Corredores, Codinome Locura

Simulação

Simulação

Não simule que eu me cure de você.
Deixa o respirar passar,
deixa o som ligado pra eu dançar mesmo que você não possa ver…
Deixa eu me corar, suavizar
Não simule que eu me perca de você…

Porque mesmo no mais raiar da primavera
acontecem horas de outono

(internamente)…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Como dominar os quatro ventos?

Como dominar os quatro ventos
Você foge de mim porque tem medo do amor ou de amar.
Mas eu sou discreta, amor…
eu só falo de você aos quatro ventos…quem espalha por aí é ele.

Como dominar os quatro ventos?
Eu mal consigo dominar meu pensamento quando penso em você.
Quando penso que te toco desencavo redemoinhos, sinfonias soltas, fantasias loucas.

A culpa é do vento mensageiro que mal meu pensamento pensa em te tocar, ele espalha pelo universo inteiro.
Por você, o vento leva a melodia espalhando e faz com que o teu perfume me embriague.

A culpa é do vento, amor. Não culpe a mim nem os meus sentimentos.
A culpa é dos quatros ventos. Como dominar a melodia, a essência, a brisa e a poesia?
Como dominar, amor, meu pensamento?

Mariana Gouveia

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Recortes Urbanos

Quando meus olhos estão sujos de civilização,
cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves”.
Manoel de Barros

Confesso que não sou muito urbana, embora more em área urbana tento transformar meu lugar em um espaço de natureza. Meu quintal me permite viver a natureza no sentido amplo da palavra. Recebo, de vez em quando, nos meus espaços urbanos a ave típica do Pantanal. Virou assídua entre o meu telhado e os dos vizinhos. Rouba a comidas dos passarinhos e é majestosa no meu lugar.


Minha cidade, além de ser conhecida – hoje bem menos – como cidade verde, também é conhecida como a cidade do sol. A média diária de calor, com raríssimas exceções beiram os 38º, com picos de 40/42º… então, o sol me presenteia sempre com imagens lindas e contrastes entre os prédios e casas.

Seja no amanhecer – já que o dia, em sua maioria dos dias, já amanhece quente – no meio da tarde…

E no anoitecer…

Em cada direção que a gente olha, o sol é o protagonista e suas invasões entre os prédios e casas…

Há outros espaços da minha cidade que adoro e me inspiram… as igrejas e seus mistérios de fé, os casarios antigos dos becos contando a história e seu tempo. Essa é minha cidade e meus recortes urbanos.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Participam também desse projeto
Obdúlio Ortega Darlene ReginaLunna Guedes

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Entre uma estação e a primavera

No lugar onde enviam cartas procura- se moedas. Os selos, nos envelopes, cobram trocos que o dinheiro normal não alcança diante do olho do menino que tira o cofrinho da mão da mãe, com medo de perder sua riqueza.
Os pássaros procuram estações das chuvas dentro da secura do tempo. Tudo é tão vagaroso como se estivéssemos nos livros.
Procuro a flor que não abriu. A janela que me leva até você. Procuro.
Procuro a maresia nos cantos dos muros, nas frases de efeito dentro dos poemas.
A primavera finge que não vai chegar e eu procuro sua fragrância dentro de mim.
Encontro os girassóis do ano passado que fizeram seus olhos brilharem e suas sementes dentro de mil flores, com os insetos vorazes a matar a fome não sei de que. Tudo é procura nessa vida. Tudo é encontro nessa busca Só não você.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Carta ao meu pai… Aos cuidados do encanto

Pai,

Cada ano que passa nesse dia, eu visto a melhor roupa, venho ao teu encontro e estendo minha mão dentro de nossa história. Acredito que irei fazer isso a vida inteira… os caminhos me levam para quando eu era criança e você desenhava em palavras os contos que eu lembraria em tantas noites vida afora.

Que luz era aquela que brilhava ao longe? — você detalhava os monstros com diversos nomes e instigava a nossa imaginação com a brincadeira, treinando a nossa coragem até percebemos o vagalume a bailar no ar e fazer decoração na mata além da horta.

Você me entregou o delírio em uma caixinha disfarçada de cogumelo, me fazendo enxergar a leveza das coisas, o encanto mágico que acontecia a cada instante. O elixir que curava ou matava… a ciência de conhecer a melodia da floresta que nos indicava onde era o lugar seguro, como conseguir água ou simplesmente parar em uma clareira e sentir a sintonia única com o universo.

Nas coisas miúdas você me mostrou a grandeza e o cheiro de todas essas coisas preencheu a minha memória com toques e suavidade. O tempo passa e seu dia é muito além desse dia primeiro de junho de todos os anos. As músicas que você me ensinou a cantar e as lembranças a misturar épocas dentro de mim.

Escrevo para você essa carta para que a irmã mais velha trate de ler para você… Mais uma vez, o rádio falará de seu nome em uma carta de amor e saberá que eu te amo todos os dias.

Às vezes, penso que nunca soube escrever sobre você. O que faço é apenas retratar o sentido que você escreveu em minha história e que enumero como memórias:

Memória 1:

Era um ritual da madrugada e o cheiro do café invadia os quartos… o rádio ligado no programa madrugador e o barulho do gado no curral… o leite tirado diretamente na caneca e a sensação de céu na boca…

São as minhas primeiras recordações…

Memória 2:

As noites em minha vida eram de encantamentos… enquanto os dias eram feitos de ensinamentos, as noites eram de retratar a vivência do dia.

O cheiro do arroz maduro na roça invadia cada canto do quintal e ao redor da fogueira a gente cantava as músicas do santo. O cheiro do chá de canela — feito com as folhas retiradas da arvorezinha que soltava a casca em pedaços de pau — que tinha gosto de encantamento. A batata assada na fogueira. A reza ensinada ali mesmo, enquanto você nos falava sobre a fé. O conto de fadas declamado com os ecos e assovios em sua voz de homem adulto.

Memória 3:

Estava nervosa e falava do meu primeiro amor… seus olhos apreensivos entre a resignação e o medo. A minha inquietação dos 14 anos e você lá, desenhando as regras sobre o que podia ou não. E o medo de te desiludir — que continua comigo. Seu jeito de mãe e a perda a doer a alma.

Memória 4:

Havia o amor escolhido… o vestido simples e dentro de nós, a festa desenhada lá atrás, quando nasci. Você falava de borboletas enquanto a juíza me pedia para dizer o Sim… e você o meu lado direito, com o olho de amor e benção, percebendo que a minha paz foi aceita e acolhida.

Memória 5:
As memórias se misturam nessa noite… em minha solidão, na ardência das horas. Eu chamo por você, grito por dentro o teu nome. Sinto a segurança do teu colo e a densidade de sua presença — mesmo tão longe — ainda é o meu porto seguro. Você me deu a liberdade de uma vida toda… as asas no seu amor rotineiro e cuidados onde me prendia às regras. E mesmo sem perceber, cada um de nós as seguia… porque todo mundo precisa de direção, de um guia. E você me deu… Exemplo vivo e real de caráter, força e fé. Porque cada lembrança é como se fosse um casulo a criar mudanças…
Feliz Aniversário, pai!

Mariana Gouveia, in, Desvios para atravessar os quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Intensamente

Intensamente

Desenha em mim, suavemente,

as cores do teu desejo.
Entre minhas mãos ardem
o toque suave de tua pele…

Em mim a dualidade do sentir…
A suavidade do tato
e a ventania de texturas que teu sopro me causa.
Intensamente.

É impossível que eu saiba traduzir em palavras a magia que me envolve.
Preciso traduzir pra que você entenda.
Preciso rasgar a pele e a carne,

expor a minha alma, que vaga

em busca da tua.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias…

Perdeu o cheiro da chuva, depois do vento. O temporal atingiu toda a rua de cima e numa esquina qualquer o vazio das horas. O homem da reciclagem nunca mais passou… ficou a caixa vazia com as garrafas descartáveis e refaço o mesmo percurso diário das vezes que o vi empurrando a carriola para ver se o encontro.
As meninas do clube perderam a hora na última semana. Vieram caber todas dentro de um abraço no portão. Perguntam também pelo homem da reciclagem. A rua de cima é vazia sem ele. Fica esse oco na esquina onde os cães latem em alerta. Lembro-me que ele conhece as constelações todas, sabe o nome dos rios e entende o movimento do vento. Contava a história da árvore que ele mesmo plantara ali, logo acima da casa da esquina, onde morava antes de se mudar. Hoje, é a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias, fora de hora. É o lugar onde os pássaros buscam abrigo, depois que fiquei órfã de árvore no meu quintal. Podia não saber meu nome direito — me chamava de menina e eu o chamava de mestre mas conseguia colocar esperança dentro das minhas poesias.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais,
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

O lado de dentro

Todo céu é mapa

Todo céu é mapa
Quando cansar de voar
prometa-me que serei teu pouso
E que o Silencio que tuas Asas fará,
Eco do meu coração
emoção de te tocar!

Todo vento é  preciso porque quando
se cansa de voar… é preciso planar
espero que o teu coração se aninhe
aos teus olhos para que nessa hora,
você se lembre dos céus azuis
que cruzou. Dos abismos em que
se atirou… e do vento que bateu
em seu rosto… e das muitas vezes em que
se lembrou de mim!

Todo céu é mapa e seu dono…
o beija-flor… domina meu quintal.
E te espera… assim como eu!
Quando cansar de voar
serei teu aconchego…

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A previsão do tempo quase acerta a secura da alma.

Era um vento na janela e não era ficção. A lua, pendente — quase um rasgo no céu — a mostrar todo o seu poder sobre escorpião, rompendo as marés. O pai sempre me avisou para respeitar as fases da lua e o vento — quase uma afronta — vindo do Sul, fazendo com que o perfume incomode minhas lembranças. Fecho os olhos e ganho asas nessa imensidão. Sou quase lua, senhora de si e caminhante no céu. A justa luz me inspira segredos únicos-preciosos — linguagem simples.

Adormeci nos rumores do dia… folhas como travesseiro. Escrevi até doer as mãos, transitando por corredores de ontem — outro voo sem pouso. O cansaço é quase um abismo me oferecendo colo. Reviver certos momentos é quase estender a mão em uma janela invisível e sentir o toque.

A previsão do tempo quase acerta a secura da alma.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais – Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Leslie Ann O’Dell

Corredores, Codinome Locura

Um livro da lista dos mais lidos que você tenha lido.

Na última postagem da Maratona Literária tenho que falar sobre um livro lido das listas dos mais lidos e curiosamente, li alguns deles.

Entre os mais lidos no mundo já li O alquimista, de Paulo Coelho, O código da Vinci, de Dan Brown e O diário de Anne Frank.

E na lista dos mais lidos no Brasil já li O pequeno príncipe, de Saint Exupéry, A cabana, de Willian P. Young, Cinquenta tons de Cinza, de E. L. James, Dom Casmurro, de Machado de Assis e O morro dos ventos Uivantes, de Emily Brontë .

Vou falar um pouco sobre O morro dos ventos uivantes, pois é o único dos que citei acima que tenho aqui comigo ainda. Os outros foram emprestados e nunca devolvidos… seguiram seus destinos de livros e pronto.

O Morro dos ventos uivantes me encantou e me apaixonei pela história. E não é porque se trata de uma história de amor que já foi reproduzida e adaptada milhares de vezes. Na verdade, o livro não é sobre um casal apaixonado ou uma narrativa simples sobre um amor que transcende as barreiras do tempo: é muito mais. Emily Brontë representa em seus personagens o nascer da crueldade, o egoísmo, a loucura, a vingança e a maldade. Seus temas góticos misturados com uma linguagem simples e descrições de poucos cenários – aqueles que a autora conhecia muito bem – tornam O Morro dos Ventos Uivantes uma obra para ser lida, relida, analisada e discutida. Não vou entrar em detalhes da história para não atrapalhar quem ainda não leu.

“Vejo as suas feições estampadas nas pedras.
Em todas as nuvens, em todas as árvores, a sua imagem me aparece.
Ela esta a minha volta, enchendo o meu ar da noite, refletida em cada objeto.
O mundo inteiro me lembra a todos instante que ela existiu e eu a perdi.”

Obrigada por estarem aqui e me acompanharem nessa maratona literária.
Abraço carinhoso.

Mariana Gouveia
Esse post faz parte da Maratona Literária do grupo Interative-se.
Participam desse projeto
Lunna Guedes, Obdúlio Ortega, Roseli Pedroso, Ale Helga, Isabelle Brum