Corredores, Codinome Locura

Palavra do dia: esperar.

Acontecia dias tortos feitos de silêncio. O vento era mudo. As folhas não faziam ruídos. Apenas o pássaro que não tinha gaiola cantou no quintal. As paredes tinham ecos perdidos. Eu queria modificar a história. Fazer a lenda ser real no toque. Tive alucinações na alma. O peito gritou as previsões todas. Tudo misturava nas cores do dia. Mostrei o céu no instante de antes.
Algumas coisas fogem das explicações.

Palavra do dia: esperar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

e ainda nem era outono.

Havia chovido em uma dessas tardes mornas de fevereiro… O lírio do vento ainda trazia as gotas como se fosse souvenires e ela ali, espiando a tarde que amarelava o muro do quintal.

A solidão fazendo companhia para as flores que se transformaram em relicários das gotas da chuva – de ontem e ainda nem era outono.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Tipo assim…

Da janela do ônibus as coisas passam por mim e eu escrevo enquanto o engarrafamento aumenta. Reparo nas coisas e nas pessoas para te contar. As personagens se multiplicam entre conversas que tento absorver. Me chama a atenção um casa de adolescentes que pelo visto ainda estão em fase de paquera – sei lá – próximos de mim.
Durante o percurso de 30 minutos entre uma estação e outra repetem em um diálogo 150 vezes a palavra “tipo”…

– A professora tipo assim, enrola mil vezes, tipo, a prova foi fácil, mas tipo, o tempo foi curto…
Enquanto ela comenta que:
– Tipo assim, o meu pai não pode me buscar e eu, tipo a sapatilha do balé, tipo pressiona o dedo…

Ele olha para o pé e ela meio sem jeito, diz, tipo sem graça:
– Prazer, pé de bailarina!
O olho dele brilha e ela sem graça, mexe no cabelo. Fala do prazer de dançar, depois que ele quis saber se ela gosta mesmo de balé, entre dois “tipo” no meio da frase. E ela descreve a poesia que o céu oferece lá fora, através da janela… Dançar para ela é como a magia do sol de todo dia, tipo que se a gente fica sem, morre… Ele fala do amor pelo skate, mas tipo assim, ele não tem. Usa emprestado do amigo, que é tipo meio irmão e que com o skate pode voar, igual a ela – imagina ele – tipo quando dança.

Comentam sobre o quanto de vezes repetiram o tipo e eu aviso das 150 vezes que marquei. Riem comigo, pela cumplicidade da conversa e eu digo que tipo assim, ia escrever uma carta falando sobre isso. Ele desce antes de mim e despede-se pegando o endereço do blog. Tipo assim, de curiosidade, ele verá. Ela ri e fala do prazer de dançar que deve ser tipo assim, o mesmo que eu sinto ao escrever.
Despeço-me na leveza do riso da menina que tipo assim, durante a dança, voa. E sigo rumo à noite para te escrever.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

70 páginas

Perco-me dentro de você através dos séculos.
Falta- me essa presença oscilante entre a solidão e o tato.
Devia te contar que hoje chorei
e que chamei seu nome infinitas vezes.

Conheci um menino
que trazia uma flor no cabelo
– riu do meu, tão curto, em piada para os amigos –
e a menina que ria com ele
percebeu que ele tinha primavera no olhar.

Coube pétalas brancas na lição do dia.
Descobri que não havia jeito de desabraçar um abraço dado.
E que um estrangeiro pode ter sinal de partida logo na chegada.
Escrevi muitas histórias para te contar…

Depois, desfiz cada uma e dividi em cartas
que talvez você nunca vá ler.
70 páginas onde a lua apenas me avisa
que a vida é feita de fases
e que a solidão é vivida em noites de lua.
 Minguante.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

em cada fresta da noite eu só queria a pulsação do sol.

A noite ainda não tinha rompido a renda salmão das cortinas e você já era saudade.
Quando te falei das estações do tempo e da tranquilidade que sentia, não sabia que uma noite demoraria uma vida – em pouco tempo – e que os dias em que você surgia, a manhã possuía o sagrado do amor. Na época levei-te pela mão rumo ao prazer. Minha voz deu vez à mesma pergunta, e cadê? – chamam-lhe saudade… alguém disse. E houve dias em que endoideci no quintal. Busquei a palavra “volta” nas cartas, no horóscopo, no relicário – até rezei – e cantei as músicas que nem eram nossas, mas que falavam de amor. Havia a mensagem que eu não apagara e li e reli a noite inteira na sobreposição do dissolvido desejo e nas palavras doces que inventamos.  Eu só pensava no teu encanto pela flor. Girava a vida em torno do sol. Foi quando converti os silêncios e ouvi, gritantemente, a pulsação do sol… em cada fresta da noite eu só queria a pulsação do sol.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Costura a sorte na flor no bordado da vida.

Costura a sorte do dia de acordo com o horóscopo.
A sutileza das coisas acontece nas manhãs serenas.
O ponto costurado é a reconstrução da alma. Um menino laranja é fonte de amor e de energia.
A moça de cachos dourados traz o sorriso na alma – preciso fazê-la entender isso todos os dias – e a coragem no olhar.

A tarde, o céu carregou de nuvens.
Choveu em tudo que é canto. A natureza, as vezes, cabe na solidão da alma.
Costura a sorte na flor no bordado da vida. O mito já não traz a emoção da história. O arremate é apenas o ponto final no avesso perfeito.

Mariana Gouveia

Divã

Tenho um dragão que come na minha mão.

O dia rompe as rotinas do nada. Era hora de espionar segredos. Na rota dos olhos, o espelho. Denuncia o cansaço de não dormir.
Ela anota. Eu anoto. Rasgo palavras que havia escrito. Uma espécie de silêncio no ar. Tão gritante e ao mesmo tempo, ensurdecedor.
Ando até a janela. O horizonte mostra a ilusão que vivi.
As frases ecoam na cabeça. Divagações do que poderia ter sido diferente e de como ainda brinca quando fecha etapas.
Escrevo o nome dela na janela do agora. Quase grito, quase chamo. Calo.
Ela anota. Eu apago. Rasuro. Sublinho. Acho bonito um nome sublinhado.
Desenho um coração junto. A neblina de fora oferece a opção da escrita.
Um homem pinta um portão de verde. Uma joaninha cai na lata de tinta. Eu a salvei antes que a tinta marcasse as asas.
Ela me olha. Espia os sentimentos que me atinge.
Falo de coisas surreais. Tatuei o nome dela no meu peito. Tenho um amigo imaginário que conversa comigo. Me diz que se chama Tempo e que a melhor escolha da vida, é viver. É um dragão que vive na minha mão. Sublinho a palavra tatuei. Ela ri.
Lembro do riso dela. Lembro de tanta coisa que fizemos juntas.
– Segura ele. Nunca vi um dragão.
– Ele é inofensivo. Só vive no meu imaginário.
Ela anota.
Fala da boneca de milho que era amiga dela quando era menina.
Penso na rapidez das horas. Ela olha o relógio na parede.
Confirma o diagnóstico: Falta de lucidez.
Coloca um comprimido vermelho na minha mão. Meu dragão come.

Mariana Gouveia – Divã
Das fragilidades secretas

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das lembranças das cartas

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação. Relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou. Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no tronco de madeira da porteira, no telhado… Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar. Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais. A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava – por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali. Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida. Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fizeram ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.  Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.

Mariana Gouveia

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Era assim em todos os séculos que existiu

e em cada século repetido o ritual do amor.

Ph: Pinterest

Havia chegado com cheiro de maresia e trazia nas mãos o beijo do mar. Se transformou em poema contado dentro do livro. Página a página em ritmo de poesia e o coração tal qual as ondas batia. O nome feito labirinto pronunciado ao vento. Era assim em todos os séculos que existiu e em cada século repetido o ritual do amor. Escreveu quatro cartas para endereços diferentes. Falava do passado, presente e futuro. Desenhou estradas que talvez nunca passaria. Retratou a cidade com seus cheiros, suas calçadas floridas pelos ipês de várias cores. Tentou passar o perfume das ruas através das frases. Imaginou o riso e a emoção de cada um ao abrir o envelope colorido. Contou das nuvens e as manhãs de verão. Explicou os sonhos, detalhou a esperança e cumpriu o rito da promessa. Falou da menina que recusou o livro por desconfiança — afinal, o mundo anda estranho — e perdeu a vontade de oferecer de novo. Escrever não precisa de explicações.
Beijou um a um os acontecimentos e fechou o envelope.

Mariana Gouveia
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E o pássaro abre a asa na intenção de voar

Descobri cartas antigas de minha mãe no baú das memórias. As letras cursivas pareciam ganhar vida agarradinhas umas nas outras. Em uma delas ela me chama pelo diminutivo do segundo nome… Parecia despedida e na época não percebi. Deu-me direção de caminhos. Orientou- me diante da vida e falou das canções que ela mais gostava.
Nas palavras, um poema sobre asas que eu fiz ainda criança… Falava do pássaro de todo dia que vivia ali, nos arredores. E do luto dela na ocasião da morte do meu avô. Tudo era um voo plano no ar:

” Era a asa do pássaro que tinha a posse…O poder do voo… o limite do céu.
Esse mesmo céu da cor do vestido de minha mãe de antes da morte do meu avô. Depois da partida dele ela se veste só de preto. Uma forma de mostrar a cor da alma. Mas de manhã, quando o sol abre a cortina do dia, o riso dela é colorido. E o pássaro abre a asa na intenção de voar”.

Depois daquele escrito lembro que minha mãe foi à porta, olhou o céu e sua dimensão de cor… entrou em seu quarto e saiu com seu vestido azul. Aprendi nesse dia o poder da palavra e do quanto era importante a escrita. Hoje, o canto de um pássaro invade o dia e junto com as palavras ganhou jeito de lembrança e cor.

Mariana Gouveia
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