Sete Pecados

Orgulho

Há pecados tão agradáveis que,
se os confessasse, cometia o pecado do orgulho.
Sophie Arnould


Olho para ela pelo espelho e minha alma fica em êxtase. Em meu céu brilham as estrelas dos olhos dela.
Contorno toda sua silhueta como se a desenhasse e quero gritar bem alto. Dizer que a tenho e que cada dia aquele amor é maior do que meu peito suporta.
– Isso me deixa orgulhosa! – ela diz
– Orgulho é pecado capital. Eu digo.
e o riso dela ecoa pela casa afora, chamando atenção de quem passa na rua.
– Logo nós tão pobres pecadoras, preocupando-nos com apenas um dos pecados mortais? Estamos cheias deles.
– Mas me orgulho de você e da sua praticidade terna em punir sentimentos. Me orgulho de sua pinta nas costas. Dos dedos longos desabotoando a blusa. Da maneira como bebe o vinho…
– Esse orgulho não serve…Esse é dos pecados, o menor.
– E qual seria o maior?
– No conjunto universal, acredito que englobamos todos.
– Então te perdoo por todos os teus pecados e até mesmo pela culpa que teus olhos guardam. E não se fala mais de pecados nessa casa.
E não falamos. Eu ficava reduzida ao seu olhar e bebia orgulho dentro deles. Ela era minha. De posse mesmo. De contar vantagem que eu possuía o que de mais belo ela tinha. A beleza dela não me escapava. Media cada centímetro de sua pele com as mãos e saboreava a paixão que me sacudia a alma. Tinha a alegria que o vento do cabelo dela sentia ao tocá-la. Tão minha e tão livre.
E o riso. Ah, esse riso que ainda ecoa em mim cada vez que lembro dele. Chego a rabiscar a parede com poemas sobre o riso dela. Com os olhos dela eu rezava e com minha alma eu pecava, talvez motivada pelo orgulho maior de amar.

Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Plural Editora – 2015
*fotografia: Dorina Costras

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas

O envelope que chegava era laranja e as letras corridas como se tivessem pressa de chegar.
Havia desenhos floridos nas linhas que se misturavam aos corações onde se entrelaçavam vontades. Os risos, pareciam vir junto e a brisa suave das ruas da cidade, do rio que circundava a pequena floresta de eucaliptos e outras árvores do lugar – o cheiro – dançavam na imaginação como uma folha solta no ar. Falava dos detalhes da vida, da rotina. Do jornaleiro do qual sabia o nome, até a história dele me contou – e parecia que eu também o conhecia – dos nomes dos filhos. Dos tsurus que delicadamente adornavam o céu do seu quarto, todo lilás e da janela podia ver o pé de lanterna chinesa que a vizinha plantara e oferecia dezenas de flores no canto do muro… iluminando o dia com seu laranja – e repetia a frase da canção de Gadu – que me faz ficar bem mais. A flor parecia que tinha a energia de acordar a alma, mesmo depois de um dia frio, um dia triste. Assim, em cada mês, a delicadeza vinha em cores e versos. Uma tela de arte colorida de carinho, recheado de palavras que abraçavam e coloriam o dia.


Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Em 2020 eu…

Resumir um ano inteiro e tão atípico em 6 fotos é um desafio. Eu poderia descrever cada mês com a mesma intensidade com que aconteceram os dias. Mas, até nossas vidas serem modificadas pela pandemia aconteceram encontros, abraços e risos.

A pandemia transformou meu dias em artesanatos, comida, livros, comidas, receitas, comida, fotografias, comida, caminhadas pelo meu quintal, comida, lives, comida, estudos, comida. Nuca estive tanto na cozinha como nesses meses.

Passei a acompanhar o por do sol do ângulo que o muro me permitia e os tons atravessaram os muros e fui brindada pela beleza. Tantas, em nuances e cores…

tantas em formas diversas e de alma.

Chorei perdas, sofri com números, usei máscaras, plantei flores e colhi tudo que plantei.
Aguentei desaforos, solidão, e escrevi…

Escrevi e lancei um livro: Desvios para atravessar quintais. Talvez não tenha conseguido passar nem aqui, nem no livro o ano diferente e assustador que o mundo inteiro viveu/vive… Mas, preferi encarar ele com poesias e é assim que esse projeto chega até você que me lê.

A possibilidade de uma vacina renova a esperança em um ano novo que chega. Não somos mais os mesmos. Não seremos. Há um novo tempo no ar. Isso causa medo e ao mesmo tempo me encoraja a acreditar. Enquanto tudo isso não chega, deixo vocês com a poesia:

“O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância.  Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades. Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a
passo. O porta-retratos guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo. O verbo era quase um propósito de espera. As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto. O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.”

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Participam desse Projeto:

Participação de 6 On 6 de:
Lunna Guedes — Obdúlio Ortega— Darlene Regina

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Dos verbos indefinidos

Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas. A lua era apenas um risco dentro da nuvem. Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas têm cheiro de frutas. As distrações traziam vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia. A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma. A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo. A fortuna chegando na flor de laranjeira. O verbo mudando o fim da página. Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou e a paisagem é essa janela onde o vento bate.



Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Ainda havia tempo para dor.

A cartografia da pele exposta… nervos e poros. A tintura feita a mão para contar as horas.

As portas noturnas acusando a solidão.  Cortinas sendo puxadas para o espanto da noite. Um corredor intenso onde o silêncio domina a janela. Lá fora, o vento úmido flagra uma ave solitária. As fotografias expostas em preto e branco. A ave, modulada no azul. Molduras descritas dentro da saudade. Tenho nas mãos as horas que antecedem a noite no improvável som de um pássaro mudo. A voz na garganta é esse grito onde a solidão encontra-se com a minha na esquina da rua de cima.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A cidade de minha escrita

A cidade que escrevo em meu diário atravessa a rua de cima e me leva para além dos limites dela…

A minha escrita caminha por tantas cidades dentro de uma só e não só por ela. Mas dela, eu cito o sol que se põe… a lua mais brilhante e dos desvios sobre os quintais e seus telhados antigos.

Mais do que uma cidade, uma legião delas me inspiram… inclusive, até as que nunca visitei. Mas, quando o sol se propõe a oferecer um espetáculo diferente todos os dias.

“A minha rua tem uma cidade vazia… cheia de casas sem habitantes e com quadros ocos. De vez em quando, peregrinos com ideais de sonhos cruzam por ela. Atravessam seus muros e plantam nos quintais – chegam a abrir as portas e janelas – mas logo vão embora deixando as casas mais vazias ainda e as aves desabitadas penduradas em galhos secos de árvores sem cor. As estações acontecem dentro das horas do dia. A primavera se perde no calor imenso que queima tudo. A minha rua tem uma cidade em ruínas e essa solidão imensa sem você. Nos quintais a esperança foi moída e os mitos que cuidavam dos jardins se desmitificaram todos. A solidão da minha rua tem tatuagem da presença de alguém. Tatuagem desbotada, igual aos grafites feitos nos muros tortos da minha cidade. Tem a maresia rasgada em mil pedaços dentro da noite e tem a vitrola antiga a entoar fados só para registrar que o mar é logo ali, além da esquina.”

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

As quatro estações do ano

Primavera

Dizem que as flores esperam que em todos os jardins seja
sempre primavera

Escrever dentro das quatro estações é um processo de conhecimento. Os dias que acontecem dentro delas se misturam em nuances que aproveito nas palavras do diário.

Verão

Aqui, onde moro é verão o tempo todo e poucas vezes, acontecem todas em um só dia.

Outono

O vento, esse mensageiro de poesias

O outono, quando acontece aqui, espalha as folhas pelo chão.

Inverno

Os nomes das coisas antecedem as estações.
Nem era dia de nada e ainda é dia de alguma estação…
Como digo que a flor só nasce na primavera?
E quem sabe se a folha só assopra no vento do outono?
No inverno, o frio é esse vazio de pele, mas e no verão?
Quem cala essa voz que grita?

Denominar cada uma é estranhar o ritmo que acontece aqui. Não sei em qual estação minhas palavras vão te alcançar. É mais do que um diário… É uma rota que tracei e marco você, na bússola que te guia nos Desvios para atravessar os quintais.

Mariana Gouveia

Corredores: Codinome Loucura · das coisas breves

Corredores, codinome: loucura. (Mariana Gouveia)

Uma das coisas mais lindas que escreveram sobre mim!

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Avatar de Bob F.Devaneios e Poesias

Corredores, codinome: Loucura foi o primeiro livro do Clube do Livro da Editora Scenarium livros artesanais. Para quem não conhece, a Editora Scenarium trabalha com livros costurados artesanalmente – São livros únicos, verdadeiras obras de arte com conteúdo selecionado para que o leitor desfrute o melhor da sensação de ter um livro nas mãos – Recomendo fortemente que 1) não deixem de conhecer a editora e participar do clube do livro e 2) considerem ler com uma boa xícara de chá por perto!

Vou começar dizendo o que Corredores não é: Corredores não é um livro de fantasia. Corredores não é um livro para leitura rasa. Corredores, codinome: Loucura não é um livro para ler e esquecer. Pelo contrário: É um livro para se pensar, refletir, chorar. É uma leitura que dói, corrói a alma. É uma leitura real.

            Sou uma grande admiradora do trabalho da Mariana Gouveia –…

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Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 — meus pets

Desde que me entendo por gente sempre tive contato com animais. Sejam eles cães, aves, insetos, cavalos e até um beija-flor. Quando menina, os insetos me perseguiam e vinham parar na minha mão. As borboletas, joaninhas e libélulas. Com os cães, minha relação sempre foi intensa. Tinha a Diana, uma cachorra perdigueira, que me seguia aonde eu fosse. Depois, Catita, uma golden retrivier que me deu Guga. Ambos já morreram velhinhos.
Ganhei Meg logo quando Catita morreu. Era uma viralata caramelo, de pequeno porte. Viveu por 14 anos. Nos mostrou o amor de uma forma tão intensa que mesmo depois de 8 anos de sua morte, ainda reina aqui, nas conversas, na saudade.
Lolla chegou até nós depois de sabermos que ela recebia maus tratos e lá vou eu, marido e filho tirar ela das mãos do seu dono. Assim que ela nos viu fomos abraçados por ela e seu olho pedia ajuda. A trouxemos e com sua doçura preenche nossos corações com amor e fome. Não conheço ninguém que tenha mais fome que ela.

Lolla já existia por aqui quando Yoshi chegou. Eu a retirei de seus antigos donos, que a maltratavam. Se apaixonou por ele – assim como nós aqui de casa – assim que o viu.

Acompanha seus passos, seus movimentos e até suas poses. Onde está ele, ela fica.

Ela, super doce… ele, ranzinza e mau humorado. Mas, ela sempre está ali, ao lado. E o amor é nítido entre os dois, mesmo ele sempre querendo tomar o lugar dela nos cantos da casa, do quintal, da varanda.

E basta dar um lambeijo, e ela sabe que ele acalma. E basta o abraço, e ele cede.

Os dois são a alegria, as companhias, o voltar a ser criança na correria no quintal até ela pedir arrego e deitar cansada, mesmo com ele insistindo na brincadeira.

E como não podia deixar de ser, também é meu pet, um menino voador, que nasceu aqui no meu quintal e já teve sua história contada aqui e aqui. Chiquinho é meu beija-flor e possui o dom de me acalmar e como não poderia resumir minha vida com ele em uma simples foto, resumi num mosaico alguns instantes.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6
Scenarium Plural Editora.

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das maresias

A cidade cumpria seu rito de anos … O sol castigava a todos, como sempre…
Naquele dia, o mar cantava em meu ouvido.

Maresia pura em minha boca.
Peguei minhas mãos – tuas – toquei de leve meu corpo… era pele gozo, vontade.
Naquele dia – como nunca havia sido de ninguém – fui sua,

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*magem: Mira Nedyalkova