Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

tutela

Luci,

eu também já tive infinitas vezes – e ainda tenho, e sei que terei – alguma borboleta sob minha tutela. Já aconteceu de uma noite, sob intenso temporal, eu ficar com uma em minha mão e mesmo que eu colocasse ela arrumadinha – quase embrulhada – em algum canto, ela revoava e voltava para mim.

Eu acho que elas nem sentem o peso do mundo sobre elas. Elas apenas são. O meu quintal tem de área livre 20×10 e aqui, além do meu pé de ipê, de trepadeiras variadas, trapoeirabas azuis, orai pro nóbis com buquês que parecem feitos para noivas, orquídeas, lantanas e muito mais plantas, elas acham graça de vir para dentro de casa. Você já conhece a história do meu beija-flor Chiquinho… pois com elas ainda é mais engraçado… eu as chamo de bebês… e surgem casulos em cada lugar que você nem imagina. Passo horas vigiando, guardando elas também dos cães.

Algumas fazem o desvio no meu quintal, mas outras – atrevidas – ficam horas sob meu celular como se fosse ninho. Outras, resolvem usar minhas mãos como se fosse cama… Ah, Luci, tu ia adorar ver isso. Estendo as mãos e elas vem.

Depois disso, posso contar os dias e casulos começarão a invadir os galhos, as portas e os lugares mais inusitados que daria um livro. E sabe, Luci? Quando conto isso, muita gente duvida… tenho de mostrar fotos e provar… até parei de falar das borboletas. Algumas, nascem fortes e voam tão logo a asa sangre – sim, elas sangram – voam alegremente… Outras, ficam por aqui, como se meu lugar fosse abrigo… é o tempo delas…

Sei que isso é para poucos, Luci… a natureza reconhece seus iguais e nessa hora, confesso que me sinto diferente… privilegiada. E sei que você também se sente assim. Acompanho seus ritos, seus instantes e seus amigos que de uma forma ou de outra te buscam para se protegerem.

A vida é tão confusa, tão doida e doída que isso, nesse período que estamos vivendo me fez mais forte. É essa espera de vida que me faz seguir… lamentar pela vida dos que foram, chorar pelo que não posso mudar, mas tentando fazer diferença no que posso e sei que você também faz assim… por isso, te abraço através dessa carta e espero um dia, quem sabe, te abraçar dentro do meu quintal.

Beijo,

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Scenarium Livros Artesanais

Portas Abertas: Codinome Lucidez. Uma resenha.

Por Marcos de Farias

Conheci Mariana Gouveia num entremez, no hiato entre um e outro ato da ópera. Aconteceu quando me deu na telha começar a registrar o meu tédio na rede, ocasião em que pari um blogue. Bem, na verdade verdadinha veraz não conheci realmente à Mariana, somente à distância, enquanto lia seus escritos, de modo assim fantasmal, internético.
Mariana, a Gouveia, desde o começo gostei de pensar nela assim, cerimoniosamente, como se me dirigisse a uma castelã. Dona Mariana, dos Gouveias. De Goiás e Mato Grosso adentro.
Falava do que mesmo? Já se me esqueço. Não, relembro, quero escrever sobre. Homessa, nunca termino um período!
Bem, PORTAS ABERTAS: CODINOME LUCIDEZ, livro de Mariana Gouveia, que escreverei deste jeitinho, com as maiúsculas nos lugares errados, sapecando um itálico se o editor de texto suportar. Uma resenha, minha ambição. Mas queria muito mais, queria que não fosse a resenha laudatória habitual. Queria, quero mesmo, que seja uma conversa aqui do lado de fora sobre o que ocorreu no lado de dentro. Que seja este um texto que soe como um assobio despretensioso.
De Mariana, primeiro, conheci seu estro. Uma escrita sedosa, no seu blogue O OUTRO LADO (PORQUE O LADO MELHOR É O DE DENTRO). Depois os livros, como este Portas Abertas, com páginas atadas por fitas.
Portas Abertas é um daqueles livros na linha da declaração atribuída a Clarice Lispector, “gênero não me pega mais”. Não é confessional, mas é. Não há o narrador onisciente clássico. Mas é como se houvesse e a quem eu chamaria de comedido. Há fluxo de consciência, também comedido, quase a medo de ser desrespeitoso, toca aqui e toca ali, mas nunca se aprofunda. Há fluxo, mas o que informa, o que se nos dá a perceber são as pequenas coisas. Um teto, uma boneca, uma janela, um sofrimento, uma fotografia.
Um monólogo da personagem, Maria, um livro-razão de sentimentos. Liberta do manicômio, mas com ele dentro de si, se reconstruindo com as peças que tem à mão. Refazendo-se com pequenezas diversas, agregando silêncios.
Os americanos chamam de “Revelatory Plot” ao texto literário que aparentemente prescinde do enredo. “Kishōtenketsu” é o termo japonês para uma estrutura que não atende aos padrões ocidentais da escrita definida por suas tensões. Quem leu Yukio Mishima irá entender. Existe um centro, um fulcro e dele a escrita se irradia e, portanto, não começa e nem finda, mesmo quando há morte, mesmo quando se propõem finais. Assim também o “Portas” de Mariana, simples até a medula, como se toda a coisa pudesse ser reduzida a um momento íntimo, a um ato banal se irradiando em teia, como um cobertor definindo relevos.
Falei de Mishima e me vem à mente um seu conto no qual o motivo condutor é uma garrafa térmica que ao ser aberta produz um som que assusta a uma criança e partir disto levamos um tempo enorme de leitura para perceber que trata da história de um pai, exilado em um país estrangeiro onde encontra uma amante do passado. Ou uma frívola concubina imperial que corrompe um homem santo e no processo alcança a iluminação.
Aparentemente sem ponto de ancoragem, “Portas Abertas”. Só a voz de Maria e o enredo dos dias.
Portas Abertas: codinome lucidez é um livro que tem primeira página, depois outras e mais outras.
E, se você o encomendar, virá atado em fitas (uma ideia linda, um achado da editora, a Scenarium) e necessariamente você cogitará que alguém o montou, assim, despretensiosamente, com fitas unindo papéis diversos.
Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o livro e sobre Maria e sobre Mariana, a Gouveia, de Goiás e Mato Grosso adentro.

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Vi um coração rabiscado no muro.

Desenhei na folha de papel para o menino que eu achava que fazia anos. A flor cabia na docilidade do dia. Na vitrine uma floresta falsa com sonhos de mentira. A torre da cidade-luz exposta como se fosse uma ponte por onde passar e chegar. L’a hamorny no salão da Esquina — tudo tinha coração em cada coisa — até a flor imitava no jardim.

A semente do amor-agarradinho se derreteu pela asa com amor em dobro. Deixava a vida de cabeça para baixo esse tal de amor. Cabia saudade em cada grito. A alma responde em ecos onde nem o coração escuta. Tem dia que o coração se desfaz feito reflexo de lua na piscina quando a luz se apaga.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura

Petulância

 

Que petulância da moça,
que, depois de roubar-me a alma
atravessar um oceano de possibilidades
levar ainda meu juízo e calma
me colocar num mar de imprevisibilidades,
deixar-me escondida dentro dela
ainda me pergunta se tenho alma pra ela.

Mariana Gouveia
in, O Lado de dentro

*imagem:  Stumble Upon

Corredores, Codinome Locura

Néctar

 

Gostava das frutas que via
Lambia
Como se fosse o néctar mais doce da vida.
Sentia ela em cada mordida.
E era como se fosse o manjar dos deuses.

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

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dos dias que chovia…

gostava do barulho da chuva no telhado. Parecia um mantra entoado pela natureza. Gostava também das brincadeiras com os irmãos. Faziam cabanas debaixo da mesa… o lampião a iluminar a noite. Os vultos a relembrar as histórias do pai sobre assombrações… Um a um tentando parecer que não tinha medo das coisas. Os grilos, em algum lugar a tocar sua melodia. Lá fora, os raios a cortar o céu. A mãe a contar histórias que lia nos livros.

Um bolo a assar no forno e o chá de erva doce a exalar perfume do instante marcado para sempre — todas as vezes que o cheiro, de uma forma ou de outra invadia os lugares onde passava — e por isso, adorava os dias de chuvas e hoje, dentro da estação das águas, as lembranças traziam saudades.

Mariana Gouveia
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dos dias de chuva…

Listei os livros que li. E acabei perdida dentro das histórias de que me lembrava. Escolhi nova tatuagem e a frase do dia para a rotina das horas. O vento é esse menino travesso que traz a chuva pelas mãos. A árvore maior sem folhas, o galho sendo motivo de asas. As palavras escritas em um idioma noturno. A história da flor contada de mil maneiras diferentes. Era uma vez… o tempo que acabou. Rio abaixo, todo vento é torto. As flores traduzem a expressão da semente. O coração é essa ocupação constante dos sem ninguém. A lista. As regras. A colheita… perderam-se. As fragilidades secretas traduzem a cor que o jardim inventa.

Mariana Gouveia
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dos pousos

Tem dia que é esse vento morno, feito pouso de pássaro no fio fino do poste da rua, no fim da tarde. Tem dia que a vida vai feito voo de pássaro e que some no horizonte e você fica a buscar a nuvem, ou a esperar que a ave volte e te encante de novo com novos voos e outros pousos. Mas a vida é esse sumir no espaço quando o espaço muda de lugar. Agora, o tempo é outro… o vento chega e vira sopro na alma e de repente você entende que não perdeu os abraços que não deu, mas que perdoou os abraços que não ganhou. Agora, o tempo é de resignar e acreditar nas palavras que o coração traduz em saudades, até o próximo voo.

Mariana Gouveia
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Os bordados…

Ficava horas olhando os vestidos na vitrine da loja da rua do Meio. Alguns, lembravam a infância para além das costuras que a mãe fazia. Passava horas a espiar a mãe e a irmã a rabiscar os moldes, os cortes e por fim, o bordado. Apaixonou-se pelo bordado livre e desenhou na mente as flores e as cores todas. Carregou os sonhos através dos anos e foi aprimorando a arte das agulhas. Não costurava, mas fazia o acabamento e os bordados com dedicação. Às vezes, desejava entrar, tocar cada um dos bordados depois de prontos. Reconhecia os pontos feito à noite, entre o sono e a insônia. A flor que madrugava dentro das mãos, nas saias rodadas que o manequim vestia. As borboletas quase saiam voando fora do tecido, a espalhar asas no rodado da saia e quando vez ou outra cruzava com alguém que trazia o vento na saia e as borboletas voavam em volta, ela sorrindo dizia: eu que fiz!

Mariana Gouveia
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Aberta a temporada de ventos.

As cortinas dançam e eu me distraio com os movimentos – sinto-os do lado de dentro. Na véspera, a previsão do tempo é dedicada as flores. Reparei que as coisas do amor residem na véspera, mas, tudo acontece no dia seguinte.

Mariana Gouveia
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Ph: Ivânia Bezerra

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