Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das lembranças das cartas

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação. Relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou. Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no tronco de madeira da porteira, no telhado… Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar. Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais. A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava – por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali. Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida. Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fizeram ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.  Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.

Mariana Gouveia

2 comentários em “Das lembranças das cartas

    1. Eu também nunca entendi, mas minha mãe tinha alguns rituais que só ela entendia. rs
      Eu tenho algumas corujas na minha estante.
      ahhhhhhhhhhhhh, meu Snoopy… ❤

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