Eu nasci no dia da colheita dos negris – os cogumelos negros que pareciam bordados em fios de ouro – e eles, para mim, tinham um jeito especial.
Eu adorava ver meu irmão com o capim no canto da boca, mordendo e com medo de eu pegar o cogumelo venenoso e comer. Ele cheirava a chocolate, mas acho que era por causa do pé de cacau onde ele brotava e a cor dele me fascinava.
Nas minhas histórias, os cogumelos eram coloridos, mas lá no cantinho havia o cogumelo negris – que foi um nome dado por ela, por causa de sua cor escura.
Ela dizia para todo mundo que era venenoso… Mas era delicioso e pareciam as trufas de chocolate que uma tia fazia.
Ela, no meu aniversário ou no dia da confraternização me dava ele fatiado… E me dizia sempre para ter cuidado ao comer. Até Buda morreu comendo cogumelos, ela dizia. E que só alguns da realeza sabiam provar…
Cada colheita de cogumelos era um ritual que seguíamos e minha esperança eram os negris ou os venenosos. Tinham as cores mais bonitas e me acrescentava a fantasia como brinde.
Quando encontrávamos os cogumelos alucinógenos, aqueles que contem “psilocibina”, ela tinha todo cuidado em protegê-los até o encarregado da entrega passar. Não podíamos tocar, e meu irmão nem arriscava a olhar.
Um dia, sentada com ele olhando o horizonte me disse que era ela quem colocava o veneno neles em noite de lua cheia.
A olhar o céu, e ao meu lado, percebi que, estava sempre ali, cheio de poesia só que ainda eu não tinha visto e não sabia o quanto a imaginação dele podia voar.
Foi quando ele descobriu que podia sonhar.
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de descobertas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli –Darlene Regina









