Corredores, Codinome Locura

É importante que continuemos a sonhar…

Querido Edi,

Durante muito tempo assisti seu aniversário como expectadora. Já conhecia os rituais que sua mãe seguia. Era sempre como se estivesse se preparando para uma festa – embora fosse mesmo uma festa o dia em que você nasceu.

Ela ficava contando as horas para quando o relógio movesse os ponteiros e trocasse o dia. Eu acompanhava isso e todos os desejos de bênçãos eram feitos e por isso, o dia de hoje – aí, já é 25 de julho – ficou em minha memória, assim como os dos outros seus irmãos.

Sei que está sendo difícil, mas quero, com essa carta, que seja menos dolorosa a lembrança. Em nossas conversas sempre tento dizer e reforçar o que ela mais queria: que você fosse feliz. Então, honre a vida que ela te deu fazendo de tudo para ser feliz. Ela acreditava muito em sonhos, então, é muito importante que continuemos a sonhar.

Eu o admiro muito e tenho na memória os dias em que ela passou aí com você. Essa foto foi enviada por ela… E com ela, simbolizo a beleza do lugar em que você vive com sua família.

Te desejo forças, te desejo paz e muitas alegrias. Criei um poema para você… Para que caiba em seus dias o homem extraordinário que você é:

Que os homens normais sejam extraordinários
e o extraordinário, poeta…

Que os homens normais sejam extraordinários
que o fardo pesado, leve

Que o vento te toque manso
o instante da dor,
breve

Que o comum, intenso
brilho
a rotina diferente, cada dia
que os atos de pai, irmão, marido, filho
de homem, de amor, amado
alegria

se transforme no riso entre gente
e os atos banais
raridade
e que tudo comum seja inerente
e teu coração
pleno de felicidade

Feliz aniversário!

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

É o paraíso, a moça!

Anna & Elena BALBUSSO

Se lança no infinito e nem me conta nada
Vira hippie na banca da esquina.
Sorri em dias despencados
quer morar dentro de um livro de Bukowski
e ainda reza.
Chove quando acorda, acorda sol maior no lado B da vida.
É o paraíso, a moça!
ri das minhas bobagens,
é corruptivel em seu ideal ecológico. Mas, só quando o professor pede.
Perdeu tudo quando a casa virou flor. Nem tinha seguro.
Mas, no caminho até ela eu descubro o Paraíso. É.

Mariana Gouveia
*imagem: Anna & Elena Balsusso

Corredores, Codinome Locura

Hoje, o tempo…

1987 – a vontade de ser mãe fala mais alto no meu corpo feminino… Eu, semeadora que sou – quero gerar. Um amor que não posso medir começa a crescer em meu peito e a barriga traz a vida…

1988 – nasce um menino do signo de leão. Com a força habitada em seu decanato – embora, anos depois, ele ainda busque essa força. É o protagonista – mas precisa se reconhecer nisso – e dono de sua história… embora, eu saiba escrevê-la. Nasceu de mim.

Os anos são imensuráveis nos dias que ele cresce e os pés lhe dão a liberdade de ser o que quiser e ele quis… voou, pra longe do abrigo e foi ser.


2018 – entre idas e vindas, ele pegou mochilas, malas e foi… rumo ao destino que ele mesmo traçou… e  eu que fui ninho, fiquei vazia do “perto”. O menino voou, buscou lugares, amores e sonhos e eu, a limpar cabides vazios, quadros antigos nas paredes… os carrinhos da coleção ficaram ali, na estante, junto dos livros que não couberam na mala. Algumas camisas de time, a bola de futebol americano – que mofou – desgastada pelo tempo. 

2021 – Diante de minhas memórias hoje ele é tempo. Contado nos anos e nos dias em que passou a ser meu… meu filho e só quem é mãe entende esse amor.
Eu o ensinei a ter coragem… a lutar pelos sonhos e a respeitar as pessoas. O ensinei que se o caminho estiver errado, não faz mal nenhum voltar ao ponto de início. Era meu menino…
E o menino que realizou meu sonho virou homem e hoje, com a força habitada em seu instinto corre atrás dos seus.

Feliz aniversário!
Te amo imensamente!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

A manhã surgiu rodeada de nuvens.

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Contei os dias de espera.
Eram muitos e não couberam nos dedos.
Um pássaro surgiu amedrontado do nada. Um gato espiava o feito da janela vizinha.
No telhado, as mangas caíram com o vento que cantou seu nome a noite inteirinha.
Havia cheiro de maresia nas cortinas, nas palavras que a canção entoava. Havia você ali em tudo que é vontade.
Li poemas antigos que eram seus. Que são seus.
Lembrei do gosto do café em sua boca. Da palavra estranha dita em outro idioma.
Você bebia sol nas manhãs que eu te dava. Como se fosse pílulas para curar a solidão.
Hoje, olho o frasco vazio e cheio de saudade.
Nada cabe em mim na imensidão das coisas. Tudo é essa presença vazia da palavra.
Tudo que te mando volta como se fosse recusa.
E cada dia morre em mim a esperança.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

Era

Era
.

era para falar de voos

mas não tinha asa

virou mensageira dos ventos

pousou chão

folha
era para ser árvore

mas não tinha raiz

virou jardim

pousou flor

pele
era para ser delicadeza

mas não tinha tato

virou tatuagem na pele dela

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Corredores, Codinome Locura

Contramão

E tudo passa e eu ainda penso em você

enquanto procuro palavras
você pensa em gesto
e eu penso em afeto
e você em lavas

enquanto, eu incêndio
você me apaga
enquanto tranco portas
você me destrava

eu penso em fartura
de beijo, abraço
você mingua, não atura
o que faço

enquanto eu sou objeto seu
em todo trajeto meu
você vem na contramão,
não é amor,
é só fascinação

Mariana Gouveia

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Vermelhou…

A vida acontece em pluralidade na cor vermelha. E por falar em vermelho, a cor aconteceu no meu quintal.
Havia o fruto, a flor, a roupa no varal.
As nuvens que antecipam a chegada do sol vibraram na intensidade da cor.
Até a solidão é vermelha. Passeia pelo interior vestida para festa.
A solidão é dentro da gente. Agita a alma como ventania. A mesma que lá fora anuncia a mudança do clima.
Quando o céu amanhece vermelho, vem frio – meu pai sempre avisava – e parece que lá fora, a flor que insiste em abrir seu botão majestoso se delicia com o afago do vento. É o dia espalhando a cor dentro de mim.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

A inquieta tarde…

e o pouso imaginário era de um homem, só o canto. Cabia na certeza das coisas o afeto rabiscado na parede crua. O muro tinha a tinta apagada e as folhas do pé de algodão caíam no quintal.

A senhora na janela do outro lado da rua resmunga a solidão e o roubo das frutas. Nunca sabe se planta para si mesma ou para as aves, que as roubam antes mesmo de provar. Escrevi mais cartas para os envelopes coloridos e joguei fora lembranças mornas de amor.

No baú não coube mais as notícias diárias e nem as receitas das noites de insônia. A ternura pousa na minha frente e tem asas de delicadeza no azul. Sabia do encantamento da ave e quis repetir que não havia dado nome a ela. Nome é essa coisa pelo qual te chamam e você se reconhece dentro dele… mas o que dizer de um pássaro que é estrangeiro no céu que voa?

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Dos dias diferentes dos outros dias…

O corredor longo me faz prestar mais atenção à vida, no que sobra dentro da memória dos restos de imagem que vejo da janela. Alguém busca notícia da menina que gosta de verde… chega a desenhar a palavra no ar. Ele tem apenas memórias, uma vez que nunca mais a viu e faz a peregrinação todas as noites revisitando os lugares de onde se lembra que ela passou. Tem a mão dela desenhada em uma camiseta estampada com poemas e agora tão fora de alcance. Então, o amor… Ignoro a história toda… contabilizo as gotas no vazio da espera e dentro disso folheio em um livro a ignorância da história, a nossa própria.

– e penso na menina que adora o verde nas palavras todas — escrita a punho, em cartas que não enviei.

Alguém diz que sou duas, nas facilidades da força. Repete meu nome dentro de uma música que conta meu nome de diversas maneiras… Enquanto o corredor escuro é apenas o portal do encantamento que acontece no meu quintal.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

— Lembrou-se do filho que não viveu.


Ouviu Adele enquanto o pensamento voava. Rezou milagres na memória.

Escreveu o nome dele no ar — era asa e virou voo. Metamorfose em alguma mão. Viu asas na roupa do menino. O céu era horizonte azul. Havia verde em qualquer folha. Colocou cor no olho da moça de riso fácil.

As mãos eram frias e frágeis. Cabia a liberdade nas mãos. Viu as estrelas brilharem na água… O tempo refletiu nas lembranças e já era tanto tempo. Sentiu o toque da vida — que era vida em qualquer lugar — a capacidade de viver no exato momento da dor mesmo quando as asas cansam do voar… e pousam.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais