Sua implicância com os telefones me fez sorrir diante da tela desse smartphone que, por ironia, nos conecta enquanto enfrento os mais de trinta graus que o inverno de Cuiabá insiste em manter por aqui. Compreendo perfeitamente o nonno: há invenções que parecem rasgar o tempo sagrado das coisas. O som estridente daquela campainha antiga invadindo o casarão soa quase como uma profanação perto do bater solene do carrilhão, o verdadeiro cuore da casa. Uma casa precisa de batimentos, não de sobressaltos.
Eu demorei para ter um telefone e o primeiro, segundo meu filho, era da idade da pedra. O telefone da rádio para mim, na época era o mais legal. O que trazia pedidos de músicas e notícias mundo afora. O fio que trazia a notícia do mundo, era o mesmo que falava sobre as partidas de alguém que a gente amava, era também o que aprisionava a urgência. O tintilar da ficha caindo do outro lado quando o aparelho chegava aos ouvidos tinha o som de alguém que me ouvia pelas ondas do rádio. A vida antiga tinha outra velocidade; as dores e as alegrias viajavam devagar, no lombo dos cavalos, bicicleta ou no balanço dos vagões, carimbadas por selos e envelopes. Havia um tempo justo para digerir a saudade entre a escrita e a resposta. Hoje, a pressa nos rouba o direito ao recolhimento. E há os que se incomodam quando não respondemos na hora em que recebemos a mensagem.
Acho que também fujo dos diálogos longos. Quando a tagarelice alheia ameaça o meu silêncio, eu me recolho para dentro do casulo. Dou três voltas no quintal, ajeito uma planta, observo a lentidão do Yoshi, e seus passos cada vez mais curtos. O silêncio acontecendo e sendo interrompido apenas pelo toque da mensagem e por falar em mensagem, gosto de ouvir o som digitalizado do sapinho que você escolheu para as tuas. É como se eu estivesse perto. No meu, o som é Surrender, de Laura Pausini que amo.
Desativar o som é uma maneira de comandar a vida e esperar a hora certa para a resposta. É escolher a própria órbita. Enquanto o mundo corre lá fora atrás de notificações imediatas, eu sigo aqui, blindando o meu canto e preferindo a calmaria dos papéis que esperam pelo tempo certo de serem lidos. Meu pai já dizia que desligar o mundo é o primeiro passo para conseguir ouvir o próprio coração.
Que assim seja!
Mariana Gouveia














