Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Recortes Urbanos

“Quando meus olhos estão sujos de civilização,
cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves”.
Manoel de Barros

Confesso que não sou muito urbana, embora more em área urbana tento transformar meu lugar em um espaço de natureza. Meu quintal me permite viver a natureza no sentido amplo da palavra. Recebo, de vez em quando, nos meus espaços urbanos a ave típica do Pantanal. Virou assídua entre o meu telhado e os dos vizinhos. Rouba a comidas dos passarinhos e é majestosa no meu lugar.


Minha cidade, além de ser conhecida – hoje bem menos – como cidade verde, também é conhecida como a cidade do sol. A média diária de calor, com raríssimas exceções beiram os 38º, com picos de 40/42º… então, o sol me presenteia sempre com imagens lindas e contrastes entre os prédios e casas.

Seja no amanhecer – já que o dia, em sua maioria dos dias, já amanhece quente – no meio da tarde…

E no anoitecer…

Em cada direção que a gente olha, o sol é o protagonista e suas invasões entre os prédios e casas…

Há outros espaços da minha cidade que adoro e me inspiram… as igrejas e seus mistérios de fé, os casarios antigos dos becos contando a história e seu tempo. Essa é minha cidade e meus recortes urbanos.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Participam também desse projeto
Obdúlio Ortega – Darlene Regina – Lunna Guedes

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Entre uma estação e a primavera

No lugar onde enviam cartas procura- se moedas. Os selos, nos envelopes, cobram trocos que o dinheiro normal não alcança diante do olho do menino que tira o cofrinho da mão da mãe, com medo de perder sua riqueza.
Os pássaros procuram estações das chuvas dentro da secura do tempo. Tudo é tão vagaroso como se estivéssemos nos livros.
Procuro a flor que não abriu. A janela que me leva até você. Procuro.
Procuro a maresia nos cantos dos muros, nas frases de efeito dentro dos poemas.
A primavera finge que não vai chegar e eu procuro sua fragrância dentro de mim.
Encontro os girassóis do ano passado que fizeram seus olhos brilharem e suas sementes dentro de mil flores, com os insetos vorazes a matar a fome não sei de que. Tudo é procura nessa vida. Tudo é encontro nessa busca Só não você.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Carta ao meu pai… Aos cuidados do encanto

Pai,

Cada ano que passa nesse dia, eu visto a melhor roupa, venho ao teu encontro e estendo minha mão dentro de nossa história. Acredito que irei fazer isso a vida inteira… os caminhos me levam para quando eu era criança e você desenhava em palavras os contos que eu lembraria em tantas noites vida afora.

Que luz era aquela que brilhava ao longe? — você detalhava os monstros com diversos nomes e instigava a nossa imaginação com a brincadeira, treinando a nossa coragem até percebemos o vagalume a bailar no ar e fazer decoração na mata além da horta.

Você me entregou o delírio em uma caixinha disfarçada de cogumelo, me fazendo enxergar a leveza das coisas, o encanto mágico que acontecia a cada instante. O elixir que curava ou matava… a ciência de conhecer a melodia da floresta que nos indicava onde era o lugar seguro, como conseguir água ou simplesmente parar em uma clareira e sentir a sintonia única com o universo.

Nas coisas miúdas você me mostrou a grandeza e o cheiro de todas essas coisas preencheu a minha memória com toques e suavidade. O tempo passa e seu dia é muito além desse dia primeiro de junho de todos os anos. As músicas que você me ensinou a cantar e as lembranças a misturar épocas dentro de mim.

Escrevo para você essa carta para que a irmã mais velha trate de ler para você… Mais uma vez, o rádio falará de seu nome em uma carta de amor e saberá que eu te amo todos os dias.

Às vezes, penso que nunca soube escrever sobre você. O que faço é apenas retratar o sentido que você escreveu em minha história e que enumero como memórias:

Memória 1:

Era um ritual da madrugada e o cheiro do café invadia os quartos… o rádio ligado no programa madrugador e o barulho do gado no curral… o leite tirado diretamente na caneca e a sensação de céu na boca…

São as minhas primeiras recordações…

Memória 2:

As noites em minha vida eram de encantamentos… enquanto os dias eram feitos de ensinamentos, as noites eram de retratar a vivência do dia.

O cheiro do arroz maduro na roça invadia cada canto do quintal e ao redor da fogueira a gente cantava as músicas do santo. O cheiro do chá de canela — feito com as folhas retiradas da arvorezinha que soltava a casca em pedaços de pau — que tinha gosto de encantamento. A batata assada na fogueira. A reza ensinada ali mesmo, enquanto você nos falava sobre a fé. O conto de fadas declamado com os ecos e assovios em sua voz de homem adulto.

Memória 3:

Estava nervosa e falava do meu primeiro amor… seus olhos apreensivos entre a resignação e o medo. A minha inquietação dos 14 anos e você lá, desenhando as regras sobre o que podia ou não. E o medo de te desiludir — que continua comigo. Seu jeito de mãe e a perda a doer a alma.

Memória 4:

Havia o amor escolhido… o vestido simples e dentro de nós, a festa desenhada lá atrás, quando nasci. Você falava de borboletas enquanto a juíza me pedia para dizer o Sim… e você o meu lado direito, com o olho de amor e benção, percebendo que a minha paz foi aceita e acolhida.

Memória 5:
As memórias se misturam nessa noite… em minha solidão, na ardência das horas. Eu chamo por você, grito por dentro o teu nome. Sinto a segurança do teu colo e a densidade de sua presença — mesmo tão longe — ainda é o meu porto seguro. Você me deu a liberdade de uma vida toda… as asas no seu amor rotineiro e cuidados onde me prendia às regras. E mesmo sem perceber, cada um de nós as seguia… porque todo mundo precisa de direção, de um guia. E você me deu… Exemplo vivo e real de caráter, força e fé. Porque cada lembrança é como se fosse um casulo a criar mudanças…
Feliz Aniversário, pai!

Mariana Gouveia, in, Desvios para atravessar os quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias…

Perdeu o cheiro da chuva, depois do vento. O temporal atingiu toda a rua de cima e numa esquina qualquer o vazio das horas. O homem da reciclagem nunca mais passou… ficou a caixa vazia com as garrafas descartáveis e refaço o mesmo percurso diário das vezes que o vi empurrando a carriola para ver se o encontro.
As meninas do clube perderam a hora na última semana. Vieram caber todas dentro de um abraço no portão. Perguntam também pelo homem da reciclagem. A rua de cima é vazia sem ele. Fica esse oco na esquina onde os cães latem em alerta. Lembro-me que ele conhece as constelações todas, sabe o nome dos rios e entende o movimento do vento. Contava a história da árvore que ele mesmo plantara ali, logo acima da casa da esquina, onde morava antes de se mudar. Hoje, é a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias, fora de hora. É o lugar onde os pássaros buscam abrigo, depois que fiquei órfã de árvore no meu quintal. Podia não saber meu nome direito — me chamava de menina e eu o chamava de mestre mas conseguia colocar esperança dentro das minhas poesias.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais,
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Nostalgia

“A nostalgia cambaleando por todos os cantos e invadindo as dimensões do espaço.”
Juliana Sfair

Querida nostalgia,

Em alguns momentos, a memória provoca lembranças e se eu fechar os olhos ainda posso sentir o tempo lá da infância. Imagens que me fizeram ser o que sou hoje… A caixa de fotografias com os risos na cara e a alma leve…

Nelas, eu caminho pela vida de criança e com meu baú de afagos… Nas manhãs, com a fragrância do café coado, a cozinha era um dos lugares favoritos. Aconchego, amparo e sabores…

A lenha crepitando no fogão e a preparação das comidas era alquimia pura. Hoje, talvez seja uma das coisas que mais me traz você nesse sentimento envolto em memórias.

Sabe, nostalgia… o seu nome entoa em mim como se fosse uma canção… quase consigo ouvir os passos de minha mãe pelos campos, logo atrás da casa enquanto os capins cantavam a música do vento… eu a via abrir os braços e saudar a natureza em sua essência pura de ser.

Dos sons que minha memória me alcança tem o aboio do meu pai a chamar a boiada para o curral… era como se eu estivesse dentro de uma tela de cinema e aquele homem em seu cavalo, meu herói… o personagem principal de minha história…


Pena que tenho que falar com você com apenas seis imagens… a minha história tem momentos infinitos e amores eternos… e entre eles, Chuim, que me aguarda todo ano para me mostrar que o amor de verdade mora nos olhos cor de mel dele…

E aqui, me despeço envolvida em seu nome… nessas lembranças que me energizam e me acalenta a alma.

Abraço,

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

— que nome dar para esse rio que vaza do meu peito?

– Você viu a lua nessa madrugada? além dessa que surge cheia em teus olhos? — Viu Júpiter que dormiu de conchinha com ela?

O vento veio suave na pele. Pensei em carícias e toques. Os poros soerguerem e a vida se transformar nesse pulmão de respirar… As asas não respeitam a densidade das pedras.

E as flores…? — não captam a solidão dentro da noite — aceitam os casulos que se abrem e a metamorfose acontece. Enquanto você vê seu mar nessa sombra de asa, o ar sendo presságio de coisa boa. De presença além do infinito e dos séculos e séculos — amém — e pousando em um beijo que é tua boca e voo… Pulmão. Cadê meu ar de respirar dentro dessa ausência que se impôs? E esse rio que vaza entre as folhas?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas

BEDA- dos rituais dos girassóis…

Ele disse: – Você parece mel. Ela disse: – E você, um girassol.

Caio Fernando Abreu

Minha doce Rose,

Queria te falar sobre os rituais. Meu pai sempre disse que vivemos de rituais, mesmo quando achamos que não. Eu sou dos rituais… desde quando acordo até ir dormir. E em um desses rituais de amor eu plantei girassóis no meu quintal pensando em você e ele cresceu tão lindamente que resolvi te escrever para te contar.

Você já sentiu o cheiro de mel de um girassol? Fico horas cheirando as flores dos que plantei aqui. Assim como você, também tenho uma ligação especial com eles. As borboletas adoram… E talvez, nossa ligação vai muito além da poesia e você seja a menina do girassol de minha vida.

Sabe, dias desses, dentro das memórias do dia lembrei-me de você e do cheiro de sua mão… acho que foi ali que senti o cheiro de amor que você carrega na alma.

Agora, que os girassóis floriram lembro-me de você todos os dias… na hora de molhar eles, falo com eles como se estivesse falando contigo… é um ritual que sigo para assim amenizar a saudade que sinto.

E seguindo o rito das flores te abraço esperando que tudo isso passe logo e a gente possa se abraçar de novo. Assim, te espero todos os dias dentro dos rituais que meu coração segue pensando em você.
Amo tu!

Um abraço carinhoso

Mariana Gouveia
Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas

BEDA – e essa leveza de quem consegue apenas respirar…

Querida Olga,

Eu nem queria escrever, porque as letras para mim são formiguinhas que vão e vêm em carreirinhas, iguais às costuras de minha avó.

Uma canção pede para que rasguem as cartas. Isso era do tempo de minha infância, quando na rádio lia as cartas que as pessoas escreviam.

Pediam canções, amigos, amores, encontros e especialmente, atenção.

Nunca precisei de atenção. Sempre chamei atenção. Esse jeito torto, vago e as flores do jardim. Me disseram que escrever é como se fosse fuga e me pego na noite amassando os papéis e repito com a cabeça na parede: quem disse que quero fugir?

Lembro-me de que alguém falou sobre cartas na infância. Os envelopes pardos a descrever sobre fatos…

Vejo apenas sombras no vulto… as figuras a embrenhar o muro como fuga. E essa leveza de quem apenas consegue respirar.

Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas

BEDA – Começar pela palavra…

Eu reconheço mil peles
Mas só uma digital
Do que toca

Marcos de Faria

Meu caro,

Muitas vezes, a palavra me falta e daí eu tateio as coisas no quintal… depois da chuva faço uma vistoria nas folhas, nas poças d’água para salvar a vida miúda que anda por aqui… nesses momentos eu me sinto a castelã que você descreve na generosidade de amigo. A Mariana que faz com que a vida continue quintal adentro.

E vou reinventando fatos, explorando o pé de algodão e ofereço a mão como abrigo. Você sabia que o Chiquinho – meu beija-flor-menino já dormiu uma noite inteira na minha mão? Isso aconteceu depois de um acidente entre ele e o ventilador da sala. Logo que eu o reanimei, meio em prantos, ele se aninhou em minha mão e não saía de jeito nenhum… por mais que eu o colocasse no vaso da lanterna chinesa – um dos lugares preferidos dele – ele voltava pra minha mão.

Sentei-me no chão da varanda, com a mão apoiada na cadeira e ele até roncou. Você já viu um beija-flor roncar? É a coisa mais linda que há… e quando amanheceu, meu braço quase não mexia… e foi assim que passei uma noite inteira com um beija-flor. Já vivi várias outras aventuras com ele, porque o danado é um menino sapeca.

Tudo isso te contei para falar das coisas que vem parar em minha mão… grilos, gafanhotos, pássaros e uma infinidade de borboletas, mas as joaninhas ganham de todos os outros. Basta um descuido e lá vem uma pousar na minha mão… Talvez, isso responda ao seu comentário da palavra na palma da mão… se até os bichos encontram abrigo nelas, imagine as palavras, moço! É que a poesia ronda aqui desde minha nascença, lá no interior de Goiás.

E olha que vibrei aqui com a citação à Adélia! Nossa, e a Hilda, então?! Fiquei boba que só e resolvi te escrever essa carta apenas para agradecer. E o agradecimento vai em forma de abraço e palavra e com as mãos justapostas em reverência a sua amizade.

Abraço,

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas

BEDA – E a loucura será feita de abraços…

Te decorei
para te rezar
todas as noites do meu dia.


Alessandra Siedschlag

Amada Maria,

Saberão os dias em que os corredores serão feitos de risos e que a loucura será apenas dos apertos de abraços.

Haverá os dias em que os espelhos serão apenas partes de relacionamentos e não cacos quebrados jogados no lixo, à medida que a sorte rouba as digitais dos humanos e eu folheio as fotografias na memória como quem rouba dados.

Tudo é esse grito na garganta, preso.

Mesmo que o calendário seja essa rotina de todo dia e você nem saiba seu nome. A loucura é essa improvisação no modo de ser. E é também essa coisa de ave abrir a asa e voar… não conheço outro modo que não seja essa grade.

Não conheço outro canto que não seja o dos anus pretos. Nunca tive nada desarrumado, porque nunca tive nada meu. A colher que me cabia tinha o cabo torto e alguém se apoderou dela e fiquei a ver a cor do cabo a ser servido duas cadeiras além da minha.

A colina, é essa ponta de verde musgo que meus olhos alcançam e de onde chegou a notícia de que alguém morrera na mata da rua do meio.

Mariana Gouveia
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