Corredores, Codinome Locura

Tenho tido visões marinhas no tapete da sala…

Dizem que enlouqueci nos últimos dias. Deve ser abstinência de sua voz ou essa mistura de estações dentro do dia. Vejo o tempo todo asas que voam a esmo nas ondas que crio na mente.

Sinto essa obsessão incessante sobre você e suas lendas acontecendo no meu quintal. Viajo contigo pelas ruas do bairro. O horizonte se veste de cinza dentro do jardim. Por sorte, os correios hoje não funcionam. Escrevo cartas que não enviarei.

A solidão tem esse dia de domingo tatuado na pele. Tem toque onde a sensação de sua pele em minhas digitais arrepia a alma.

Deu vontade de morrer de amor. A gente deveria morrer aos domingos – quando as sombras das amoreiras ficam mais leve – de frente para o quintal em seu instinto de asa. Essa fome de maresia rasga a pele e esse muro que não rompe os diques do rio que deságua na minha rua e conto no calendário os dias que te perdi.

Mariana Gouveia
Ph: Nicoletta Ceccoli

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

— a renda foi costurada dentro da noite

Os dias de invernos intensos aprofundados na pele e na alma. Busco o equilíbrio denso dentro da dor. As histórias contadas de um jeito que a saudade bate e fica. O cheiro do capim molhado de orvalho a invadir os quartos com seus aromas e a lua caminha em um céu coalhado de estrelas. Imprevisível a cronologia das coisas — misturamos os fatos, as fotos e a época — tudo era dentro do tempo de estar. As palavras a carregar afagos entre nós… o verbo mudando a direção sempre que uma lembrança nova surgia. Alguém arrisca um canto e o amor conhece a simplicidade das coisas.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Diário da Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Atos

Passava os dias ali, quieto,
no meio das coisas miúdas.
E me encantei.
Manoel de Barros

Meu primeiro ato logo pela manhã vem anunciado de pássaros… seja o Chiquinho – meu pássaro de todo dia, que já me acorda com seu chilreio e pede atenção. Com ele canto, assovio e troco a água, as comidas – seja pelo bem-te-vi…

outro morador das árvores que só come no prato e me faz repetir várias vezes: eu que te vi, enquanto ele canta, come e voa fugindo dos cães.

Outro ato que me encanta é verificar os ninhos e dar aconchego aos que gostam de colo e pouso. Enquanto isso, o quintal vira uma cantoria de aves entre o pé de algodão e o de ipê.

Depois da atenção aos pássaros, procuro pelos casulos que eclodiram e presencio quase sempre o nascimento de uma borboleta. É quase uma magia e me emociono todos os dias com elas. Cuido das plantas e energizada me preparo para o amor em dose dupla.

A partir daí, meu ato é de puro dengo… Yoshi e Lolla pedem atenção e entre um afago e outro tenho que deitar para o cheiro no pescoço. Aqui, Lolla fugiu da foto…

Só daí é que vou para o ato do trabalho e da escrita. Respiro, agradeço e começo o dia.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Lunna GuedesObdúlio Ortega Darlene Regina

Corredores, Codinome Locura

# diário

# diário

Da minha janela vem um vento…
Um vento que me alegra…me alegra porque traz o canto dos pássaros com ele e sacode a cortina cor de amora.
Chego a pensar que o vento é um menino brincalhão que tropeça nos meus cabelos curtos e fica sem ter onde segurar e por isso sai levantando a saia do meu vestido lilás.
Aliás, quase todos os dias ele vem assim…Adora o ritual tênue da manhã que se agiganta onde o sol espreguiça e ele dependura nos galhos das árvores da vizinhança e canta sua melodia suave de começar do dia.
Ali, amparada pela parede rente a janela, colhendo canto de passarinho que junto com o vento vem todo dia eu abro os braços pra caber você no meu abraço.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sui generis

Sui generis

De seu próprio gênero e adjetivo
tão imprevisível
e comum
e por isso rara
e por isso cara
e por isso vem de especial
quase estaminal
colo, abraço, um…

Prefere a cor
e envolve amor
sempre quando vem
traz bem…e alegria
alegria é ela e ela tem…

Alegria
alegria ela,
alegria bela


Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O dialeto das digitais

uso o dialeto das digitais
aquele em que a mão vagueia para tirar tua roupa
e descobrir teus nortes
teus rumos
teus desvios
tua rota
onde trafego insana
e busco o idioma da tua língua

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

As lembranças ecoam aqui.

Folheio as fotografias como se elas pudessem me fazer voltar no tempo – quase vejo as cenas de novo – e todo ano é essa memória que busco.

Meu pai, ao redor da fogueira, nos falando sobre as simpatias da véspera do dia do santo. O cheiro dos doces, do milho, do fogo e os irmãos menores, na correria como sempre. Será que algum dia eu também corri assim?

Isso era tão comum no 23 de junho. Viver esse dia era tão mais legal do que o próprio dia de São João. Os enfeites, feito durante a tarde, dentro da mesma algazarra fazia com que minha mãe repetisse o mesmo mantra de todo ano: o melhor da festa é esperar por ela.

E assim, acontecia a alegria na dança ao redor da fogueira, nos comes e bebes e na lua que sempre foi testemunha do amor que havia ali.

Viva São João!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Gilka.

Talvez eu fale mais de mim nessa carta do que propriamente de você. Nessa semana, minha previsão de tempo saiu dos trilhos – não o tempo mesmo, de clima, que continua insuportável por aqui – mas o tempo de relógio, que foge daquilo que a gente traça.

Passou por mim, dias inteiros de lenda viva, de mitos e de comemorações de vida. Sobrevivi a algo que nem sabia e me perdi na rotina dos dias. Pinto um retrato que não se revela – como seu poema que mais gosto – e de fato, vivi uma semana em uma realidade que não é minha.

A aldeia indígena pegou fogo, e vi a alma da floresta fugir como pássaros em migração para escapar do calor. Vi pessoas perderem tudo que tinham construídos e ainda assim, vi a esperança nos olhos delas e foi isso que me restou depois de tudo.

Os povos das aldeias seguiram suas rotinas de todos os dias nos dias seguintes ao fogo e era tudo tão normal, que me coloquei ao lado deles. “o cinza é temporário – disse o cacique ancião – e logo tudo voltará ao natural” e isso me trouxe de volta para casa e desde então, olho o céu com expectativa de cores.

No meu quintal, o ipê floriu todinho e ficou no chão um tapete amarelo onde os pezinhos do cão fazia desenhos que não entendi, mas com o qual vibrei só pela cor de dourado no piso da varanda.

Devo estar sendo enfadonha, mas nessa semana a vivacidade das coisas, em um pequeno gesto que seja, me motiva a acreditar que apesar de tudo, ainda acredito na poesia.

As folhas secas no quintal, a fuligem da fumaça da queimada chega até minha rua e eu te escrevo nessa manhã de sábado calorenta e abafada.

Perdi a hora desse tempo, enquanto relembro os últimos dias e ainda assim, o olho do povo que me rodeia diariamente ainda carrega a esperança de chuva.

E como forma de carinho, finalizo com um poema seu feito no ano em que nasci e ainda assim, tão real de mim:

Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!

Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.

Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.


Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.

Beijo,

Mariana Gouveia
Projeto Cartas – Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

O que faz brilhar seus olhos?

Diante da pergunta de minha editora busquei na memória o que faz meus olhos brilharem… Não encontrei só uma coisa, um fato. Encontrei várias coisas e momentos.

Quem me conhece ou me acompanha por aqui sabe o quanto o meu quintal me abraça e de como me sinto nele, entre os voos do meu beija-flor e a confiança para o pouso e uma brincadeira com Yoshi.

Como muita gente sabe, ele nasceu aqui, no meu quintal, dentro do xaxim de orquídea, e foi abandonado pela mãe ainda pequenininho. Desde então, há quase 12 anos, eu cuido dele, nos momentos em que ele me permite ser mãe e colo.

Meu olho brilha quando vejo ele dormindo no varal… meu coração conhece a ternura que ele exala e atende a um simples chamado, quando grito seu nome.

Acompanhar seu sono me acalenta a alma e ouvir seus chamados pela manhã, bem antes de abrir a porta me mantém dentro da poesia que faz com que meus dias sejam melhores.

Eu poderia dizer aqui que meus olhos brilham pela delicadeza das flores que nascem aqui, pelo brilho da lua que caminha no meu céu… que o ipê quando amanhece florido embala minha alma, que Yoshi com seu jeito carinhoso me envolve todinha e que Lolla e sua doçura se torna humana com seu olhar pidão. Poderia falar do sol que ilumina com seus raios o meu quintal, deixando seus rastros por aqui…

Também poderia colocar aqui mil fotos dele, de várias formas… mas aí, seriam seus olhos que iriam brilhar, isso, se já não brilha aí!

Mariana Gouveia
Participam dessa Blogagem Coletiva
Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso
Scanerium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

O cheiro do tempo suave

o cheiro do tempo suave

Habito nas imensidões do campo
decoro o decote insano
onde tuas mãos e teus olhos pousaram
o cheiro do tempo suave será tão tênue
trará sentidos de perfumes teus
e os avisos da saudade, constante
Te olho, me molho
para ti

o néctar que gostas de devorar
e a pele em arrepios.
A vastidão das madrugadas insones e do dia leve que me traz você.

Mariana Gouveia