das coisas breves

A liberdade límpida do vento parado dentro da ave de todo dia.

Ph: Oleg Tchoubakov

Tem dias que essa ternura destemida do seu olhar morre dentro da palavra. Não colheu as flores do dia. Ouviu a canção do mar dentro nas conchas esparramadas na estante. Fechou os olhos diante da dor – as 45 gotas lembraram as sementes de romã – o coração esparramado em pedaços nas folhas. Choveu no jardim com o regador para o cheiro de terra exalar onde a secura predomina nesse inverno. Falou sobre ansiedade com a alma. O silêncio do vento – quase brisa – a calar vontades. Essa asa é quase um cheiro de maresia não solúvel no ar. A circulação é essa coisa universal… vem com a asa. A liberdade límpida do vento parado dentro da ave de todo dia. É a respiração viva do amor. O varal a contar histórias dentro dos voos e sua autonomia delimitando brisas. O produto derivado da ave é o voo e a delicadeza vem em forma de beijo. Ave, beija!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Pai

Pai,

mais uma vez eu te escrevo e percebi que faz tempo que não nos falamos. O telefone, para você, se tornou obsoleto, porque você não ouve direito. É apenas a chamada de vídeo, os gestos e o riso de sempre lembrando que ainda me reconhece.

Sabe, pai, de vez em quando eu volto ao meu tempo de menina. Isso acontece quando eu acolho os bichos em minhas mãos. Você me dava coragem para acolher os bichos de asas… e depois disso, passei a ser escolhida por eles. Eu acho que sou parte deles, pai. É quase involuntário. Abro a mão e eles vêm e pousam. Tanta gente tem medo deles… eu tenho carinho, pai e nem sei bem se a palavra é essa.

Pai, o junho começa com seu dia e as lembranças do mês dos santos me faz ter nostalgia dos dias em que a gente ficava à beira da fogueira, as simpatias feitas em nome do santo casamenteiro. Os doces, os balões e as histórias. Sabe, pai, você me deixou um legado de histórias e sempre conto elas para um ou para outro para registrar essas coisas que ficam dentro de nós para sempre.

Escuta, pai, tenho as lembranças todas penduradas no porão… as fotografias guardadas em caixas antigas, com o cheiro de antigamente. É disso que vivo e dos dias em que lembro-me de você, tão presente na minha história. Apenas sou no mundo, pai e o mundo é em mim, e o tanto que isto é, por sua causa. E hoje, dentro desses dias e dessa representação, te ofereço minha mão pedindo benção, pai e feliz aniversário!

Te amo muito!
Mariana Gouveia

das coisas breves

No fim do dia somos só sombra na parede.

Havia feito um tutorial sobre perdas. Seguiu à risca cada etapa, mas na hora h, quando o vento lateral veio com notícias de ida sem volta, esqueceu as regras ditadas por ela mesmo.
Abriu os braços e sentiu a falta. Deixou a dor entrar pelo peito e apagou o rito do nascer.

As asas perderam o sentido de voos e ficou cinza as coisas.

Lembrou de anjo, andou pela sala orquídea e depois chorou. Longe. Para que fosse amenizada a lembrança.

E se eu não for poesia amanhã de manhã? E se a metamorfose não fizer jus ao instante. O momento tão fugaz e ligeiro. E a morte a rasgar a pele e camuflagem de vida fora da casca. Quando amanheceu no outro dia, já eram duas formas de partida.

No fim do dia somos só sombra na parede.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a minha história

Abri as caixas todas – as de papelão, de chapéus, (que eram de meu pai) as de camisas – misturei as histórias todas. As minhas e as que me contaram.

O tempo mudou dentro da manhã. A estação desejou caber nas flores. A dimensão do voo sabia da vontade da asa.

A liberdade rabiscada nos muros. O moço da reciclagem coube no meu abraço. O céu abrigava a pipa do menino da rua de cima. Brincava de ser capitão do ar. Rodopiava em direção às nuvens enquanto a canção no rádio falava de amor. E ninguém voava. Os voos foram cancelados em intenção da dor.

A rotina ainda não se desenhou nos meus dias com exceção das aves que vagueiam por aqui e brigam com os cães pelo alimento que sobra. É quase tudo esse silêncio da alma. A vida medida em gotas e o corredor sem cor ostenta a solidão vazia no olhar das pessoas e a vontade é esse bater de asa no peito.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Das cartas que não foram entregues

Ph: Pinterest

Quando alguém jogava fora as cartas de amor
a janela sorria com o vento, efeito brisa nas cortinas.

o carteiro lamentava o dia em que não entregaria ao remetente, o amor.
e eu catava as folhas rua abaixo

nunca era o endereço certo nos envelopes.

Mariana Gouveia

das coisas breves

A sorte de um amor tranquilo no era uma vez

Acontecia o dia no tempo das coisas e havia o tempo do jardim mudar a cor. Os lírios criaram delírios no quintal. A manhã criou atmosfera de espera, enquanto o céu chovia uma garoa fina.

O vento derrubava as folhas secas lembrando a estação. A fuga das dores reflete no equilíbrio das palavras. Alguém diz sobre a sorte de um amor tranquilo e a canção decifra a solidão que invade o dia.

A palavra espera ganhou conforto no abraço. A solidão é esse estado desajeitado de ser dois.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, e o azul a espraiar vontades 

Adivinhou a sorte de um homem tranquilo. O vento a invadir a pele e o frio inquilino entrou devagar nos quartos onde a cortina dançava. O sol a desvendar mistérios atrás das nuvens.

Limpei o sol dentro das nuvens e um carrossel era brincadeira de criança dentro de um azulejo bordado. O espelho a esconder geometricamente a figura exposta dentro da solidão.

O perfil do instante marcado na folha que balança, na flor que se abre e o azul a espraiar vontade nos dias em que o relevo marca a digital.

Havia pegadas na terra fofa e o mapa feito para as ruas do norte e o azul a espraiar vontades e o dia acabando em solidão, enquanto a noite adormece dentro da flor… e o azul…ah, azul!

Mariana Gouveia

Das rotinas

era a terapia, uma vez

Os olhos fitam a parede com o Kandinsky com a mesma admiração de quem olha o álbum de fotografia e os dedos a passar imaginariamente nas linhas… é tudo tão frágil diante da figura tensa a querer falar de artes – e de memórias – falo dos bordados que fiz e de como as flores ganharam cores com as linhas.

Ela se anima enquanto detalho o dedal, as agulhas especiais e os pontos que aprendi com a mãe, lá na infância.

A camisola de voal, com suas florzinhas miúdas e o véu que já bordei – falo do vestido de noiva que foi bordado com pérolas e tingido no modo antigo, de minha mãe, com raízes e casca de cebolas.

Retrata sua paixão pelos monogramas bordados com letras cursivas e mostro os riscos que eu mesma criei…

Os lençóis de linho engomados lavados com anil e falo das lembranças que guardo sem querer…

Ela busca no olhar os retratos em sépia na parede e as palavras pronunciadas dentro da saudade, como se tivesse passado um século… como se o bordado detalhado buscasse na memória lembranças que a vida guardou em gavetas.

Ela fala de um amor vivido enquanto os olhos buscam os retratos soltos e invocam um nome que não consigo definir.

Para além da sessão, hoje fui eu quem a ouvi.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, o mar

Ph: Tom Chmbers

De noite, voava como se tivesse asas e dependurava no teto – colados em ideogramas – os sonhos.
Voava como se fosse peixe, desenhado para voar…
e assim, ainda voava como se o mar fosse céu.
Voava como se fosse o instrutor da hidroginástica a fazer passos ouvindo “Glóriaa…”
Como se fosse ave, flor, voava. Muitas vezes, durante o silêncio da madrugada.
Em outras, era o céu que voava dentro dela.
Como se tivesse asas e pudesse plainar, pousava
feito a borboleta na mão…

Mariana Gouveia

Das rotinas

o amor tem a forma da dor

Ph: Aitor Frias & Cecília jiménez

Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma. A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.

O grito de uma ave noturna abala o silêncio… Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso

O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu. Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia