada em potes,
como a poesia da mãe
Tudo feito em desconcertos para consertar a alma.
Era como se tudo antecedesse o tempo
Por isso, em alguns dias difíceis
Ela ia lá no pote
Respirava a poesia
E com isso, conservava a alegria de viver.
Mariana Gouveia

Chegou o último dia de agosto… E minha carta hoje é para agradecer a você que esteve comigo nesse agosto diferente.  Tentei aqui te entreter com poesia, com minhas emoções. Conseguimos praticar o nosso coffee talk. Você esteve aqui, e a gente trocou mais do que poemas e histórias. A gente esteve junto. Mesmo em dias complicados ou não, você estava aqui com seu like, seu comentário e até sua quietude.

Em agosto, temos o Beda – blog Every Day – que acontece duas vezes ao ano, em abril e em agosto. É um desafio postar diariamente, mas também é muito gratificante ver o engajamento, tanto dos blogs participantes, quanto dos leitores fiéis do blog.

Nesse agosto, derramei aqui poesias, cartas, desabafos e histórias vividas por mim. Espero que você tenha gostado.

Setembro vem aí… e a gente logo pensa na tão falada canção de Beto Guedes – sol de primavera – que exalta a primavera e as boas novas:


“Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou juntos outra vez”

Mas, a canção que ficou mais gravada em mim, diante de tudo que escrevi para vocês em agosto, é a música da Vanusa, no refrão que ecoa agora:

“Fui eu que em primavera
Só não viu as flores
E o Sol
Nas manhãs de Setembro

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar
O vizinho a cantar

nas manhãs de setembro”

E é isso que desejo para você nesse mês que começa amanhã… que você cante e viva a vida, apesar de tudo que está aí.

Conto com você que esteve comigo aqui todos os dias e que possamos fazer com que a primavera seja vivificada dentro de nós… e que possamos fazer valer a frase da música de Beto Guedes que citei lá em cima:

“Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender
“

Aqui vai ser sempre um cantinho onde você terá seu lugar, independente de qual cidade do mundo pertença. Seja em silêncio ou comentando… vai haver sempre uma xícara de café te esperando.

Grata tanto!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Scenarium Livros Artesanais

*Traços

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão

Dobrei os tsurus como a minha mãe havia me ensinado e lembrei – me dos dedos dela a fazer as dobraduras como se tivesse feito aquilo a vida toda. Tinha habilidade com as mãos, sabia disso desde cedo quando a via nas costuras… a tesoura a cortar os quadrados para a colcha de retalho, o tecido a ganhar contornos de roupas. Mas o que mais me encantava era a maneira que ela criava os desenhos para os bordados.

Ela nunca fizera nenhum curso de desenho e conseguia com suas mãos delicadas – as mesmas que revolvia a terra, no preparo da horta – criar a borboleta pousada na flor no papel vegetal ou em um saco de pão e conseguia transformar o desenho em um bordado. As mãos contornavam o papel com a ponta do lápis e surgiam aves, flores, jardins, castelos e paisagens.

Era uma mulher forte e ao mesmo tempo suave. Os olhos conheciam um a um dos sete filhos com suas diferenças e jeitos. Conseguia arrancar de cada um de nós o seu melhor. Em cada canto da casa seu traço estava explícito. Nas prateleiras dispostas na parede da cozinha de frente para a porta, onde as panelas de alumínio reluziam sobre as tolhas bordadas, feita por ela mesma.

Colhia as flores de lavanda e na água do enxague o cheiro rescendia na casa toda, enquanto os lençóis quaravam ao sol. O rio a margear a tábua de bater a roupa e a pedra, moldada pela correnteza, onde no fim do dia, sentava-se e cantava para espantar o mau agouro. Tinha fé nas coisas simples, seja ela uma pena que ganhava força com o vento ou na ave colorida que roubava os coquinhos na palmeira do quintal.

Os cabelos imensos, ora em tranças, – ou esvoaçante no vento, enquanto secava – ou em um coque perfeito, tal como a canção que falava sobre uma índia: “índia seus cabelos nos ombros caídos negros como a noite que não tem luar “ – que é o que ela era – e traçava os sentidos em nós da alegria de ser… O pai deve ter apaixonado por aqueles cabelos que chegavam abaixo do meio das costas, como uma cascata negra – pensava sempre nisso. Sua presença trazia cores e sons pela casa. A máquina de costura a bordar, as panelas a cozinhar alguma guloseima e a canção antiga na beira do rio, até hoje, traz os traços dela:

“Mandei caia meu sobrado, caiei, caiei, caiei.
Pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na varanda, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na janela, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar meu luar, mandei, mandei, mandei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.”

Ela era literal – e não há como escrever sobre ela senão literalmente – gostava das dobras… em tecidos ou em papel e de traçar os próprios riscos na bordadura. Conhecia o barulho da máquina e dos ventos. Sabia quando o vento trazia a chuva logo para além da porteira e quando falava da vida, era de poesia que falava. Quando abro os braços e chamo o vento, é nela que penso em sua filosofia de que o vento é o Espírito Santo.

Não dá para saber como as dobraduras de uma arte secular do outro lado do mundo chegou até ela. Imagino que fosse pelos livros – os milhares que ocupavam um baú de mogno moldado pelo pai – com os desenhos feitos por ela eram reverenciados como oração. Acreditava que eles possuíam o poder de não envelhecer e ela não envelheceu.

O movimento de ida foi rápido e desenhado dias antes da partida. O vento era seco e uma mariposa gigante pousou no colo dela. O olho grande, ganhou contornos de conformismo e ela pediu apenas que a arte fosse parte da vida da gente.

“É ela quem dá fôlego quando o ar falta de diversas maneiras. E quando, porventura, faltar apoio nas lutas.”

Não sei de qual luta ela falava. Traçou tantas em tão pouco tempo. Fez diferença em tantas outras vidas como a dela. Ensinou traços a muitas “filhas avulsas “do mundo e virou traço além, em algum lugar em que acredito.

De vez em quando, em um fim de dia, quando o céu expande formas e cores eu me lembro de seus traços e nesse momento faço um tsuru como maneira de seguir a arte que ela tanto amou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Tsurus e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural Traços
Scenarium Livros Artesanais