Das rotinas

Era um vez, a cor

Ph; Ziqian Liu

Entre as nuvens e as estrelas
Clareia a pele com o efeito da dor.
Os cabelos ralos diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço.
Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela,
o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência.
Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem.
Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.
As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo.
O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão.
E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a vez…

Ph: Katia Chausheva

Não se pode dar alforria para quem já nasceu livre. A menina que fazia flores desenhou rastros no meu quintal. Cantou canções que falava de borboletas. Quis espantar o dragão que comia em minha mão.
À noite, os monstros são gigantes – as silhuetas das mãos criam fantasmas na sombra – e invadem a porta dos fundos. Chove em algum lugar do planeta e os cogumelos nascem no jardim do vizinho.
A liberdade é declamada em versos e a menina se faz princesa nos contos de fada. O caminho é logo ali, na esquina que se dobra entre o lugar de fé e a estação paraíso. Em algumas noites, o efeito é alucinógeno quando se bebe água.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a noite

ph: Jeanie Tomanek

É noite já. O rádio lembra o tempo passado. E o locutor detalha a programação do dia que passou – recordo a novela antiga que minha mãe gostava – e a previsão do tempo muda constantemente e eu espero a moça do tempo anunciar a mudança da estação. Júpiter hoje esteve próximo daqui. Consegui vê-lo logo além da linha do horizonte. Contei a miudeza das coisas e falei da árvore seca, vazia também de folhas e com jeito de ave a desenhar a noite em um inverno fingido. Preciso de uma noite menos fria em que não sinta a agonia de um dia a mais que morreu. O calendário que não tenho me apressa na rotina no silêncio das horas. É preciso dizer que as lembranças são marcas na pele e os minutos inventa o sono para eu atravessar a noite mais depressa.
A insônia povoa noites vazias… e a solidão acontece a céu aberto.

Havia aquela cidade famosa onde eu desenhava nas paredes os poemas e as flores tortas que a gente ia dividir na estação e os cheiros a invadir a noite. Era sempre noite quando eu viajava. As luzes a derramar as cores pelas ruas e as pessoas estranhas a cruzarem a avenida imaginária no meu quintal. Ouvia Bruna Carlile todas as noites, a janela aberta como agora, e o cruzar os pés um sobre o outro para que a noite voasse só para eu te encontrar em mais uma carta na manhã seguinte. Começavam então, precisamente aí, as noites menos escuras e as cartas escritas em noites vazias.

(Porque elas, as tais noites vazias é a forma das menos escuras e das cartas escritas em vão… e a tal música que ecoa é essa vontade de fugir para onde todas as coisas são possíveis)

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Era uma vez, a primeira vez.

Filho,

eu já te escrevi tantas cartas e para mim será sempre como se fosse a primeira vez… você fez isso comigo desde sempre. Me fez experimentar primeira vez em tantas coisas. A primeira vez que ouvi seu coraçãozinho bater foi como se eu estivesse ouvindo meu coração bater fora do peito.

Com o tempo, filho, as datas se tornam comuns. Qual a graça de se comemorar dia das mães com o filho longe? E eu, que já nem tenho minha mãe aqui, como comemoro? Dia das mães é todo dia e dia do filho se resume em horas, porque uma mãe pensa em seu filho ou filha em todas as horas – Será que comeu? Está com frio? Gripou? Tomou chuva? Chora por amor? Está se sentindo só? – e fica registrado na memória das mães o dia em que o filho nasceu.

Foi de você que ouvi pela primeira vez a palavra mãe… e depois disso, eu me tornei a mulher mais poderosa do mundo, capaz de enfrentar qualquer coisa por você. Infelizmente, esse super poder se limita quando a gente não consegue mais impedir que outras dores te machuque. E resta apenas oferecer o colo e rezar para que tudo passe logo.

Ainda temos muitas primeiras vezes para viver… e temos ainda que repetir mil vezes outros instantes. E no dicionário de mãe, filho vem sempre em primeiro lugar e é essa palavra que me abraça quando penso em você.

Obrigada por ter me escolhido ser cuidadora de você nessa vida. Tenho muito orgulho do homem que você se transformou. E o meu melhor presente é seu sorriso. Te amo imensamente!

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, os ninhos

o menino estranho do ônibus tinha olho de humano, quase para além dos deuses
queria defender a pátria – na camiseta a frase em outro idioma que não conseguiu traduzir – falava dos coletivos que aprendeu na escola e achava estranho ninhada não ser coletivo de ninhos – tão inocente o menino – percebeu a praça vazia de árvore

cortaram os galhos de onde pendiam os ninhos dos guachos
ficou o pássaro órfão de ninho, com os galhos no bico a procurar galho seguro – contou
reescrevi o poema enquanto na árvore nua a asa vazia de ninho

fizemos uma petição em favor das sementes que virariam árvores e as asas ganhariam ninhos para gerações futuras conhecerem o poder do voo
o menino estranho do ônibus ganhou voo quando desceu no mesmo ponto que eu
tinha olhos de deuses – quase humano – o menino que sonhava recuperar ninhos

Mariana Gouveia

das coisas breves

Era uma vez, o tempo

Criei promessas desenhadas nas paredes, onde eu furava o estuque para descobrir o sem cor que havia por trás do verde esperança.

Fiz contratos com uma criança alegre que morria em mim. Descobri pessoas com falhas que mudavam a meteorologia dentro das horas do dia. O ápice das estações do ano é o meu coração. As raízes do outono a explorar o infinito e tentando expor folhas para mim – logo eu, que era pura fotossíntese – que conhecia os aromas do chão a receber o toque da folha que caia. Alguém que cuidava do jardim adoeceu… esqueceu da promessa de nunca deixar de regar o que tinha necessidade de água, e imaginou encontrar seu sonho no centro da semente. A mão possuía a aurora feito quando amanhecia e o poente a demarcar o céu dentro da noite escura e a ave a dominar a vida… Maio tem essa inconstância para fora dos limites de quem entende do tempo. O céu é brilhante e puro apenas uma vez – ou o ocaso muda de acordo com as nuvens.

Estou sempre em movimento, para evitar multidões felizes ou pessoas a puxar assunto sobre o tempo – esse moço inconstante e ranzinza – enquanto eu escolho sementes a partir do som das folhas que caem. A árvore desfolhou-se toda como se fizesse parte do tempo remoto em um lugar onde a estação se transforma no canto das aves. O voo é o caminho do pouso. A dor da vida anda na frente de mim, como viajar antes na rota das fugas.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Era uma vez, o vento

Ph: Alicia Cotrim

O dia de ontem teve oscilações de saudades. A moça que diz entender de destino quis ler minha mão – a desenhou entre o oceano e o rio – a areia a moldar seus pés e o mar a mandar recados dentro de poemas…

O vento do lado sudoeste da casa derrubou as paredes todas – ventou em tudo que é canto – lembrei-me da canção de Calcanhoto…

Andei descalças sobre os destinos soltos… O mapa teve a rota traçada dentro da palavra saudades. Tem dias em que o calendário absorve a vivência, em outros tatuam ausência até na parte da folhinha que traz o nome do santo.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Era uma vez… Talvez uma vez apenas.

Ph: Natália Drepina

A moça do tempo errou a previsão… Também errei nas oscilações do dia. Deduzi frases entre acordes e canções.

O cantor poeta inventou-me dentro do exagero. As nuvens criaram palavras no céu e o pássaro de todo dia renovou minha fé nas pessoas. As flores foram beijadas em outra estação e a meteorologia decidiu o que era explosão em outro lugar – pode chover a qualquer hora do dia – choveu – e depois a lua deitou-se nas nuvens como se fosse cama.

Alguém faz previsão sobre o destino de amar. Pode a solidão vir estampada em dias de chuva?

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Minha vez de saudade.

A vida corre ligeira, mãe e mais uma vez eu brindo o dia que era seu. Coube em mim nesse anos todos, saudade e as lembranças me visitam com mais assiduidade do que o normal.

Olhando hoje, tudo parece que foi feito de brinquedo os dias e que a data ainda é real e você está ali, entre a cortina e a janela a esperar que a surpresa seja feita, mesmo sabendo que nem era mais surpresa.

Os presentes vinham sempre em forma de bilhetes, poemas, corações de pedra e abraços demorados. Tudo era uma casinha de boneca onde o amor pelas coisas simples surgiam e seu dia se tornava além de uma festa, uma verdadeira brincadeira.

Você nos deixou a delicadeza e registro mais um ano em que falar com você é como desembrulhar um pacote de presente e me perder nas lembranças que insiste em brotar como se fosse flor em nós. Que a vida infinita seja!

E que mais uma vez, eu agradeço por ser parte sua.
Parabéns, mãe!

Beijo,

sua filha
Mariana Gouveia

das coisas breves

Era uma vez e muitas vezes

Outono… diziam que era a estação atual e eu já havia desistido de olhar o calendário… eu só escrevia o diário. Escrevi sobre o primeiro encontro. De quando me apaixonei. Desenhei flores, corações e as letras decoradas com o nome dela.

Mas, isso de amor encontrado, o primeiro beijo desejado, ensaiado, parece invenção da minha cabeça. O vento não… eu pude sentir quando ele chegou se misturando aos ventos de todos os lugares. Ora brisa, ora furacão e o cheiro do perfume a invadir o quintal. Uma vida inteira não basta para apagar a sensação do toque das mãos dela na minha pele. Do vento, do que me lembro foi o sopro dela em meu pescoço e depois disso, decidi não lembrar de nada. Ficou apenas o diário escrito em um dia qualquer: era uma vez e muitas vezes ela, dentro do meu outono.

Mariana Gouveia
De todas as estações