Eu sempre colhi os cogumelos… principalmente os negris – um nome que a fada meio bruxa meio flor colocou para separar os especiais, dela, que curava e podia matar… – Esses – ela dizia. Devem ser colhidos por mãos leves que tocam seda… Eu sempre toquei sedas. Bordava elas em forma de véus com fios de algodão que minha mãe tecia. Talvez por isso, os cogumelos me encantavam, até os mais venenosos e eu ria quando meu irmão passava longe deles, achando que só de passar perto, morreria.
Um dia, à beira do lago que circundava a floresta ela sussurrou olhando minha cestinha cheia dos negris – o psilocybe semilanceata – que segundo ela, bastava um pequeno pedaço para matar alguém. Mas, que sabendo lidar com ele, podia salvar vidas. – Toque nele… e tirou um mais volumoso e colocou na minha mão. A maciez era surpreendente. Parecia que a qualquer momento se transformaria no cetim suave dos tecidos.
– Não! – ela me interrompeu – toque com os olhos fechados e sinta a textura e a emoção dele. Um dia, ao leve toque da alma entenderá esse momento. E saberá o que quero dizer. Quando as emoções transpassarem a fronteira do querer e a vontade ser mais forte do que o que tem que ser… me entenderá. Aí, eu já serei poesia. E você já viverá poesia. E mesmo que seja um sentimento passageiro será tão intenso que será eterno.
Hoje, quase 47 anos depois eu entendo e sinto a linguagem do toque e para não esquecer, cultivo minhas memórias regularmente… Cultivo elas como se fossem flores para que esses momentos permaneçam em mim, assim como a poesia que ela tanto falava.
As paixões, quando mandam em nós, são vícios. Blaise Pascal
O tema do 6 on 6 de hoje é vícios… Poderia falar sobre vários temas dentro da imperfeição que a palavra define. Considerado como ruim, a palavra derivada do latim vitium me levou por outros caminhos… Ouvi de amigos desde sempre sobre meus “vícios” dentro das coisas que gosto e me fazem bem e no fim, fazem parte de minhas paixões… estão preparados?
Xícaras… Mais do que a palavra café, um dos muitos vícios que tenho são as xícaras. Tenho uma infinidade delas, de variados tamanhos e modelos diferentes. A maioria delas foram presentes de amigas. Algumas, perdi após quedas ou estão esquecidas em alguma caixa ou baú… As das fotos são as que estão sempre à mão… seja para uso, ou expostas na estante.
Artesanatos… ainda menina aprendi o crochê e o bordado. Já adolescente, além da pintura, me apaixonei pela máquina de costura e seu poder de juntar retalhos e transformá-los em arte. Desde então, como artesã – acho que minha primeira profissão – passei a fazer vários tipos de artesanatos e esse é um dos “vícios” que me acalma, e me rende uma renda extra no orçamento.
Fotografia… sem dúvida é o “vício” maior que possuo… O meu quintal é o lugar preferido e os pássaros, joaninhas, borboletas, etc… os modelos preferidos. Onde estou, sempre tenho minha câmera – ou câmeras – comigo. E sim, eu ainda uso a velha Kodak, com seus filmes 35mm, e em sua maioria das vezes, em preto e branco. Costumo dizer que comecei na fotografia, mais por hobby e levada pelo problema de usar imagens de internet com seus direitos autorais e resolvi usar minhas próprias imagens. Sem nenhum conhecimento técnico, seguia apenas o impulso e apaixonei. Claro, que depois de um tempo fiz alguns cursos, aulas e aperfeiçoamento com leituras e estudos sobre fotografia, embora, as câmeras dos celulares hoje, ganham em imagem, nitidez e rapidez. Mas, eu ainda prefiro as fotos de minhas boas – e nem tão velhas assim – câmeras.
Cartas… esse é um vício desde a adolescência… escrever cartas. Adoro o cheiro do papel, a letra de quem envia… os envelopes coloridos e as palavras. O carteiro da minha rua já sabe dessa paixão e embora possa colocar a carta na caixa de correspondência, como faz em todas as outras casas, ele disse que prefere ver a alegria do meu olho ao pegar o envelope. Não sei explicar a sensação de abrir o envelope e ler… nem da emoção de responder uma carta recebida, seja de parentes dando notícias, ou mesmo de alguém do outro lado do oceano falando de poesia e mar…
E por falar em mar… as conchas marinhas me encantam. Mesmo sendo alguém que nunca pisou na areia do mar. As conchas chegam até a mim trazendo o barulho do mar e a poesia marítima – ser que sou – e oceânica que quero ser. É algo que não sei dizer ou explicar… sou quase maresia, mesmo sendo gente de rio e córregos.
E a caçulinha dos vícios – entre outros tantos menos danosos – as suculentas. De várias espécies e tamanhos e não couberam na fotos todas juntas. Passo horas inteiras cuidando, admirando e até conversando com elas. Há a preferida, a diferente, a comum – e ainda assim, magnífica – a mais nova, a que mais cresceu e a que precisa ser mais cuidada e no fim do dia, na leveza do tempo e no quintal, a observação delas.
Se você chegou até aqui, não diria que meus vícios sejam vícios… o chocolate – hummmm – o doce de leite da infância… e o café de todo dia cabem mais aqui, talvez… porém, a minha realidade caminha por atalhos diferentes e entre um gole de chá ou de café, essa sou eu.
Nenhuma noite é igual à outra… Algumas são mais especiais… Tem horas que teimam em voltar no tempo, em mim.
A noite de lua cheia era diferente. Ela ficava sentada lá fora, num banquinho de madeira e ficava fitando e acompanhava o movimento que a lua fazia, como que enfeitiçada.
Os cogumelos ficavam dourados com o brilho dela. E os pirilampos pareciam as estrelas que haviam descido para o chão.
Eu vi essa cena três ou quatro vezes e nunca mais esqueci. Havia um encantamento naquela mulher que encantava todo bosque, toda fazenda, e todo o universo. A luz rescendia em seus cabelos brancos e ela me lembrava um personagem de um livro.
O bosque fazia silêncio e a silhueta dela à luz da lua lhe dava a magia certa. Ela também se vestia de dourada.
Entendi que todo mistério que a envolvia devia ter vindo de alguma noite dessas. Alguém devia ter visto ela assim toda dourada e a acharam meio bruxa – meio fada – meio flor. Ela fazia os cogumelos ganharem cor de ouro. Ganharem sabor, dependendo de onde os plantavam. Fazia crianças nascerem sobre tuas mãos. Ela era mágica. Quando passava essa fase de lua cheia. Ela voltava ao normal, se bem que nada para ela era normal. Mas a vida começava a fluir…
Aquela seria a primeira noite que eu dormiria fora. Uma ansiedade enorme tomava conta de meu coração. E reparei que os meus irmãos também estavam ansiosos. Eu nunca havia dormido longe deles… Mas aquela era uma noite especial. A lua apontava no céu quando os meus irmãos me acompanharam até a porteira, que rangeu ao ser aberta. Mal sai… e eles já haviam sumido pelo caminho de volta. O cheiro gostoso de sopa exalou no ar e ela me recebeu com um sorriso. Pela primeira vez olhei direito para ela. Os olhos azuis piscaram e percebi que ela tinha o céu dentro deles. Os cabelos estavam soltos… sem o chapéu de capim dourado deixando a mostra os cachos caídos sobre os ombros. Os fios brancos se pareciam com fios de algodão que ela me ensinou a tecer na roca, que ficava no centro da casa. Ela me sentou na cadeirinha, colocou o prato diante de mim, que despejou no ar um cheiro delicioso. Enquanto comia, ela contava histórias e me ensinava truques. À noite, aquela casa parecia ainda mais misteriosa e aquilo me encantava. Eu buscava cada detalhe-objeto. A lamparina no teto, a cadeira que tinha uma manta de crochê por cima. Um retrato amarelado na parede onde havia mais de cem crianças amontoadas — as que suas mãos fizeram nascer. Depois de comer, me levou para a janelinha. Uma escada nos colocava lá no alto. E o que vi, me deslumbrou: uma lua imensa no céu e um jardim de cogumelos gigantes. Como brilhavam… À luz da lua, eles pareciam maiores do que eram, e tinham uma coloração especial — um tom meio azulado. Ali, a minha fantasia delirou. Eu pensei ter visto um monte de duendes entre eles. Compreendi que estava vendo uma coisa secreta. Aqueles cogumelos eram experiências que ela fazia. E ao dividir comigo, tocou-me com toda a sua arte. Acho que nem meu pai sabia da existência deles. A cama fofa, os pirilampos piscando — pareciam estrelas no chão. O cheiro da massa de pão, o silêncio da noite. Sentia como se estivesse lendo um livro, virando página por página. Eu era uma espécie de Alice no País das Maravilhas. As horas voaram… e eu ali, a sorver cada precioso segundo de encantamento e magia. Ali, era a casa da dona Fulô — a casa de uma bruxa, segundo os meus irmãos. E para mim — uma menina sonhadora que vivia poesias — era a casa de uma Fada. Aquela foi uma noite de sonho… nem dormi direito. Queria guardar tudo no baú da memória. E, com medo de que tudo se perca, esparramo palavras aqui, fazendo o que ela não sabia fazer. Ela não conhecia letra-palavra no papel. Dona Fulô era uma contadora de histórias, que fazia poesia com a voz, os olhos, as mãos e os pés. Com ela aprendi a recortar a eternidade, a ouvir o rumor dos pássaros, o restolhar das folhas na mudança da estação, o amadurecer dos frutos em bocas ávidas e a força do vento nas folhas onde histórias se escrevem, como eu prometi que faria naquela noite…
Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes. (…)
Virás quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me. (…)
Calo-me. Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. (…)
É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim … de ti. Nunca te conheci – assim explico o teu desaparecimento. (…)
Luiza Neto Jorge
O vulto na janela da casa 18 da rua de cima me intrigava e se hoje você for lá, não encontrará nada do que vou retratar porque entre o dia e a noite, há sempre uma pausa quebradiça e o silêncio habita atrás das cortinas. Porque silêncio é assim… se impõe e cria raízes onde a terra da solidão é fértil.
Era uma manhã escura dessas que não se costura com linhas. Lá fora, o pássaro agourento – segundo as lendas da minha mãe – grunhia como se isso fosse a missão dele. Depois disso, nada mais prestou – ela escreveu no diário que eu encontrei tempos depois no baú.
Havia vida ali, atrás das cortinas lilases e por algum motivo o riso se perdeu além das flores… a canção de amor perdido ficava no repeat o dia inteiro e estava escrita entre as notas feitas no diário, com caligrafia de quem treinou tanto as letras cursivas…
Cheguei a ver os olhos dela perdidos no nada… Um riso meio sem noção enquanto o cão latia denunciando minha presença e ela repetia o mesmo mantra de ontem-anteontem-trasanteontem – quero ficar sozinha…
De olho brando no carinho, lembrei a ela que estava ali… e ela dizia que não seguia regras – só os fracos seguem as regras… Os fortes, criam- nas… Morro de amor, e não te conto nada. Não falo das madrugadas insones, nem da falta que faz a cada dia. Dos meses que conto no calendário da cozinha, das plantas que arranquei sem mostrar. Porque essa saudade só diz respeito a mim… Escreva uma história, se preferir – e riu num quase sem voz e sumiu entre o esvoaçar das cortinas… Disse que a psicóloga falou que ela tinha um amor bonito. Cheguei a odiar essa psicóloga… devia ser a mesma que me trancou nos dias de confissão quando retratei meu mundo de amor.
Escrevi milhares de histórias depois disso… ainda continuo escrevendo sobre o amor e suas diversas nuances… Nenhum tempo é essa coisa de agora… Era Leonor seu nome, embora seus amigos e familiares a chamavam por outro nome. Mas, quando eu pensava nela era ternura que eu sentia e só de imaginá-la, era ternura que eu via.
Trocou a casa dela por aquela última da rua cheia de escombros e vive ali, na solidão que encontrei dentro do baú esquecido na casa 18 da rua de cima… sempre que passo por ali, ainda vejo um vulto na janela. Deve ser o fantasma do amor que ficou…
Arterapia: desenhe sua casa. As minhas sempre foram ocos de árvore ou botas com chaminés Tudor ou abóboras com escadas e varais ou cogumelos com hortas. Luciane Lucieri
Luci,
Estive visitando seus lugares e me perdi entre os mistérios que te rodeiam e a maciez com que você toca minha alma. Vi que encontrou uma carta de amor e que não era destinada a você e resolvi te escrever… não é uma carta de amor ou até é… de um amor nas coisas que gostamos e que guardam mistérios que não sabemos desvendar, nem resolver.
O sol filtrou aqui também, logo além do bosque que já nem existe mais – estão derrubando todas as árvores de lá – onde conheço cada uma.
Dizem que vão construir no lugar mil e quinhentas moradias e sabe-se lá quantos jardins… Mas, já era um jardim que eu mesma fotografei mais de mil e quinhentas vezes os bichos, os brotos dos ipês que nasciam das sementes trazidas pelo sanhaço azul e por descuido ele deixava cair. Fotografei ali vários fins de tardes e algumas manhãs acabadas de acordar. Os cogumelos que nasciam por ali pareciam doces de vó ou o sorvete de flocos da sorveteria da infância. Dava até vontade de comer. A pata de vaca muitas vezes me cedia folhas para o chá contra infecções e as libelinhas azuis cabiam num canto qualquer de tão pequenas que eram.
Agora, aquilo tudo vai se transformar em moradia e hoje, quando fui buscar as cestas para as doações vi tudo limpo. Deu um vazio no peito… Corri para seu lugar e fui beber poesia nos estuques do muro. Ainda bem que tenho as sementes de quase tudo que tinha lá… a maioria brotou como que por encanto e fui estrada afora cavando covinhas e deixando elas em uma nova morada. Achei que devia te escrever sobre isso, Luci e sei que o que sinto é que o mesmo que sentiu quando seu coração se tornou em um cemitério de borboletas tocando Mozart… O meu, hoje se transformou em um de cogumelos, florestas e seres cheios de mistérios que existiam por lá… e não tocava canção nenhuma.
Hoje, tive que criar um lugar para eles no meu quintal, Luci… por que em alguns momentos gosto de existir no mistério das coisas em que ninguém mais acredita.
Perdida, encontrou a poesia que morava no caminho imaginário de suas fábulas
Suzana Martins
Querido Agosto,
É inútil dizer que minhas fábulas em seu mês se tornam mais reais… Confesso que grande parte do meu imaginário ganhou vidas em suas noites, lá na minha infância, quando eu ainda corria descalça na estradinha de terra…
Era em seu mês que minha mãe temia os cachorros loucos e suas babas amarelas… um dia, cheguei a ver um, de olhar perdido, na relva, entre o alagado dos pés de buritis. Depois disso, fiquei dias sem sair para além da cerca, onde o Malhado – nosso cão perdigueiro – nos protegia dos cães “doidos” que vez ou outra atravessa a porteira.
O carteiro que aparecia a cada quinze dias, também contava histórias com seu nome… Se por algum mistério de quem contava as histórias, agosto era sempre o mês dos cachorros loucos, o que dizer dos humanos – seres tão desprovidos de amor iguais aos deles…
Cheguei a ouvir um causo, do velho morador do casarão abandonado que ficava depois da ponte que o cachorro dele endoidara, mas que não o mordeu de jeito nenhum… sumiu estradinha afora, com olho perdido na loucura de cão… Achei na época – embora não conferisse os dias no calendário – que seria o mesmo cão que vi entre o alagado e os pés dos buritis. Quis dizer que mesmo quando enlouquece, o amor do cão é fiel e não morde o próprio dono.
Alguém contava que nas noites de lua cheia também surgia uma mulher louca, sabe-se lá porque, para buscar um filho perdido… nunca acreditei nessa história… sabia que era mais coisa de meu pai, para que eu não corresse atrás dos vagalumes que brilhavam perto do jardim quando escurecesse… o peixe que virava homem e vinha roubar a moça para casar e tantos outros causos que minha memória guarda.
Sabe, embora imaginasse que tudo isso fosse lenda e histórias para nosso imaginário fluir na arte que minha mãe conduzia em nós, quando cresci guardei essas histórias em uma almofada para quando o mundo ficasse difícil de viver e de vez em quando, é nela que busco minha fonte de encanto só para suportar esses instantes que surgem na vida da gente, tal qual os cachorros loucos durante seus dias.
Para isso, eu tenho uma almofada feita de “memories” que em noites de insônias se transforma em um livro cheio de fábulas que vivi e me fizeram acreditar que a poesia é cada instante costurado na alma, tal qual bordado de avó.
Teremos um mês inteiro para recordar esses instantes. Vamos vivê-lo?
A palavra que falo é a mesma que canto
e eu não sei mais sei-te mais que eu canto,
teu nome melodiosa música em mim.
Eu em Mi Maior, sonata,
suave amplitude sinfonia, amor
que ecoa literais acordes
nas pontas do dedos suaves gestos.
Corpo,
instrumento do desejo meu
Estranha escala doce,
Beber a melodia em ti…
a.m.o.r suavemente soletrado
teu nome entre as letras digo
e amo, e amo e canto e amo
e dou a ti nas sintonias loucas
sou mais que eu aos pés de ti, sem roupas
tão lírica e serena, tão tua