Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Aconteceu abril.

não uma e meia nem sete nem quatro,
trinta e oito da madrugada,
duzentas e onze da manhã,
uma escuridão infinita
 
António Lobo Antunes

Pai, aconteceu abril no meu quintal e ele não chega como antes. Embora, o céu já antecipa os dias de sol por aqui, com as folhas amareladas caindo, abril lembra títulos de livros e filmes. E é o que acontece, pai. Abril chega despedaçado e com a solidão e a dor instaladas em muitos corações. Parece que as noites são mais escuras e longas.

Dias desses lembrei-me de que estamos em plena quaresma e de como era nossas rotinas dentro desses dias “santos”. Confesso que ainda sigo alguns dos seus rituais. Talvez, mais pela forma de lembrar de você do que propriamente por medo de um castigo divino.

Nesses dias tão difíceis, busco nas memórias momentos bons para atravessar com mais tranquilidade tudo o que está acontecendo, pai. E me admira que seu olhar é o mesmo de quando eu era criança e sua fé também. Um dia, você disse: “a fé que move as montanhas é a mesma que te fará viva nos dias duros e é nos momentos difíceis que se cria a couraça para viver. A gente precisa criar uma couraça!”. Confesso, que naqueles tempos, apenas guardei na memória mais uma das frases ditas por você… só que hoje, ela faz todo sentido.

Busco o equilíbrio na mesma fé que você me ensinou e na serenidade que você transmite. Vai ficar tudo bem, pai… embora a gente tenha perdido tantas pessoas nossas. Embora, lá fora, um vírus maldito transmuta e esvazia famílias inteiras, a gente se arma dessa couraça e vivifica a fé. É o que nos deixa forte para seguir.

Te amo além dos dias.

Beijo,

Mariana Gouveia
Participam desse projeto
Adriana AneliAlê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio OrtegaRoseli Pedroso

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A solidão é uma faca…

atravessando a garganta, o grito sufocado na dor. As paredes fechando em todas as portas e o vento trazendo as folhas para o quintal.
Tem noite em que o vazio atravessa a madrugada e o perfume das flores no jardim é apenas o aviso da passagem da lua pela décima casa astral.

A meteorologia erra a previsão enquanto o uivo do cão na rua de cima faz lembrar das coisas da infância — quando o mundo cabia até onde a vista alcançava.

Uma data me traz a presença de um menino que voou…

A vida é esse nocaute duro no peito a embrenhar lembranças do santo, vontades de céu em noite de lua…

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

Encomende o seu exemplar:
É só chamar (11)99241-5985

Scenarium Livros Artesanais

A minha playlist do momento

Minha paixão pela música vem desde a infância. Desde o sertanejo raiz de menina à discotecas nos embalos de sábado a noite da adolescência. Quando não estou ouvindo uma canção, estou cantarolando. Ouço mais o rádio e claro que em certo período minhas preferências musicais mudam. Algumas canções em mim são eternas, ou trazem lembranças

Léon.

No momento estou apaixonada pela voz marcante de Léon – indicação de Lunna – foi paixão à primeira canção e todas as outras depois.

Ultimamente, uma voz me encantou e confesso que não conhecia e fui atrás de Francisco, el hombre e Triste, louca ou má se transformou em um mantra. Cantarolo praticamente o dia inteiro.

Maria Gadu é meu amor de voz. Amo todas, escuto todas e repito o play várias vezes. O show dela com Caetano é uma delícia! Laura Pausini me encanta. Surrender é o toque do meu celular. Roberta Sá me faz dançar, delirar e sorrir. Amo a voz dessa mulher! Gosto imensamente de Brandi CarlileMoney Heist é a paz que preciso em alguns momentos.

Caetano, Beirute e seu Elefant Gun, Maria Bethânia, Alceu Valença e sua intensidade, Nana Caymmi e a Resposta ao tempo me toca de uma maneira sublime. Poderia passar aqui muito tempo enumerando as canções que me alcançam. Espero que gostem dessa minha pequena lista.
E você? Quais são as músicas que te abraçam a alma?

Mariana Gouveia
Projeto Blogagem coletiva
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Ortega, Roseli Pedroso, Darlene Regina, Lunna Guedes e Isabelle Brum

Corredores, Codinome Locura

Grito

 

Minha alma é intensa…
grita ausência,
grita falta tua
grita pele nua

quer gritar emoção
quer você na mão
Nunca é por acaso a insinuação
descubro-me perdida nos pensamentos teus.
enquanto que os meus
seguem direção do teu coração

O dia inteiro te busco,
te caço, me acho
perdida em abraços

que nunca troquei
beijos que não dei

mas que compartilho
seguindo o trilho
dos caminhos que vão me levar
onde você está

entre cachoeiras, entre pantanais
numa tarde inteira visito teus quintais

visito você e pra não me perder
abro os olhos e grito que amo você
meu amor é mais.

 

Mariana Gouveia
Ph: Anouk Lacasse

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

— as porcelanas empoeiradas…

na mesa de cabeceira guardam segredos que eram repetidos apenas para o espelho. Depois que colocou o pano azul para cobri-lo nunca mais ousou pensar neles. Costurava a garganta todo dia para não cantar as canções daquele tempo em que a maresia trazia o balanço das ondas para o quintal. Vivia todos os dias a metamorfose de se regenerar… na dor. Era a asa quebrada, no vento forte. Precisava da mão para sobreviver. Queria leveza para que não doesse a alma — algumas dores nos fazem mais fortes — para que apenas passasse os dias com suas rotinas.

O medo — ainda bem — é passageiro… dá coragem para pousar, quando é necessário o voo.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

Encomende o seu exemplar:
É só chamar (11)99241-5985

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta de mim para mim…

Por fora
tenho tantos anos
que você nem acredita.
Por dentro, doze ou menos,
e me acho mais bonita.

Por fora, óculos;
algumas rugas,
gordurinhas,
prata nos tintos cabelos.
Por dentro sou dourada,
Alma imaculada,
corpo de modelo.

Por fora, em aluviões,
batem paixões contra o peito.
Paixões por versos, pinturas,
filosofia e amigos sem despeito.

Por dentro, sei me cuidar,
vivo a brincar, meio sem jeito.
Não me derrota a tristeza;
não me oprime a saudade;

não me demoro padecente.
E é por viver contente
que concluo sem demora:

é a menina
que vive por dentro,
que alegra
a mulher de fora !

Luan Jessan

Minha querida!

Às vezes, recuo no tempo para mapear os caminhos que você trilhou. Lembra-se dos tropeços dos 15 anos? Do seu olhar destemido dos 20? Da segurança dos 30 e da consciência dos 45, lembra-se?

Hoje, aos 55,com os cabelos brancos e algumas certezas e muitas dúvidas é como se aquela menina tivesse seguido uma bússola e que foi dar no instante de agora.

Você gosta de flores, pássaros, cães, borboletas, joaninhas. Não necessariamente nessa ordem e ainda falta itens nessa lista. De escrever, de se encantar com a vida miúda do seu quintal e da liberdade desmedida de amar sem medidas.

Escreve, costura, borda, cozinha e ainda sonha… rega a felicidade diária como se estivesse regando as flores nos vasos… chora como se estivesse limpando as vidraças da janela para ver melhor o que está de fora…

Hoje, essa mulher que você olha diante do espelho é apenas reflexo das tantas mulheres por ai que te inspiram… Hoje, você é essa forma moldada ainda inacabada… sua voz chega aos quatro cantos e ao analisar seus passos, concluo que eu e você seguimos um processo que nos permitiu estar onde estamos agora.

Cruzamos cidades, ruas, vilas, aldeias e florestas… As estradas sempre nos ensinou como caminhar. Muitas vezes, nos perdemos em atalhos que não nos levou em lugar algum e nos fez retornar ao ponto de início. Em outros, o atalho foi a melhor maneira de cruzar as pontes e chegar aonde queríamos… e quer saber? Se me fosse permitido voltar atrás e reviver tudo de novo eu faria os mesmos caminhos!

Feliz Dia todo dia das mulheres!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Floresc(S)er de amor

No lugar onde minha pele termina
começa seu nome em detalhes que te descreve.
O silêncio me orienta e em meio aos rumores do vento
só ouço o seu suspirar.
A minha voz te nomeia de flor

e a delicadeza do jardim, preenche em mim a fragrância do teu suspirar.
Dentro de mim chove sensações de sementes
daquelas que o vento espalha para nascer flor

Floresc(S)er de amor.
Em minha solidão
preencho você de mim.

Mariana Gouveia
Ph: Anna O.

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Personagens urbanos

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.
Oscar Wilde

Até onde as pessoas me alcançam quando atravesso a cidade e nossos olhares se cruzam – ou até nem cruzam – e me tocam na essência da alma? Busco captar alguns olhares e dentro dos gestos eles me tocam de alguma maneira. Vejo personagens que eram comuns na minha adolescência e que hoje são raros. Quando vi o menino engraxate, lembrei-me do meu irmão que logo que chegamos na cidade grande confeccionou sua própria caixa e foi para as ruas para ajudar nas despesas.

Em algumas andanças a coragem do moço que trabalha para a rede de energia me chama atenção e capto a singularidade e o desafio de lidar com a altura.

Meu olho vê o cenário triste que invade quase todas as cidades. Os invisíveis. É tudo tão desigual que me sinto mal ao retratar o que vejo, mas diante de uma encomenda para um jornal local, fotografo a realidade e a ironia na frase da placa.

A cena muda de lugar, e a realidade exposta em minha frente é um retrato cruel e me mostra o lado quase oculto das ruas da minha cidade.

Em contraste com o que vejo, a moça apita estridentemente para mim. Capto seu olhar e ganho um sorriso. Atravesso na faixa de segurança para pedestres e ganho um apito. A performance é para alertar sobre os acidentes de trânsito.

No ponto de ônibus, ele vende suas frutas. Já é conhecido por todos ali. Conta piadas, fala de novelas, BBB e futebol. Tem a fruta mais doce do mundo – confirmo que sim – e percebo que ele faz o seu melhor.

Esses são alguns dos personagens urbanos que meu olho acolhe. Alguns já se tornaram amigos. Outros, ganham minha solidariedade e acalanto. A vida e seus desiguais. Os iguais diante de tanta pluralidade.

Mariana Gouveia
Projeto Forográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Obdulio Nuñes Ortega, Lunna Guedes

Corredores, Codinome Locura

Esboço do sentir

As curvas medidas por mim, na simetria azul do crepúsculo enquanto ela pensa em flores. Esboço do sentir.
As ruas de um país distante descritas em um livro que quase ninguém leu. A história dela rabiscada em arte pura, como quem escreve em todos os idiomas, [o amor].

E a geografia exposta nos versos que canta enquanto as hortênsias azuis dão flores em um dia que não é primavera. A estação visitada em todas as fases e a lua passeando no céu [azul].

As escolhas das canções uma a uma falando de cor e ali, entre o arrepio da pele e a sonoridade dos dias eu invento um encontro imaginário e o vento a cantar as folhas em um dia natural de [de outono].

Mariana Gouveia
Ph: Sandra Silva