Afetos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Em busca da manhã que se foi embora.

A manhã se foi faz tempo e, agora, uma tarde barulhenta acontece aqui fora. Trago comigo seu livro Vermelho por Dentro. Senti vontade de folhear e revisitar essa trama mais uma vez; quase a sei de cor, de tanto que a li.

Coloquei a canção para tocar e vivenciar esse momento é como ser levada pelas mãos para dentro das páginas e da cor. É como se Paris estivesse bem ali na esquina. Vou seguindo as personagens com a deliciosa sensação de um voyeur.

Gosto muito da trajetória de Eva e Deborah. Admiro a intensidade de Deborah, mas confesso que sou apaixonada por Anne. Talvez a paixão compartilhada pela fotografia tenha nos unido. Novamente me vi envolvida pelo enredo, com o frescor de quem lê tudo pela primeira vez.

[…]

Ele espera pelo último minuto e, com sua voz de menino-homem,
sussurra em seu ouvido:
— Passa o resto da sua vida comigo?
E nada mais teve importância.
A tarde caiu e o sol adormeceu no poente.

[…]

Depois disso, não é a manhã que eu busco, mas sim a permanência dessa sensação de déjà vu.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Um bando de demônios maliciosos.

Não assisti a esse filme, mas meu coração se enterneceu quando você citou o cãozinho. Lembrei-me de tantas histórias onde um animal salva a vida de alguém. Também sei de casos em que as pessoas adotam animais e os abandonam logo depois, seja porque dão problemas ou por qualquer outro motivo.

Lembrei-me do homem da reciclagem que passava na minha rua catando garrafas PET e latinhas de cerveja. Logo que mudei-me para este bairro, eu o conheci; todos diziam que ele era ranzinza e mal-humorado. Meus cachorros sempre anunciavam quando ouviam o chiado das rodas da carroça que ele empurrava. Nosso primeiro encontro não foi bom. Ele não respondeu ao meu boa-noite e saiu resmungando alguma coisa que não entendi.

Dias depois, vi-o novamente e ofereci algumas latas que eu guardava para reciclagem. Ele esperou que eu as pegasse, fez um muxoxo e seguiu rua afora. Mas, um dia, ele apareceu na minha porta com um pequeno cão enrolado em uma coberta maltrapilha e pediu socorro. Ficou sabendo que eu apoiava um projeto de animais abandonados. O cão havia sido atropelado e ninguém ajudava. Alguém falou de mim e ele veio buscar auxílio. Acionei a equipe das meninas e o cão foi internado. Durante alguns dias ele aparecia para saber do animal, que se recuperava e ficou bom em pouco tempo.

Informei-o de que o cão precisava ser adotado e ele disse que o queria. Fizemos todos os procedimentos e o cãozinho ganhou um lar. Acompanhei de perto o crescimento do Pirata — nome dado pelo seu dono — e era lindo ver a transformação daquele homem rude em um senhor risonho, que agora passava pelas ruas cantando. O amor pelo animal mudou a maneira de ele enxergar o mundo. O cão tornou-se seu fiel companheiro e o seguia em suas rondas pelas ruas do bairro, em busca de materiais recicláveis.

Nos falamos esses dias sobre sua mudança e ele apenas riu. Tirou o chapéu e curvou-se, seguindo seu rumo com seu cão por vezes na sua frente, por vezes, atrás… e ele entoando sua costumeira cantoria rua afora. De certa forma, o mundo dele se tornou o melhor possível diante do animal que ele salvara, fazendo-me sempre perguntar quem salvou quem.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Meu pensamento, ao acaso, vagando.

Minha mãe dizia que há algumas pessoas destinadas a nós. E que o universo sabe-as bem. Então, ele embaralha suas cartas, move as pedras e daí cruza as esquinas e faz com que as histórias se misturem. Dizem até que a probabilidade de duas pessoas se encontrarem e terem algo em comum é uma em duzentos mil... Conhecer alguém é uma em dois  milhões. Ficar próximo dessa pessoa, uma em vinte milhões… Chamá-la de amiga, uma em duzentos milhões

Chamá-la de sua, uma em dois bilhões e por último, encontrar sua alma gêmea é uma em seis bilhões…Nós duas quebramos algumas das probabilidades. Quebramos algumas barreiras e interligamos nossos quintais e lugares. A simbiose de uma ouvir uma música e a outra ouvir a mesma canção em outro ponto do mapa chama-se de sincronia.

Quando eu te encontrei através de uma missiva, vários fatos nos uniram e quando nos unimos num abraço os corpos souberam a magia de ter uma pessoa favorita sua num universo pleno de pessoas aleatórias. Rimos por bobagens e de coisas sérias, choramos em vídeos bobos e memórias trocadas, ficamos embriagadas pelo simples fato de um vagalume bater as asas aqui e muitas vezes, sem nem nos falarmos sabemos uma da outra. O silêncio muitas vezes, fala por nós. E nossos pássaros voam em desvios nos nossos quintais.

Eu a chamo de bambina mia, porque assim você o é. Você me chama de caríssima e isso soa tão caro em mim. É a minha lua em todas as fases e meu cuore batendo em outro corpo de uma maneira que só ternura e afeto podem descrever. E junto com as sementes e os pássaros do meu lugar. Você é meu passarim que vive na palma do meu coração.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

A beleza do corpo é um dom sublime.

Ph: Tumblr

Em alguns momentos,
quando o corpo tem planos,
a mente desenha os instantes automaticamente.
A pele apenas obedece aos instintos.
O detalhe é tão somente o desejo.
As linhas do corpo, traçadas na leveza das mãos,
quase como quem pede o toque.
Suspira.
Sussurra.

O eco da brisa lá fora
faz o silêncio se expandir em farfalhar de mãos e gestos.
O sabor que sacia o querer.
O corpo nu, a carícia,
e a pele que se mistura às delicadezas do sentir.
É como invadir lugares secretos,
nunca antes explorados.
A rota feita nas memórias dos dedos,
onde o prazer arde e suaviza os anseios.

As mãos sendo as guias
entre o cheiro e o tato.
Os olhos buscando lembranças das cerejeiras
que um dia banharam seu corpo de flor,
fazendo dele um itinerário de jardim.
A beleza das coisas,
os pormenores no gesto,
e a vontade se faz.

Os desejos nas pontas dos dedos
evocando o gesto puro do prazer…

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dissolve a inquietação no azul.

Fiquei pensando no título que você me enviou e percebi que de azul mesmo por aqui, hoje, só teve mesmo o azul do vaso de hortênsias. Lembrei-me de você e da carta que escrevi para Baudelaire – desafio feito por você.

Foi em um abril qualquer no qual falei sobre como o poeta foi proibido para mim por algum tempo pela minha mãe que sempre o ligava ao mal.

O que passou depois que expliquei a tal “maldade” que ela recusava a saber-falar-pensar como se isso fosse trespassável pelas agruras que nos atingiam. Ela entendeu que nada do que falávamos tinha o poder de agir sobre nossas vidas, a menos que a gente deixasse, e pude então ler o poeta sem culpa.

Pensar que ele levou 27 anos para finalizar sua obra mais conhecida e respondendo sua pergunta: acho que não. Acho que os autores atuais são do tempo da urgência, do agora, dos likes, dos acessos. Achei incrível a disciplina dele em esperar esse tempo todo para ver o livro pronto. Na carta, eu o convidava para um café e contei a ele sobre amores, partidas e saudades. Talvez, hoje, eu mudaria a temática das linhas.

Aqui chove mansamente, o frio aumenta à medida que a noite avança. Confesso que já penso em cobertor e aconchego, mas antes, vou ali fazer uma sopa de carne com batatas. Aceita?

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sou eu — esta mulher que anda comigo

Bambina mia,

o dia de hoje antecede o dia frio que se aproxima. Aqui, já não predomina o céu azul e as nuvens de chuva – disse a moça do tempo – cobrem o céu todo. Já é possível sentir o vento mais frio do que o normal. É o inverno vindo contar suas histórias e me fazer reclusa mais uma vez. O alerta se repete há dias a mesma frase: alerta de frio intenso. Abaixamento de temperatura… só isso já me assusta. Sou da cidade do sol, você sabe.

O outono me enganou lá em fevereiro… o meu quintal tem inventado estações sobre outras. O ipê desfolhou-se inteirinho em fevereiro e o cheiro das folhas secas pela manhã me carrega para dentro de sua estação favorita. Culpada! E onde foram parar os dias de outono mesmo? Se perderam no calendário da folhinha da cozinha.

Não te falei que as estações se fazem aqui? As flores da lanterna chinesa se abriram e vários botões estão a nascer. A flor é ensolarada. Me encanta a maneira que as cores se misturam e se oferecem em luzes aos olhos de quem passa por aqui. E a palavra flor nos embala sempre nas manhãs, bambina.

Mas agora chove… uma chuva sem muito alarde, apenas acompanhada de um vento frio, assim como a moça do tempo falou. Uma ternura imensa me abraça enquanto leio sua missiva. Há dias em que o clima lá fora nos obriga a abrir os baús de dentro. É onde um respiro de afeto para aquecer os dias pulsa no cuore… Ontem mesmo me dediquei um tempo ao baú, onde guardo os envelopes coloridos e me perdi nas datas e estações que atravessamos. Pelo calendário dos homens, como você costuma falar, já são tantos anos. Pelo nosso calendário, a poesia se desmancha em dias, risos, afetos, meu passado e seu futuro e não ouso ultrapassar isso.

Amo tu imenso!
Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Lua de Papel · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Aflição de ser eu — e não ser outra…

Quando li Lua de Papel me encantei pela Alexandra. Talvez seja porque a reconheci em outra pessoa não tão simples como ela, nem nascida em Teodoro ou algo similar, mas com outro nome e outro sotaque que não o do interior. Porém, com as mesmas inseguranças e medos.

A conheci em um século passado, em um site de fotografia. Me encantei com as nuances arquitetônicas dela e ela se encantou pela natureza peculiar em minhas fotos. Depois foram as leituras que nos fez aproximarmos. Ela amava Pessoas e suas tantas pessoas e eu Cesariny e assim, a rua de cima se transformou em além mar. O oceano era logo ali. Com outro nome que não Alexandra, se desenhou em palavras que nunca seria porque temia o que o outro fosse pensar.

Dizia-se dona de seu destino, mas atrevia a ceder a decisão para a mãe e irmãs. Quando atravessou o oceano, quase a contragosto dos seus se apaixonou pelo meu lugar, mas estranhou a riqueza do simples. Era tudo tão exótico e natural. Saiu a fotografar meu mundo e se espantou com os dias felizes. Queria ditar regras, normas que ela mesma não seguia… se perdeu em um coração cheio de cicatrizes e exigiu um lugar que acabou perdendo. Queria café e sol. Chuva e o frio que nunca havia existido aqui.

Quando lia Alexandra me espantei com as escolhas que eu já sabia quais seriam antes mesmo de terminar o livro e já sabia que o final seria o mesmo que a insegurança a fazia normal, diferentemente das certezas que declamava de própria boca. Cobrou um amor que nunca deu, mesmo o achando o mais bonito do mundo e a culpa de nunca se encontrar foi colocada em mim, como uma vestimenta que incomoda e machuca.

Assim como surgiu, desapareceu, igual a uma personagem de livro que some quando fechamos o livro. Ficaram só as fotografias de um tempo que parece que nem aconteceu. Parece história de livro, contada depois apenas como memória e que só de vez em quando é lembrada quando limpamos a estante onde os livros dormem.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Em tudo… a cor e a vontade de ver além das distâncias…

Quando li seu texto as cenas de sua cozinha movimentaram minha mente e mais uma vez misturei minha história na sua. Minha bá deixava o caldeirão preto na trempe do fogão de lenha e ia pescar, catar ervas, colher folhas e frutos. Minha mãe ia para a horta buscar os legumes, temperos e na despensa pegava alguns dos defumados que ela mesma fazia, enquanto as panelas iam aquecendo. Já meu pai ia para além da porteira e voltava com os tubérculos… batatas, mandiocas, abóboras e cinco espigas de milho. Enquanto isso, alguém fazia o queijo ou o doce. Os tachos de cobre ferviam no fogão do barracão e nós lavávamos o que ia ficando sujo. Ouvia-se os risos das mulheres por causa da piada de algum engraçadinho e os aromas antecipavam os sabores.

Eu estive algumas vezes na sua cozinha e pude caminhar em sua rotina dos preparos e da leveza que isso acontecia na casa. Era o desenho, dentro de cômodos pequenos de uma dimensão do que se viveu. Aconteci com você na sua feira e pude comparar as escolhas de ingredientes… claro que é diferente das colheitas de minha mãe, mas é um esbarra de esquinas onde em tempos diferentes se escolhe algo com amor. Mas, também, seu texto me levou para a herança de quem ficaria com esses rituais, como se cada família vivesse esse tempo, esse rito.

Eu escolhi ser mãe e fui… de três. Mas, somente um sobreviveu e confesso que não terá essa herança de temperos, comidas feitas porque ele resolveu voar pelo mundo logo que cresceu e com exceção da farofa de cenoura feita por mim e do “arroz sujo” feito pelo pai a sua história com alimentação foi nesses voos feitos mundo afora. Aprendeu a comer coisas que nem imaginaria se estivesse aqui e a criar pratos que, seríamos nós que teríamos essa herança dele.

Mas você já deixou rastro aqui, mesmo sem ter conhecido de perto o moço fantasma daqui ele busca algo que te lembra sempre por sua nacionalidade. Seja na almôndega feita do modo dele, do hino do tuo país que toca em alguma cerimônia oficial, do voo do tucano – que você ia gostar – da faixa com um poema que alguém pregou na rua de cima em dedicação ao amor… A sua presença aqui cabe nos risos que trocamos, na gargalhada que ele ouve quando falamos por mensagens e até nos trovões que lembra você… Então, bambina, independentemente de onde seja ou que venha a semente que você plantou em mim gerou frutos para além de minha ternura e afetos. Por pura e simplesmente escolha de gostar de você.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Cresci, elegi palavras – qualifiquei afetos.

Gosto quando nossas palavras se esbarram umas nas outras e decifram códigos entre os afetos de nossos quintais. Saio mais cedo para o passeio com o cão, antes do seu acordar. Depois, as palavras nos alcançam em diálogos aleatórios, juntamente com os castanhos das folhas que encontramos em nossas andanças.

É engraçado a minha palavra casar com a sua no pássaro que mia, no gato andarilho da rua que vem pedir comida ao meio dia e de como suas suculentas adoram a água ignorando todos os contrários. Da gata daí que rouba instantes no escadote que tuo menino fez… é esse instante que me calo e quando eu coloco as palavras cantadas para se fazerem vozes na canção que você escolheu. Seria isso um desvio para atravessar canções?

Quando a farfalla se metamorfoseia aí, a borboleta daqui alaranja para enumerar travessias nesses dias de junho. E quando o céu se fez voz em um trovão, mesmo tendo saltado os dias de maio, a tempestade também coube nas palavras dos deuses da natureza. Foi bem ali, no quadrante do meu lugar que gritei seu nome e gravei o instante enquanto você espiava o manacá com suas nuances de cores.

Alguém já te disse que as palavras atravessam espaços e ganham contornos de poesia? Do passeio com o cão ao som da tábua nos cortes de legumes. Da canção no repeat ao comentários bobos dos memes… a palavra nos atinge assim como as sementes que plantamos. Do espanto da germinação ao fato de uma planta que não resistiu. Assim somos esse linguajar em diferentes idiomas, mas que se entendem dentro do mesmo afeto.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Distantes os hemisférios e as relíquias da memória.

Quando você fala sobre um dia frio, lembro-me da música do Djavan que seria um bom lugar para ler um livro em um dia frio – não necessariamente nessa ordem, claro! – e o pensamento lá em você depois da receita do caldo que você falou.

Fiquei a imaginar quais seriam as minhas comidas de frio, o que é raro morando em Cuiabá – se bem que já está quase se tornando comum os 16º que acontece agora, com uma garoa insistente – eu sempre penso em sopa, que talvez, seja diferente da sua. A minha sopa é a moda goiana… frango ou carne, depende do que se tem no dia, batata, cenoura, pimentão, berinjela, – eu nunca mais consegui perceber o sabor de berinjela da sopa que a minha mãe fazia – cebola, alho, e as especiarias como pimenta do reino, orégano, cominho – que eu não abro mão – e o macarrão tubinho.

Algumas vezes, ela fazia com espaguete, porque era o que tinha. Colocava-se para ferver e aos poucos o sabor ganhava a casa inteira… o cheiro da cebola, dos legumes e a gente ao redor da mesa aguardando o prato fundo cheio daquela iguaria. Eu tinha 12 anos quando comi pela última vez a sopa da minha mãe e depois, eu mesmo tive que fazer para os irmãos. Nos anos seguintes a doença da minha mãe não permitiu que ela ficasse com a gente por muito tempo e aquela sopa cheio de sabores e intensidade que unia nossa família aos poucos foi diminuindo na panela. era um ou dois dos irmãos nos dias frios e os outros ganharam o mundo e as irmãs mais velhas foram cuidar da sopa da própria família.

Aqui em casa sou só eu e meu marido, mas mesmo assim com todos os ingredientes eu não consigo resgatar aquele sabor do qual sinto tanta falta, assim como do paletó de flanela, porque acho que falta o principal: a atenção da minha mãe ao redor do fogão nos contando sobre a vida. Quanto à sua pergunta, confesso que não sei a resposta. O que sei é que temos de viver os dias como se fosse o último, porque não sabemos de como será o amanhã.

Mariana Gouveia