Das palavras das cartas

Carta à menina sagitariana mais meio do céu em gêmeos…

Malena,

Essa é a primeira carta que te escrevo e confesso que já desejava te escrever desde que nasceu. Lá naquele 11 de dezembro de 2016. Eu estava tão longe e de alguma maneira fiquei pertinho do seu pai na antessala do hospital enquanto você nascia.

Seu pai é o que eu chamava de menino primavera, por causa da delicadeza dele com os amigos. Uma noite, atrasei meu trabalho e mesmo sem necessidade ele fingiu estar trabalhando só para não me deixar só no escritório e ainda me acompanhou até o ponto de ônibus e só seguiu depois que o ônibus chegou.

Lembro-me bem daquela noite em que o maaassa dele ficou guardado no coração. Quando eu o encontrava, mesmo depois de já não trabalharmos mais juntos ele era acolhida e o abraço era puro aconchego.

Já sua mãe, foi paixão a primeira vista… O sorriso largo dela ganhou meu coração logo de cara e fiquei pensando: como não conheci ela antes? A minha admiração por ela só crescia quando a gente se encontrava. Sua mãe é a pessoa mais corajosa que conheço. Mas não pude aproveitar muito a presença dela, logo depois, eles foram para Portugal. E daí, passei a acompanhá-los pela internet. E assim, vibrei com a notícia de que você chegava.

Sabe, Malena, temos uma diferença de fuso horário daqui para aí… e era um fim de tarde aqui e noite aí quando você deu os primeiros sinais de que viria ao mundo. Eu nunca quis tanto estar em algum lugar como naquela noite desejei estar ao lado do seu pai e chorei de alegria quando recebi sua primeira foto.

Depois daquele dia, passei a te acompanhar e torcer para mais uma pessoinha, além dos dois. E que bom que a internet me permitiu saber de você e de como você cresce tão linda. Você tem a arte no sangue e tem como exemplo dois artistas maravilhosos de quem eu sou muito fã.

Roubei a frase de sua mãe sobre você ser a sagitariana mais meio do céu em gêmeos que ela conhece… achei tão lindo isso que resolvi cumprir a promessa da carta. Sei que tudo que você fizer será de muito sucesso e adorei cada uma de suas pinturas. Que você se descubra todos os dias dentro das cores, nas danças, nos ritmos e nos ciclos que sempre surgirão.

Mesmo sem te conhecer pessoalmente, eu já gosto imensamente de você e te abençoo dentro dos dias e que durante a vida seja muito feliz!

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque hoje é domingo

Das palavras das cartas

Quando a ausência de mim é presença em você…

Edi,

Eu queria te contar que hoje, apesar de um frio atípico, aqui teve um momento de sol e eis que uma nuvem surgiu e vi a letra E como se o céu tivesse sido pintado. Durou pouco esse momento, mas lembrei-me de sua mãe.

Desde que ela se foi, os meus sábados ficaram vazios – acho até que eu já disse isso para você – da presença dela e cheio de lembranças. Não há um sábado que eu não me pego fazendo planos de atravessar a ponte para logo lembrar que já não faço isso há um bom tempo.

Converso muito com ela, sabe… e falo que de tão especial ela deixou me deixou mais um amigo e eu sou grata por isso. Com ela, eu conversava coisas que nunca falei para ninguém e sei que com ela também era assim. Tenho na memórias alguns momentos tão nossos e já me peguei várias vezes discando o número para ligar e saber a opinião sobre determinada coisa que somente ela me diria o que fazer.

Ela me deixou muito solitária nos dias normais, mas o vazio imenso dos sábados me deixa sensação de que há alguma coisa que não fiz. Para amenizar isso, recorro às receitas que ela criava para mim, principalmente com quiabo – que eu adoro – e que ela tão bem inventava pratos diferentes para me agradar. Era a maneira dela dizer que me amava.

Ainda ecoa no meu coração a risada dela, ainda tenho a sensação do abraço e a voz me dando bronca por alguma coisa… E já me peguei buscando o rosto dela em outras pessoas na rua…

Peço desculpas se te trago lembranças que doem, mas eu queria compartilhar com você essa foto e te escrever foi a maneira de fazer com que nossas saudades se misturem. Cuida bem de você e viva feliz em memória dela e por ela.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque hoje é sábado

Das palavras das cartas

As mentiras que esquecemos de contar.

Minha querida,

Se não posso
dar-te mais,
me ofereço hoje
– em traje de gala –
coberta apenas
de luminosas
notas musicais

Maria Borges

Escrevo-te ouvindo minha música de momento que já pode ser outra quando você estiver lendo essa carta, porque você sabe bem que sou esse rompante musical… Misturo-me as letras e assim, apaixono-me pela canção. Talvez, você dirá que sou volúvel, mas sou assim com as músicas. Gosto de tantas e amo muitas.

Sabe, parece que esse ano o inverno resolveu ser intruso dentro dos dias de outono e a temperatura caiu. Você sabe que não gosto de frio e me refugio na quietude do meu quarto enquanto limpo mais uma vez as gavetas e eis que encontro as cartas todas. As suas se misturaram as que recebi de amigas de outros cantos. As palavras ali, no papel já amarelando pelo tempo, parecem escritas em outro tempo… esse mesmo que recorro e digo que parece que foi ontem.

Não está escrito nelas as mentiras que esquecemos de contar… acho que nem passou isso por nossas cabeças quando minha curva esbarrou em seu mar. Parecia que tudo já havia sido vivido em séculos e séculos atrás… e hoje, entre os vãos das conversas há a estranha sensação de que tudo foi só uma estação fora das estações. Mentimos que era para sempre, mentimos que a emoção seria sempre a mesma e mentimos que não sofreríamos. Tudo mentira para quem não mente. Nomes sobrepostos entre um lugar tão longe que parece não existir. Tudo em códigos simplificados para além do que poderíamos entender.

Mas, como a canção que eu ouço repete mas eu vou sentir sua falta e assim vou somando as palavras, guardando os envelopes, ouvindo as canções que já cantamos juntas e lendo os mesmos poemas até que os séculos se tornem dias comuns e a gente possa enfim dar as mãos.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega

só porque hoje é o dia da mentira

Das palavras das cartas · Projeto52

São dias de olhar pelo buraco da fechadura.

o meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura

Jorge Palma

Amor,

Esse ano, escrevo para você na véspera porque as datas vão se posicionando no calendário, na previsão e nos baús e amanhã o dia já pede urgência por aqui… Hoje, como em outros anos, relembro o dia marcado como nosso – o 28 de março – em já são 35 anos assim.

É uma vida inteira – alguém diria – e realmente, somando todas as expectativas os 35 anos contam a história de nossas vidas. O nosso quintal antecipa também a data e os voos e pousos de borboletas que tanto me encantam chega até você. Como se a natureza e o universo nos oferecesse de presente o instante.

Os dias que vivemos, olhados pelo buraco da fechadura teve como principio o amor, uma pitada de cumplicidade e amizade. Sempre nos perguntam sobre o segredo de tanto tempo juntos em uma época tão difícil e a gente sempre diz: gostamos de estar juntos um com o outro. De rir, de falar de futebol, de ver filmes, de olhar o céu, de caminhar pela natureza… gostamos muito da companhia um do outro e isso nos fez/faz mais forte em momentos difíceis.

A gente sabe que nem tudo foi flores nessa jornada mas sabemos que se somarmos os dias dentro desses 35 anos o nosso jardim foi criado, as sementes semeadas e colhemos muitos frutos e flores. Eu te amo além da medida… você me aceita com toda a liberdade que sinto e sei que sou amada nos gestos que trocamos… Permite os meus voos, apoia os meus sonhos e me faz feliz.

E assim quero viver até o fim dos meus dias com você!

Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –

das coisas breves

A boneca de pano

A boneca de pano

A boneca eu havia ganhado de minha mãe. Feita a mão mesmo. De tecido preto.
Minha mãe era sábia. Desde cedo já nos queria colocar a par da beleza das diferenças. Era Maricota.
E eu odiava quando meus irmãos a chamavam-na de boneca preta… para mim ela era a minha Maricota. Que me acompanhava quase sempre em todo lugar que eu ia. Eu ficava num canto, tentando arrumar os cabelos dela, que até hoje nem sei como minha mãe conseguiu fazer. Minha mãe era uma artista. Conseguia fazer arte dos mais variados objetos. Restos de retalhos onde ninguém dava nada por eles, ela transformava em colchas maravilhosas…e criar sete filhos numa fazenda era uma arte também. Teria de dar ocupação para que a cabeça deles não fosse além do riozinho que descia manso e devagar… Mas a Maricota me acompanhou pela vida afora e eu querendo uma filha para repassar. É verdade que depois de um tempo ela ficou esquecida numa caixa de papel, junto com as lembranças e fotos de um amor distante. Um dia, a encontrei por acaso, vasculhando as caixas de lembranças e como eu senti saudades! Porém, o telefone toca, as coisas se espalham e o compromisso veio…Deixei ela ali, na cama, junto com bilhetes e recordações e na volta o que encontro é uma Maricota despedaçada. Fora estraçalhada pela minha cachorrinha. Degolada. Não tinha como consertar… E o que mais doeu foi ver que dentro ela tinha um pequeno coração, que minha mãe pegara de um brinco velho que tinha quebrado o trinco. Isso doeu na alma. Procurei fazer um enterro decente pra ela…Meu filho, já moleque achou engraçado na hora. Tirou sarro, virei piada na hora do jantar…Mas a minha surpresa foi quando, na reunião de mães da escola, minha estória foi lembrada com poesia pelos professores de literatura e português. Meu filho havia feito uma redação sobre o que aconteceu e tinha magia nas palavras dele…a mesma magia que eu sentira ao ver o coração morto de Maricota ali…com meu abandono.

Mariana Gouveia

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – As minas e as manas

*Triste, louca ou má
Será qualificada ela
Quem recusar
Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina

Eu era ainda uma menina quando tive que escrever sobre o que pensava sobre ser mulher. Naquela época, o tema não era tão evidente como hoje – ou até era, para as mulheres que me rodeavam e eu, em minha criancice não percebesse. Até então, as mulheres da minha vida eram minha mãe e três irmãs, dona Fulô e a professora Judite – uma pessoa além do tempo que dava aulas em uma escola rural.

*Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem, não sem dores
Aceita que tudo deve mudar

Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar

O texto que escrevi deve ainda estar em alguns dos muitos cadernos guardados em baús ou caixas e que um dia vou tentar encontrar… mas, lembro-me que para além das heroínas dos livros que li eu falava muito sobre a parteira que me trouxe ao mundo, depois de um parto difícil. Uma mulher que não sabia nem ler e escrever, que havia vivido um pós guerra e tinha o ofício de trazer crianças ao mundo e fazia disso uma coisa divina. Entendia de tudo sobre o mundo e me convencia de eu poderia ser o que quisesse. Ali, entre a infância e adolescência descobri as barreiras e as correntes que poderiam impedir quem ousasse mudar o “tradicional”.

*Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Bem antes mesmo da tão falada frase: lugar de mulher é onde ela quiser, eu já vivia esse sentimento nas mulheres que me rodeavam. Nasci em uma fazenda rodeada de mulheres que lutavam todos os dias para além das enxadas e foices, que brigavam por seu lugar de fala nas decisões da comunidade ou mesmo dentro de suas famílias feitas de homens machistas e autoritários.

Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima

Daquele tempo até hoje percebo que a luta ainda continua a mesma e que aquele aprendizado me fez ser o que sou hoje. O que aquela menina de 10/11 anos diria para a mulher de agora, nos meus 56, quase 57 anos? Já escrevi várias cartas onde busquei essas respostas e continuo escrevendo elas até hoje. Minha bá me ensinou sobre as palavras e de como escritas ganham voos para além de nós mesmas. E que escrevendo posso representar aquelas que me rodeiam-habitam.

*Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar

Não sou adepta das datas, embora perceba o significado delas e reconheço que a coragem da minha primeira professora em uma escolinha rural, no interior de Goiás ganhou raízes em mim, nas minhas irmãs e nas mulheres que entraram em minha vida em todos esses anos. Ainda estamos gritando para que nos ouçam, ainda brigamos por espaços com lugares de fala e ainda, ainda, ainda…
A mulher que me tornei reverencia a menina que sonhava em contar histórias para o mundo.

*E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar

A menina daquele tempo sente orgulho das histórias que contei? A minha voz consegue abraçar outras mulheres muito além da data? Ainda busco essas respostas, mas sei que tudo que vivi teve influência de mulheres valentes e conhecedoras de seus poderes. Sou rodeadas de mulheres especiais e vibro com cada conquista delas. Elas são as minas e as manas por quem luto, por quem torço e vibro.

Talvez, eu represente muitas delas em meu espaço… talvez sejam elas que me representam em seus lugares. O que eu, a mulher de quase 57 anos dirá para a de 60/70? Acho que posso dizer uma frase antecipando o que virá: não desista, fique firme e não se cale. Você consegue apesar de tudo! O resto, vou dizer lá, no tempo certo. Vem junto comigo?

Feliz Dia da Mulher Todos os dias!

Mariana Gouveia
participam desse projeto: Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Obdúlio Ortega – Isabelle Brum
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
* Trechos da música Triste, louca ou má, de Franscisco El Hombre.

Das palavras das cartas

Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre.

bambina mia,

Foi breve como você disse ao me escrever… nem deu tempo de secar as hortênsias que deixei florindo e já voltei. Voltei e li sua carta como se fosse um abraço.

Você falava sobre os envelopes que envelhecem e recorri ao meu baú para encontrar uma carta antiga sua… era abril de 2017 e ainda não amarelou, mas senti a poesia ganhar vida em suas letras.

Dentro de seu cenário descrito na carta digital e a carta de papel na mão descobri que as estações permeiam nossas histórias. Me deixei levar por suas mãos e olha só… trovejou! Isso já está se tornando rotina por aqui e mais uma vez grito seu nome – uma vizinha perguntou quem seria Lunna, se só tenho Lolla e Yoshi – brinquei que você era meu amor de estimação…

Coloquei Paul para tocar Something enquanto um arco-íris cruza o céu… a tarde ainda está úmida depois do temporal e a casa da vizinha, sem reboco é abraçada por ele. Suspiro como se estivesse aí… suspiro por não estar. Confesso que a sensação é a mesma de quando vejo suas fotos de pães e eu não estou aí para comer.

Sinto a mesma emoção que te toca aí… Espero que tenha sido breve a espera pela resposta e cumpro a promessa nessa sexta-feira chuvosa e cheia de sol nessas nuances que só a previsão do tempo pode explicar… seria esse o mistério das estações por aqui?

Bacio em tuo cuore,

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Carta ao instante de amor(a)

Luci,

Retomando um ritual desde que a conheci te escrevo hoje. Logo cedo, mentalmente, fui criando as palavras que eu queria te contar. É tanta coisa que as palavras foram criando carreirinhas em minha mente e sentei-me aqui para te escrever.

Sabe, Luci, eu fui ver meu pai… Fiquei por lá alguns dias abastecendo minha alma de poesia. Já fazia alguns anos que eu não ia por causa da pandemia. Lembrei-me de você enquanto via ele recusando o prato da comida que ele mais gosta quando descobriu que eu iria embora no dia seguinte e eu tive de contar para ele todas as complicações que seu pai teve quando se recusou a comer. Contei até do estuque verde da parede antiga e criei algumas coisas a mais para animá-lo.

Também contei a ele sobre minha resposta a você e sobre o pajé que me disse na época que não comer era um desacato a quem passa fome de fato… Falei de nossas ligações com borboletas e bichos, de como somos abraçadas por humanos especiais e da chuva de flor que cai em sua rua… Ele riu disso. Me disse que a folha do mamoeiro é o guarda-chuva para esses dias de brincar.

Fiquei mais de uma hora falando de você, Luci, dos cães e de seu pé de laranja lima que para mim nada mais é do que uma personagem de livro. Sua Anna é uma poesia que quero inventar e não consigo porque olhando o olho dela ultrapassa o senso comum das poesias e ele disse que você é uma pessoa de sorte…
Depois de tudo isso ele comeu e fui colher amoras… respirei quando achei uma com o formato de coração. Foi ali, tocando os galhos da amoreira que senti saudades de casa, Luci… Foi ali que descobri que aquele lugar é apenas meu abastecedor de energia e que cultivar esses momentos até um novo reencontro é verbalizar ternura.

E é assim que desejo a você nesse novo ciclo… que o verbo ternurar seja sempre renovado dentro dos seus dias e abastecedor de energia sempre.

Abraço carinhoso,
Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Em longas frases, digo coisas particulares, de nós dois…

R,

Dizem que não existe futuro para quem não sabe o próprio passado… e eu sei bem do meu passado e está escrito nas páginas antigas de meus cadernos de poesia que você era meu primeiro amor. Digo era, porque essa é uma lembrança viva e não quer dizer que não te amo mais, mas que eu te amei da forma mais doce que alguém ama na primeira vez.

Te escrevo hoje, porque é seu dia e em todos os anos, nesse dia, sempre me lembrei de você e seu nome ecoava em meu coração como o bater das asas das aves e em longas frases, digo coisas particulares de nós dois e que ninguém mais sabe. Lembra-se de que foi você quem me explicou a mudança das estações?

Da primavera ao verão
Do verão ao outono
E do outono ao inverno
Você sabe quando a estação muda?
sabe exatamente quando o inverno acaba e a primavera começa?

Sua frase ecoa sempre quando alguma palavra me lembra você… ou quando o dente de leão espalha por aqui suas folhinhas como se deixasse uma mensagem dentro da estação em que me perdi de você. A gente era igual e a magia que nos rodeava foi a mesma que nos separou.

Não sei se fui eu ou você quem partiu primeiro… Porque quem parte em silêncio, não grita aos sete ventos que vai embora… de um dia para o outro eu estava em outro lugar e você já não vinha a algum tempo… De repente seu nome foi virando uma doce lembrança e apenas a data de hoje era dedicada a pensar em você.

Eu me lembrava de seu riso, do seu jeito de cavalgar, a maneira de espantar as aves na árvore da frente de casa e do modo que assoviava… Fevereiro era o mês que essa data me trazia você e o mais estranho é que eu nem sabia porquê.

Te reencontrei dias atrás e a leveza do momento me fez sentir gratidão de tudo que vivemos juntos. Você foi a magia que transformou minha adolescência em emoções e você foi o primeiro amor que fez meu coração bater… Mas, a gente se perdeu no caminho e faz parte se perder ou desviar da rota e sempre que  isso acontece a vida nos leva a caminhos interessantes e foi assim que te vi de novo.

Que teus dias sejam feitos de voos intensos e felizes e que a cada curva dessa estrada que você cruza você encontre motivos para sorrir.

Beijo,


Mariana Gouveia
Projeto 52 Missivas
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega

das coisas breves

Décimo quinto na verdade das coisas.

O dia passou na intensidade das horas.
Não houve tempo para administrar sorrisos.
Conto os dias e repito.
Décimo quinto na verdade das coisas.
Revivo o que foi dito.
Surreal as palavras que dançam
e mesmo que eu apague elas estão ali.
Confiro mil vezes a sua presença.
Não há.
Repito na constante loucura: não é para ser, não é para ser.
A umidade me faz lembrar histórias
e a flor não conhece a rotina do dia em que só fiz pensar em você.

Mariana Gouveia 
Ph: Lukrecja Czerwonajcio