Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

A rota em direção ao meu Norte.

Não tinha endereço na plaqueta da rua nem número em casa nenhuma. A casinha quase a tocar as árvores ao longo da rua, que era estrada… A direção se dava pelos cheiros. As flores do jardim reacendiam na alma a rota do abraço e a lembrança da chaleira sobre o fogão de lenha já alertava meus sentidos para o chá.
Não saberia nomear o sentido das coisas. Algumas, o universo me dá sem ter nome… Outras, me caem como presente divino.
As ervas que vim buscar estavam a secar em um balcão improvisado a espalhar aromas que eu conheço bem.
Ela riu como da última vez que a vi. Eu coube bem dentro do abraço. Depois de levar a bronca por ter faltado ao último São Cosme e São Damião. Fez mil perguntas buscando dentro do meu olhar as respostas reticentes que eu dava. Desconfiava das minhas desculpas…Ria do meu embaraço a falar do tempo. Lia meu olhar como uma carta aberta letra por letra.
Ela conhecia bem meus silêncios e dentro deles muitas vezes foi benção e voz.
A casa tinha seu cheiro de amor em cada retrato de santo na parede e o ramo de arruda na mão a benzer meu olhar. Tomei um banho de chuva. As ervas a envolver minha pele como se dela fizesse parte. A busca pelo meu canto de sempre. O respirar para dentro num ritual que eu já havia vivido e sentido.
Muitas vezes, ali, debaixo do pé de maracujá, eu descobri minha rota de fuga. Mas também descobri o meu norte e mais uma vez busco refúgio dentro do olhar dela. Ela repete gestos em orações e silêncios. A mão toca minha testa como se pudesse com a mão tirar o que me afligia. As horas ali, parecem não pertencer ao mundo dela. O tempo para dentro do tempo.
O rádio de todo dia toca uma canção antiga. Ela se recorda pela milésima vez quando me conheceu e daquele momento em diante eu virei filha – com ar de brava reclama da filha desnaturada que some de vez em quando – e de como derrama seu amor por mim. Eu respiro carinho em cada canto dessa casa que também é meu lar.
O chá fumega espalhando a essência de cura pelo ar. Os biscoitos de nata desmancham na boca e naquele momento eu percebo o quanto sou abençoada e de que preciso repetir mais vezes esses instantes.
Estendo o braço para a simplicidade do toque. Mão leve que toca e pronuncia as palavras certas. Ri de minhas histórias…canta a canção que aprendeu pelo rádio. Pego as ervas depois do abraço carinhoso e vou rumo à cidade.
Ainda posso ouvir a voz dela a ganhar eco na projeção das árvores. As orientações ainda a ecoar na mente e no coração.
Ainda a vejo no portãozinho de madeira a acenar tchaus com gestos de beijos. Ela é toda inspiração de fé e coragem. Ela é a dona dos cabelos brancos mais brancos ainda e jeito gostoso de vó.
Volto energizada, benzida e curada. A vida sempre me dando atalhos com direção certa e eu apenas a dizer sim ao Universo.

Amém!
Amem…
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de abraços e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural North and South pela Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Eu te benzo…

“Deus é o verbo,
E o verbo é Deus,
Se (nome da pessoa) tiver mau olhado, benze-a, Deus.
Dois olhos olharam mal
E três estão para olhar bem, que é o Deus Pai, o Deus Filho e o Espírito Santo.
Amém. ”

Caminho e por onde vou as ruas me levam a imaginar o passado. Não que o passado viva presente em mim sempre, mas é que até as ruas parecem saídas de histórias que eu li. E nessas ruas eu vivi grande parte de minha vida. Na beira da rua há um córrego e lembro-me de que tantas vezes tive de atravessá-lo molhando os pés. Hoje, isso não é mais possível. Uma ponte de concreto foi construída e o córrego virou recebedor dos esgotos da região. Minha mente segue o endereço de cor e a casinha branca, em um bairro quase central parece surreal no meio da paisagem. É como se eu atravessasse um portal imaginário e o mundo fosse outro, de repente.

Como sempre, ela me espera no portão. Com o riso solto, o abraço aconchegante, a bênção dada e ofertada no carinho de quem me conhece de tanto tempo. Parece que me tornei parte da família e eu sempre a busco nos momentos complicados em mim. Seja de saúde, de cansaço, de busca do meu equilíbrio e ela sempre me acolhe nesses momentos como se fosse um refúgio para minha alma que às vezes, desequilibra e grita por benzedura.

Às vezes, venho em dia de festa também. Quando ela comemora a vida e os santos que a ajudam. Ali, em meio ao jardim, no fundo da casa, de onde brota todos os tipos de flores, ervas, árvores e paz, com um raminho na mão ela segura minhas mãos e suas palavras me enchem de emoção. Sempre choro nesses momentos. Um choro bom, de alma sendo curada.
Meu filho a chamava de vó e com isso eu passei a chamá-la também. Mas para todos, seu nome é Maria, embora, no registro é Deolinda. Alguém uma vez disse Maria e ficou Maria. Para alguns, benzedeira. Para mim, acalanto.

As ruas ao redor da casa dela parecem ter parado no tempo. É como se eu estivesse entrando em uma fazenda. Cerquinhas de madeiras contornam quintais e até o maracujá serve como caramanchão para os dias ensolarados da cidade. Ali, onde sento, quase no fim do dia, antes do sol se pôr e respiro momentos vividos no fundo do quintal de onde avisto grande parte da cidade. Olhando assim, parece surreal.

Quantas vezes esse lado da cidade foi guardião do meu passado, da minha adolescência, da minha juventude, dos meus medos e da minha segurança.
Dou um relato rápido sobre os últimos meses em que não pude vir. Ela entende e parece até que já sabia. Uma neta havia me visto aqui e ali. O silêncio nos une ainda mais. Só ouço o leve respirar dela e percebo que a vida lhe é sugada a cada dia. Penso que Deus a criou para me guiar. Para me benzer quando minhas energias estivessem em alvoroço dentro de mim, buscando rumos.

A oração ela me ensinou em uma manhã de inverno. Todas as vezes que a vejo relembramos o dia. Inverno castigante para uma cidade do calor e havia rojões que rasgavam o céu, por que era dia de festa junina na vizinha do lado. Quando recordamos disso, os detalhes me povoam a mente. O cheiro do gengibre no quentão preparado. Os bolos sendo assados e o cheiro impregnando o jardim realçando a fome, ou só mesmo a vontade de comer. O frio que parecia maior por causa do vento. A fogueira sendo preparada por netos e filhos e amigos e a oração nas palavras quase mantra dela.

A repetição era para aprender mais rápido. A atenção, para memorizar; o respeito, para a reza funcionar e a alegria interior era o agradecer da oração já atendida. E mais uma vez, repetimos as histórias, as lembranças que tiramos do baú e a oração é dirigida ao Universo.
Quando me despeço olho mais uma vez a casa, quase no meio do nada e tão dentro da cidade. Uma cidade tão cheia de passados guardados nas ruas que me levam para as bênçãos da vida.

Mariana Gouveia

Agosto é o mês de benzeduras e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
Texto publicado no “Caderno de Notas – Terceira Edição”, pela Scenarium Livros Artesanais.

Corredores, Codinome Locura

Agosto.

Em agosto derramava ouro sobre meu quintal. Era amarelo o dourado que banhava o terreiro ao lado do pé de ipê. Mas, também derramava sonhos rosados do outro lado da cerca. Era como se um artista tivesse deixado ali sua obra de arte estampada para todo mundo ver.

Minha mãe me ensinou a gostar do mês que todo mundo esbravejava. Uns, diziam que era o mês do cachorro louco. – e às vezes era mesmo – vi muitas vezes os cachorros do outro lado da cerca, com a baba amarelada a vagar sem rumo. Eu morria de medo dos meus enlouquecerem. Aliás, eu sempre tive medo até que eu mesma enlouquecesse. Havia sempre alguém a contar uma história sobre uma ou outra pessoa que enlouqueceu em agosto.

No meu quintal, os vultos amarelos balançavam durante a noite e da janela eu assistia ao duelo do ipê rosa e do ipê amarelo para conquistar a lua. Sempre fui volúvel com eles. Ora suspirava por um; ora por outro. Ficava horas embaixo deles a esperar que as flores caíssem e por fim, na minha rotina de dar colo para as flores, eu deitava em um tapete florido e ali, ficava a sonhar.

Apesar da fumaça desenhar de gris as tardes de agosto, as cores dos ipês acentuavam ainda mais a beleza do dia. E nisso, minha mãe tinha razão. Agosto era lindo de viver no meu lugar.
O inverno nem era tão castigante e nossos cachorros por fim, nunca endoideceram. Nem eu. Pelo menos até hoje.

Lembro-me que minha mãe dizia que cada mês tem seus sintomas bons e ruins. – não era a sina dos dias que fazia um mês melhor que o outro. Mas sim, aquilo que despejávamos no desejo secreto que tínhamos dentro de nós.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos ipês e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio OrtegaLunna Guedes Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina



Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para o caso de chover na tua rua…

Bambina mia,

Resolvi te responder, através dessa missiva, sobre limpar as gavetas em agosto. Acho que desde sempre, dentre todos os meus irmãos, eu sou a única que ainda segue alguns dos vários rituais de meu pai. E esse é um deles.

Para meu pai, agosto era o fim e o início de um ciclo. Era quando encerrava a colheita e preparava o solo para outro plantio. Ensacar a safra nova, retirar o que sobrou da colheita do ano anterior. Hora de limpar o paiol, trocar as sementes velhas pelas novas, fazer a queimada da área de roça de toco, mudar as coisas de lugar e isso, incluía a casa toda. Limpar as gavetas, os baús… trocar espelhos quebrados, coisas trincadas, roupas rasgadas… ceder espaço para coisas novas e boas entrarem.

A sua ligação com os santos sempre foi muito viva e se mantém até hoje e o último dia para toda essa “limpeza” era dia 24 de agosto, onde na folhinha marcava – e marca – o dia de São Bartolomeu. Nem sei se ele sabia da história e das lendas envoltas em torno do nome do santo, mas nesse dia, em todos os anos, era nossa data limite para tirar tudo que era velho, que não iríamos usar mais e começava um novo ciclo, porque nesse dia, independente do ano, chovia. Era a chuva da limpeza, da renovação e da temperança.

Até hoje, bambina, lembro-me do cheiro da terra molhada – depois de dias secos de outono – a exalar do chão. Parecia que a terra guardara o perfume para receber a chuva. A lavoura era preparada nesse dia, para no dia seguinte, abraçar novas sementes e outros rituais seguiam a ordem cronológica de quem plantava. Durante muito tempo, eu fiquei a imaginar como meu pai sabia dessas coisas, mas, depois, parei de querer saber e passei a entender e a continuar os rituais dele… e esse mês, repeti os mesmos gestos… limpei as gavetas e a alma ao longo dos dias de agosto. Não custa nada seguir o rito.

Hoje, na previsão do tempo, aqui na cidade, o rito é outro e não temos previsão de chuvas. Ao redor, a Chapada e o Pantanal queimam. Os resquícios dessas queimadas caem no meu quintal… o céu, está opaco, cinza, devido a fumaça das queimadas.

Não sei a previsão do tempo aí, na sua cidade, mas para o caso de chover na sua rua, molhe as mãos na água da chuva por mim.

Bacio,

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos rituais e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Minha nossa estranha loucura

Por isso, preste atenção nos sinais –
não deixe que as loucuras do dia-a-dia
o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
Carlos Drummond de Andrade

A primeira vez que a palavra loucura atravessou minha vida foi ainda quando era criança. E a curiosidade assombrava-me os dias. Ela morava do lado da minha casa. Devia ter quase a mesma idade que eu. Os cabelos longos e os olhos medrosos através das cortinas, eu via sempre que dava pela fresta da janela.
Algumas vezes eu ouvia gritos rua afora. Mas até aí, nada demais. Meus irmãos gritavam várias vezes, todos num uníssono som, seja pela bola de gude perdida, seja pela pipa arrebentada, seja pelo gol perdido. Grito nem era sinônimo de loucura – argumentei várias vezes com minha mãe – Eu a achava normal. E a sentia leve quando nossos olhares se cruzavam no relance entre um bailar de cortina, ou do vento que parecia que ela adorava. Para que respeitássemos algumas regras havia sempre a rigidez das minhas irmãs mais velhas e a qualquer tumulto elas mencionavam chamar a menina louca. O que causava silêncio imediato entre meus irmãos. Eu mentalmente desejava que chamasse. Só não tinha coragem de admitir.
Nosso primeiro encontro de fato, aconteceu numa tarde em que por descuido meu, ou de minha mãe, o quintal me coube livre, sozinha. Silêncio ruminando nas ruas. Ela estava na beira da cerca de arame, que separava nossos quintais. Os braços abertos e o corpo rodopiavam ao som do vento. Um riso intenso no olhar. Parou tudo quando me viu. Eu e minha boneca Maricota, feita de tecido preto, cabelos grenhos e boca vermelha. Os olhos pararam no brinquedo que eu trazia sempre. E sem saber como e porque entreguei Maricota através da cerca. Os olhos ávidos e as mãos que ajustavam os cabelos da minha boneca de pano.
– Foi minha mãe que fez. Você tem boneca também? – arrisquei.
O sacudir negativamente com a cabeça me causou emoção e pena. Eu não podia imaginar alguém sem boneca.
– O que é ser louca? – na minha curiosidade de menina perguntei, já imaginando o resgate de Maricota entre as mãos dela.
– Você tem medo de mim? – e nos olhos dela eu vi a esperança de que eu dissesse não. E naquele momento não tinha mesmo.
– Medo não. Curiosidade. – vozes de mãe e irmãos que chamavam meu nome.
Voz de mãe que chamava por ela e Maricota que pendia a cabeça na entrega que ela fazia através da cerca. E eu deixando que ela levasse minha boneca de anos. E o riso dela agradecendo o gesto. E os lábios que murmuravam um “ amanhã eu te entrego”. E o vulto dela entrando casa afora. Um aceno de tchau que jurei ver entre as cortinas.
A primeira vez ensaiou outras vezes. Algumas, permitidas pelas mães que acharam que uma cerca de arame farpado não causava perigo.
Outras, no subterfúgio da noite onde dançávamos com o vento, cada uma no seu quintal. Rindo como se fossemos loucas, mas sabíamos que não éramos. Também ganhei a fama de louca por brincar com a menina que sonhava com o vento. De repente, as portas já não se fechavam mais, porque vivíamos na doce loucura de descobrir a vida. E isso, já não causava mais medo em ninguém.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da amizade e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

*Tudo vai ser diferente quando eu abrir os olhos…

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Querida A.

Eu já te contei que nunca vi o mar? Mas, que ainda assim, eu sou marítima? Que eu percorro em meu quintal o oceano inteiro buscando coisas que não lembro que vivi, mas que continuam intactas aqui, dentro de mim?

Isso me faz lembrar de quando eu era criança e fechava os olhos passando as mãos – ainda pequenas – no rio que margeava a fazenda do meu pai e dizia para minha mãe que eu estava no mar.

De mar, eu só entendia as ondas que ouvia nas conchas que vieram parar ali, no meio dos livros, em um baú, onde eu guardava meus tesouros.

Por muitas vezes, simulei meu encontro com o mar… e de como eu sentiria a brisa marítima na pele. E a maresia? Como será o cheiro dessa tal maresia tão cantada em canções e poemas? A areia fina sob meus pés e eu cantava ali, de frente para ele todas as canções de Caymmi que fala de mar… Ensaio tal qual um jovem cria versos e poemas de amor…

Durante muito tempo repeti os versos de Sophia que abre essa carta e nem preciso dizer que amo meu cerrado e sou adoradora dele e sei que é impossível que as duas coisas acontecessem simultaneamente… mas, já desenhei ele e o bordei em linho, para uma encomenda de artesanato. Era como se as ondas fluíssem para dentro de mim e isso se tornasse um sonho…

Enquanto isso, fico aqui sonhando… e quando chegar o dia, sei que estarei de olhos fechados, sentindo a brisa, a maresia mesmo tendo ensaiado instantes desde criança tudo vai ser diferente quando eu abrir os olhos diante dele.

Beijo,
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de enviar cartas e de B.E.D.A
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*Este post também faz parte do Projeto Blogagem Coletiva da Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Um amor desses de livro

Eu morava perto de um bosque e todos os dias eu a ajudava pela manhã a colher cogumelos nas redondezas. Meus irmãos e os meninos da vizinhança tinham um medo terrível dela. Eu, não! Para mim, ela era aquela fada das histórias que eu lia e que falava tanto de bruxa, duendes e príncipes.
Ela me olhava com aquele olhar de poesia quando eu me aproximava… Cantarolava uma musiquinha que tinha meu nome no meio e me ensinava a distinguir os cogumelos bons dos ruins.
Um dia, eu falei das poesias, que eu queria aprender. Ela sentou-se na relva, mandou que eu fizesse o mesmo e pediu que eu descrevesse o que via. Além da visão normal, da vida do meu lugar eu via nuvens, pássaros, e o cheiro do capim me transportava pra uma visão diferente do que eu via normalmente.
– Pronto! – disse-me ela – Acabou de criar uma poesia.
– Mas eu quero uma poesia que fale de amor. – eu falei – de um amor tão intenso que um dia vou sentir. E que estando junto vou querer ficar para sempre e estando longe, vai parecer que estou junto. E o meu coração vai estar sempre em sintonia com ele, e minhas mãos vão querer tocá-lo, e o sol vai brilhar para nós dois. Um amor desses de livro.
Ela riu e eu vi um brilho tão intenso no seu olhar; murmurou algo inaudível aos meus ouvidos de menina…
Levantou-se e saiu como se quisesse voar…
– Eu volto… mas esse amor aí de que fala, essa poesia, já existe aí dentro. Só precisa do tempo para vivê-la.
Hoje eu percebo isso… eu já o amava desde a infância. Só era preciso te encontrar para dizer. E eu o encontrei a 35 anos atrás e até hoje, esse amor me faz ser quem sou, dentro dos instantes de poesia e cuidados.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de sonhar e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli PedrosoAdriana Aneli – Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

Tentei escrever-te, sem sucesso…

“Meu corpo é um marasmo. E eu não posso mais escapar dele.”
Frida Khalo

My Lady,

Tentei te escrever sem sucesso por diversas vezes e no emaranhado de cartas por aqui me deparei com a última que ainda aguarda o endereço e por isso, não enviei e antes de rasgá-la leio e penso em uma frase que vi em uma série que acompanho: “não somos definidos pelo que acontece conosco, somos definidos como reagimos com o que acontece conosco.”

Separei o livro, alguns posters e uma boneca, tudo da Frida, porque sabia que ia gostar. Isso era para dizer que pensei em você e na menina laranja que encantava meus dias. Muitas vezes reembalei o mesmo pacote esperando um endereço que nunca veio e parei de perguntar enquanto o pacote foi ficando ali, em uma gaveta da cômoda e vez ou outra me esbarro nele.

Agosto é esse mês que devora minha alma e uso os dias para rasgar papéis esquecidos em gavetas, coisas que vou guardando como se fosse precisar um dia e justo hoje, precisei desse espaço da gaveta e desfiz o pacote. Vou dar um outro destino para a boneca – a menina da rua de cima, com certeza irá gostar – e os posters couberam em um envelope onde estão aguardando outra direção.

Achei tão simbólica a imagem de Frida em La Columna Rota e quando vi, percebi que cabia em seus dias e pelo seu fascínio com que iria adorar tudo. Imaginei que pudéssemos falar sobre ela e a frase que até falamos sobre um dia:

“Somos simplesmente essa amálgama de carne e de sangue. Só isso? Somos essa maravilha. Um corpo surpreendente onde se inscrevem todas as feridas.”


O papel de bolhas a proteger cada quadro foi estourada uma a uma e o “para que estou fazendo isso se juntou com a decisão de “não quero mais fazer isso” e mais uma vez a carta escrita foi amassada e rasgada como se nunca tivesse sido escrita e com ela a intenção do “estou aqui, se precisar”.

Eu acho que tenho saudades do encanto laranja que tanto fala sobre nós, mas hoje, ele é apenas o que se tornou: saudades.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de limpar as gavetas e de B.E.D.A
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Corredores, Codinome Locura

Uma porta que se abre em outro lugar.

Nasci e cresci em uma fazenda no interior de Goiás, das mãos de uma parteira que se chamava Flor e que se tornou minha meio fada, meio bruxa, meio flor, que era a maneira que eu a via.

Nessa fazenda havia uma mata próxima do rio, caudaloso, piscoso e de águas límpidas. A mata, quase bosque, era uma porta que se abre para outro lugar. Sob os cuidados e olhos dessa mulher eu cresci no meio de sete irmãos e dezenas de meninos e meninas das redondezas.

No interior da mata havia a fazenda de cogumelos. O ambiente era propício. Umidade, madeiras, árvores plantadas propositadamente e muito amor dela para com aquele espaço.

Ali, eu conheci a poesia, a magia e o encanto dos cogumelos. A cura, a beleza, a morte. Descobri a essência de uma pessoa que, na época, vivia de sonho e das palavras que eu lia pra ela.

E assim como a atração pelas borboletas começou ali, enveredando pelos campos correndo atrás delas o amor pelos cogumelos também. Claro, que minha mente de menina adorava os petiscos, os cremes, os molhos feitos com eles, mas o fato de um fungo transformar a vida de uma mulher que tinha o dom de trazer as crianças ao mundo me encantava.

O tempo passou e naquele lugar, eu vivi a mais bela parte de minha história. Onde as maioria dos meninos tinham medo dela pelo fato de a considerarem bruxa, eu pude absorver e receber o amor em dobro de mãe. A minha mãe mesmo, carinhosa e a fada meio bruxa, meio flor que me fazia viver em um conto de fadas.

Ela se foi… mas continua aqui. Mil dias não bastariam para eu dizer que hoje, cada palavra, cada poema de mim tem tanto dela. Mil dias não bastariam para agradecer as coisas boas que me aconteceram e ainda acontecem. As pessoas que chegam como presentes na minha vida. Alguns vieram só de passagem e se foram. Outras, mesmo indo permanecerão sempre no meu coração, na minha memória e na minha poesia.

Para alguns, eu tiro o chapéu. Outros, eu reverencio… chamo de mestres. Uns, são amigos queridos, onde choro no ombro, lamento, brinco, brigo… Outros me trazem a ternura de manhã… São sempre companhias. Alguns me trazem a paz, sejam através de palavras, imagens. Já outros, poesia, alvoroço… e assim vou.

Agradecida imensamente por tudo que construí aqui. Uma floresta de imagens e palavras onde é bem vindo quem trouxer no coração o doce aconchego do gostar.

Mariana Gouveia

Agosto é o mês das fantasias e de B.E.D.A
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Corredores, Codinome Locura

Da cor do meu chapéu

Quando atravessei a porteira ele tirou o capim da boca.
O ar zangado era típico dele. Ranzinza foi logo dizendo:
– Quando eu disser três horas, são três horas! Não tenho de ficar aqui berrando para você vir.
– Uai, eu ia te esperar aqui, fora, sozinha?
– Não precisa me esperar. Quando perceber que cheguei, venha rápido.
– Eu estava terminando de ler as cartas.
– Que cartas?
– As cartas que ela tem nos quadros, na parede. Eu leio pra ela. Olha o que eu trouxe pra você! Pastéis com recheio de cogumelos. Ah, hoje eu vi um cogumelo lilás!
– Lilás? Lilás como?
– Lilás, lilás, quase roxo. Da cor do meu chapéu…Mas é venenoso. Mata em poucos minutos. É só para remédio.
– Eu fico com medo de comer essas coisas de cogumelos que você gosta. Acho que ela te enfeitiçou.
– Epa! Você é mais bocó que eu pensava. Ela não é feiticeira. Ela só meio bruxa, meio fada, meio flor.
– Não existe meio bruxa, nem meio fada, aliás nem existe fada, é lenda. Eu li num livro.
– Se você acha que fada é lenda, então bruxa também é.
– Bruxa mexe com bruxarias, essas coisas. Enfeitiça as pessoas para fazer mal.
– Não sei de onde tirou isso. Ela é apenas meio bruxa, meio fada, meio flor. Não faz mal a ninguém. Pelo contrário. Só ajuda as pessoas e essas, falam mal dela pelas costas. Ela é meio bruxa porque sabe os segredos das plantas. As que curam, as que matam. Meio fada porque tem a magia de trazer crianças no mundo como eu, você, nossos irmãos e os meninos todos da região. Só uma fada tem esse poder. De saber a hora que nasce e meio flor porque ela tem o cheiro de todas as flores juntas. Quando ela passa é como se o vento parasse para ela. Ela só a magia de ser do bem e de amar as pessoas.
– Sei não…só sei que eu não te trago mais se ficar demorando tanto para vir.
– E eu não te trago os pastéis. E ainda digo para ela que você tem medo dela e aí ela vai te chamar para conversar.

Um vento bateu e uma folha balançou fazendo um barulho. Meu irmão correu em disparada e me deixou só.
Tinha medo de qualquer barulho no mato.
Só deixou de ter medo quando virou poeta…

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos diálogos e de B.E.D.A
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