Delírios Comunistas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

A teoria dos dois demônios

Eu nem estava por aqui quando o país enfrentou a grave ameaça comunista obrigando seus Militares — homens de bem, trajando fardas bem lustradas, com os peitos estufados, salários pontualmente pagos e armas toscas em punho — se viram obrigados a defender a Pátria… espanando a pobre Democracia, que convenhamos, por aqui, nunca foi lá uma de.mo.cra.cia.

Não sei se sabem, mas a tal da Proclamação da República — um ato não tão bem encenado do passado — foi um feito Militar ou como eles não gostam de afirmar: um Golpe contra o Império, que nesse caso não foi capaz de contra-atacar.

O fato é que naqueles tempos o exército brasileiro se considerava uma força política capaz de confrontar a aristocracia do Império tupiniquim e o fez. Mas não demonstrem surpresa ao saberem que uma mentira foi o estopim para tudo acontecer.

Essa mania que a história dos homens tem de se repetir… é tão monótona. Mas, acontece. Não há dados que nos posicione a respeito. De quanto em quanto tempo isso acontece. Nem a moça do tempo é capaz de aferir uma previsão a respeito. Duvido que algum cientista conceituado tenha se dado ao trabalho de investigar tal fenômeno.

Mas vamos lá… um fato que não se confirma, mas que eu desconfio é de que todo brasileiro é meio ditador. Adora apontar o dedo na direção do outro ou passar adiante a culpa. Responsabilizar o outro faz bem… principalmente à tal Elite brasileira — esse fenômeno quase impossível de identificar. Foco no quase! — por aqui, pobres pensam, classe média pensa… que é Elite! Se ganhar bem e realizar o tal sonho da casa própria, que pode — e acontece com frequência — virar um terrível pesadelo, pronto… é Elite e saí por aí com o nariz empinado no ar, com o rabinho a abanar. Porque o importante é sair sacudindo o molho de chaves e riscar o quadradinho do imóvel próprio na hora de fazer um cadastro em algum lugar. Se tem um carro — financiado em eternas prestações e juros absurdos — é o Senhor da rua e ouve na sua cabeça a marcha imperial. Convertido em Darth Vader, a criatura passa no sinal fechado, ao estacionar não deixa espaço para o outro. Não liga se a vaga é preferencial. Grita alucinado com o outro motorista e buzina com o pedestre que está sempre errado. O Cara é proprietário de uma máquina… abram caminho que ele está passando — cada vez menos, já que o preço do combustível, o desemprego, a inflação. Muita informação para um único dia em que pode terminar com ele instalando o aplicativo da Uber no celular para poder pagar as suas contas no final do mês.

E se o sujeito mora bem… ah é o Cara! Chega em casa com meia dúzia de cervas bem geladas, um pedaço de carne e vamos de churras na varanda, onde pode acender um cigarro e contribuir com o ar da cidade, cada vez mais seco e poluído. Tem aquele papo de aquecimento global — que chatice! É nessa hora que o cidadão — imita os milicos, estufando bem o peito — e do alto de sua santa estupidez, diz bem alto para os vizinhos

escutarem e fazerem coro com toda a raiva acumulada na vida: “isso é coisa de comunista”. E pronto… vai dormir satisfeito porque a sua bandeira jamais será vermelha e ele precisa acordar cedo pela manhã para manter as engrenagens do sistema funcionando.

Ano que vem tem eleição e ele já tem discurso pronto: nesse diabo que está aí eu não voto mais. E muito menos naquele outro, o barbudinho bandido de nove dedos que acabou com o meu Brasil.

Bom mesmo era no tempo dos Militares, que salvaram o país dos comunas — lembra que eu mencionei que o Império caiu graças a uma mentira? Pois é, a Democracia também.

Mas naquele tempo era bom… não se falava em corrupção, assalto, roubo. A gente saía às ruas numa boa. Ninguém ouvia falar em mulher que apanhava, criança estuprada. Não tinha esse mi mi mi de preto-gay e esse papo de gênero isso, gênero aquilo. Criança se educava no tapa e todo mundo crescia sem frescura. Existia limite. Filho tinha medo do pai. Mulher tinha medo do marido. Naquele tempo as coisas funcionavam… e tudo estava no seu devido lugar. Nunca existiu ditadura no meu país. Foi um momento militar e foi muito bom para todos nós. Um verdadeiro milagre brasileiro!

E lá vai o homem da zelite dormir seu sonho feliz de Brasil do passado… ops!

Tecla verde e confirma… quem sabe tudo volta! Mas sabe como é sonho, sempre pode virar pesadelo. Já pensou se o botão fica vermelho? Que diabos!

Lunna Guedes
Texto publicado no livro Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas

O espírito do homem

O espírito do homem

Dedicado com carinho à Lino Epifânio.

Um amigo que foi mais do que pai e me ensinou a vida. Num gesto de solidariedade dividia comigo seu almoço, quando eu ainda era uma adolescente em estágio na Rádio A Voz do Oeste. Durante 38 anos foi administrador do Cemitério da Piedade, onde eu me refugiava nas horas difíceis e era meu lugar secreto. Com o radinho de pilha acompanhava meu crescimento profissional, pessoal e sobretudo humano.
Compartilhava comigo o mesmo ensinamento que dava aos seus filhos e me orientava no caminho a seguir. Foi ombro, amparo, colo e pai.

Tenho certeza de que grande parte do que sou hoje é reflexo de sua amizade. Agradecer só me faz lembrar teu sorriso quando você fingia não gostar do ovo frito de tua marmita só pra deixar pra mim. Mas do que dividir comida comigo ele alimentava minha alma me mostrando poesia, fé, solidariedade e amor pelas pessoas.

FIQUE BEM. AMO VOCÊ ONDE QUER QUE ESTEJA.

Mariana Gouveia (A SUA LURDINHA)

O Homem cansa-se; o espírito não.
O Homem rende-se;
o espírito nunca.

O Homem arrasta-se;
o espírito voa.

O espírito vive
quando o Homem morre.

O Homem parece;
o espírito é.

O Homem sonha;
o espírito vive

O Homem está amarrado;
o espírito é livre.

O que o espírito é…
o Homem pode ser

Mike Scot
(Waterboys)

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

 — O silêncio aumentou tanto que o relógio parou.

É agora – na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir.
Um palco a lua.
Eu observada de fora da janela.
 Ana Luísa Amaral

Bambina mia,

Queria te contar que de repente, no meio da noite, surgiu um grito mudo dentro de mim… vim aqui, como se os últimos dias tivessem sido invenção minha, mesmo porque não combina comigo essa angústia em demasia. Confesso que até permiti que o silêncio dominasse a casa.

O silêncio aumentou tanto que o relógio parou… Não liguei o rádio, nem ouvi as canções que eu gosto… De barulho aqui, só o som do vento das folhas do ipê no quintal ou vez e outra, o latido dos cães no quintal. Até eles parece que entenderam que o quente dentro da pele era mais do que uma febre sutil. O relógio, coitado, perdeu sua função de marcar as horas quando descarregou. Foi retirado da parede e permanece quieto sobre o móvel da sala.

Mas, hoje, abri as cortinas e deixei o sol entrar. Arrastei os móveis do lugar, limpei a poeira e molhei as plantas. Depois, suspirei e enfrentei o dia sem missa, sem notícias lidas e tratei apenas de ver a receita do pão recheado que fiz. Foi quase uma alquimia combinar a massa com o recheio e o cheiro do alho a invadir a cozinha… no canto, sobre a mesa, as roupas por passar.

Não foram dias fáceis, mas deixei outubro para trás, com seu luto, suas lutas, suas dores e a lágrima seca por trás dos olhos… Perdi prazos – eu sei – e textos deixaram de ser escritos. Às vezes, fico pensando em como cheguei até aqui, nessa encruzilhada como quem esqueceu o endereço. Mas, a monotonia cedeu e avancei no equilíbrio das horas que o relógio não marca.

Choveu e trovejou e foi nesse momento que pensei em te escrever e dizer que apesar de tatear as paredes no escuro, buscando a porta de saída do quarto para não acordar ninguém, eu estou bem… acho que descobri que sou forte – ou pelo menos finjo que a coragem veio aos poucos e o medo que me atingia evaporou-se…

A vida é essa sombra no espelho, é esse azul desbotado no céu antes da chuva, é o arco-íris quase apagado entre um relâmpago e outro e eu sou essa espera de tempos em tempos que se atreveu a chorar… mas que hoje já respira sorrisos.

Grazie por seu abraço e mão estendida… Grazie por ter estado sempre aqui.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais

O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

O livro da minha vida…

Atendendo a blogagem coletiva venho falar sobre o livro da minha vida. Claro que eu poderia vir aqui e falar de diversos livros que fizeram parte de minha vida como leitora, mas, como escritora e sendo o livro considerado filho por quem escreve, o livro da minha vida é meu primeiro livro publicado: O lado de dentro.

Em 2015, pela Scenarium Livros Artesanais – na época, Scenarium Plural – dentro de da série Exemplos, nascia O Lado de Dentro sob o olhar e edição de Lunna Guedes. Meu primeiro livro e com a emoção de quem escreve, o livro da minha vida, porque com ele a poesia que rondava a minha vida ganhou asas e voou. Com a capa acima, ele chegou a terceira edição.

Então, em 2017, resolvemos relançar o livro com outra capa e acrescentar uma carta e mais um poema inédito e o sucesso foi o mesmo. Com a nova capa com uma fotografia minha chegamos na terceira edição do livro.

Mas como para minha editora Lunna Guedes, uma só roupa de festa não vale, para celebrarmos o quinto ano de lançamento, em 2020 surgiu a ideia da capa atual dele. Como se fosse um envelope e com o vermelho que amo. Mais do que entregar a você a poesia que O Lado de Dentro descreve, eu entrego meu primeiro livro feito com emoção e carinho.

Desenhou estradas para a viagem dela.
Tomou cuidado ao espalhar paisagens.
Alguém falava da vida, de sopro.
Ela pensou que algumas viagens são mais partidas do que chegadas.
Colocou um riso disfarçada de trevo na primeira sorte.
Foi quando os olhos viram além do físico.
Da alma. Dali, viajante, tinha distanciamento das coisas.
A viagem era para distrair letras. Rever romances onde se perdia dentro dos dela.
Cidades, trocas. Solidão dentro do nada. Montanhas.
Ar rarefeito dentro do peito. Olhares se cruzam, se desviam.
Vozes e palavras perdidas no meio do nada. Parada.
Quando a cidade termina começa um nada.
Nessa hora, o cenário muda.
Dimensões do desenho dentro dela.
Floriu. Pela mão de alguém que desenhou a viagem, floriu.
Ficou ali entre o desenho e a miragem sendo.
Poderia ouvir jazz – ou rock, bebê ! –
e não tocava nada.
Quando percebeu já nem era chegada nem partida.
Era apenas voo nos olhos dela.

Se você quiser adquirir um para chamar de seu, clica aqui… Mais do que te mostrar o meu lado de dentro, você verá o outro lado dentro das poesias.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Blogagem Coletiva

Corredores, Codinome Locura

As borboletas nascem pela manhã

As borboletas nascem pela manhã

Ouço o barulho da asa… É quase como ouvir silêncio.
Não abuso dos suspiros que é para não acordar as flores e nem interromper o nascimento.

Dou pausas…Ela precisa de silêncio pra nascer…
Shiiiu… As folhas secas do pé de maracujá silvestre balançam a canção de boas vindas para que ela rompa a crisálida, ou casulo, nunca me lembro o certo.

Leio o meu horóscopo no jornal, a seguir no caderno geral um artigo que explica como um cinto de ligas e uns sapatos vermelhos poderiam mudar a minha vida afetiva e sexual e eu me pergunto se com um cinto de ligas os iogurtes fora do prazo desapareceriam do congelador?

Ouço o vento de outubro bailando.
Marco as horas…
Falo com ela anunciando o sol dourado que vai ajudá-la a voar.
Ela nascerá na manhã mais linda, de sol intenso e de um azul brilhante.

O programa da TV toca uma floratta onde meninas fazem acrobacias da ginástica rítmica.
É Bach. As fitas das mãos delas bailam e agorinha mesmo as asas dela também ganhará o espaço.
As borboletas nascem pela manhã e eu conto os minutos que antecedem…presencio o nascer da borboleta e emocionada brindo a vida.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Monocórdica

Monocórdica

Prefiro a nota principal
estilo invariável, único.

como se estivesse lendo – braile
como se a nota musical fosse dela
e ainda pede que eu cante
Pra ela…

ai, quem me dera que o encanto dure
que a música fosse relicário – fosse

que a sinfonia fosse mais doce…
que a melodia, a voz.
E a cadência de menina…
em nós…

Tão monocórdica
no seu sentido literal
coleciona músicas no varal…

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Natural

Mestre,

Como você gosta de fazer, hoje, fui eu quem buscou o significado do seu nome e além de você ter nascido no dia da poesia, para meu espanto, seu nome tem exatamente o que você é… O mais engraçado é que nos dias de hoje, geralmente, as mães buscam os significados dos nomes para seus filhos, mas, nos nossos casos, acho que não havia isso e sua mãe escolheu seu nome você vestiu toda simbologia do nome ou foi a simbologia do nome que se vestiu de você.

Não preciso falar sobre a amizade e companheirismo, porque quem te conhece já sabe disso e no seu dia, mais uma vez, venho aqui agradecer pela mão estendida, pelo olhar dedicado e ombro amigo. E o que mais me deixou impressionada é que seu nome significa: Natural e isso me lembrou da natureza, das serras nobrenses, da magia do cerrado e escolhi a foto que tirei na região de Nobres, em uma das idas por lá. Tão natural como você e seu abraço amigo.

Segue abaixo o que achei sobre seu nome:

Qual é a personalidade de Alírio?
Costuma ser criativa e agir com felicidade para lidar com situações difíceis. Alírio na maioria das vezes, é extremamente otimista e desligado de coisas banais.

Qual é a ambição?
Paz e tranquilidade são sempre bem-vindos para quem se chama Alírio. Está sempre procurando a harmonia interior.

Como é a expressão?
Não tem medo de enfrentar a vida e correr atrás dos desejos e anseios. Alírio se concentra para fazer sempre bem feito tudo aquilo que se propõe.

Pontos positivos de se chamar Alírio?
Líder, pioneiro, corajoso e independente, esses são os pontos positivos de quem se chama Alírio

Sobre os pontos negativos, me recuso a colocar porque não concordo com nenhum, afinal de contas, não devemos concordar com tudo que se vê na internet.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Fonte: https://www.significadodonome.com/alirio/

Corredores, Codinome Locura

Poemas indizíveis

Poemas indizíveis-1

Revirei meu baú de lembranças…
Encontrei as coisas como que procurando lembranças do que não vivi, cheiros que nunca senti.
Confusões de sentimentos que meu coração desfolha.

No baú da minha existência existe tanta coisa que ainda nem desfrutei e as lembranças vivem.
Entre tantas coisas guardadas, você se atreveu a estar presente em cada uma delas mesmo não estando por lá.

E o teu cheiro eu aspirava mesmo não sentindo.

Quase comemorei a fotografia que não vi de ti.
Quase toquei tuas mãos em lembranças que ainda busco nas tuas palavras escrita.
Busquei você, além dos sentidos. Nas histórias de contos de fadas que leio e no final você sempre está.

Mariana Gouveia

*poemas indizíveis*

Corredores, Codinome Locura

Carta aos professores.

Hoje relembrando tudo que sou vejo muito dos meus professores em mim. A minha primeira professora se chamava Edna e tinha os olhos azuis da cor do céu e quando ela sorria parecia que tinha estrelas dentro.
Passei o primário todo a estudar com ela e romper a barreira do Ensino Fundamental para mim foi tão difícil quanto adaptar-me sem ela à frente da lousa.

Depois descobri Adair, a minha mestra de português e de olhar manso. Não havia céu dentro dos olhos dela nem estrelas. Mas ela tinha o colo mais doce do mundo. Foi com ela que talvez tenha aprendido poesias. Digo talvez, por que desde sempre eu já escrevia poemas, palavras, “versos” como meu pai dizia e pedia para eu declamar.
A minha professora já atuava na área há mais de 40 anos e nos anos seguintes posteriores eu a perdi para aposentadoria. Com ela eu aprendi piano, aprendi colher rosas sem me importar com os espinhos. Descobri Neruda, Drummond e a arte de Tarsila do Amaral.
Ela não conheceu greve. Nem precisou lutar por melhores condições. E nem tinha. O meu ensino fundamental foi quase que feito todo na Escola Alcebíades Calhao. Havia outros professores, mas Adair conseguia no recreio uma feira/de troca de livros.
Por causa da morte de minha mãe tive de parar de estudar e fui trabalhar, e minha professora já aposentada me dava lições de cidadania e de companheirismo. Aos sábados me dava meia hora aula e depois íamos visitar os ex alunos dela que estavam com problemas. Um, que quebrara o pé. O outro, que estava com febre. Virou rotina nossas visitas e quando ninguém tinha problemas maiores, nos reuníamos na Praça Santos Dumont para ler livros.
Anos mais tarde, voltei a estudar. E mais uma vez fui abençoada por anjos em minha vida com títulos de professores. Amigos protetores eu ganhei. Maria José que me me mostrava o encanto da Biologia, a arte pelas mãos de Iolanda, a filosofia desenhada em poesia pela beleza de Luzia, a educação física que sublinhava a alma pela doce Flavia Luzia. Monique, e com os relevos e o envolver da Geografia. os números que eu detestava e que foram me mostrados de maneira mais amena por Joanil e Luzia. Jesus toma conta na vontade plena de ensinar de Nilza. Zózima não me deu aulas, mas ensinou-me o olhar macio das borboletas e o aconchego de presença quando precisei.
E foram tantos mais e tantas que eu passaria a vida inteira dizendo nomes e a envolvência em minha vida que meus professores tiveram.
Fui educada da maneira mais simples que há. Por vezes, nessas escolas que estudei não tinha cadeiras suficientes, ou mesmo o giz para o professor escrever. Em cada um deles havia o desejo de ensinar e em cada um deles eu sentia surgir a revolta pela falta de condições.
A educação é o bem maior que um governo pode dar ao seu povo.
Infelizmente, vivemos tempos sombrios, mas, em cada escola há guerreiros dispostos a tudo pela vontade de ensinar.

Parabéns à todos os professores.

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Nasceu vida no quintal. 

O retrato é o relicário na parede vazia. Na mesma rua as histórias se encontram. Era o abraço da sorte no trevo da rua de cima. A essência das roupas no varal… chovia quando o dia se encerrava nas rotinas. Os pássaros de papel voavam além das janelas. Às vezes, é preciso aceitar o fim. Tudo é temporário no receituário. A moça de branco mudou a cor das roupas.

Nem faz mais o silêncio costumeiro de sempre. Esqueço o nome dela todo dia. Esqueço meu nome toda hora. O vento é esse menino que carrega a fragrância do cheiro da chuva nos arredores. A tarde azul recolhe asas no varal. A profundidade da dor se misturando aos desenhos opacos feitos nos muros.
Lembrei-me dela e de que adora quebrar regras e eu de as cumpri-las… tudo é o oposto no instante das horas. Falava da solidão dos dias curtos, de frio intenso e eu de dias imensos, sufocantes e solares. Às vezes, o amor não consegue atravessar o oceano. Nem a nado, nem voando.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais