Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A cadeira esquecida no quintal, a luz da rua sem pretensão de ser, apagou…

A alma saiu pela boca quando amanheceu — perdi a calma no instante seguinte — delirei no arder da pele. O amarelo da tarde povoa o entardecer… dá sentido para a estação do momento. As folhas do algodão caem secas no quintal. Coube na memória os dias de antes e de como a vida era colorida diante do espelho. Vagueia por aqui a borboleta que nasceu ontem. Quase um adereço na flor vinda de longe. Parece um quadro de parede, ela ali, intacta a saborear o néctar ao alcance da mão. Tem dia que o amarelo domina as horas dentro do dia… irradia sol na oração do tempo… é quando adivinho o verbo da cor.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Ainda sobre Luci e a borboleta

Luci,

eu vi sobre a partida da borboleta. À princípio, eu chorei… Imaginei como seria o céu de borboletas…. Depois, Luci, percebi que esse é o caminho da vida… Seja ela de inseto,, de gente, de bicho.
Aprendi desde pequena com meu pai que a lei da vida é imutável… Tem coisas, Luci, que a gente não pode fazer nada… Então, o que nos resta é fazer aquela oração da serenidade para aceitarmos o que a gente não pode mudar.
Enquanto isso, que sejamos colo, Luci, que sejamos abraço e acolhida para quem precisar… Seja bicho, gente ou borboleta.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

tutela

Luci,

eu também já tive infinitas vezes – e ainda tenho, e sei que terei – alguma borboleta sob minha tutela. Já aconteceu de uma noite, sob intenso temporal, eu ficar com uma em minha mão e mesmo que eu colocasse ela arrumadinha – quase embrulhada – em algum canto, ela revoava e voltava para mim.

Eu acho que elas nem sentem o peso do mundo sobre elas. Elas apenas são. O meu quintal tem de área livre 20×10 e aqui, além do meu pé de ipê, de trepadeiras variadas, trapoeirabas azuis, orai pro nóbis com buquês que parecem feitos para noivas, orquídeas, lantanas e muito mais plantas, elas acham graça de vir para dentro de casa. Você já conhece a história do meu beija-flor Chiquinho… pois com elas ainda é mais engraçado… eu as chamo de bebês… e surgem casulos em cada lugar que você nem imagina. Passo horas vigiando, guardando elas também dos cães.

Algumas fazem o desvio no meu quintal, mas outras – atrevidas – ficam horas sob meu celular como se fosse ninho. Outras, resolvem usar minhas mãos como se fosse cama… Ah, Luci, tu ia adorar ver isso. Estendo as mãos e elas vem.

Depois disso, posso contar os dias e casulos começarão a invadir os galhos, as portas e os lugares mais inusitados que daria um livro. E sabe, Luci? Quando conto isso, muita gente duvida… tenho de mostrar fotos e provar… até parei de falar das borboletas. Algumas, nascem fortes e voam tão logo a asa sangre – sim, elas sangram – voam alegremente… Outras, ficam por aqui, como se meu lugar fosse abrigo… é o tempo delas…

Sei que isso é para poucos, Luci… a natureza reconhece seus iguais e nessa hora, confesso que me sinto diferente… privilegiada. E sei que você também se sente assim. Acompanho seus ritos, seus instantes e seus amigos que de uma forma ou de outra te buscam para se protegerem.

A vida é tão confusa, tão doida e doída que isso, nesse período que estamos vivendo me fez mais forte. É essa espera de vida que me faz seguir… lamentar pela vida dos que foram, chorar pelo que não posso mudar, mas tentando fazer diferença no que posso e sei que você também faz assim… por isso, te abraço através dessa carta e espero um dia, quem sabe, te abraçar dentro do meu quintal.

Beijo,

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tenho uma solidão…

para esse nome das coisas.
Virei perfume dentro das suas palavras. Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela. O calor assolou o cerrado e a meteorologia colocam vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão, não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga.
Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetido exaustivamente no sistema. O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio.
A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Plural Editora

Corredores, Codinome Locura

As borboletas nascem pela manhã.

Eclipse lunar e o quintal se prepara para o nascimento. A mudança acontece de dentro para fora e as sombras refletem as asas que logo voarão e alcançarão a liberdade.
A flor da pele, o brilho e a dor da metamorfose, porque as transformações são necessárias.
O que é frágil se fortifica no inesperado.
As borboletas nascem pela manhã.

Mariana Gouveia
Projeto: Na rota das borboletas – do voo ao pouso.

Das palavras das cartas

Pai,

Pai, mais uma vez venho aqui, nessa data dizer do meu amor e consagrar seu dia. O abraço eu queria dar pessoalmente, mas a distância é sempre esses 730 km de estrada entre a gente. O céu amanheceu bonito aqui e no seu mês, me permito falar das borboletas – lembra como desde cedo eu corria atrás delas? – e aqui no meu quintal, parece desvios delas rumo aos quintais. Aparecem tantas aqui, que algumas já fizeram morada no pé de mentrasto.
Pois é, pai… Eu consegui plantar mentrasto, que descobri ser a erva de São João e as borboletas amam as florzinhas que, na minha infância faziam parte dos chás curativos. Ali também tem as flores do campo e a erva cidreira… Devo te lembrar que tudo isso me leva ao senhor. Muitas vezes, eu planto algo só por me remeter ao tempo em que vivia sob seus cuidados. Hoje os tempos são outros e embora sua lucidez esteja preservada, você não entenderia os tempos de agora. Por isso, é bom te ver nas chamadas de vídeo apenas rindo ao me reconhecer ou simplesmente me emocionar com teu silêncio.


A vida te faz forte e assim, vamos seguindo dentro dos dias.

Feliz aniversário, pai!
Te amo!
Mariana Gouveia

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – dia 11 na folhinha

Alguém disse que tenho de molhar o jardim… outro alguém disse que já fiz isso.
Lembro que foi a um século, sugerindo sede.

” a alma sedenta procura oásis”

Tem um cartaz assim no meu quarto… ele disse que fui eu quem escreveu nos tempos da seca.
Bordei a palavra antes do tempo…
As folhas caem e todas têm formas de coração – mania de ver coração em tudo que vejo – ele me disse que isso é coragem.
Tenho medo da coragem que ele me dá.
Arranquei a folhinha que fala do dia de ontem. O nome da santa do dia é o mesmo dela.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – jardineira

E o dia trata de respirar saudades. Nascem flores no meu quintal.
Talvez um dia, eu mude o jardim de lugar.
Talvez um dia eu plante outras flores, outras plantas. Mas, hoje revivo na flor que se abre, a função especial da semente.
Nascem flores que vieram de um país distante.
Cavouco a terra para novos plantios. A palavra jardineira tem sentido nessa hora.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 — Serendipity

Quando esse tema chegou até a mim, fiquei a imaginar quais seriam os instantes que eu colocaria nas palavras.
O acaso vive me trazendo momentos quase que diários onde meu suspiro vai de encontro ao inesperado.

                                                                                                   ” O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar”
Titãs


Logo nas primeiras horas da manhã, a sorte me chama no amor do pássaro de todo dia que o acaso traz para meu quintal. Chiquinho é a emoção diante do inesperado gesto de pousar em meus dedos… ou sobrevoar meu pescoço em busca do afago nas asas. É como se um elo entre a natureza fizesse o sopro do acaso em minha vida.

Na rua de cima, me deparo com a leveza do ipê, como se beijasse a rua e as calçadas – e ainda nem é tempo deles se despertarem para as flores – que tem no mês de agosto sua florada magistral. Mas quem disse que o acaso não pode ser vivido dentro da rotina?
A extensão da rua, logo depois da casa da esquina, a pétala que cai, o cão que late a espera do meu bom dia – ou do biscoito que trago todo dia para ele – e meu afago em sua cabeça é sinal de confiança.

As múltiplas opções que o acaso me desenha vai desde uma árvore quase morta cheia de pássaros em meio a um trânsito caótico e o dia fechando as portas rumo ao poente e um coração de pedra, com as cicatrizes que a natureza causou logo acima da rua do meio.

O cheiro da garoa – que mais parecia uma chuva fina – caindo sobre a grama me trouxe a serenidade para além dos dias tumultuados e dentro da palavra serendipity, uma visita acalentou o dia.

E como se não bastasse um pouso, a vida de asas faz festas no focinho de quem sempre tem olho mágico diante da vida. Tudo é tão cheio de singularidades que a melodia do vento faz jus à sinfonia do silêncio que impera na alma.

Como Pasteur disse: “O acaso favorece apenas a mente preparada“. Mas para absorver as felizes descobertas ao longo dos dias, devemos ter o entendimento de aceitar o inesperado e reinterpretá-lo com o coração.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega Maria Vitória

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Para quem voa é permitido o infinito

Para quem voa

“Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico.
Mas são poucos os que têm coragem de tentar.”
Rubem Alves.

Ouço a melodia das asas no meu quintal e transporto-me para a dimensão das lembranças.
Vou te contar como aconteceu esse amor alado e talvez só depois, entenderá que sou feita de asas.
O dia, era qualquer coisa entre 30 de um friorento junho e o dia primeiro de julho. A água no fogão de lenha sempre aquecida na espera de um nascimento rompante. Todos a postos na cozinha, na sala e o pai, entre a agonia de ouvir o choro ou o grito da Dona Fulô, dizendo nasceu – foi assim com todos os três primeiros filhos.
Lá fora, uma garoa fina os mantinham ali, próximos do fogão a lenha e na atividade de picar a galinha para o caldo.
O olhar da parteira era preocupado. Levava muito tempo entre dores, contrações e quietude. A cidade ficava um pouco longe. E foi ali, entre a espera e a busca de ervas para um banho ‘apressador’ de nascimento que ela viu as asas. Um movimento frenético de quem se afogava e tentava sair da poça.
Invocou os santos todos que conhecia e salvou a borboleta que debatia desesperada para voar.
Um voo meio desequilibrado e sem jeito e um pouso forçado na dobradiça da janela.
E ali, entre o espiar da borboleta colorida, depois de uma manhã inteira de esforços, eu nasci.
As mãos de Dona Fulô me trouxe ao mundo e como era costume presentear quem nascia com uma evocação ao universo, me foi oferecido o poder alado – como ela dizia – e que o espaço me recebesse com o dom divino de comandar as asas.
“ Que ela tenha o poder sobre o que voa, sempre em favor do bem e do acolhimento. Que ela seja acolhida pelo que voa, entre o pouso e a dimensão do vento. Que sobre ela venha a atitude de emanar coragem. Rogo a todos os deuses, declaro, oro e ofereço à ela a escolha de querer ou não quando assim tiver o discernimento para escolher, se prefere a asa ou o chão. E assim será! Oxalá! ”
Ouvi essas palavras minha infância toda e com o tempo fui me acostumando a ser a menina borboleta, porque incrivelmente onde quer que estivesse, surgia uma. Entre voos mirabolantes e crisálidas perfeitas. Eu amava o movimento das asas. E um dia, quando pude escolher, já nem precisava mais.
O nome já era ativo entre meus irmãos. E fizesse sol, ou chovesse, havia qualquer coisa de asa onde eu passasse.
Primeiro as borboletas e suas espécies mil.
Depois, vieram os pássaros e suas variantes. Depois, o sonho de voar com as palavras.
Muitos achavam estranho. Outros, admiravam. E eu cresci, entre a magia de uma fada que me deu poder de voar e um lugar que tinha um portal para a imaginação.
De repente, elas vieram para minha mão. Entre a confiança da espera e o encanto que me proporcionava e assim, mesmo depois de anos, continuei a ser a menina borboleta, onde as palavras voam em direção ao universo.
Relembrando tudo isso com meu pai, ele diz, entre um saudosismo quase infantil, na doce instância dos seus 81 anos que meus pés são fictícios, que na verdade, tenho asas. E para quem voa, é permitido o infinito.

E você, se permite voar?

Mariana Gouveia.
*texto integrante da Revista Plural Rubem e Casa Cheia – Scenarium Livros Artesanais