A alma saiu pela boca quando amanheceu — perdi a calma no instante seguinte — delirei no arder da pele. O amarelo da tarde povoa o entardecer… dá sentido para a estação do momento. As folhas do algodão caem secas no quintal. Coube na memória os dias de antes e de como a vida era colorida diante do espelho. Vagueia por aqui a borboleta que nasceu ontem. Quase um adereço na flor vinda de longe. Parece um quadro de parede, ela ali, intacta a saborear o néctar ao alcance da mão. Tem dia que o amarelo domina as horas dentro do dia… irradia sol na oração do tempo… é quando adivinho o verbo da cor.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar os quintais Scenarium Livros Artesanais
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Afinal, há coincidências.
falo isso por causa dos girassóis…
E aprendi palavras novas e sabores intensos
ementa…
bebida servida aos goles de sol
e minha voz te procura
e tua risada me sacia
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer coisa extraordinária. Qualquer palavra vira mimo. Qualquer segredo vira poema qualquer rosto vira o seu.
Sobressalto a cada toque da alma e aprendi a desenhar teu nome nos vidros das janelas dos ônibus (hoje, desenho corações que é uma beleza!) a conversar sozinha chamando teu nome.
Afinal, há coincidências.
Dessas de ver coração em tudo que é flor.
As nuvens criaram palavras no céu e o pássaro de todo dia renovou minha fé nas pessoas. As flores foram beijadas em outra estação e a meteorologia decidiu o que era explosão em outro lugar – pode chover a qualquer hora do dia – choveu e depois a lua deitou-se nas nuvens. Alguém faz previsão sobre o destino de amar. Pode a solidão vir estampada em dias de chuva? Tudo o que queria era adormecer no mar alto.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Livros Artesanais
“A gula começa quando deixamos de ter fome…” Alphonse Daudet
O melhor tempero era o que eu sentia junto com ela. Onde eu atiçava os desejos dela e os meus. O arder da chama, o cheiro dela e o querer de me querer era o prato que eu comia e repetia e queria e comia de novo. O gosto que invade a alma e a fome que alimenta o corpo e que mata vontades. Eu queria ter a gula da gula que ela sentia. Até fartar e depois querer mais. Até ser dela por inteira. As horas voavam no arrastar do tempo e ela dizia: – Insaciável! Nem a mim serve esse desejo, essa fome. E entre risos queria de novo e outra vez devorava as vontades. Era sempre as vontades e as privações. Quando a seda da roupa tocava a pele e era ela universo a incendiar minha alma. Mesa posta, fome de beijo, sede de boca. Ela me oferecia banquetes e eu sentia a fome da leveza que os olhos dela me oferecia. Na loucura doce de viver. Não conseguia imaginar minha vida sem ela. Mas devia. Era o rumo natural das coisas. A fome tinha outros paladares, outros pratos. Tão natural que fosse assim. Mas, ali, em pleno leito de amor eu só pensava que tudo isso podia durar para sempre.
Mariana Gouveia Série Sete Pecados Scenarium Livros Artesanais Ph: Tumblr
eu vi sobre a partida da borboleta. À princípio, eu chorei… Imaginei como seria o céu de borboletas…. Depois, Luci, percebi que esse é o caminho da vida… Seja ela de inseto,, de gente, de bicho. Aprendi desde pequena com meu pai que a lei da vida é imutável… Tem coisas, Luci, que a gente não pode fazer nada… Então, o que nos resta é fazer aquela oração da serenidade para aceitarmos o que a gente não pode mudar. Enquanto isso, que sejamos colo, Luci, que sejamos abraço e acolhida para quem precisar… Seja bicho, gente ou borboleta.
“Seja lá qual for o material que de que nossas almas são feitas, a minha e a dele são dos mesmo.” Emily Bronte
Geralmente, não faço um balanço dos livros que li ao longo do ano. Como disse em outros posts, minha estante é limitada. Não tenho muitos livros… minhas leituras ganham contornos com adoção de amigos, algum presente que ganho e os livros da Scenarium Livros artesanais que preenche minha estante com sua arte, fitas e histórias lindas.
2020 foi um ano diferente. Li muito e confesso que li bem menos do que gostaria. Comecei 2020 lendo Alice, uma voz nas pedras, romance de Lunna Guedes, como parte do Clube do Livro da Scenarium. Alice foi um golpe no estômago, foi falta de ar. Li Alice em 2020 três vezes. A primeira, como participação no Clube; a segunda, em uma leitura on line para uma amiga de Portugal, já em plena pandemia e por fim, a terceira, em um grupo de mulheres que sofreram agressões de seus maridos/namorados,etc. Embora já tivesse lido Lua de Papel – I, II e III – também de Lunna Guedes, na época de seus lançamentos, li novamente, da mesma forma on line para a mesma amiga. Receituário de uma espectadora, de Roseli Pedroso com suas crônicas deliciosas. Devo confessar que foi uma das coisas que me ajudou a suportar o isolamento, durante todo o período mais crítico.
O que sol fez com as flores, de Rupir Kaur foi um sopro de vida: “essa é a receita da vida minha mãe disse me abraçando enquanto eu chorava pense nas flores que você planta a cada ano no jardim elas nos ensinam que as pessoas também murcham caem criam raiz crescem para florescer no final”
O tempo da violetas, de Sarah Jio, O Morro dos ventos uivantes, de Emily Bronte devorei em quase uma semana os dois livros. Li também Razão e Sensibilidade, de Jane Austen… Foram os mais marcantes.
Foram 48 livros lidos entre janeiro a dezembro de 2020. Não dá para enumerar cada um, mas confesso que foi acalentador no ano louco que vivemos… A leitura me salva… os livros me fizeram mais leves… Comecei o ano lendo Aos Sábados, de Lunna Guedes e há mais quatro deliciosos livros a minha espera. E você? Qual livro está lendo nesse momento?
Contei dias. Vários. Depois de amanhã, amanhã, hoje… Eu poderia dizer ontem. Ontem eu ainda caminhava pela rua e via o por do sol e ao fundo o céu a encantava. Eu falava de destino, de dias sem explicação e ela queria tradução de tudo. Quase como que encantada eu digitava minhas impressões em teu corpo. Marcava as linhas que fazia o contorno do seio para agora, poder redesenhar na mente. Isso foi há dias, eu acho. Mas penso como ontem. E meu destino é sempre como o amanhã. Entre parênteses o gosto dela flutua no céu da minha boca. Seguido de dias que virão em memórias Eu posso rasgar os bocados dos dias… Posso somar as madrugadas onde eu aspiro o cheiro dela em cada lençol da manhã que rasga o sol. Eu roubo as horas em que fui dela e revivo tudo de novo. Minha casa tem atravessada a presença dela. A cadeira, permanece intacta como se esperando sempre. A distração me faz em cada frase chamar teu nome e vira canção nos dias que se seguem. Não posso roubar os dias do tempo. Posso absorvê-los como conta-gotas e preparar caminhos pra quando ela voltar. Posso viver todo dia como se fosse ontem. Não foi ontem, eu acho. Mas de tamanho sentir que tenho dela, parece que foi.
Leio histórias que lembram você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção. Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor.
Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a. Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar. Era quase nada essa distância – é preciso um certo encantamento para viver a vida – para superar esses corredores cheios da noite. Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem? Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal? Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.
Mariana Gouveia Ph: Nishe Entre a estação e a primavera